Frade francês tem proteção policial 24 horas por dia no Pará

O frade dominicano francês Henri de Roziers tem três policiais militares destacados para protegê-lo 24 horas por dia no município de Xinguara, no sudeste do Pará, o município do Estado onde mais mortes ocorrem por conflitos de terra.

O religioso, que é coordenador da Pastoral da Terra de Xinguara, diz que está tranquilo porque é “estrangeiro, advogado, sacerdote e idoso (tem 75 anos)” e não recebe “ameaças diretas” desde 2007.

Mas desde o assassinato, em fevereiro de 2005, da freira americana Dorothy Stang – um episódio de violência fundiária que ganhou manchetes em todo mundo – o Estado fez questão de fornecer uma escolta permanente de policiais ao frade francês.

Nas investigações do assassinato da irmã Dorothy, a Policia Federal encontrou indícios de que o francês seria o próximo na lista dos acusados de cometer o crime.

“Eu me incomodo muito por ter uma escolta policial cuidando de mim enquanto líderes populares brasileiros, que correm dez vezes, cem vezes mais riscos do que eu, estão por aí desprotegidos”, diz o religioso.

Frei Henri cita o caso de dois ativistas da região de Santarém – o líder indigenista Dado Borari e o militante sem-terra Valdecir dos Santos – que foram ameaçados de morte, mas tiveram proteção recusada pelo governo do Estado.

“Se o problema é de falta de recursos, prefiro que tirem os três policiais que me escoltam e forneçam proteção a estas duas pessoas, que correm sério risco de assassinato”, afirma o frade.

Conflitos

Frei Henri diz acreditar que a tentativa de regularizar a posse de terras na Amazônia por meio da nova lei criada a partir da MP 458 só vai agravar os conflitos que existem na região.

“Infelizmente, o governo brasileiro não tem infraestrutura para cuidar dessa situação tão complexa”, critica o religioso. “A máfia dos madeireiros e fazendeiros no Pará é muito, muito perigosa.”

O frade francês afirma temer que o modelo de regularização de terras adotado pelo governo só sirva para agravar ainda mais a concentração fundiária que existe no Brasil.

“É verdade que os lotes máximos que o governo vai regularizar (de 1,5 mil hectares) não são muito grandes para os padrões de Amazônia, mas os fazendeiros vão ter recursos de fraudes, de laranjas e de usar membros da família pra conseguir registrar fazendas enormes”, diz.

“Os agricultores mais fracos que vivem na região vão acabar forçados a vender suas terras para que esses grandes fazendeiros façam estes registros fajutos.”

O Pará é o Estado brasileiro onde a violência fundiária faz mais vítimas. Segundo um levantamento da Pastoral da Terra, foram mais de 800 assassinatos desde 1975.

“Dessas 800 mortes, apenas 250 resultaram em alguma ação da Justiça. E nos 250 julgamentos, tivemos somente 22 condenações de mandantes”, diz frei Henri. “E o pior é que nenhum deles está na cadeia. Assim fica muito fácil matar e muito difícil confiar na Justiça.”

Mulher de Kaká vai abrir igreja evangélica em Madri

Caroline Celico, mulher de Kaká, vai abrir igreja em Madrid Foto: AgNews

Caroline Celico, mulher do jogador de futebol Kaká, vai abrir uma igreja evangélica em Madri, na Espanha. Ela anunciou as pretensões em um culto na Flórida, nos Estados Unidos. Caroline foi apresentada aos fiéis pela Bispa Sônia.

“Como pode alguém no meio da crise ter dinheiro? Deus colocou esse dinheiro na mão do Real Madrid para contratar o Kaká. Nós vamos poder abrir uma igreja lá. Existem vidas que têm que ouvir essa palavra”, disse.

Em seu testemunho, ela ainda falou sobre o fato de perder a virgindade só após o casamento. “Eu fiz uma aliança com o Senhor: quem ama espera. Quando eu conheci o Kaká eu não era convertida e acabei me apaixonando pela Renascer. Ele tinha colocado no meu espírito casar virgem. Eu não tinha dividido com o Kaká e pensei que quando eu falasse, ele iria me largar. Quando eu contei, teve aquele silêncio. Eu pensei que iria acabar. Mas ele disse: ‘Esse foi o sinal que eu tinha pedido para o Senhor'”, contou, antes de falar do “lado ruim” do sexo, das drogas e da prostituição. “Eu não me arrependo de nada”, completou.

Caroline ainda ressaltou o fato de o marido ter resistido às ofertas de outras mulheres. “É muito assédio no mundo do futebol. Vocês devem ver notícias de outras pessoas por aí”, disse.

Modelo psicológico e formativo dos Legionários de Cristo será revisto

Os inspetores nomeados pelo Vaticano irão revisar o modelo psicológico e formativo dos Legionários de Cristo durante a visita apostólica a todas as obras dessa congregação que iniciou nesta quarta-feira, 15. Segundo revelaram juízes da Apostólica, os auditores colocarão sob a lupa as normas vigentes há anos na Legião, estabelecidas pelo seu iniciador Marcial Maciel Degollado. Sobretudo, deverão analisar o “modelo do fundador” nos âmbitos afetivo e psicológico, assim como a estrutura e a forma de governo dessa congregação religiosa.

A reportagem é do sítio Religión Digital, 15-07-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Bento XVI ordenou a visita depois da aceitação pública, por parte da cúpula legionária em fevereiro passada, da “vida dupla” de Maciel, que incluiu a procriação de uma filha com a sua amante. Após vários meses de espera e de uma reunião privada em Roma, decidiu-se que a inspeção começaria fisicamente nesta quarta-feira, 15, e seria executada por cinco bispos que cobrirão as diversas zonas do mundo onde a Legião se encontra.

Segundo as fontes consultadas, os auditores deverão se assegurar de que os Legionários cumpram, na prática, a diretiva de cancelar os “votos secretos” professados por seus membros. Essas promessas, também conhecidas como “reservadas”, exigiam não criticar os superiores da ordem, além de não conspirar ou desejar cargos de poder em seu interior.

Tais promessas foram suspensas pelo Papa em 2008 por considerá-las “nocivas”. No Vaticano, suspeita-se que, apesar da instrução oficial de já não cumprir esse requisito, os seminaristas e consagrados ainda seriam “condicionados” por essa prática.

Além disso, acrescentaram que os visitadores serão os responsáveis por se certificar de que não exista o “culto à personalidade” propiciado em torno à figura de Marcial Maciel, que recebeu acusações de abuso sexual por um grupo de ex-seminaristas.

Os funcionários do governo central da Igreja católica esclareceram que as visitas apostólicas costumam ser processos reservados durante os quais dificilmente é possível conhecer detalhes de seu desenvolvimento e conclusão. Mas acrescentaram que, para isso, é previsível esperar também uma revisão do sistema financeiro que suporta os legionários, assim como do estado de sua relação institucional com os bispos e as dioceses onde trabalham.

Sobre o resultado da auditoria, as fontes mostraram prudência, assegurando que essa decisão se encontra nas mãos dos inspetores e, em última instância, do Papa Bento XVI. Mesmo assim, não descartaram nem a alternativa da convocatória a um Capítulo Geral que produza mudanças radicais ou, em um caso extremo, uma reforma da congregação que inclua novas constituições e outro nome.

Fonte: IHU/UNISINOS, 16/7/2009

O papa não confia no homem

por Gianni Carta

Intitulada Caritas in veritate, a terceira encíclica do papa Bento XVI foca nos grandes problemas provocados pela globalização na vida do homem, “o primeiro capital a salvar e a valorizar”. Oportunamente divulgada na terça-feira 7, às vésperas da cúpula do G-8 em L’Aquila, na Itália, Caridade na Verdade é uma encíclica social – mas está longe de ser revolucionária.

Há mais de um século a Igreja Católica busca a justiça social em prol do “bem comum”. Em 1891, Leão XXIII publicava Rerum novarum, texto, este sim então revolucionário, o qual, na alvorada do capitalismo industrial, estimulava o desenvolvimento de um sindicalismo cristão. Mais recentemente, em 1991, o conservador João Paulo II divulgou Centesimus annus, encíclica nada revolucionária na qual o papa reconheceu aspectos positivos na economia de mercado – que visaria ao bem comum. A encíclica Cem Anos foi publicada logo após o colapso da União Soviética.

Caritas in veritate surpreende porque revela um Joseph Ratzinger mais complexo do que se supunha: arguto, compreensivelmente tendencioso (a favor de ideias da Igreja Católica), e ideologicamente confuso. Arguto porque reconhece que os percalços da globalização não são inerentes ao mercado globalizado em si. Os percalços nascem da natureza do homem, este marcado pelo “pecado das origens”. E este é um ponto fundamental na terceira encíclica do alemão Ratzinger: o homem, de forma geral, é inconfiável. Tal percepção é válida do ponto de vista do crente (que acredita no “pecado das origens”), do político conservador ou liberal.

Na verdade, essa capacidade de compreender a essência do homem por parte do papa não surpreende. Ratzinger, de 82 anos, é catedrático de alto calibre. Embora não tenha o carisma de seu antecessor, e tenha expressões faciais um tanto sinistras, ao longo dos anos produziu dezenas de livros e fez inúmeras eloquentes conferências.

Bento XVI fornece, para ilustrar os limites do homem, exemplos para detalhar algumas lacunas do ser humano. Por exemplo, o empresário para o qual “o lucro torna-se seu objetivo exclusivo, e se (o lucro) for produzido por meios impróprios e sem o bem comum como fim principal, arrisca destruir a riqueza e criar pobreza”. A pobreza, por sua vez, afeta as democracias. Os poderosos das finanças, acrescenta Ratzinger, precisam “redescobrir o genuíno fundamento ético de suas atividades”.

A questão parece simples. Mas está longe de sê-lo. A pessoa ligada às finanças visa, óbvio, o lucro. Ela pode ou não ser ética em suas operações. O mesmo se aplica ao político conservador, de centro ou de esquerda. Mas o homem, com as claras exceções, falhou no capitalismo, no comunismo e na religião. Basta ver o atual estado do capitalismo mundial, o colapso do comunismo e o decrescente nível de religiosos praticantes.

E aqui chegamos ao segundo ponto acima mencionado: o papa é tendencioso. Ele precisa, claro, defender as doutrinas do Pontificado e seus 2 mil anos de existência. Um ser avaro pode corrigir suas fraquezas, ou improbidades, buscando valores espirituais, e principalmente aqueles cristãos, nos diz Ratzinger. O papa acrescenta: “O ateísmo subtrai dos cidadãos a força moral ou espiritual para se engajar a favor do desenvolvimento humano”. O papa indaga, já implicitamente dando sua resposta: “Um humanismo sem Deus é possível?” Isso significa que um homem ateu ou agnóstico, ou simplesmente não praticante, não pode ter força moral ou espiritual?

O terceiro ponto de Caritas in veritate, já citado acima, chama atenção: a confusão ideológica do papa. Antes de adentrar o campo social de reformas pedidas por Bento XVI, vale colocá-lo no seu contexto histórico. Já no número especial de quinze anos de CartaCapital, publicado em 27 de maio, recordamos quem é Ratzinger. Ex-líder da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Inquisição) a partir de 1981 sob João Paulo II, o alemão praticamente varreu do mapa católico a Teologia da Libertação, que pregava na América Latina uma Igreja voltada aos humildes e explorados.

O movimento ganhou espaço por duas- razões: a região concentra mais de 500 milhões de católicos. Nos anos 60, quando os teólogos da libertação se disseminaram, vários países eram controlados por ditaduras sangrentas. O objetivo da Teologia da Libertação era trazer mais solidariedade e humanidade para os pobres oprimidos por regimes totalitários. Nos anos 80, Ratzinger se opôs ao movimento latino-americano. Convenceu João Paulo II, sem grandes dificuldades, de que o movimento era perigoso à própria sobrevivência da religião porque tinha um viés marxista, de libertação nacional. Habilmente, Ratzinger lembrou ao polonês João Paulo II que regimes ateus e totalitários, como o soviético que dominou sua Polônia natal, chegaram ao poder por meio de revoltas populares.

Agora, com o naufrágio do comunismo e do capitalismo selvagem, Ratzinger adotou um discurso mais humanista e parecido com o dos teólogos da Libertação – e longe daquele propício ao líder da Congregação para a Doutrina da Fé. A economia global precisa ser regulamentada, prega Ratzinger. Motivo: a globalização não se revelou funcional. O nível de desemprego cresce em todo o mundo e Ratzinger lamenta o declínio da Previdência Social, e escreve sobre a importância de sindicatos para proteger os trabalhadores. “Trabalho para todos”, acentua. É preciso lutar contra a precariedade.

A pobreza, continua o pontífice, cria disparidades entre ricos e pobres e coloca a democracia em risco. Quanto à economia, precisa de ética. Para concluir sem originalidade, que a falta de ética no sistema financeiro provocou a atual crise econômica mundial.

Para regulamentar a economia mundial, Bento XVI crê que o papel do Estado precisa ser “repensado”. Estados têm de agir em sintonia com os organismos financeiros como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. De fato, Ratzinger crê que a ONU pede por uma reforma para se tornar uma verdadeira autoridade política mundial. A instituições como o FMI, ele também não poupa críticas: “(Elas) requisitaram cortes no orçamento social no Terceiro Mundo”.
Um flechada de Ratzinger nas organizações não-governamentais (ONGs) é merecida: “Acontece, por vezes, que os destinatários das ajudas se tornem funcionais a quem os ajuda, e os pobres servem para manter em vida ricas organizações burocráticas”. Bento XVI pede maior transparência por parte da ONU e das ONGs. De fato, é hora.

A encíclica ganhou elogios por seu corte social e pode nos ajudar a refletir sobre o futuro. Mas não oferece respostas concludentes.

Espanhóis criam a primeira igreja evangélica gay do país

Grupo gay

Um grupo de cerca de cem homossexuais espanhóis anunciou a criação da primeira comunidade religiosa para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais – a Primeira Igreja Protestante Inclusiva.

O grupo se define como “uma organização evangélica que não pretende discriminar ninguém por opção sexual ou credo” e pretende formar pastores, oferecer cultos e casar homossexuais, inclusive ateus.

Os criadores da igreja afirmaram que já têm preparados os estatutos da nova instituição e pedirão, ainda esta semana, a inscrição na Direção Geral de Assuntos Religiosos do Ministério da Justiça da Espanha.

Este pedido pode iniciar uma disputa legal com a Federação Espanhola de Igrejas Evangélicas, organização que reúne as 2,3 mil organizações que professam esta religião no país.

“A princípio não damos crédito a essa notícia. Eles primeiro têm que demonstrar que realizam atividades religiosas e aí veremos se o Ministério de Justiça admite ou não o pedido”. “

“Se forem aceitos e usarem o nome Evangélico, protestaremos com medidas legais, porque seria um uso indevido”, disse à BBC Brasil o diretor da Federação Espanhola de Igrejas Evangélicas, Jorge Fernández.

Casamento gay

A Federação Evangélica anunciou em 2005 a sua oposição ao casamento entre homossexuais, aprovado neste ano na Constituição espanhola.

A Conferência Episcopal da Espanha também foi contra a aprovação do casamento entre homossexuais e critica a nova igreja gay.

“Para começar, não sei como dizem que formarão novos sacerdotes, porque os evangélicoss não possuem ordem sacerdotal, mas um pastor que dirige a oração”, disse à BBC Brasil o responsável pelo grupo de ecumenismo da Conferência Episcopal, Vicente Sastre.

“É certo que algumas comunidades anglicanas americanas ordenaram sacerdotes homossexuais, mas houve tanto conflito e polêmica que estes grupos estão a ponto da ruptura. Em todo caso, a igreja católica tem uma postura clara sobre este assunto baseada no Novo Testamento”.

Apesar das críticas, o Grupo Gay Evangélico da Espanha pretende insistir com a nova igreja.

“Seremos a mais democrática das igrejas. Não é um projeto mediático, mas necessário, porque 99% das igrejas evangélicas espanholas nos impedem de receber os sacramentos e muitas delas nem nos deixam entrar”, afirmou à BBC Brasil o porta-voz do grupo, Andrés de la Portilla.

Reuniões secretas

“Além disso, essa nova instituição ajudaria a acabar com muitas mentiras e hipocrisias, principalmente dentro de ambientes religiosos”, completou.

Segundo o porta-voz, o Grupo Gay Evangélico existe há 20 anos, mas ainda há muitas ameaças e represálias “tanto de setores eclesiásticos como laicos”.

Por isso as reuniões sempre são secretas, e o endereço definitivo da nova igreja só será anunciado quando as medidas legais e de segurança estiverem garantidas.

O que está confirmado é que a igreja ficará sediada na cidade valenciana de Sagunto, no litoral mediterrâneo, por sua localização estratégica, próxima a lugares frequentados abertamente por gays como Ibiza e Barcelona.

Portugal faz balanço positivo de lei que descrimina drogas

Heroína

Em uma barraca improvisada no bairro do Fim do Mundo, perto de Lisboa, Maria fuma heroína, cercada de seringas descartáveis abandonadas e manchas de sangue.

Portugal é um dos poucos países do mundo em que ela não corre risco de ser presa por isso, já que o uso e o porte de drogas é legal. Pelo contrário, no Fim do Mundo, organizações de saúde e sociais ainda fornecem materiais limpos para o consumo das drogas.

Há exatos oito anos, quando a lei que descriminou as drogas foi aprovada no país, muitos disseram que Portugal se transformaria em um centro para viciados da Europa.

No entanto, estatísticas do governo português indicam que o consumo de drogas, em vez de aumentar, caiu 10%. Ainda assim, a heroína continua a ser um problema grave em Portugal, onde o consumo da droga está entre os maiores da Europa.

Mas hoje, em vez de prender os usuários de drogas, o governo os encaminha para comissões que tentam convencer o indivíduo a abandonar o uso ou, no caso de viciados, iniciar um tratamento. O que não mudou foram as leis para tráfico, que continua a ser um delito grave.

O governo português manifesta orgulho por sua política para as drogas. O primeiro-ministro José Sócrates destaca seu desempenho pessoal na introdução da lei, diz que os resultados são conclusivos e que a filosofia é popular.

Resultados positivos

De acordo com o repórter da BBC Mark Easton, cada vez mais pessoas iniciam tratamentos para abandonar o vício no país. Outro indicador de que a guinada política está dando resultados positivos é a queda no uso de drogas entre jovens desde a aprovação da lei, em 2001.

Mesmo que alguns contestem a metodologia usada para chegar a essa conclusão, segundo Easton, não há qualquer indício de que o consumo tenha crescido desde a descriminação.

Easton afirma ainda que as previsões pessimistas de que Portugal se transformaria em um paraíso de “sol, praias e drogas liberadas”, como previu um político, não se confirmaram.

Brendan Hughes, representante do Observatório Europeu de Drogas, com sede em Lisboa, afirma que não se pode saber qual a influência direta da lei nos números.

“Não sabemos o que é que faz as pessoas pararem de consumir drogas”, diz Hughes. “O que sabemos é que não houve uma explosão no consumo. O senso comum pode dizer uma coisa, mas todas as estatísticas afirmam o contrário.”

Menos mortes

A conclusão é confirmada por um relatório do centro de estudos americano Cato. O grupo afirma que “não se cumpriu qualquer dos horrores que os opositores da descriminação em todo o mundo costumam invocar”.

“Em muitos casos, aconteceu exatamente o contrário, já que o consumo caiu em algumas categorias chave e as doenças relacionadas ao consumo de drogas estão muito mais contidas”, diz o relatório.

A impressão foi confirmada à BBC por Paula Vale de Andrade, integrante de uma das equipes sociais que prestam assistência aos viciados.

Segundo ela, o número de infectados pelo vírus HIV e de mortes provocadas pelo consumo de drogas caiu drasticamente.

“Quando se drogar era um crime, muitos tinham medo de se aproximar de nossas equipes, mas desde a descriminação, eles sabem que a polícia não vai se meter e vêm até nós. Esse foi um grande avanço”, afirmou Andrade.

Mas nem todos aplaudem a iniciativa. Nas ruas de Lisboa, alguns relativizam os resultados e questionam as estatísticas e a mudança de tratamento dos usuários, que passaram de criminosos a vítimas.

Outros criticam o fato de um terço dos consumidores não se apresentarem às comissões. Até mesmo um viciado em heroína entrevistado pelo BBC disse estar cético diante da medida: “Se não é crime, vão continuar consumindo até morrer.”

Atualmente, a posse de pequenas quantidades de drogas não é considerada crime em dez países europeus.

Vaticano acha autorretrato de Michelangelo em afresco

Um novo autorretrato do pintor italiano Michelangelo, um dos mestres do Renascimento, foi descoberto na recém-restaurada Capela Paulina, que fica dentro do Vaticano.

A descoberta despertou o interesse de críticos e estudiosos do artista renascentista, informa nesta quinta-feira (2) o jornal “La Repubblica”.

Segundo o chefe dos restauradores dos Museus Vaticanos, Maurizio de Luca, um “autoritário” Michelangelo aparece num dos dois afrescos da Capela Paulina –o da Crucificação de São Pedro. De turbante azul, o pintor encontra-se ao lado esquerdo da cena, como um dos três cavaleiros romanos que acompanham a crucificação.

Reprodução
Michelangelo aparece no afresco Crucificação de São Pedro à esquerda do quadro, de turbante azul
Michelangelo aparece no afresco Crucificação de São Pedro à esquerda do quadro, de turbante azul

O parecer dado por De Luca foi corroborada pelo diretor dos Museus Vaticanos, Antonio Paolucci. “A restauração foi feita de forma excelente. O resto são opiniões. Digo com toda sinceridade: o cavaleiro com turbante parece Michelangelo, embora mais jovem, porque naquela época ele tinha 70 anos”, declarou.

O restaurador e biógrafo do mestre renascentista, Antonio Forcellino, viu o autorretrato e concordou com a identificação que foi feita pelo Vaticano.

“(O autorretrato) faz parte da tradição de Michelangelo” e, “neste caso, aparece de modo evidente o tormento que caracterizava o temperamento do artista, como em cada personagem e em sua obra”, disse.

Sobre o turbante, Forcellino afirmou: “Ele costumava se proteger do pó com um turbante branco quando trabalhava”. E o fato de ele aparecer montado num cavalo não surpreende porque “Michelangelo adorava cavalgar”, acrescentou.

Para a especialista Cristina Acidini, que trabalha nos museus romanos, o Michelangelo da Capela Paulina se parece muito com o famoso retrato do gênio feito por Daniele da Volterra em 1541.

“Sua expressão é de sofrimento, tristeza, tensão, como se compreendesse a injustiça que estava sendo feita” com a crucificação de São Pedro, disse a museóloga.

Agricultor que foi casado e é pai vira padre no RS

Após permanecer casado por dez anos e ter uma filha, um agricultor de Itapuca (RS) foi ordenado padre no sábado (20).

c asamento de Osmar Antonio Burille, de 44 anos, ocorreu em 1989 e durou dez anos. Em 2003, ele recebeu autorização do Tribunal Eclesiástico para entrar no seminário e, no sábado, foi ordenado padre com apoio de toda a comunidade.

Segundo o bispo Dom Pedro Ercílio Simon, da Diocese de Passo Fundo (RS) e responsável pela ordenação, o casamento foi anulado.

Religioso desde criança, o agricultor estudou teologia em Passo Fundo e passou por dificuldades para realizar o sonho. “Eu posso dizer que tudo foi um processo, uma caminhada. Mas eu penso que em tudo tem a mão de Deus também”, disse Burille.

A cerimônia foi acompanhada pela filha de Burille, Samara, que tem 16 anos. “É diferente. Muitos pais se casam de novo quando se separam. Essas coisas não acontecem todo dia”, disse.

A primeira missa realizada pelo padre Osmar Burille estava marcada para este domingo (21).

OEA revoga suspensão a Cuba depois de 47 anos

A decisão abre caminho para a volta de Cuba à organização

Após dias de impasse, os países membros da OEA (Organização dos Estados Americanos) decidiram nesta quarta-feira levantar a suspensão imposta a Cuba ainda na Guerra Fria, o que pode permitir que a ilha seja reincorporada ao sistema interamericano.

“A resolução sexta, adotada em 31 de janeiro de 1962 na 8ª reunião da qual se excluiu o governo de Cuba, fica sem efeito na Organização dos Estados Americanos”, afirmou a chanceler de Honduras, Patricia Rodas, ao ler a resolução do organismo.

“Que a participação de Cuba na OEA seja resultado de um diálogo realizado a pedido do governo de Cuba e de conformidade com a prática e os princípios” da entidade, acrescentou.

Cuba foi suspensa da OEA em 1962. Na ocasião, os países membros consideraram o regime adotado pela ilha incompatível com os princípios da entidade.

“Hoje demos um passo histórico”, disse Ruy de Lima Casaes e Silva, embaixador brasileiro na OEA. “Enterramos o cadáver insepulto que era um obstáculo para um sistema interamericano inclusivo e solidário.”

Para o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, a medida corrige um “erro histórico”.

“Todos os Estados têm o direito de eleger, sem ingerência externa, seus sistema político, econômico e social”, afirmou Zelaya, logo após a leitura da resolução. “A Guerra Fria terminou hoje, aqui em San Pedro Sula. O erro cometido não poderia ser eterno.”

“Milagre”

A decisão surpreendeu as expectativas dos chanceleres reunidos em San Pedro Sula, no nordeste de Honduras. Mais cedo, o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, havia admitido que um acordo entre os países neste momento seria “um milagre”.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deixou a reunião na noite da segunda-feira advertindo que não havia consenso entre os países e que a posição dos Estados Unidos estava praticamente isolada.

Ao abandonar o encontro, Hillary disse que uma delegação americana acompanharia o prosseguimento da reunião e continuaria pressionando os outros membros da OEA para chegar a um resultado que os Estados Unidos pudessem apoiar.

A reincorporação de Cuba à OEA também depende ainda do governo cubano. Tanto o líder Fidel Castro como seu irmão e presidente, Raúl Castro, afirmaram que não estão interessados em voltar à entidade por considerarem que trata-se de um “instrumento” dos Estados Unidos para o controle regional.

Em seu último artigo, Fidel Castro acusou a OEA de ser “cúmplice” de crimes cometidos contra Cuba.

Correspondência com amiga de juventude pode atrasar beatificação de papa João Paulo 2º

O papa João Paulo 2º em foto de 2002 (AP)

Papa João Paulo 2º trocou cartas por 55 anos com amiga polonesa

A troca de correspondências entre o papa João Paulo 2º e a amiga psiquiatra polonesa Wanda Poltawska, durante mais de 50 anos de amizade, pode atrasar o processo de beatificação do papa, de acordo com informações divulgadas pelo jornal italiano La Stampa neste final de semana.

O atraso, segundo o La Stampa, pode acontecer porque a correspondência entre Karol Wojtyla e Wanda Poltawska não foi totalmente disponibilizada para a comissão que cuida do processo de beatificação do papa, que foi iniciado poucas semanas após a sua morte, em abril de 2005.

De acordo com a publicação, Wanda Poltawska agora deverá entregar todas as cartas, para que elas sejam analisadas pelos peritos do Vaticano.

“Os teólogos examinadores devem pedir todo o material conservado pela senhora Poltawska, para eliminar dúvidas e ambiguidades que possam motivar contestações futuras, ligadas à inédita correspondência com uma mulher leiga, cujo conteúdo é desconhecido em todo o Vaticano”, disse ao jornal La Stampa o cardeal José Saraiva Martins, prefeito emérito da congregação para a causa dos santos, que deu inicio ao processo de beatificação.

De acordo com o cardeal Saraiva Martins, toda a correspondência pessoal deveria ter sido entregue durante a fase diocesana do processo, em Cracóvia, na Polônia. Agora, que o processo chegou a Roma, será preciso mais tempo de trabalho por parte da comissão vaticana, composta por oito teólogos.

“São 55 anos de correspondência, uma vida, portanto será preciso pesquisar mais para evitar problemas futuros, inclusive, porque não é comum uma correspondência tão ampla entre o papa e uma amiga de juventude”, afirmou o cardeal, segundo a publicação.

Campo de concentração

A amizade entre Karol Wojtyla e Wanda nasceu quando os dois eram jovens, logo após a Segunda Guerra Mundial, durante a qual ela ficou presa em um campo de concentração, onde foi cobaia de experiências de médicos nazistas.

Poltawska visitou diversas vezes o papa no Vaticano, em sua residência de verão, em Castelgandolfo, e até no hospital onde João Paulo 2° ficou internado após o atentado de 1981. No hospital, ela disse que lia romances em polonês para ele.

“Passei a metade de seu último ano de vida em Roma. Estava também a seu lado no dia 2 de abril de 2005, no quarto onde morreu, no Vaticano”, disse Wanda Poltawska ao jornal.

Ela, o marido e os filhos, teriam se tornado muito próximos de João Paulo 2°.

Amizade

O padre Adam Boniecki, colaborador de Karol Wojtyla quando era bispo de Cracóvia e depois no Vaticano, disse ao La Stampa que João Paulo 2° sempre se relacionou de forma espontânea com leigos e religiosos. A presença de Wanda Poltawska e sua familiaridade com o papa, no entanto, provocava desconforto e mau humor na Cúria, segundo ele.

Na opinião do vaticanista Andréa Tornielli, não há nada de suspeito na amizade entre Wojtyla e Wanda Poltawska.

“Pensar que destas cartas possa aparecer uma relação não limpa entre os dois quer dizer que não se entendeu nada sobre papa Wojtyla. Ele acompanhou e ajudou Wanda a esquecer o drama que viveu no campo de concentração, abençoou o casamento dela, batizou seus filhos, sempre houve uma grande amizade com toda a família”, disse Tornielli à BBC Brasil.

A senhora Poltawska, atualmente com 88 anos de idade, declarou ao jornal La Stampa, que tem uma “mala cheia” de cartas, e que não destruiu nenhuma.

Parte das cartas foi entregue aos examinadores da causa de beatificação em Cracóvia, e outra parte foi publicada em forma de livro. A maioria delas, no entanto, continua guardada em sua casa.

Em algumas das cartas, publicadas pelo jornal no domingo passado, eles escrevem sobre a doença de Wanda (um tumor do qual ficou curada) e sobre as próximas férias que passariam juntos.

Contradições

De acordo com o vaticanista Andréa Tornielli, nas cartas não há nada de negativo contra João Paulo 2°, que costumava manter uma relação epistolar e de amizade com muitos jovens e casais que havia acompanhado espiritualmente.

O problema, segundo ele, é que nas cartas há informações que não coincidem com as que o secretário do papa, cardeal Stanislaw Dziwisz, forneceu ao Vaticano.

“Creio que haja contradições entre algumas coisas escritas e testemunhadas por Wanda Poltawska e o que foi escrito e testemunhado pelo secretário, sobretudo no que se refere à nomeação de alguns bispos”.

Processo

Na avaliação do vaticanista Andréa Tornielli, se fosse necessário analisar toda a documentação relativa a João Paulo 2°, o processo de beatificação ficaria parado, pois, durante 27 anos de pontificado, foram acumuladas toneladas de material.

“O arquivo secreto do Vaticano nem chegou a ser consultado. Há muito material que não foi entregue ou consultado e pessoas que não testemunharam. Se fosse preciso esperar todos, levaria 10 anos só para começar a escrever”, afirma.

Os peritos do Vaticano examinaram a “Positio”, documentos e depoimentos relativos ao processo de beatificação de João Paulo 2°, no último dia 13 de maio. Nesta avaliação, eles teriam levantado dúvidas a respeito de alguns pontos.

Entre os itens que precisam de um exame mais detalhado estariam as nomeações de alguns bispos criticados por sua conduta moral e o beijo que João Paulo 2° teria dado no Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, em maio de 1999, durante visita ao Vaticano de uma delegação iraquiana.

“Nas fotografias é evidente o que o papa está fazendo (beijando o Alcorão), mas o secretário Dziwisz, no entanto, afirma que aquele beijo jamais existiu”, diz Tornielli.

Segundo o vaticanista, os depoimentos do cardeal Stanislaw Dziwisz são a base mais importante da causa de beatificação.

Outro ponto que deve ser analisado seria um possível financiamento ao “Solidariedade” – sindicato polonês que teve influência na queda do regime comunista – e o caso do arcebispo Paul Marcinkus, ex-presidente do IOR, banco vaticano, envolvido em operações ilícitas.

Análises mais detalhadas destes itens poderiam provocar uma lentidão no andamento do processo de beatificação, que, graças à decisão do atual pontífice, Bento 16, foi iniciado poucos dias após a morte de Karol Wojtyla.

Tradicionalmente, seria necessário esperar cinco anos para se iniciar o processo.