Entre o simples e o complicado

“Para quê fazer as coisas simples, se elas podem ser complicadas?” É a pergunta que nós, que nascemos antes da era digital, nos colocamos diante de sistemas operacionais, programas, aplicativos, telefones, comandos eletrônicos e digitais que, ao invés de facilitar, complicam a vida de muitos usuários. Se tomarmos os programas para edição de texto, por exemplo, de cada cinquenta funcionalidades, um digitador normal talvez utilize duas ou três. E olha lá!… O mesmo nos smartphones. São raras as pessoas que utilizam sequer 10% de todas as possibilidades que eles oferecem. Por que, então, não oferecer telefones, programas, máquinas… com os recursos básicos e que todas as pessoas possam utilizar?

Pode haver várias razões para isto. Mas uma é indiscutível: porque a maioria de nós trabalha com a afirmação inconsciente de que o mais complicado é melhor. E não só no campo da tecnologia. Também na vida prática. Se uma pessoa vai ao médico e este, após uma consulta, não pedir nenhum exame e não oferecer uma longa lista de medicamentos a consumir, é provável que este médico seja considerado como não confiável. Mas se o médico pedir quatrocentos exames e disser que a pessoa tem dez doenças com nomes impronunciáveis e mandar tomar vinte remédios, caros e com bulas assustadoras, a pessoa muito provavelmente vai dizer: “esse médico é dos bons”!
No mundo das religiões, a necessidade que temos de complicar as coisas, é ainda maior. Quanto mais exigente ou bizarra nas suas demandas e ofertas for uma religião, mais provável é que atraia adeptos com rapidez e os mantenha convictamente ligados a essa experiência. Ainda mais se o chefe religioso usar nomes, roupas estranhas e tiver comportamentos bizarros.
O gosto pela complicação, de fato, parece fazer parte da própria condição humana. Mas não nos preocupemos: desde os tempos de Jesus era assim. Um rabino foi a Jesus e fez a pergunta religiosa clássica: “O que devo fazer para conquistar a vida eterna?” Jesus respondeu com aquilo que era o óbvio para todo judeu piedoso: “Observa os mandamentos”. E, para simplificar mais ainda as coisas, Jesus lhe diz: “E não precisa observar os dez. Basta observar os dois primeiros – amar a Deus e amar ao próximo – e tudo o mais se resolve!” Mas o doutor em leis, que era daqueles que acham que o complicado é melhor que o simples, logo atirou a pergunta: “Mas, quem é meu próximo?” De fato, os rabinos judeus tinham todo um sistema complicado para definir quem era “próximo” e devia ser amado e quem era “estrangeiro” e devia ser odiado. Jesus sabia disso e, para manter a sua afirmação na simplicidade da experiência da fé que pode ser alcançada por qualquer um, conta uma historinha simples: um homem foi assaltado e atirado meio-morto à beira do caminho. Vários passaram por ele sem fazer nada. Um samaritano passou, viu o homem caído e o ajudou. O samaritano é próximo daquele que estava caído à beira do caminho. Logo, o samaritano fez aquilo que é necessário para ter a vida plena e perfeita. Simples assim!
Se o caminho da salvação é esse, por que nossas religiões, inclusive o cristianismo, se apresentam de forma tão complicada? Tantas leis, tantas obrigações, tantos ritos, roupas, gestos, construções, negócios, funcionários, relicários, imposições, discussões sobre quem é Deus e qual é a melhor religião ou a Igreja que mais salva?
Suspeito que seja pela mesma razão que nos leva a desconfiar de máquinas, programas, softwares e telefones simples e fácil de usar: a satisfação com o complicado é um modo de disfarçar a nossa não disposição de fazer aquilo que é simples. Em outras palavras, complicamos para nos descomprometer. É preciso voltar ao simples, ao “arroz com feijão”, ao básico, àquilo que realmente nos torna humanos e nos conduz no caminho de Deus: amar ao próximo e amar o irmão. Tudo o mais pode até ser bom. Mas não é necessário. E pode atrapalhar o caminho da salvação.

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Si vis pacem, para bellum?

A frase é atribuída a Vegécio, um escritor romano que viveu no séc. V d.C. Dizia ele: Si vis pacem, para bellum. Para convencer o Imperador, de quem era amigo, a restaurar a grandeza do Exército Romano, escreveu um “Compêndio da Arte Militar” que, por sua simplicidade e praticidade, tornou-se referência da arte da guerra durante séculos no Ocidente. A fama da obra e a força da frase perduraram tanto que, no início do século XX, o Império Alemão, através da Fábrica Alemã de Armas e Munições (Deutsche Waffen und Munitionsfabriken) batizou uma de suas mais famosas criações, a Luger P08, de Parabellumpistole. Entre os anos de 1914 e 1918, mais de dois milhões de exemplares deste modelo foram produzidos e ele se tornou icônico de arma de defesa pessoal.

Curiosidades históricas a parte, voltemos ao importante da expressão popularizada por Vegécio. Ela afirma que a paz só pode ser alcançada pelo uso da força. Em outras palavras, só haverá paz quando as pessoas se sentirem suficientemente amedrontadas para não mais agirem violentamente. É uma lógica que tem forte apelo popular. Para muitas pessoas, a violência só poderá ser diminuída através do armamento generalizado dos cidadãos e de uma ação intimidatória por parte do Estado. Quanto mais armas nas mãos dos cidadãos e quanto mais violenta for a repressão por parte do Estado – polícia e Exército – contra os que praticam a violência, mais tranquila e pacificamente poderá viver a sociedade. Os inimigos da sociedade, sejam eles internos ou externos, só serão inibidos quando aterrorizados ou, no limite, aniquilados.

Foi esta lógica de forte apelo popular que levou à corrida armamentista que resultou na Primeira e na Segunda Guerra Mundial com seus milhões de mortos e incalculáveis perdas humanas e econômicas. Corrida que continuou através da Guerra Fria que quase resultou numa guerra nuclear que poderia ter acabado com a humanidade e boa parte da vida do Planeta Terra. A experiência cotidiana e os dados de todas as instituições que monitoram a violência a nível global indicam, sem sombra de dúvidas que, quanto mais armas em circulação, maior é a letalidade da violência.

Um olhar frio e sério sobe a realidade humana nos ensina que, diferentemente do que dizia o escritor romano e hoje apregoam os armamentistas, deveríamos afirmar: se queres a paz, prepara-te para ela! E o primeiro passo, é renunciar a toda lógica de violência. E o passo mais concreto, é livrar-se de todo e qualquer instrumento que possa fazer dano a outras pessoas.

Para o cristão, isso não é nada novo. É um compromisso que nasce da própria missão recebida de Jesus. Com efeito, quando enviou seus 72 discípulos, Jesus os advertiu claramente: “Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos.” Mas, avisa o Mestre, os discípulos não podem agir como os lobos, pois, agindo como lobos, deixariam de ser cordeiros, deixariam de ser símbolos da paz. Os discípulos devem andar desarmados e sem ostentar nenhum símbolo de poder. E o seu anúncio dever ser o da paz: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro:
A paz esteja nesta casa!” E o anúncio proclamado deve ser tão radicalmente pacífico que precisa ser apresentada sem nenhuma pretensão de imposição. Se os habitantes da casa acolherem esta paz, os discípulos nela podem permanecer. Mas se os habitantes não acolherem a mensagem de paz, o discípulo não deve discutir ou querer impor a paz, pois isto seria abandonar a lógica da paz e aderir à lógica da disputa e do conflito que resultará, inevitavelmente, em violência. Para Jesus, os fins não justificam os meios e não
se pode justificar uma ação má nem mesmo quando feita com boa intenção.

A tentação da lógica da violência como meio para alcançar a paz é tão grande que Jesus adverte os 72 discípulos: “…quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós.’” A lógica da violência é tão sutil e pegajosa que se aninha em nossos vestidos – físicos, mentais e espirituais – sem que nos demos conta dela e, às vezes, contra o discurso proclamado, acabamos por reproduzi-la em nossas relações diárias. É preciso livrar-se dela, sacudi-la de nossos corpos, mentes e corações. E isso só pode ser feito com a educação das novas gerações e a reeducação dos que fomos treinados para agir violentamente.

É preciso ensinar as pessoas que “não se pode trocar um aperto de mão com o punho fechado” e muito menos trocar um aperto de mão com armas na mão. Se queremos a paz, preparemo-nos para ela. E o primeiro passo é desarmar a mente, o coração e as mãos.

Pedro, Paulo e o martírio do cotidiano

A Basílica de Santa Maria del Popolo, em Roma, guarda duas das principais obras do pintor italiano Michelangelo Merisi, o Caravaggio: “O martírio de São Pedro” e “A conversão de São Paulo”.
Na primeira, o artista, seguindo a tradição, representa o martírio de São Pedro por crucificação. Segundo antigas tradições, Pedro foi condenado à morte no período da perseguição do Imperador Nero, por volta do ano 64 d.C., na cidade de Roma. O pescador galileu pediu a seus algozes para ser crucificado de cabeça para baixo. Desse modo, ele não se igualaria a seu Mestre, Jesus Cristo. Na tela, três soldados romanos, com os rostos obscurecidos, têm dificuldade em levantar o corpo do ancião que observa resignadamente a própria mão transpassada pelo cravo.
Na segunda tela, a conversão de Paulo é apresentada com detalhes que mesclam a narrativa bíblica com a tradição apócrifa. Estando Saulo a caminho de Damasco com ordens para capturar os membros da seita dos cristãos, foi tocado por uma luz que o fez cair por terra e o cegou. Diferentemente da narração bíblica, a tradição diz que Saulo “caiu do cavalo”. Na tela, Caravaggio retrata Saulo com as características de um soldado romano: armadura, espada e manto vermelho. Mas o cavalo não está aparelhado para a montaria e o combate. Paulo está no foco de luz. O cavalo, meio sombra, meio luz. E o servo de Paulo apenas emerge das trevas.
Vendo as duas telas, vem uma pergunta: por que não pintou Caravaggio, em paralelo ao martírio de Pedro, o martírio de Paulo? Segundo a tradição, Paulo também sofreu o martírio na perseguição de Nero. Ele teria sido decapitado em Roma. Segundo as normas romanas, os estrangeiros, como Pedro, podiam ser submetidos à pena mais degradante da crucificação. Já os cidadãos romanos – e, segundo a tradição, esse era o caso de Paulo – ao terem constatado o crime de traição à pátria, sofriam a decapitação, uma forma mais digna de morte segundo os padrões da época.
Sejam quais forem as motivações que levaram o pintor italiano a não apresentar, lado a lado, os dois martírios, os quadros nos lembram da forma da morte dos dois apóstolos símbolo dos primórdios cristãos. Tanto Pedro, o evangelizador dos judeus, como Paulo, o evangelizador dos gentios, sofreram a morte violenta por parte do poder dominante da época, o Império Romano.  A perseguição a ambos, no entanto, iniciara já na sua terra natal, na Palestina, e foi movida pelas mesmas autoridades do povo judeu que haviam crucificado Jesus. Os mesmos sacerdotes que entregaram Jesus a Herodes e a Pilatos, também fizeram de tudo para que Pedro e Paulo deixassem de anunciar a doutrina do amor e da misericórdia de Jesus. Como no caso de Jesus, fizeram isso não por serem maus. Antes pelo contrário. O Sumo Sacerdote Caifás e seu Sinédrio composto por 70 homens espertos nas leis religiosas judaicas, tanto na condenação de Jesus, como nas perseguições a Pedro e Paulo, apresentavam-se como convictos defensores de Deus e da religião.
É difícil, na distância do tempo e das culturas, fazer qualquer juízo sobre o caráter pessoal das autoridades religiosas judaicas. O fato é que, um olhar atento nos permite ver que, mais do que defender a seu povo e sua religião, o Sumo Sacerdote e o Sinédrio, além de defender seus interesses pessoais de donos da religião e do poder econômico, estavam fazendo o jogo do império estrangeiro na sua dinâmica de dominar o povo judeu.
E se a história tivesse sido diferente? Se Pedro e Paulo não tivessem sido perseguidos pelas autoridades de seu povo e tivessem tido um final de vida menos dramático? Mesmo parecendo a muitos iconoclasta, esta alternativa não é desconhecida da Bíblia. Pelo contrário, é apresentada positivamente pelo livro dos Atos dos Apóstolos. Segundo este livro, no capítulo 28, chegando prisioneiro em Roma, “Paulo morou dois anos numa casa alugada, vivendo às custas de seu próprio trabalho. Recebi a todos os que o procuravam, pregando o Reino de Deus. Com toda coragem e sem obstáculos, ele ensinava as coisas que se referiam ao Senhor Jesus Cristo”.
Um final menos heroico, mas não por isso menos desafiador. O apóstolo dos gentios, o grande Paulo, morando de aluguel e vivendo do trabalho de suas mãos, com a porta da casa sempre aberta para receber a todos os que o buscassem. Uma descrição muito distante do imaginário do poder que associamos aos apóstolos e seus sucessores. Um grande desafio para uma igreja que se quer em constante saída e juntos aos pobres da sociedade e da própria Igreja. Parafraseando o Papa Francisco, esta seria uma outra forma de martírio. Não o martírio da cruz ou o da decapitação, mas o martírio do cotidiano, de viver a fidelidade a Jesus Cristo não apenas em situações extraordinárias, mas no ordinário do dia-a-dia. Um martírio já vivido por pessoas que moram na porta ao lado, mas pouco notado por muitos que se dizem defensores de Deus e da religião. Um desafio para as autoridades religiosas de hoje. E um desafio para todos os que se dizem seguidores de Jesus de Nazaré, a exemplo de Pedro e de Paulo.

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O que estão dizendo de mim por aí?

Quem sou eu? A velha pergunta que está na origem da religião, da filosofia, da psicologia, da antropologia, da história e, podemos dizer, de todas as ciências humanas, continua sendo posta. Todo ser, desde o momento em que se constitui como humano, se pergunta pela própria identidade. E, junto com esta pergunta inicial, surgem as outras questões básicas às quais a humanidade tenta responder desde os seus primórdios e que continuarão a ser o aguilhão do pensar até o fim dos tempos: quem sou, de onde vim e para onde vou? Em outras palavras, qual o sentido da minha existência?
Em meio às múltiplas e sempre inconclusas tentativas de resposta à questão tão crucial, dois caminhos se delineiam. O primeiro, presente em tradições egípcias e na filosofia grega, tornou-se famoso através da expressão escrita na entrada do Templo de Delphos: “Conhece-te a ti mesmo”. No sentido original e também no uso que, segundo Platão, Sócrates dela faz, a frase era um chamado à humildade. Algo assim como “não te aches mais do que aquilo que tu és”. Mas a frase tinha outro significado: não te preocupes com a opinião dos outros. Olha para dentro de ti mesmo e, no teu eu, encontrarás a tua verdadeira identidade.
É com este sentido que a afirmação foi retomada no início da modernidade. René Descartes, o pai da Filosofia Moderna Ocidental, através do aforismo “cogito, ergo sum” (penso, logo existo), estabeleceu que a única certeza que temos é a que nasce do nosso próprio pensamento. E que todas as outras coisas existem na medida em que podem ser pensadas pela minha subjetividade. Inclusive Deus. Sua existência só é real porque passível de ser pensada pelo humano.
A segunda tradição que tenta dar uma resposta à questão da identidade dos humanos, nasce da tradição judaico-cristã. Na tradição bíblica comum às duas tradições, o ser humano é aquilo que é na medida em que é dito por Deus. No relato da criação, é a voz de Deus que cria o ser humano e lhe dá nome constituindo-lhe uma identidade. E essa constituição da identidade continua no relacionamento que os humanos estabelecem com as outras criaturas e com as pessoas com quem são chamados a conviver. Diferentemente do pensamento cartesiano, a verdade não nasce de dentro de si mesmo, mas emerge da palavra do outro. É Deus, outro humano ou as outras criaturas que dizem a verdade sobre mim.
Esse modo de pensar era tão comum na cultura judaica que, segundo o Evangelho de Lucas, Jesus não tem nenhum receio em perguntar aos discípulos: “Quem diz o povo que eu sou?” Diante das evasivas respostas relatadas pelos discípulos – “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou” – Jesus quer saber quem ele é para os discípulos e pergunta: “E vocês, quem dizem que eu sou?” A resposta dada pelos discípulos é por nós conhecida: “Tu és o Ungido de Deus”.

A partir da resposta, Jesus tem sua identidade estabelecida. Mas a história não termina aí. Jesus explicita aos discípulos o que significa ser “ungido de Deus” em meio a um mundo de dor e opressão: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia.” E se essa é a identidade do Mestre, os discípulos têm, a partir dela, a sua identidade também definida. “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará.”
Voltando à nossa questão da identidade, percebemos que, ao dizer a identidade dos outros, também estamos dizendo e construindo a nossa. Ou seja, nossa identidade é sempre relacional. Em outra palavra, eu sou eu e minhas relações. Se quero saber quem sou, preciso olhar para quem são as pessoas com as quais me relaciono e a qualidade das relações que com elas estabeleço.
Quando levada a sério, esta constatação nos recoloca, como no sentido original da expressão grega “conhece-te a ti mesmo”, numa postura de humildade. Nós não somos nada sem os outros! E, desde a experiência religiosa cristã, nós não somos nada sem o grande outro que é Deus. Por isso Paulo diante do orgulho dos judeus e gregos que, cada um a seu modo, se achavam o máximo de cultura e civilização, ele diz: para os que são batizados, “o que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só, em Jesus Cristo.” Diante de Deus, todos, na diversidade cultural, social ou de gênero, têm a mesma dignidade, pois todos encontramos a nossa identidade em Deus que nos criou e nos aceita tal qual somos.

Nós só nos conhecemos na medida em que somos conhecidos e nos deixamos re-conhecer pelos outros na constante dança dos encontros e relações.
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O Abraço Múltiplo de Deus

Deus é amor. Uma simples frase de três palavras. Simples assim. Tudo está dito. É o coração da teologia do evangelista João. Ele a repete incessantemente: Deus é amor. E diz mais: quem ama mora em Deus. Linda e aconchegante expressão: morar em Deus. Quem não o deseja? Todos sonham em um dia entrar e permanecer na casa de Deus. Quem sabe, agora mesmo. Pois o tempo que há de vir só tem sentido se já o saboreamos antecipadamente no agora. Ninguém deseja aquilo do qual sequer sentiu um pré-gosto. Só desejamos plenamente o que conhecemos antecipadamente. O aperitivo desperta a vontade de comer mais. Amar agora, é a condição para poder viver o amor plenamente em Deus.

Mas o que é o amor? Para o cristão, o amor é Jesus Cristo. É ele quem nos mostra antecipadamente o que viveremos plenamente em Deus. “Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos”, disse Jesus. E pelos inimigos também. Ele não morreu na cruz apenas por aqueles que com Ele fizeram o caminho da Galileia até Jerusalém. Morreu por todos. Inclusive por aqueles que o mataram na cruz. A todos perdoou. A todos amou.

Amor e perdão são duas coisas que caminham sempre juntas. Como disse Jesus falando a respeito da mulher que lhe ungiu os pés com lágrimas, “os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pois ela amou muito. E quem experimentou a alegria do perdão, é capaz de amar mais e mais. Não há amor sem perdão. E o perdão é a fonte de todo amor, porque Deus nos amou primeiro.

Amar é perdoar. Amar é dar. E, mais do que dar, amar é dar-se. É entregar-se totalmente ao outro. Quem quer o outro para si, não ama. Querer o outro para si não é amar, mas é possuir, é tomar o outro para que ele sirva aos meus interesses. Quando quero o outro para mim, não estou amando, mas dominando. E, dominar, é fazer-se senhor do outro. É fazer do outro um objeto de minhas posses. É coisificar o outro.

O amor só é possível quando há a capacidade de esvaziar-se, de anular-se a si mesmo para que o outro tome conta de mim. Foi o primeiro movimento de Deus para que o mundo passasse a existir. Deus, que é tudo, encolheu-se para que o mundo e a humanidade passassem a existir. Deus, ao criar do nada, pôs um limite ao seu todo. Agora ele tem outro a quem amar e por quem se entregar.
E essa entrega ele a realizou enviando seu Filho ao mundo na condição humana. Para tal, como diz Paulo na Carta aos Filipenses, Ele esvaziou-se da condição divina e assumiu a condição humana. E não qualquer condição humana. Deus assumiu a condição dos últimos dos humanos, a condição dos escravizados. Na identificação com os escravizados de ontem e com os escravizados de hoje, Deus mostrou o seu amor pela humanidade. Fazendo-se um de nós, mostrou-se como Filho de Deus e mostrou o caminho para Deus. É na identificação compassiva com os escravizados de hoje que encontramos o amor real de Deus.

A entrega de Deus à humanidade foi tão amorosa, tão livre, que o Filho não quis adonar-se da ação salvadora. Ele se retirou. Voltou para junto de Deus. E nesse vazio criado pelo Filho, Deus enviou seu Espírito para que a humanidade continuasse a caminhar com suas próprias pernas. O amor não domina. O amor liberta e permite que a pessoa continue, livremente, a ser ela mesma.

Quando alguém diz que ama, mas não permite que o outro seja ele mesmo, não está amando. Está dominando. Está estabelecendo uma relação de senhor e escravo, e não uma relação de amante e amado.

Na criação do Pai, na salvação do Filho e na santificação do Espírito, experimentamos, de formas variadas, os múltiplos apelos do abraço de Deus que nos ama. Um abraço que não prende. Pelo contrário, é um abraço de entrega. Deus se coloca em nossos braços e nos faz seus no seu amor acolhedor. Um abraço no qual Deus, longe de nos segurar presos a Si, nos impulsiona, nos dá força, nos impele para que sigamos nosso caminho e sejamos cada vez mais nós mesmos.

Um abraço que exige entrega. Que nos compromete a abraçar também. Um abraços que nos faz abrir os braços e deixar que os abraços dos escravizados de hoje nos tomem a nossa identidade e nos façam um com eles assim como Deus se fez e se faz um com nós. Um abraço que nos pede a coragem de retirar-nos do centro para que seja criado espaço para que o outro irrompa com sua própria 
identidade. Um abraço que nos transforme no que o outro é para que ele recupere a sua dignidade. Um abraço que não prenda o outro a nós, mas lhe dá força para que trilhe seus caminhos e sonhos.
Assim agindo, experimentaremos já no agora um pouco do futuro e pleno amor de Deus. Amor que se dá de formas múltiplas, variadas, nos muitos abraços de Deus e nos muitos abraços que damos e acolhemos no dia a dia.

Abraçando e amando, poderemos compreender um pouco do que significa afirmar que Deus é Trindade. Pois a Trindade de Deus não é um mistério lógico e nem ontológico. É um mistério de amor. Um mistério que só pode ser desvendado se nos permitirmos acolher os múltiplos abraços de Deus e nos permitirmos abraçar e deixarmo-nos cingir pelos braços que em nossa direção se estendem a cada dia.

A DINAMITE DO ESPÍRITO

Não se assustem! Não tem nada a ver com explosão, com destruição, com morte. E tampouco com bombas e terrorismo… É apenas uma questão de etimologia, de origem das palavras. Nossa “dinamite” da Língua Portuguesa tem sua origem no grego dynamis. Na língua de Heródoto, dynamissignifica força, energia, poder. A língua de Camões é abundante em palavras que dela derivam. Entre elas, temos dínamo, dinamizar, dinâmico, dinamismo, dinamômetro…

Na Bíblia, especificamente no Novo Testamento, essa palavra tem um uso muito preciso. Mesmo presente em outros escritos com o mesmo sentido, é na literatura lucana que ela mais aparece. No Evangelho de Lucas e nos Atos dos Apóstolos, dynamis indica a força de Deus que age em Jesus e pela qual ele cura as pessoas que dele se aproximam. Também indica a força com a qual ele anuncia a Boa Nova do Reino sem temer aos poderosos deste mundo. Dynamis que Jesus transmite aos seus discípulos e discípulas e que nelas atua para dar continuidade à sua missão. No caminho da comunidade de Jesus, essa dynamis ganhou um nome próprio: é o Espírito que, com o Pai e o Filho, formam a Trindade Divina.

Presente em cada criatura, a dynamis tem diversos modos de manifestar-se e atuar. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, muitas são as figuras utilizadas para dela falar: fogo, nuvem, vento, trovão, tempestade, terremoto, brisa suave, água, pomba… Em todas elas, algo em comum: é um agir incontrolável, que não pode ser gerado, nem detido e muito menos direcionado pelos humanos. A dynamisde Deus age onde quer, quando quer e como quer.

Mas há um lugar especial para a sua manifestação. Um lugar muito comum, que muitas vezes nos passa despercebido. É a palavra humana. É pela dynamis divina que os profetas do Antigo Testamento sentiam-se impelidos a falar. E, às vezes, a dizer o que não queriam e não gostariam de dizer. Maria, Isabel, Zacarias, João Batista e o próprio Jesus falam pela dynamis do Espírito. Do mesmo modo os discípulos e discípulas de Jesus o fazem. Naquele tempo e ainda hoje.

É deles que o Papa Francisco, na audiência de 30 de maio próximo passado, diz que “quando o Espírito visita a palavra humana, esta torna-se dinâmica como ‘dinamite’”. A figura é forte, e por isso chamou a atenção. O detalhe é que muita gente esqueceu a continuidade da frase do Papa. Por que ela é importante? Porque nos fala das consequências desta explosão do Espírito na palavra humana. Diz o Sumo Pontífice: a explosão do Espírito na Palavra humana “é capaz de inflamar os corações e fazer saltar esquemas, resistências, muros de divisão, abrindo caminhos novos e alargando as fronteiras do Povo de Deus.”

E é isso o mais importante: a dynamisde Deus é força de novidade, de ruptura e superação de velhos esquemas e de criação do novo. Em tempos em que parte da humanidade e dos cristãos teima em aferrar-se e fechar-se dentro de muros encarquilhados e grades enferrujadas – sejam eles materiais, mentais ou espirituais – que lhes dão uma falsa sensação de proteção e segurança, o Espírito de Deus irrompe com sua força incapaz de ser contida e convida para a novidade da construção de um mundo aberto, sem muros, sem grades, sem armas, sem condenações e sem exclusões. Um mundo em que todas as pessoas possam encontrar-se, vindas do norte, do sul, do leste e do oeste e possam conviver na pluridiversidade em que cada um entende o outro a partir de sua língua, de sua cultura, de sua religião. É o sonho desenhado por Lucas nos Atos dos Apóstolos quando narra a irrupção do Espírito sobre a multidão multinacional, pluricultural e ecumênica reunida em Jerusalém.

Que a Festa de Pentecostes nos dinamize nesta busca de deixarmo-nos habitar pela força de Deus que nos impele para o novo.


A metáfora da Ascensão

A metáfora é uma das figuras de linguagem mais utilizadas e mais poderosas. Através dela, transpomos o significado de algo já conhecido para algo ainda desconhecido e em processo de conhecimento. No falar ou escrever do dia-a-dia, utilizamos muitas metáforas. Na maior parte dos casos, fazêmo-lo sem nos darmos conta.
Tal fenômeno é notável, sobretudo, na linguagem religiosa. Com efeito, falar de Deus implica em tentar dizer aquilo que ultrapassa a capacidade da expressão. Deus é indizível e incircunscritível. Como fazer com que caiba dentro de nossas palavras? Dele, só podemos dizer algo usando metáforas tiradas daquilo que nos é conhecido.
A nossa profissão de fé, o “Creio”, é cheio de metáforas. Uma delas é forte e famosa e está no imaginário de todas as pessoas cristãs. A de que “Jesus subiu as céus”. É uma metáfora que parece pois, na nossa fé, afirmamos que Deus é Espírito e habita em todos os lugares. Se é assim, como o afirmava o velho catecismo de São Belarmino, faz algum sentido tomar esta expressão de forma literal e imaginar Jesus subindo aos céus em meio às nuvens? O que esta metáfora, de fato, quer dizer?
Tomando como referência o imaginário bíblico e a cultura do mundo em que os textos foram que falam da Ascensão foram escritos, podemos afirmar que “subir aos céus” significa, conceitualmente, que Jesus é Deus. Tanto no mundo judaico como no mundo grego, imaginava-se os deuses morando nos lugares altos. As manifestações bíblicas de Deus aconteciam, normalmente, em lugares altos. O Monte Sion, o lugar onde estava construído o Templo de Jerusalém, mesmo não sendo a maior elevação da região, era tido pelos judeus como o lugar mais elevado da Terra. Para os gregos, os deuses moravam no monte Olimpo e, lá das alturas, contemplavam e, conforme o caso, premiavam ou castigavam os míseros mortais que habitavam as planícies.
A verdade de que Jesus, o Filho de Deus, é Deus com o Pai e o Espírito Santo, descrita na metáfora da Ascensão, foi elaborada conceitualmente e proclamada pela Igreja nos Concílios de Niceia e Calcedônia que abandonou a metáfora da Ascensão e afirmar a consubstancialidade entre o Pai e o Filho. Poucos cristãos sabem o que significa “consubstancial”. Mas todos, sem esforço, entendem a metáfora da Ascensão…
Por sua plasticidade, a metáfora é uma figura aberta. Ela é passível de novas interpretações a partir de novas pergunta se novos contextos. Nisso está sua riqueza e amplitude. No caso da metáfora da Ascensão, ela também pode ser lida a partir da linguagem do teatro. Tal interpretação é possível a partir da dica dada pelo texto dos Atos dos Apóstolos. Lucas, ao descrever a cena da Ascensão, afirma que, enquanto Jesus desaparecia entre as nuvens, dois homens vestidos de branco apareceram aos discípulos e disseram-lhes: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?”
Na metáfora da Ascensão, Jesus sai de cena. Durante três anos, ele havia sido o personagem central e os apóstolos os coadjuvantes e, alguns, a plateia. Agora Ele sai do palco. Jesus se retira para que eles assumam o protagonismo da missão. Aos discípulos e discípulas cabe agora serem os mensageiros e atuadores do Reino. Ele já fez a sua parte. Agora, a responsabilidade recai sobre os homens e mulheres que o acompanharam desde a Galileia e com Ele aprenderam a arte de atuar o Reino de Deus.
Mas, como bom mestre, Jesus não os deixa sozinhos. Deixa-lhes o Espírito Santo. E promete-lhes sempre estar presente para dirigir a sua obra prima para que o espetáculo do Reino não se perca. Agora, é o tempo da Igreja. Nada de ficar olhando para cima. Deus não está acima de todos. Ele está ao nosso lado. Tanto no irmão e na irmã com o qual solidariamente unimos as mãos quanto naquele que está caído e estende a mão para ser levantado. É hora de atuar. É hora de seguir o caminho de Jesus para que um dia nós também possamos ser elevados aos céus.

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Pax Romana ou Paz Cristã?

Todos aspiramos a um mundo de unidade e paz. Só pessoas psicopatas, doentes ou mal-intencionadas gostam de armas, de tensões, conflitos ou guerras. O sonho de quem experimenta em si e quer estender aos outros o calor de humanidade e solidariedade, é de que um dia possamos viver em sociedades onde não haja mais divisões, tenham elas suas raízes em diferenças econômicas, políticas, culturais, étnicas, religiosas, de gênero ou de qualquer espécie. E que, da superação das divisões, nasça a paz tão anelada que nos permita aproximamo-nos de cada pessoa, por mais próxima ou mais diferente de nós, sem receio de ser rejeitado ou agredido e sem provocar nela temor algum.
A fé cristã expressa esse sonho de unidade nas palavras dirigidas por Jesus a seus discípulos no encontro de despedida que com eles fez antes da paixão em Jerusalém. Na conversa com os discípulos, Jesus anuncia que parte para o Pai, mas não os deixará sós. De junto do Pai, Ele enviará seu Espírito para continuar a animá-los na caminhada. E diz aos discípulos que deixará a paz como sinal de sua presença: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou, mas não a dou como o mundo.”
Ao ouvir essa afirmação, logo surge uma pergunta: por que Jesus acrescenta, depois de ter anunciado a paz, que a sua paz não é a mesma que o mundo dá? Haverá duas formas de paz? A paz de Jesus e a paz do mundo?

Ciente da realidade do mundo que o envolve, Jesus sabe, sim, que há dois tipos de paz. A “paz do mundo” é a “pax romana” vivida em seu tempo. A paz imposta pela força das armas. A paz que não permite a diferença. A paz que exige uniformização e submissão. É a paz dos impérios que se constroem pela destruição do diferente. A paz que se nutre da eliminação de pessoas, comunidades, nações e culturas. É a paz dos cemitérios, dos presídios, das casas de tortura, das valas comuns, dos campos de concentração e extermínio. É a paz que nasce da morte, se nutre da morte e que gera morte.
Essa paz Jesus não quer. Essa paz o cristão não pode aceitar. A verdadeira paz é aquela que nasce da justiça, da acolhida do outro, da aceitação do diferente e do voltar-se para aqueles e aquelas que precisam da mão estendida para levantar-se do chão onde foram jogadas pela força da opressão.
A verdadeira paz é exigente. É mais do que um pacifismo que ignora as dores e os sofrimentos dos fracos, dos humilhados e da criação. E ela e difícil inclusive para os cristãos. Nas primeiras comunidades cristãs, assim que surgiram as primeiras tensões por causa das diversidades nelas existentes, a tentação foi a de impor a uniformidade. Os cristãos provindos do judaísmo passaram a exigir que os cristãos oriundos de outras culturas adotassem as tradições e costumes judaicos. Que não comessem carne de animais considerados impuros e se circuncidassem assim como os judeus os faziam.

Por sorte, Paulo e Barnabé, com a força do Espírito Santo, fizeram ressoar de novo no coração da comunidade o ensinamento de Jesus que não exigia a uniformidade mas respeitava cada um no seu modo de ser. Depois da assembleia conciliar em que cada um pode expor seu modo de pensar, a comunidade decidiu não impor nenhum fardo além do indispensável. No relato dos Atos dos Apóstolos, o indispensável é não deixar-se contaminar pela ideologia dominante transmitida por uma religião que, ao invés de pregar a misericórdia, exigia sacrifícios e legitima a dominação. Na Carta aos Gálatas, Paulo, de sua própria palavra, diz que a única condição necessária para que se construa uma comunidade unida e em paz, é “que os pobres nunca sejam esquecidos” (Gal 2,10).

Na soma dos dois textos, o caminho para a construção da unidade e da paz: o diálogo transparente que supera as ideologias de dominação e a justiça para com os mais pobres. Na medida em que estas duas práticas começam a ganhar espaço na Igreja e na sociedade, abrem-se as portas para a Nova Jerusalém.

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Sobre dores e amores ou dialogando com Buda, Jesus, Maomé e Kardec

Ninguém gosta da dor. Seja ela física ou espiritual. Mas é muito difícil, para não dizer impossível, viver sem sofrer, seja no corpo ou na alma. A dor é uma realidade que não podemos negar. Mais cedo ou mais tarde, em algum momento da vida, todos passamos por experiências que ferem o nosso ser. Por que somos obrigados a viver com essa realidade que parece confrontar a nossa condição humana?

Muitas religiões e filosofias surgiram a partir da tentativa – exitosa ou frustrada – para encontrar uma resposta que dê sentido à dor. E a arte muitas vezes se torna a expressão pública e popular das respostas à dolorosa questão. É o caso, por exemplo, de Renato Russo e sua Legião Urbana na música “Quando o sol bater na janela do teu quarto”. Quase no final, depois de considerar várias realidades humanas, ele afirma: “Toda dor vem do desejo de não sentir dor”.  Popularizada pelo cantar brasiliense, a afirmação faz parte de uma das “quatro nobres verdades” de Buda.

Mas, como todas as verdades profundas expressas numa determinada expressão religiosa, ela também é encontrável em outras religiões. No cristianismo, o desejo de não sentir dor como fonte de toda dor e sofrimento, é expressa no convite que Jesus faz aos discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, some sobre si a sua cruz, e siga-me, porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.” Ou então, na afirmação de Paulo e Barnabé quando voltaram para as cidades de Listra, Icônio e Antioquia e, para encorajar os discípulos, os exortavam a permanecer firmes na fé dizendo-lhes: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”

Mas como fazer para que esta dor não nos destrua, mas sirva de ocasião para iniciar o caminho para chegar à plena realização humana? Um caminho é o do desapego de tudo o que nos prende a esse mundo. Seja das coisas materiais como de nossas vontades pessoais ou dos privilégios sociais. Quando não mais estiver apegada ao nada, aí a pessoa encontrará o todo de seu ser. Maomé dizia que a primeira Jihad é a luta que acontece no interior do fiel para vencer-se a si mesmo em seus desejos egoístas. Só depois terá condições para levar a mensagem de Alláh aos outros. E quem sabe o quanto é difícil vencer-se a si mesmo, será capaz de respeitar os passos do outro no caminho da vitória.

Para Jesus, o caminho para vencer a dor que nasce da condição humana, pessoal ou social, é o amor enquanto capacidade de esquecer-se de si mesmo e entregar-se totalmente ao outro como ele se entregou na cruz. Para o nazareno, amar não é encontrar satisfação para as próprias dores no cuidado que o outro possa proporcionar-me. Amar é voltar-se totalmente sobre as dores dos outros e buscar saná-las dando-se a si mesmo. Mas há um detalhe que precisa ser considerado a partir da única lei que Jesus deixou aos seus discípulos: amai-vos uns aos outros!

Com efeito, o amor é sempre uma experiência recíproca. É um caminho de via dupla. A entrega de um implica intrinsecamente a capacidade de deixar-se amar pelo outro. É um vai e vem em que, ao mesmo tempo em que a pessoa entrega, ela é capaz de acolher o outro que o busca. Amar é ter a capacidade de deixar-se afetar pelo outro, de sofrer em si mesmo os sofrimentos dos outros. E como as dores são mutuamente carregadas, todos, ao mesmo tempo em que carregam os pesos dos outros, tem os seus pesos carregados pelos outros e assim todos ficam aligeirados.

Não consigo imaginar a perfeição e plenitude dessa relação como o paraíso de Alláh em que cada fiel é premiado com setenta e duas huris absolutamente submissas. Onde há submissão, não há amor. Há dominação. Tampouco o posso identificar com o Nirvana e sua imperturbável serenidade da mente após o desejo, a aversão e o engano terem sido finalmente extintos. Amar é deixar-se perturbar pela dor e sofrimento do outro e mover-se para saná-los.

Sem desprezar as compreensões citadas pois elas trazem, sim, uma verdade importante, prefiro a imagem da Nova Jerusalém do Livro do Apocalipse de João. Não é uma cidade fora do mundo, um “Nosso Lar” do imaginário espírita brasileiro. A Nova Jerusalém é cada cidade onde habitamos transformada pelo amor de tal modo que o próprio Deus pode morar nela, pois vive-se, nas relações entre as pessoas, a entrega recíproca e a sanação que o amor produz em todos os que sofrem. Para localizar a Nova Jerusalém, não é preciso perguntar onde ir para encontrar o amor de Deus, mas perguntar se amamos de tal modo que Deus pode morar no meio de nós.

O desafio da unidade

O desafio da construção da unidade da humanidade e, nela, das religiões e das igrejas, é um dos grandes desafios de hoje. Para o cristão, esse desafio não é apenas uma questão política ou social. É uma questão de fé. Nós cremos num só Deus. Mas esse Deus, é em si mesmo plural. Por isso, os cristãos cremos que a unidade só pode ser construída no respeito à diversidade. A divisão só interessa àqueles que, do alto de sua posição social, lucram com a divisão dos fracos.

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