AS CHAVES SINODAIS DE PEDRO

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A razão de São Pedro carregar as chaves é simples. Está lá no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, quando Jesus diz que, sobre a pedra de Pedro edificará a Igreja e a ele dará as chaves do Reino com o poder de ligar e de desligar tanto na terra como nos céus.

A frase pronunciada por Jesus não era original. Era uma velha conhecida de todos os judeus piedosos. Ela fazia parte da tradição e era usada em toda disputa política. Quem a pronunciou pela primeira vez foi o profeta Isaías, lá no Antigo Testamento, no tempo do rei Ezequias. Era um tempo difícil. Judá estava sendo atacado pelo rei da Assíria e, Jerusalém, cercada, soçobrava. Sobna, o ajudante mais próximo do rei, ao invés de se preocupar com a fome e as doenças que matavam os pobres, gastava seu tempo e os recursos públicos na construção de um mausoléu onde queria ser enterrado com a glória dos faraós do Egito.

Chamado para intervir, o profeta Isaías manda que Sobna seja retirado do cargo e a chave da casa de Davi seja entregue a Helcias, filho de Eliacim. Na prática, o profeta destituía o arrogante Sobna e colocava em seu lugar um humilde servidor público. Para simbolizar a troca de mando, a túnica, o cinto e as chaves – três símbolos do poder – passam de Sobna a Helcias. Mas o símbolo que ficou na memória popular, foi o das chaves. Afinal, desde que surgiram, em torno ao 4.000 a.C., no Egito ou na China, as chaves sempre simbolizaram poder. Desde o mordomo do rei até o carcereiro, quanto maior o molho das chaves, maior o poder que aparenta.

Mas, voltando ao episódio de Mateus, de quem Jesus estava tirando as chaves para entregá-las a Pedro? O texto não explicita. Podemos encontrar uma dica no capítulo 23, quando ele fala dos fariseus que bloqueiam a entradas das pessoas no Reino dos céus: eles não entram e nem deixam ninguém entrar! Se essa conexão for procedente, a entrega das chaves a Pedro não teria como objetivo fechar as portas como faziam os fariseus, mas abri-las para que todos pudessem entrar.

A história se complica mais ainda quando, avançando um pouco na leitura de Mateus, no capítulo 18, encontramos que Jesus não entrega esse poder apenas a Pedro, mas a todos os discípulos. A mesma concessão coletiva aparece no Evangelho de João (capítulo 20) e também é adotada pelo apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios.

Como vemos, a história das chaves de São Pedro não é tão simples. E a interpretação deste episódio, na história da Igreja, foi motivo de muita discussão. As chaves significam poder. Entregá-lo a uma só pessoa, é uma coisa. Compartilhá-lo entre todos, é outra muito diferente.

No primeiro milênio da Igreja, a interpretação comum era a de que o poder das chaves deveria ser exercido de modo coletivo. Todos os bispos teriam o poder concedido por Jesus de ligar e desligar. As disputas de poder, no entanto, fizeram com que, no final do séc. XII, Inocêncio III, o bispo de Roma mais poderoso de toda a Idade Média, reclamasse para si a exclusividade das chaves petrinas. E com a força das armas e do saber, impôs esse modo de pensar aos outros bispos e aos príncipes e reis. As Igrejas orientais jamais aceitaram essa imposição e se afastaram ainda mais de Roma. Os príncipes e reis, não tendo alternativa, submeteram-se até aparecer a ocasião para se rebelar.

Alguém pode estar se perguntando o porquê de estar cavoucando estas histórias. Primeiro, claro, por causa das chaves de São Pedro, o último dos santos juninos. Segundamente, por causa da crise de poder que vivemos tanto na sociedade como nas Igrejas. E nisso, toda essa discussão pode nos ajudar. Assim como as chaves, o poder é simbólico. Dependendo do modo como o imaginamos, ele recai sobre nós. Se nós o pensamos monocraticamente, encontraremos um tirano para exercê-lo de forma autoritária. Se o pensamos coletiva e circularmente, de forma sinodal, teremos a possibilidade de construir uma democracia e caminhar para a fraternidade e a amizade social. Nesta última festa junina, ao ver São Pedro com as chaves na mão, fiquemos atentos! Será que elas não estão também nas mãos dos outros discípulos? Não custa imaginar…

A FOGUEIRA DE SÃO JOÃO

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Era mais um entre tantos. Aqueles homens estranhos que deixavam tudo para ir morar na beira do Rio Jordão. Uns vinham de Jerusalém. Ou do interior da Judeia. Outros eram da Galileia. Até da Samaria os havia. E nascidos no estrangeiro também apareciam. Judeus que um dia partiram em busca de dias melhores e que agora voltavam às origens para um recomeço. Um recomeço radical. Refazer o caminho da escravidão do Egito para entrar em uma Nova Terra Prometida. Não mais geográfica. Não mais cruzar o Mar Vermelho nem caminhar 40 anos no deserto. Agora quarenta dias eram suficientes. E o deserto estava aí do lado. Só cruzar o Jordão, descalçar os sapatos, agarrar o bordão, alimentar-se do que brota do chão – mel e insetos – e colocar-se totalmente nas mãos de Deus para uma vida nova para que fosse feita para sempre Sua vontade.

Não era uma multidão. Mas havia muitos. Uns mais jovens. Outros de idade mais avançada. Gente que havia sido rica. Outros que sempre foram pobres. Homens todos. Alguns que haviam sido casados e sua família haviam abandonado. Outros que nunca casaram porque acreditavam que a promessa feita a Abraão iria se realizar em breve e não havia necessidade de colocar a esperança na descendência. O Reino de Deus aconteceria aqui, agora, de imediato, para todos os que estavam vivos e para redimir os antepassados realizando o futuro no presente.

Entre todos, a chamar a atenção, aí estava João. Uma figura única, particular pela sua origem e modo singular. Filho de sacerdote. De quinta categoria, sim. Mas da tribo de Levi. Sua tradição não era a da profecia. Seu pai, Zacarias, uma vez por ano, no templo sacrifícios oferecia. E depois voltava para sua vila na montanha pois sua casa era marcada pela vergonha. Isabel, sua esposa, fora assinalada pela maldição. Filhos dela não nasciam. Sem descendência, o nome de Zacarias desapareceria. Até aquele dia em que o Anjo apareceu e um filho a Isabel prometeu. E a promessa aconteceu sob o olhar de uma prima distante que acorreu para ajudá-la em toda necessidade. Veio de longe porque quem perto morava naquilo não acreditava e até achava que era obra não de Deus como as duas diziam, mas de espíritos malignos que às duas acometiam.

Em meio à desconfiança dos parentes e vizinhos, João nasceu, cresceu, ficou adulto e para o Jordão desceu sem que ninguém se importasse. Era mais um entre tantos. Mais um com uma história estranha a dizer coisas estranhas que a alguns incomodavam e a outros apaixonavam. Os bem assentados dele se afastavam e claramente o condenavam. Os esfomeados, maltratados, perseguidos, doentes, esquecidos, todo o dia o buscavam. E ele os esperançava mostrando que no Reino de Deus todos podiam entrar. E muitos o seguiam, entre eles um seu parente da Galileia, filho da Maria que fora até a Judeia para vê-lo nascer. A Ele João indicou como aquele que o iria suceder. Não era uma função de honra. Profetas nunca tem um final feliz. É o que a Bíblia diz. Não por castigo de Deus. Mas por incompreensão dos seus. Ainda mais naquela terra onde predominava o dinheiro, o poder, a guerra. João foi preso, condenado e sua cabeça cortada para ser exibida em um burlesco banquete real.

“Nenhum profeta é bem recebido em sua terra”, disse Jesus ao falar de João e a seu futuro prever. A fogueira das vaidades não aceita a palavra de quem diz a verdade. Fogueira que queima mais que as de São João. Ela arde por dentro e consome seu invólucro próximo e, se não for apagado com o extintor da humildade, invade e transforma em cinzas tudo o que está ao redor. Para apagá-la, não há outro remédio que o da cruz de Jesus que reluz mesmo em meio à maior escuridão. Não a apaguemos. Deixemo-la reluzir e o nosso caminho conduzir.

Santo Antônio, Rogai por nós!

Santo Antônio, aquele que abre o ciclo de festas juninas, é um santo cercado de ambiguidades. Primeiro, pelo nome. Uns o conhecem como Santo Antônio de Lisboa, por ter nascido naquela cidade lusitana. Outros, como Santo Antônio de Pádua, pois foi nesta cidade italiana que foi enterrado.

Mas esse não é o único lado duplo do popular santo. Ele carrega dois nomes. Fernando de nascimento. Antônio por opção e devoção ao monge Santo Antão. Mesmo que algumas tradições queiram lhe dar origem nobre, era de família plebeia. Rica, provavelmente, a ponto de poder sustentar seus estudos no Convento dos Cônegos Regulares da Santa Cruz que seguiam a regra de Santo Agostinho. Por opção largou as riquezas da família e seguiu a vida religiosa. Fascinado com os estudos possibilitados pela vida monástica, decidiu ser monge e fez seu noviciado. Não contente com o ambiente tumultuado de Lisboa, mudou-se para Coimbra onde dividiu seu tempo entre os estudos profanos e sagrados.

A vida silenciosa e de estudos no claustro foi interrompida quando Fernando, agora já Antônio, conheceu os frades franciscanos que se dirigiam ao Marrocos em busca do martírio. Juntou-se a eles. Cruzou o Mediterrâneo e aportou nas areias magrebinas, mas não alcançou seu objetivo. Seu desejo não foi satisfeito pelos árabes que o enviaram para a Sicília. De lá, junto com outros frades, no ano de 1221, foi a Assis para participar do Capítulo Geral que aprovaria a nova regra dos frades que Francisco não queria. Não se sabe qual postura o luso Antônio teve na querela entre observantes e intelectuais da nova Ordem. Talvez sua ambiguidade o tenha mantido em um meio termo.

O que se sabe, sim, é que Francisco, impressionado com Antônio que tinha a capacidade de unir profunda humildade com amplo e profundo conhecimento teológico, permitiu, coisa que até aquele momento não o fizera para ninguém, que ensinasse Teologia e tivesse livros. Fato que, segundo historiadores medievalistas renomados, não é tão comprovável como se diz ser. Tal permissão, tenha sido real ou não, não fez de Antônio um professor de Teologia tradicional. Em meio às ambiguidades características de seu percurso, dividia seu tempo entre a vida contemplativa, a pregação, o ensino de Teologia e os assuntos internos da ordem.

Antônio não era homem de uma causa só! Era um homem multifuncional, capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e todas com extrema qualidade. Talvez por isso as imagens que hoje temos de Santo Antônio tem certo caráter de indefinição. Assim como é difícil estabelecer qual é a graça específica da qual ele é mediador. Muitos o buscam para encontrar a pessoa amada e encaminhar um casamento; outros para conseguir o pão que faz falta na mesa; ou a restauração da saúde abalada; encontrar objetos perdidos também é missão encarregada a Antônio… A fila é quase infinita e faz dele um santo multifuncional.

E mais: um santo que ultrapassa as barreiras do catolicismo e do cristianismo. Nas algumas tradições de matriz africana, ele é o Bará ou Exú, aquele que faz a comunicação entre os orixás e os humanos. O santo da ligação, do encontro, do amor, tanto físico como espiritual.

Talvez alguns estranhem tal assimilação. Mas ela pode ser interpretada com um detalhe imagético: em todas as representações cristãs, Santo Antônio é representado com um Menino Jesus e uma Bíblia em suas mãos. A Palavra de Deus e o Verbo-que-se-fez-carne são a expressão maior da comunicação entre o divino e o humano. Que o santo das ambiguidades nos ajude a seguir o indicado nestas duas grandes mensagens de Deus.

ONDE ESTÁ DEUS?

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Onde está Deus? Onde está Ele que não faz nada? Por que Ele me abandonou?

É a pergunta que muitos se fazem nos momentos de dor e sofrimento, seja individual ou coletivo. A doença e a ameaça de morte, consequência de catástrofe natural ou da ação humana, colocam em cheque a própria vida e, na sua radicalidade, exige uma resposta daquele que é a razão de nosso viver. E, para quem tem fé, em Deus deveria estar a resposta que parece não se manifestar.

É uma velha pergunta que já foi colocada em toda a sua crueza no Livro de Jó da Bíblia cristã. O autor do livro da tradição sapiencial judaica, não encontra resposta para a pergunta. Simplesmente aceita o fato e faz uma afirmação radical de fé: Deus não é a causa de nossa desgraça. Mas o Livro de Jó não responde o porque de Deus não fazer nada diante da dor e do sofrimento de seus filhos e filhas.

A fé cristã que nasce da experiência daqueles e daquelas que fizeram a experiência de Jesus de Nazaré, tem uma resposta contundente: Deus está presente naqueles e naquelas que padecem qualquer tipo de sofrimento e sofre junto com eles e elas. Deus é nosso compadecente no sentido radical da palavra: ele sofre conosco as dores e sofrimento e as assume como suas transformando-as a partir de dentro. Foi assim que Deus fez ao assumir a condição carnal no presépio de Belém e na cruz do Gólgata.

Em consequência dessa afirmação radical, o cristão é convidado a olhar o mundo a partir da condição e da situação dos crucificados de hoje. Por isso o cristianismo é religião de misericórdia e compaixão. É o que nos lembrou Jürgen Moltmann, um dos maiores teólogos das últimas décadas, falecido no dia de ontem. É da cruz de Jesus Cristo que nasce a Esperança para a humanidade. É dos crucificados da história que nasce um futuro diferente para a humanidade e para a criação.

A afirmação de Moltmann nos ajuda a pensar, a partir de nossa fé cristã, a situação das milhares de pessoas que tudo perderam nas enchentes do Rio Grande do Sul. Algumas delas perderam até mesmo a vida. E junto com as vidas humanas muitas vidas de animais, de plantas e da própria terra e água foram machucadas ou destruídas. Compadecer-se e ter misericórdia que se transforma em solidariedade ativa, é o caminho para acolher e afirmar o Deus presente em cada uma dessas vidas e, a partir desse sagrado encarnado, construir novas relações entre os humanos e com toda a criação para que Deus não mais seja crucificado em suas criaturas, pois é nelas que Ele está presente nos momentos de dor e sofrimento.

Não é lixo!

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Não é sujeira o que ficou revirado no interior das casas. Não é lixo o que ficou acumulado nos pátios. Não é entulho o que atravanca ruas e avenidas. Não é descarte o que está jogado à beira dos caminhos e estradas.

Cada tábua, cada roupa, cada louça, armário, taça, sapato, touca… Cada chapéu, geladeira, fogão, televisão, penteadeira… Cada telha, cada carro, bicicleta, cabide, chupeta… Cada vida perdida, humana, animal, cada árvore tombada ou partida, são partes de uma memória perdida que nunca mais será esquecida.

Objetos não são só concretos. Eles são abstratos. Eles não tocam apenas o tato, o olfato, a visão, a audição e o paladar. Eles estão presentes em nosso andar, estar e fazem parte do mundo no qual habitamos, nos situamos, labutamos, sofremos e amamos. Cada objeto ausente, é um pedaço de nós que se vai. Dizer que é sujeira, lixo, entulho, descarte é colocar a vida à parte, é não considerar que cada pessoa não é apenas ela, mas um mundo de relações que se constrói dando sentido a cada pessoa, ser vivente e objeto que fazem parte do dia-a-dia imediato ou do longo tempo de vidas vividas e agora truncadas no seu sentido por um fato que corta o presente do passado ao tirar da convivência tudo o que a ele nos ligava.

Quantos anos para adquirir um terreno e nele construir a casa tanto sonhada? Quantos meses de longo financiamento para pagar o carro que a tantos lugares nos conduziu? Quantas prestações mensais para comprar a televisão que dava distração nos momentos de cansaço? E a roupa tanto desejada e agora afogada no lodo ou levada pela correnteza… E as fotos do casamento, do batizado dos filhos, dos netos em algazarra, do passeio na praia, da festa com os amigos, dos animais queridos que também aqui não mais estão.

Dizer que tudo se recupera, não é verdade! O perdido jamais é recuperado. Pode-se construir outra casa, comprar outro carro, outra televisão, roupa, móveis. Mas o que se foi, foi para sempre. Dizer que é hora de olhar para frente, é engano de quem não compreende que o humano não é apenas um possuidor de objetos. O que nos faz humanos, é a capacidade de dar sentido e fazer das pessoais, animais e das coisas, algo que amamos.

Ninguém ressuscita sem passar pela morte. É o que nos ensina a sabedoria cristã. Mas aquilo que morre, não é sujeira, lixo, entulho, descarte. É testemunho da vida que ficou e não pode ser deixado simplesmente à parte. Fazer o necessário luto implica em respeito, cuidado, atenção para não pisar nas memórias das vidas que as produziram.

Se não tem sentido manter o corpo de uma pessoa morta indefinidamente insepulto, também não faz sentido fazer um enterro sem antes velar o corpo. Ao velar o corpo, reverenciamos a vida da pessoa que morreu. Do mesmo modo, ao limpar a casa, o pátio, a rua, a cidade, é importante parar um instante, contemplar o que está à nossa frente e reverenciar as vidas que ficaram simbolizados naqueles objetos dos quais nos despedimos. Só assim nos damos conta do valor das nossas vidas e abrimos a possibilidade de não mais produzir a morte.

HOMO FRUGALIS

As enchentes que assolam o Rio Grande do Sul têm muitas causas. A causa imediata é a falta de atenção e prevenção de parte de autoridades municipais e estaduais que deixaram de investir nos sistemas de proteção porque tinham “outras agendas”, como bem disse o Governador do Estado. Em outras palavras, a segurança e o bem estar da população não interessam aos atuais governantes. O alerta havia sido dado pelas cheias de setembro de 2023. E nada foi feito, mesmo sabendo que havia muito a se fazer.

Estruturalmente, a causa é o modo predatório como nos relacionamos com a natureza. Vivemos numa cultura predatória em que a criação é vista apenas como recurso a ser utilizado a fim de obter lucros. Os ecossistemas originais são destruídos para plantar commodities que geram altos lucros para poucos enquanto muitos ainda padecem fome. Sai a mata e entra o soja e o gado. Fontes são secadas, banhados drenados, encostas transformadas em pasto, rios assoreados, várzeas ocupadas por cidades onde um terço das unidades habitacionais tem como única finalidade a especulação imobiliária.

A chuva, mesmo se em quantidades excepcionais, não é a única causa das enchentes. Nós, humanos, criamos as condições para que a água nos destrua quando não respeitamos seus pontos de contenção e canais de escoamento. Poderíamos conviver com chuvas muito mais torrenciais se não interferíssemos no ciclo natural das águas.

Não basta reconstruir. Fazer de novo o que já tinha sido feito e agora destruído pela natureza será repetir o mesmo erro. É preciso construir um novo modelo de produção e distribuição dos bens. Uma nova economia “que se preocupa com a criação e não a saqueia, uma economia a serviço da pessoa, da família e da vida, respeitosa de toda mulher, homem, criança, idoso e especialmente dos mais frágeis e vulneráveis, uma economia onde o cuidado substitui o descarte e a indiferença”, como disse o Papa Francisco aos jovens em Assis, em 24 de setembro de 2022.

Mas há uma causa mais profunda que sustenta a economia. É a causa antropológica. O modo como nós humanos nos pensamos a nós mesmos. Somos convencidos que a razão de ser é consumir. Valemos pela capacidade de comprar, desfrutar e descartar irresponsavelmente. Fomos convencidos ou nos convencemos – quem veio antes, o ovo ou a galinha? – de que somos consumidores e que chegamos ao auge da humanidade quando alcançamos a categoria de predadores.

Já nos pensamos como homo sapiens. Mas estamos muito mais perto do demens. Demência que nos leva à morte. Pessoal, comunitária, social, humanitária. E mais: podemos levar toda a vida sobre a Casa Comum à morte.

É hora de mudar. Precisamos recuperar a sabedoria dos povos originários e sentirmo-nos como uma criatura em meio ao conjunto da criação. Deixar de lado a ânsia de consumir e reaprender a conviver entre os humanos e com este complexo vital do qual fazemos parte. Recuperar a sabedoria da frugalidade que consiste em consumir apenas o necessário. Fazer dela a orientação para as opções pessoais, familiares e sociais. Uma economia do decrescimento em que a riqueza de uma nação não se meça pelo Produto Interno Bruto, mas pela felicidade gerada por relações harmoniosas entre as pessoas e dos humanos com os animais, as plantas e o ambiente onde vivem. Menos poiética e mais ética e estética alimentadas pela mística do Bem Viver.

SOU CATÓLICO

Hoje, 16 de maio, ao regressar de um longo e exigente dia de trabalho sem poder acessar notícias relacionadas à situação do Rio Grande do Sul que tanto sofre com o desastre ambiental, fruto não apenas do excesso de chuvas, mas também da degradação do meio ambiente provocada pela ganância, tomei um tempo para ver fotos e vídeos postados por meus confrades que, depois de terem sido resgatados de suas casas tomadas pelas águas, colocaram-se a serviço dos demais afetados de Canoas, me deparei com uma imagem consoladora, uma imagem que me fez sentir orgulho de ser católico.

Nas fotos e vídeos, um dos bispos auxiliares da Arquidiocese de Porto Alegre, acompanhado por alguns de meus confrades e outras lideranças católicas da cidade, percorreram as paróquias, comunidades e centros de acolhida e atendimento aos afetados pela inundação da cidade. Só soube que era um bispo porque estava nomeado nas postagens. À primeira vista, um homem comum entre tantos outros homens, vestido de modo simples e com uma jaqueta para proteger-se do frio que se torna cada dia mais intenso. Só quando prestei mais atenção vi que estava de clergyman. Nos vídeos percebia-se claramente a sua presença nada ostensiva nem aparatosa. Simplesmente cumprimentava as pessoas, consolava os flagelados, animava os voluntários, rezava com eles e elas e partia para outro espaço para repetir a mesma presença.

Mas por que então o meu orgulho católico? Não era apenas pelo fato de ele ser bispo da Igreja à qual pertenço. Fiquei feliz com isso. Mas, sobretudo, fiquei feliz porque ele, assim como meus confrades e outros ministros da Igreja e tantos voluntários e voluntárias estão demonstrando, neste momento triste, aquilo que há de mais católico no cristianismo: a capacidade de compadecer-se e partir ao encontro daqueles e daquelas que estão sofrendo.

Com efeito, o que faz do cristianismo uma religião universal ou católico, não é o fato de ser a religião com o maior número de membros. Tampouco é pela capacidade de estar presente em todos os lugares do mundo. O que faz o cristianismo ser uma religião aceitável por todos os humanos, é a capacidade de mover-se diante daquilo que é o mais comum nos humanos: a possibilidade da dor e do sofrimento.

Os cristãos cremos em um Deus que se compadeceu da humanidade e encarnou-se, na manjedoura de Belém e na cruz do Gólgota, para redimir e santificar a toda criatura, para livrar-nos do mal de toda desumanidade que nós, contraditoriamente, criamos. E sua compaixão não é limitada nem por pertença étnica, condição de gênero ou posição social. Como nos lembra Seu discípulo e apóstolo Paulo, em Jesus Cristo não há judeu nem grego, nem homem nem mulher, nem escravo nem livro. Todos e todas somos um n’Ele.

Do alto da cruz, Jesus nos lembra que só é fiel à sua proposta e à sua pessoa aquele e aquela que, na situação concreta que lhe cabe viver, é capaz de compadecer-se e retirar da cruz seus irmãos e irmãs. A condição que cabe a nós vivermos hoje, no sul do Brasil é a dos atingidos pelo desastre ambiental. Saber que muitos de nossos irmãos e irmãs de fé, na diversidade de vivências eclesiais, transforma a compaixão em ação, sem perguntar pela pertença religiosa, condição social, étnica ou gênero de quem precisa, faz crescer em nós o orgulho de pertencermos a uma comunidade que, movida pela Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, faz sua a dor do outro para que ele deixe de sofre, faz crescer em nós a consciência e o orgulho da nossa catolicidade.

Em tempo: muitos membros de outras igrejas cristãs, neste momento, vivem e demonstram, na ajuda aberta e ecumênica aos flagelados, também expressam de maneira pujante, a sua catolicidade. Que esse seja mais uma ponte no caminha da unidade na diversidade ecumênica que celebramos nesta Semana de Oração pela Unidade Cristã.

Fátima

Hoje, 13 de maio, a tradição católica romana celebra Nossa Senhora de Fátima. A devoção remete às visões que, em 13 de maio de 1917, três pastorinhos portugueses, na localidade de Fátima, tiveram uma visão da Virgem Maria que se repetiria nos meses seguintes, até a última, em 13 de outubro de 1917.

O local, com o decorrer do tempo, transformou-se num dos espaços mais importantes da devoção mariana na Europa e no mundo. Todos os anos, de todos os continentes, confluem ao local em torno de seis milhões de católicos para rezar e invocar a proteção da mãe de Jesus.

A visão da Virgem Maria relatada pelos pastorinhos assemelha-se a muitas outras tidas por outras pessoas. Uma não compreensão num primeiro momento; medo e confusão; apresentação da Virgem; envio para uma missão; resistência por parte das autoridades eclesiásticas em reconhecer o relatado; reconhecimento por parte do povo simples; reconhecimento oficial e consolidação da devoção.

O que se destaca nas visões de Fátima é seu caráter apocalíptico. O que ouviram os pastorinhos foi uma mensagem que alertava para a possibilidade do inferno pessoal e da destruição da humanidade provocada pelos pecados humanos. Mas o que mais provocou curiosidade e ajudou a espalhar a devoção a Nossa Senhora de Fátima foi o “terceiro segredo” de Fátima que, no contexto de conflitos sociais da Europa, foi interpretado das mais diferentes formas.

Uma das interpretações mais comuns ligava o “terceiro segredo” à Revolução Russa que seria o prenúncio da destruição da humanidade provocada pelo ateísmo e pela ofensa à religião. No ambiente de crescente conflito entre os dois sistemas econômicos – o capitalista e o socialista – a Virgem de Fátima tornou-se, no Ocidente, símbolo do anti-comunismo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a divisão do mundo em dois grandes blocos, essa simbólica ganhou força na Europa e na América do Norte.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima chegou ao Brasil, pode-se dizer, tardiamente. Foi em 1952, quando alguns frades capuchinhos da Província do Rio Grande do Sul que haviam sido enviados em missão a Portugal seis anos antes, regressaram ao Brasil trazendo na bagagem a imagem e a mensagem da Virgem aos pastorinhos e, no contexto acirrado de guerra fria, a pregação contra os perigos do comunismo.

À testa do grupo estava o carismático frei Bernardino Vian que, juntamente com os freis Lauro Reginato e Eusébio Ferreto compôs uma segunda equipe de missionários capuchinhos lançou-se à pregação de missões populares no Sudeste e Centro Oeste do Brasil. Ao tomar conhecimento da planejada construção de Brasília, Frei Bernardino, com a anuência do bispo de Goiânia, dirigiu-se ao Rio de Janeiro e, por intermediação da Primeira-Dama Sarah Kubitschek, convenceu o Presidente Juscelino à construção da Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, em Brasília para proteger a capital e, através do seu valor simbólico, o Brasil dos perigos do comunismo.

Por ironia da história, coube ao comunista Oscar Niemeyer o projeto da Igreja e ao iconoclasta Alfredo Volpi a decoração que, anos depois, por ordem de autoridades eclesiásticas, seria substituída por bandeirinhas menos indecentes.

Hoje em dia, a simbologia anticomunista da Virgem de Fátima continua viva nos meios neoconservadores católicos. Ao seu caráter político foram agregados outros temores dos grupos que temem as mudanças culturais, sociais, políticas e, sobretudo, eclesiais que vêm acontecendo nas últimas décadas. Fátima tornou-se o símbolo, para pequenos grupos neotradicionalistas católicos, de resistência ao Concílio Ecumênico Vaticano II e às atualizações consequentes no campo institucional, litúrgico, moral e social da Igreja Católica.

Nas isso é coisa de pequenos grupos que formam verdadeiras seitas que guardam a aparência de católico mas, na verdade, fecham-se em pequenos guetos perdendo a dimensão de universalidade e apostolicidade da Igreja.

Para a grande maioria dos católicos e católicas, Nossa Senhora de Fátima é a presença curadora, protetora e amorosa de Deus junto ao Seu povo. Assim como ela foi consolo e força na vida dos pastorinhos e do povo simples de Portugal no início do séc. XX, ela continua hoje, na terceira década do séc. XXI, a nos recordar que Deus é bom e quer que sejamos plenos de vida e esperança.

São Jorge: da “purificação” ao diálogo inter-religioso.

Escrevo esta pequena e despretensiosa reflexão ainda com os pensamentos no acontecido em Porto Alegre, na Igreja São Jorge no Bairro Partenon, no último 23 de abril, data em que se celebra, no catolicismo, a Festa de São Jorge e, nas religiões de matriz africana, dia dedicado a Ogum.

Pela primeira vez, na Igreja São Jorge de Porto Alegre, após a última Missa da tarde, com a presença de dois bispos auxiliares da Arquidiocese e do Pároco Padre Sérgio Belmonte, a comunidade de batuque, liderada por Pai Ricardo de Oxum, fez a lavagem da escadaria do santuário. O ato teve ampla repercussão na mídia local e nacional com diferentes e até extremadas reações nas redes sociais. No momento da lavagem, quatro jovens ligados a movimentos neoconservadores católicos, tentaram, em vão, impedir o ato.

A prática de lavagem das escadarias das Igrejas por parte de praticantes de religiões de matriz africana é realizado em muitos outros lugares do Brasil. Em Salvador, em um determinado período, a autoridade eclesiástica vigente tentou impedir tal prática. Mas, com a mudança de autoridade, o bom senso voltou e a prática foi retomada.

Mas por que isso é tão significativo? Em primeiro lugar, por ser uma reparação histórica. A prática sincrética em que se mesclam as identidades de santos católicos e orixás, não foi uma opção para os homens e mulheres que foram trazidos à força de África para aqui serem escravizados. Além de negados em sua humanidade, eles foram negados em suas identidades culturais e religiosas. Proibidos de cultuar suas divindades – concebidas de modo diferente do que nós ocidentais e cristãos imaginamos o divino – na forma como o faziam em seu espaço original, tiveram que adaptar para poder sobreviver. O sincretismo que aqui se forjou foi forçado. E os que os obrigamos a ocultar seus orixás nas figuras de santos, não temos o direito hoje de impedir que continuem com essa prática.

Hoje, quando a liberdade religiosa, mesmo se ainda não plena, é, pelo menos, uma garantia legal, cabe a eles e elas optarem pela forma de realizar seu culto, mesmo sendo num espaço que nós, católicos, consideramos como nosso. Afinal, muitas das nossas igrejas foram construídas com o trabalho, suor, sangue e, em muitos casos, o dinheiro de escravizados e seus descendentes. É só estudar um pouco de História para saber disso!

Em segundo lugar, e para olhar desde o ângulo católico, porque esse ato demonstra uma profunda mudança no modo como a Igreja Católica Romana encara a realidade religiosa brasileira. Se olharmos a grande maioria dos documentos eclesiais, mesmo os mais progressistas como os Documentos das Conferencias de Medellín, de Puebla, de Santo Domingo e de Aparecida, quase sempre quando se fala do catolicismo popular se chama para a necessidade de “purificação”. Todos sabemos que, quando nos documentos eclesiais se fala em “catolicismo popular”, entende-se principalmente as formas sincréticas de expressão da fé. Aqui no Brasil, do cristianismo com as tradições de origem Africana. Nos outros países da América Latina, com as tradições dos povos originários do continente.

Nesse contexto, o que seria a “purificação”? Em curtas palavras, significa eliminar tudo o que é africano e indígena para que o catolicismo se torne “puro”, ou seja, “romano”. É o pressuposto não dito! Como se o catolicismo romano também não fosse fruto de sincretismo entre o cristianismo judaico e a cultura e as religiões romanas. Um pouco de história nos ajuda a perceber que, muitos dos símbolos, ritos e usos da Igreja Católica Romana (e de outras Igrejas cristãs também), devem muito mais do que pensamos à cultura e às religiões mediterrâneas dos primeiros séculos da nossa era.

Por terceiro, último e mais importante, o ato na Igreja São Jorge foi apresentado e feito como um ato inter-religioso. Padre Sérgio me contou oralmente o longo processo que foi chegar até essa composição. Pena não poder aqui transcrever tudo. A quem interessar possa, sugiro conversar pessoalmente com ele. Vale a pena ouvir o roteiro seguido que produziu essa linda e grande novidade em nossa Porto Alegre que reúne, ao lado de Salvador, o maior número de centros de religião africana do Brasil. Foi um longo e penoso processo de diálogo. Mas não podia ser diferente! Depois de quinhentos anos de negação, não seria fácil para muitos da comunidade católica reconhecer a legitimidade das religiões afro e tratar o culto a Ogum como tão autêntico ao de São Jorge.

Para alguns poucos católicos, como os quatro que se ajoelharam nas escadarias para tentar impedir o ato, foi algo demasiado e inconcebível. Para outros, talvez tenha sido pouco. Mas foi grande! O mútuo reconhecimento que vai além da pretensão de “purificar” ou, passo já maior, mas não ainda completo, de reconhecer a legitimidade da prática sincrética e chega ao reconhecimento da autenticidade da fé do outro e da disposição e da prática do diálogo, isso é grandeza teológica e maturidade na fé.

Nada de novo para os católicos que leram e assimilaram o Vaticano II e seu apelo à liberdade religiosa e ao reconhecimento da autenticidade das diversas religiões. Mas um passo grande dentro da história religiosa de Porto Alegre. Esperamos que, em outros momentos e em outros espaços religiosos onde convivem católicos romanos e praticantes de religiões de matriz africana, em cada lugar com suas peculiaridades, continuemos nesse belo caminho.

Que São Jorge, Santo Antônio, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora Aparecida, Ogum, Bará, Iemanjá e Oxum nos acompanhem a cada um no seu caminho próprio de fé!

Santa Catarina de Siena, rogai por nós!

Ela é doutora da Igreja e, ao lado de São Francisco de Assis, padroeira da Europa e, juntamente com São Bento, Cirilo e Metódio, Brígida da Suécia e Edith Stein, padroeira da Europa. Mesmo com todos estes títulos, não é das santas mais populares. Mas deveria ser, especialmente nestes tempos. Mas por quê, alguém já deve estar se perguntando.

Primeiro, porque foi uma figura fora do comum para seu tempo. E não pelo fato de ter vivido apenas 33 anos. No séc. XIV, na Europa, uma mulher que chegasse a essa idade era considerada velha! Se deixarmos de lado as edulcoradas narrativas de seus hagiógrafos sobre o seu desejo infantil de entregar-se total e plenamente apenas a Cristo e nos ativermos aos dados biográficos, encontraremos uma jovem mulher que se nega veementemente a aceitar um casamento imposto por seu pai. E o faz de uma forma inusitada para a época: ela se nega a comer até que seu pai desista de casá-la com o viúvo de sua irmã mais velha. Em outras palavras, ela evitou um casamento imposto utilizando como instrumento de protesto a greve de fome.

Para evitar definitivamente ter sua vida comandada por homens, conseguiu ser aceitar numa comunidade da Ordem Terceira Dominicana. Tais comunidades de “terceiras”, eram dos poucos espaços em que mulheres viúvas podiam ter uma vida autônoma sem serem subordinadas à família do falecido marido ou aos filhos. Mas Catarina não era viúva… Infringindo as regras, ela foi aceita. E aprendeu a ler e a escrever, o que era proibido para as mulheres de seu tempo. E foi além: não ficou reclusa no convento. Seguindo a tradição dominicana, saiu a pregar e a intervir, pessoal ou por cartas, nos grandes problemas de sua época: os conflitos entre as dezenas de repúblicas que disputavam o domínio da península – as duas mais importantes e em conflito mais exposto, Roma e Florença – e na grande crise que dividia a Europa: a mudança da sede da Igreja Católica de Roma para Avinhão, sob a tutela dos reis da França.

Não há consenso entre os historiadores sobre a real influência de Catarina para o fim do cisma que dividia a Igreja no Ocidente e no estabelecimento e reconhecimento de Urbano VI como único Patriarca do Ocidente com sede em Roma. Mas isso é de somenos importância. Afinal, a história não é feita por heróis ou heroínas como muitas vezes querem nos ensinar. O que muda a direção dos fatos é a ação de grupos organizados e Catarina de Sena fez parte daquele grupo de homens e mulheres que deram sua vida para restabelecer a unidade da Igreja.

Nestes tempos em que vemos tantos e tantas, em nome de uma suposta autêntica manutenção da tradição, levantar-se contra a autoridade do Papa Francisco, renegar ao Concílio Ecumênico e às Assembleias Sinodais, desprezar e renegar a autoridade das Conferências Episcopais e outras instâncias de Comunhão e Participação na Igreja, é bom lembrar o exemplo de Catarina de Sena e invocá-la em nossas orações para que ela nos inspire a continuar firmes no caminho da sinodalidade e de uma Igreja em saída. Ela não se conformou em ficar reclusa dentro das altas paredes muradas do convento. Saiu pelo mundo a anunciar e construir a Paz na qual tanto acreditava.

E, se isso não bastasse, ela é um exemplo das potencialidades femininas no seio da Igreja. Ela rompeu com os paradigmas sociais e eclesiais que relegavam a mulher à função de mãe. Utilizou a ferramenta cultural mais poderosa de sua época – a leitura e a escrita – para agir no espaço público da Igreja e da sociedade. Quando as mulheres – e os que nos sentimos solidários com elas – reivindicam participação plena no âmbito eclesial e político, precisamos lembrar e invocar Catarina de Sena que, em plena Idade Média, já apontava para toda a Igreja e para a sociedade este caminho possível para todos e todas.

Por isso, nada mais justo que, neste dia 29 de abril em que lembramos sua morte, peçamos que ela, desde a convivência divina, interceda por nós: Santa Catarina de Sena, rogai por nós!