Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

CENAS DE VERÃO III: O PADRE E O PINSCHER

Para boa parcela dos gaúchos que desfrutamos apenas de um breve e instável verão, ir à praia entre o Natal e o Carnaval é praticamente um ritual. Para muitos, mais do que o mar, o sol e a areia, os poucos dias ou semanas – para os mais agraciados, um mês! – tornam-se uma espécie de parêntesis onde se pode viver a distopia do quotidiano assoberbado por trabalho, compromissos, aparências e rotinas. Aproveita-se este tempo, mesmo que breve, para não fazer nada ou para fazer aquilo que não se pode fazer durante o ano. Para o bem ou para o mal…
Uma das coisas que muito me impressiona no Litoral Norte gaúcho é a frequência das pessoas às igrejas. Falo, concretamente, da Igreja Católica. Em cada pequena praia há uma capela. Algumas em condições precárias que só funcionam durante o veraneio. Outras, com sólidas estruturas e que funcionam o ano todo. Em umas e outras, é quase corrente haver missa todos os dias. Padres que se deslocam do interior, da serra ou da região metropolitana para descansar e, a convite da comunidade ou por interesse próprio, celebram a missa nas capelas. Tanto nos fins de semana como durante a semana.
Sábado de tarde. Tempo chuvoso e nordestão batendo. Impossível ir à praia. A missa na capela próxima da casa é às 20 horas. Chego quinze minutos antes. O espaço é grande. Cabem, tranquilamente, umas quatrocentas pessoas. Lotada. Consigo um lugar para sentar na fila de bancos do lado direito. Uma enorme variedade de idades, cores e vestimentas. É o Rio Grande mesclado em oração!
Um rapaz com um violão e um pequeno grupo de senhores e senhoras afina a voz para animar a missa. Um ruído no fundo da capela e depois o silêncio. Um perfume de incenso se espalha no ar. Olho para trás e aí está o padre para a procissão de entrada. Idade mediana, entre os 40 e 50. Um pouco mais do que bem paramentado para meu gosto. À sua frente um séquito de seis coroinhas e dois ministros. Os coroinhas marcham à frente com velas e o incenso. Um dos ministros carrega a cruz. O outro a Biblia. Em seguida o padre fechando a procissão e, a seu lado, um pinscher marron-avermelhado. A procissão é acompanhada por um canto tipicamente carismático.
Ao chegar ao altar, depois das devidas genuflexões e inclinações, cada um toma seu lugar. O pinscher também teu o seu. Quando o padre está sentado, descansa deitado entre seus pés. Quando o padre se levanta, o pinscher vai para baixo do altar e permanece de pé, olhando a assembleia. De vez em quando, sabe-se lá se motivado pelo irritante som da microfonia, pelo canto desafinado ou por algum olhar ou gesto de alguém da assembleia, o pequeno cão solta três ou quatro de seus agudos latidos que são pacientemente suportados pelos frequentadores da missa. Afinal, o pinscher é do padre. Os paroquianos o sabem e os visitantes desde o início da missa se deram conta do fato.
O movimento dos coroinhas, dos ministros e do comentarista não provoca qualquer reação do pequeno cão. Mas os latidos se tornam mais agressivos quando as leitoras se aproximam para proclamar os textos bíblicos que antecedem os evangelhos. Parece que ao pinscher do padre não agradam as presenças femininas perto do altar.
Depois do Evangelho, o padre inicia o seu sermão. O pinscher permanece sob o altar olhando a assembleia. A fala se prolonga monotamente mais do que o tempo recomendado. Depois dos primeiros minutos de atenção, os assistentes começam a torcer para que o tempo passe rapidamente. Uns fecham os olhos, talvez lembrando as ondas do mar. Outros ocupam o tempo vasculhando as visagens e vestimentas de seus vizinhos e vizinhas. Nos fundos, não faltam aqueles que aproveitam para dar uma olhadinha nas redes sociais. Na terceira fila do lado oposto de onde estou, uma senhora de meia idade com seu filhinho no colo. Pela aparência, não é veranista. É moradora do local. Talvez uma senhora que tenha trabalhado o dia todo e que, no fim do sábado de labuta, tenha vindo à igreja para encontrar um momento de consolo e esperança. No seu colo, a criança com o rosto tão cansado como o da mãe. Talvez não cansada esta do trabalho, mas da solidão ou quem sabe da fome, da multidão da igreja cheia, do calor que já começa a se tornar incômodo ou do sermão que não termina mais. Previsivelmente, a criança começa a chorar. A mãe tudo faz para acalmá-la. Por um momento, ela cessa seu lamento para em seguida recomeçar. Os circundantes olham, uns com compreensão e comiseração e outros com um certo incômodo. De sob o altar, a cada choro da criança, os agudos latidos do pinscher… O padre, sem interromper a fala que repete as mesmas frases pela enésima vez, olha para a criança, a mãe e o pinscher. Diante dos olhos assustados da assembleia, desce do altar com o microfone e se dirige até a terceira fila onde está a mãe e a ela se dirige falando ao microfone para que toda a igreja ouça: — A senhora, por favor, faz essa criança parar de chorar ou se retira da igreja!
Todos os oitocentos olhos estão cravados na criança e na mulher. Esta, com uma calma muito além do que se poderia esperar da situação, responde tranquilamente: — Quando o senhor fizer o seu cachorro parar de latir, eu faço o meu guri parar de chorar. Mas sair da igreja eu não saio…

O padre olha para a criança, para a mulher, para o pinscher, para a assembleia. Todos os presentes estão com os olhos cravados no padre. Uns olhares sérios, outros interrogativos, risonhos e até desafiadores. Sem abaixar a cabeça nem dizer outra palavra, o padre dá meia volta, retorna ao altar, levanta os braços e inicia a rezar o “Creio em Deus Pai”. A assembleia se levanta. A mulher continua sentada com seu filho que já não chora no colo. O pinscher está sob o altar, de pé, atento ao menor movimento da assembleia. A missa segue…

Cenas de Verão II: o menino e o pitbull

Praia da Conceição. Uma das tantas pequenas e pouco conhecidas praias do Litoral Norte gaúcho. São apenas três ruas ligando a Interpraias e as dunas da orla entre Arroio Teixeira e Curumim. Até os anos 1970, eram apenas algumas choupanas de pescadores e umas poucas casas de madeira de araucária construídas pelos abastados de São Francisco de Paula e Bom Jesus que aqui vinham veranear. A partir dos anos 80 e as sucessivas promessas de abertura da Rota do Sol, chegou o povo de Canela e Gramado. As avenidas foram calçadas e as travessas assinaladas e ocupadas por mais e mais veranistas.Com a finalização da Rota do Sol, veio a invasão dos gringos de Bento Gonçalves e Caxias do Sul. Foram comprando e construindo casas e mansões sempre maiores e melhores que as dos vizinhos. Quem é gringo sabe como é isso…Apesar dessa mudança, a Praia da Conceição continuou sendo eminentemente residencial. O único comércio é o Minimercado Mattos na esquina da Interpraias com a avenida por onde passa o ônibus urbano. Tem de tudo: do pão francês ao material elétrico e hidráulico para concertos básicos. O espaço é pequeno. Tudo apertadinho, especialmente no verão, quando todos buscam este “pronto socorro material”. Na porta de entrada, um enorme cartaz com dois dizeres: “Proibido entrar sem camisa. Proibida a entrada de animais”.Sábado de Carnaval. Chego para buscar o pão para o lanche da tarde. Pequeno tumulto na entrada. Dona Bela, esposa do proprietário e caixa, impede um rapazote sem camisa de entrar. Depois de uma rápida discussão, o rapaz sai e, desde a rua, anuncia em tom de ameaça: — Vou chamar meu pai!Dona Bela olha para seu Ervino que está no açougue que olha para o genro que atende na padaria que olha para a nora que repõe as verduras nas caixas de plástico… Eu olho para os fregueses que se apressam nas compras e, ao sair, se postam na parada de ônibus em frente ao armazém. Algo de ameaçador paira no ar…No momento em que estou colocando as maçãs no saquinho plástico, uma sombra de dois metros tapa a luz do fim da tarde que entra pela porta. Ele aí está, de bermuda e sem camisa, no braço direito uma tatuagem de uma caveira sobre dois fuzis, no esquerdo, o emblema de um time de futebol. A seu lado, um pitbull que lhe chega ao joelho. Sem focinheira nem laço. Solto, pronto para o bote. Atrás dos dois, o rapazote…Olhando ameaçadoramente para os presentes – eu incluído – o homem dirige a palavra ao filho: — Luizinho! O que você queria nesta espelunca? — A tatuagem do dragão com o arco-íris. — Onde é que tá essa p…? — Ali! — Pega logo essa m…O meninote vai passando um por um os saquinhos com as tatuagens até achar a desejada. Olha para o pai. Olha para Dona Bela que segue estática atrás do caixa. O pai toma o filho pelo braço e sem qualquer menção de pagar pelo dragão com arco-íris, toma a porta da rua. O pitbull espera que os dois cheguem a calçada, solta um rosnado, dá meia volta e também parte. Os vira-latas que habitam a entrada do Minimercado Mattos seguem o pitbull a uma cuidadosa distância até este desaparecer na esquina.A parada de ônibus se esvazia. Uns voltam para casa. Outros para o armazém. Dona Bela enxuga o suor. Seu Ervino guarda a faca do açougue. O genro emerge da padaria. Sorrio para Dona Bela, pago minhas contas e retorno para casa. No caminho cruzo com um vira-lata que me rosna insistentemente.  Talvez ele esteja treinando para ser pitbull. Ignoro-o e signo meu caminho pensando no perfume do café colombiano que me espera.

Cenas de Verão I: a menina e o cachorro

Primeiro dia de fevereiro. Primeiro dia de férias. Um dos poucos dias de sol e sem vento no litoral norte gaúcho. Preparo meu mate, junto cadeira e guarda sol e vou até a praia. Água azul e ondas calmas: espetacular. Instalo o guarda sol, acomodo a cadeira e, cuia apos cuia, sorvo o mate embalado pelo rítmico bater das ondas.
A medida que o sol esquenta, a praia vai sendo colorida por outros guarda-sois, cadeiras e pessoas de todas as idades, sexos, pesos, cores e estilos. A poucos metros ao meu lado direito, três mulheres de três distintas gerações: avó, mãe e filha. Da mesma forma que eu tinha feito, instalam seu guarda-sol, duas cadeiras, a toalha e os brinquedos para a menina. Mais uns metros e outra senhora também prepara seu lugar para passar a manhã. Tampouco ela veio sozinha. Acompanha-a um cachorrinho que ela ternamente chama de “filhinho”. Instalado o guarda sol e a cadeira, o cãozinho – aparentemente macho – dá a clássica volta ao redor do sítio e deita-se entre os pés da mamãe.
De forma quase sincronizada, as três senhoras levantam-se e se dirigem até a água. São nada mais que oito a dez metros. A menininha, ocupada com seus brinquedos, continua sob o guarda-sol e o olhar vigilante de duas gerações. O cãozinho, por sua vez, acompanha sua mae até a água. De repente, ao perceber que a criança ficará só, o cao dispara em direção aos guarda-sois. Numa primeira mordida, arrasta a toalha sobre a qual estava sentada a criança. Na segunda, destrói o patinho de borracha. Antes que a terceira dilacere uma mao, um pe ou o rosto da menina, a mae alcança a criança e a protege no seu colo. O cãozinho permanece rosnando ao redor. Sua mãe chega e, olhando a menininha que esconde seu rosto no regaco da mãe, vocifera em tom ameaçador: “– Você devia afastar essa criança daqui. Ela está incomodando meu filhinho! “
A avó, refeita do susto, em silêncio e sabedoria, fecha o guarda-sol, dobra as cadeiras, recolhe toalha e brinquedos e, seguida pela filha e neta, afasta-se para o lado esquerdo de onde estou sentado. A outra senhora também recolhe seu guarda-sol, sua cadeira, seu cãozinho e toma o caminho de casa.
Os olhares dos circundantes que, pela rapidez da cena não puderam intervir, impediam que ela ai continuasse. Era uma manhã de sol, sem vento, de águas limpas e ondas suaves. Algo raro no litoral norte gaúcho.

Três presépios e várias questões

O Natal já passou. A Festa de Reis também. Os presépios foram desarmados e as imagens natalinas retornaram às caixas que as guardarão silenciosamente até o próximo dezembro. Na Liturgia Cristã, já entramos no tempo comum. Mas permitam-me uma pequena reflexão tardia sobre o Natal. Mais propriamente, a reflexão é sobre presépios.
Todos sabemos que a tradição do presépio foi popularizada no Ocidente por São Francisco de Assis. No ano de 1223, o Pobrezinho de Assis, fascinado pelo mistério do Deus que se faz humano tão belamente narrado nos Evangelhos de Mateus e Lucas, decidiu reviver fato tão maravilhoso. Numa gruta, na vilazinha de Greccio, relembrou a cena do nascimento criando um presépio vivo. Tomás de Celano, um dos primeiros biógrafos de Francisco de Assis, assim descreve o primeiro presépio: “A manjedoura que o Santo fez era cheia de feno e foram colocados perto dela um boi e um burro. Acima da manjedoura foi improvisado um altar e nesse cenário ocorreu a missa da meia-noite, na qual o próprio Santo (…) cantou solenemente o Evangelho juntamente com o povo simples e pronunciou um comovente sermão sobre o nascimento do menino Jesus”.
Para os que estamos acostumados com a tradição dos presépios, a cena pode parecer banal. Mas não o era para os homens e as mulheres, especialmente os que se afirmavam cristãos naqueles tempos medievais em que a Igreja se constituía como o grupo social mais rico e poderoso. Nesse contexto, a mise en scène de Francisco era provocativa: uma missa improvisada, celebrada num lugar não consagrado, com o Evangelho lido e interpretado por um leigo. E mais: num mundo em que Deus era representado como O Altíssimo, Francisco o coloca num presépio, ou seja, numa estrebaria, rodeado por bois e por burros… E todos os que fomos criados no campo sabemos das cores e dos odores de uma estrebaria.
Tomás de Celano, assim como os outros biógrafos de Francisco, não relatam as reações dos presentes naquela noite de dezembro de 1223 na Gruta de Greccio. Evadem a questão dizendo que aquele evento foi lembrado por muito tempo e se perpetuou como um símbolo da proposta genial do Santo de Assis.
Mas, hoje, quase mil anos depois, ouso imaginar que a criação de Francisco tenha provocado escândalo semelhante ao do Presépio da Diversidade criado pelo artista plástico paulista Luciano de Almeida. Nele, o artista coloca, junto com as tradicionais figuras da cena, uma prostituta, um casal homossexual, um portador de HIV, um cadeirante, um casal de idosos e vários meninos de rua. Mesmo tendo sido anteriormente exposto em São Paulo, na Alemanha e na Itália, tal montagem provocou grande celeuma nas redes sociais. Grupos fundamentalistas cristãos e movimentos sociais ultraconservadores clamaram contra a presença na cena natalina de um casal homossexual. A pressão foi tanto eu frei Roger Brunório, curador da exposição, teve que retirar o presépio da exposição antes que algo de mais grave acontecesse.
Enquanto isso, vários sites da “grande imprensa” tradicional brasileira anunciavam “presépios de cãezinhos” como “a coisa mais fofa que você verá neste Natal”. Várias imagens ilustravam as chamadas para os “novos presépios”. Nelas, no lugar de Maria, José, os Magos e Pastores, cães e cadelas devidamente ornados com trajes orientais. E, no meio da cena, no lugar do Menino Jesus, um filhotinho deitado numa manjedoura. E o mais surpreendente: nenhuma crítica a tais representações por parte dos cristãos e católicos fundamentalistas e dos grupos conservadores de direita que se pretendem defensores da moral e dos bons costumes!

Três presépios e uma pergunta: a quem os moralistas defendem? Será que Francisco de Assis se sentiria representado pelos presépios que hoje são feitos nas Igrejas, praças públicas, lojas e shopping centers? Ou, se estivesse por aqui hoje, não procuraria uma outra Greccio para reinventar a tradição de Natal? Talvez as favelas, os viadutos, as zonas de prostituição fossem o único lugar onde ele encontraria gente disposta a acreditar que Deus se fez humano e está presente em cada pessoa marginalizada. Inclusive nos casais homossexuais expulsos do presépio pelos puritanos e moralistas. Bem dizia Jesus: “As prostitutas e os publicanos vos precederão no Reino dos Céus”. A prova disso está no próprio presépio: prostitutas e publicanos ali nos precederam!

Ordem e Progresso

Mesmo os críticos mais acerbos do golpe de 2016 temos que reconhecer: a economia está retomando! A mudança é claramente perceptível. Só não enxerga quem não quer.
Mesmo se os dados de todos os telejornais abundantemente irrigados pela propaganda governamental não bastassem para nos convencer disso, uma pequena volta pelas ruas, avenidas, praças e parques de qualquer cidade de médio ou grande porte, maiormente as capitais, é suficiente para nos abrir os olhos à nova realidade de estabilidade e crescimento econômico.
Tomo o exemplo de Porto Alegre. Na esquina da Ipiranga com a Azenha, só havia um rapaz que limpava os para-brisas dos carros. Agora já são dois. 100% de aumento da força de trabalho ocupada! Impressionante mesmo para o mais cético dos economistas. E além dos dois, agora há uma senhora que vende água. E um quarto que faz malabarismos e, em troca, pede gentilmente uns trocados. Em frente à UFRGS, um senhor vestido de palhaço dá, diariamente seu show de pirotecnia e equilíbrio. Antes da crise, ele só trabalhava das 17 às 22h. Agora, com a retomada da economia, ele aí está labutando das 8h da manhã às 23h.
No portão do Banrisul da Avenida Bento Gonçalves, um jovem senhor oferece abacaxi com a opção de inteiro ou em fatias. Isso que ele não é um empreendedor individual. Ele é empregado. E, como a nova legislação trabalhista permite, seu trabalho é intermitente. Só trabalha quando as condições climáticas são ótimas. Em outras palavras, nos dias de chuva, ele não trabalha. Isso só foi possível porque agora já não há, nas negociações trabalhistas, a nefasta interferência dos sindicatos.
E o mais interessante é que o novo espírito econômico começa a vencer os vícios do estado protetor e provocador da inércia. Exemplo deste novo espírito econômico, é a notória quantidade de pessoas que já não esperam pelas benesses do Estado na forma do Minha Casa Minha Vida e, com muita iniciativa e criatividade, fazem das praças, viadutos e marquises seu lugar de moradia. Em alguns pontos há verdadeiros conjuntos habitacionais que renovam a paisagem urbana.
Também no âmbito comercial, no centro de Porto Alegre então, a retomada é fantástica. Em cada esquina e sob cada marquise, verdadeiros shopping centers onde encontra-se de tudo. Pena que o prefeito Despacito Júnior, tão liberal em suas ideias econômicas, teime em querer controlar a livre iniciativa que aos poucos vai demonstrando sua superioridade em relação ao Estado opressor. Não entendo o porquê de, de tempos em tempos, ele jogar sua guarda pretoriana sobre os empreendedores individuais que exercem o comércio nas ruas e praças da capital gaúcha.
Ah! E não podia, é claro, esquecer que a educação empreendedorista está também mostrando seus resultados nas inúmeras crianças que, livres da ideologia que as prendia à tutela do Estado em matéria de educação, alimentação e lazer, lançam-se às ruas e põe-se a labutar para ganhar a própria sobrevivência. Eles não esperam por seus pais inaptos e dependentes das leis trabalhistas. Com 8, 10 ou 12 anos já andam pelos semáforos pedindo um suporte e econômico para suas atividades empreendedoras ou então exercendo o pequeno comercio de todo tipo de mercadoria, desde as importadas da China até a do próprio corpo, para educar-se no espírito empreendedor.
Estamos avançando. É um novo país que se desenha. Viva a nova economia! Viva a liberdade de mercado! Viva o espírito empreendedor! Viva a ordem e o progresso!

Propósitos, planos e projetos

Fim de ano é tempo de propósitos e planos. Tem o fulano que decide parar de fumar. Já o sicrano jura que vai largar sua vida sedentária e incorporar nos seus hábitos uma caminhada diária. O beltrano garante que vai parar de comprar no cartão de crédito. Este afirma com certeza que não vai faltar à missa nos domingos. Já aquele promete que trabalhará um pouco menos para passar mais tempo com os filhos. Cada um com seu propósito. Geralmente muito delimitado e, em princípio, exequível, de curto prazo e mensurável. Quantos conseguirão? A experiência diz que muito poucas pessoas conseguem, de fato, realizar seus propósitos de final de ano… E não é de estranhar. É da própria natureza do propósito que se fundamenta mais na emoção que na razão. Provavelmente os mesmos propósitos serão refeitos no próximo final de ano para não serem executados outra vez.
E há os que fazem planos. Estes pensam a mais longo prazo e se perguntam: o que quero para o final do próximo ano? Onde e como quero estar? Elaborar planos é uma tarefa mais lenta e mais difícil e que vai para além de um final de ano. E mais: os resultados de um plano são, no imediato, menos delimitáveis e tangíveis. Fazer um plano implica em mais trabalho. Estabelecer uma meta, estratégias, atividades, recursos… Muito mais difícil. Por isso menos gente faz planos. Mas, sem que isso seja contraditório, proporcionalmente, quem faz planos tem mais possibilidade de êxito do que quem faz propósitos. O planejador é menos emocional, menos volúvel e mais persistente.
Mas existe um passo que vai além de propósitos e planos. Existem os projetos. E estes ultrapassam a dimensão dos propósitos e dos planos. Um projeto sempre é de longo prazo. Ultrapassa os limites do calendário anual e implica uma decisão de vida. Não se pergunta por onde e como quero estar no final do próximo ano. O projeto exige pensar onde e como quero estar no final desta vida. Ele exige a combinação de diferentes planos convergentes com o fim estabelecido.
Claro: a execução de um projeto implica na elaboração de  planos com a sua racionalidade que por sua vez começa sua implementação com um propósito que só se realiza com a emocionalidade. Um não descarta o outro. Pelo contrário. Exige uma combinação.
Comecei a rabiscar estas reflexões a partir de duas situações que me preocupam. A primeira é a que me ponho como cidadão brasileiro. Depois do 2017 que tivemos e das falas de final de ano das autoridades – executivas, legislativas e judiciárias – tanto no nível federal, como estadual e municipal, a pergunta que me vem é: qual é o projeto que rege os planos e propósitos para o próximo ano? Enquanto cidadãos desta terra brasilis, teremos, no próximo ano, que viver de propósitos ou é possível ter planos e projetos?
A outra preocupação é a que me ponho como cristão, membro da Igreja Católica Romana e profissional do ensino teológico. Depois de um 2017 em que a oposição ao Papa Francisco apareceu de forma articulada e agressiva, é possível sonhar com um projeto de uma “Igreja em saída” para as periferias sociais e existenciais ou teremos que nos contentar com planos e propósitos de curto prazo? Acontecerá com a primavera do Papa Francisco o mesmo que aconteceu com a primavera do Papa João XXIII? Além dos propósitos que se movem pela emoção, há um plano e um projeto de real e radical transformação eclesial?
São preocupações que levo comigo para estes últimos dias de 2017 e espero possamos juntos pensá-las em 2018 e por muito tempo mais.
Feliz Ano Novo!

Mercado em recuperação

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Rapadura de Santo Antônio da Patrulha! Rapadura de amendoim, rapadura palha, puxa-puxa, mandolate! Direto da fábrica. Olha aí! Não perca a oportunidade. Rapadura direto da fábrica de Santo Antônio da Patrulha! Rapadura de amendoim, rapadura palha, puxa-puxa, mandolate! Direto de fábrica aqui em frente à sua casa!
Aí tio! Vai querer um sonho? Tem de recheado com chocolate, doce de leite e doce de amendoim. Vai querer um sonho? Ah! Vai, tio! Compra por favor…

É verão!

Para os que vivemos em regiões subtropicais nas quais as quatro estações são marcadamente identificadas, o verão é assustadoramente revelador. Depois do friorento inverno em que nos ocultamos sob espessas camadas de roupas e da indecisa primavera onde, por salutar precaução, hesitamos em manter ou não manter a proteção, finalmente, com o subir dos números do mostrador termométrico, paulatinamente e sem retorno, vamos libertando nosso corpo do peso de meias, sapatos, botas, camisas de manga longa, blusas, casacos, mantas, cachecóis, sobretudos, toucas, chapéus e outros adereços que protegem e, ao mesmo tempo, ocultam nosso corpo.
E é nesse momento que aparecem as assustadoras revelações. O que estava escondido é inexoravelmente mostrado. Dobras, saliências, reentrâncias e protuberâncias corporais que, quando em sua dimensão natural são esteticamente aprazíveis, com o acúmulo hibernal de calorias, carboidratos e lipídios, ganham ares de deformação e teimam em fazer sua aparição nas zonas do corpo que os chinelos, camisetas e bermudas, por mais amplas, folgadas e esticadas que sejam, não conseguem esconder.
Tempo terrível e revelador o do verão! Ainda mais numa época como a nossa em que a obesidade tornou-se uma verdadeira epidemia que preocupa não só aos que vivemos no sobrepeso beirando a obesidade. A Organização Mundial da Saúde, entre outros organismos internacionais, bem como autoridades responsáveis pelo bem estar da população dos principais países do mundo, estão preocupadas com esse grave problema de saúde pública que tem como fatores principais o sedentarismo e o consumo de alimentos ultra processados.
Para nosso consolo e salvação, as autoridades brasileiras não estão se omitem e tomam as medidas necessárias para que a obesidade seja vencida e assim possamos retomar a felicidade de ter um corpo que, mesmo que não chegue às dimensões de uma “Garota de Ipanema”, pelo menos possa ser exibido sem temor tanto na praia como na cidade.
Mesmo que muitos, por cegueira ou preconceito ideológico, não o queiram reconhecer, o aumento semanal do preço dos combustíveis praticado pela Petrobrás a partir da nova política de mercado, fará com que os brasileiros e brasileiras abandonem o mau hábito de andar de carro, de ônibus e de trem e passem a se deslocar a pé pelas ruas das cidades e pelas estradas do campo. Outra medida ainda não tomada, mas já em estudos avançados, é a de suspender o transporte escolar para estudantes do interior dos municípios e a meia passagem para as crianças, adolescentes e jovens das cidades. Com isso se atacaria o problema em seus primeiros anos de desenvolvimento que é a obesidade infanto-juvenil e suas terríveis consequências como o diabetes infantil. Autoridades com uma visão mais radical propõe também que se suprima o passe livre no transporte coletivo urbano para a terceira idade. Assim se evitaria a obesidade senil e suas terríveis consequências para as pessoas que já passaram dos 65 anos.
Mas a medida mais radical e necessária já foi tomada e começa a surtir efeito para a felicidade geral de todos os que tememos o verão. O aumento do preço do gás de cozinha em quase 100% está fazendo com que as famílias brasileiras tenham que optar entre comprar gás ou comprar comida. Segundo os estudiosos da saúde pública que subsidiam as autoridades econômicas do Brasil, qualquer uma das opções terá efeitos positivos. Se o pai ou mãe de família optar por comprar gás, não poderá comprar comida e assim não haverá risco de que os filhos comam em demasia e engordem. Se optar por comprar comida, não terá gás para cozinhar e assim os alimentos serão consumidos em sua forma natural, o que é muito mais saudável.
Por isso, brasileiros e brasileiras, nada de temer o verão e nem de temer o Temer. Mais alguns anos de saudáveis políticas econômicas neoliberais e todos estaremos livres e tranquilos quando o verão chegar para exibirmos nossos corpos sem qualquer acumulação indevida. Bom verão a todos e todas!

Entre tinieblas

O filme é antigo. Em português ganhou o título de “Maus hábitos”. Foi o primeiro rodado por Pedro Almodóvar em um estúdio e com uma equipe profissional. Era o ano de 1983. A Espanha ainda vivia a transição do franquismo para o regime democrático. A liberdade de expressão era uma novidade e o genial cineasta surge em meio à movida madrileña atacando um dos pilares da ditadura que governara o país ibérico desde a década de 1930 através do terror e da formação das consciências dentro de uma rígida moral católica tradicionalista.
O argumento do filme, no original intitulado “Entre tinieblas”, é simples: uma cantora de cabaré, Yolanda Bel, leva uma vida desregrada, regada a drogas e sexo, até o dia em que presencia a morte de seu namorado por overdose. Para fugir da polícia que a busca por tráfico, Yolanda se refugia num mosteiro de religiosas. Para estranheza da fugitiva, todas as irmãs do convento haviam sido prostitutas, cafetinas, viciadas, criminosas ou duas ou mais destas coisas ao mesmo tempo…
A Congregação da qual o convento faz parte é a das “Redentoras Humilhadas”. Para indicar a missão, todas elas abandonam seus antigos nomes e adotam nomes que indicam sua condição pecadora. Seu objetivo é resgatar jovens mulheres que vivem no pecado. Aos poucos, e para surpresa sua, Yolanda descobre que as irmãs, no afã de extirpar os vícios das jovens mulheres da sociedade madrilena, elas mesmas continuavam vítimas dos vícios que condenavam nas outras. A tensão gerada pelo afã da dura missão fazia com que, cada uma delas encontrasse nos vícios que pretendia combater uma válvula de escape para tornar a vida na clausura mais suportável.
Assim, a Madre Superiora, que se dedica a acolher as jovens que, como Yolanda, eram presas pela prostituição, ela mesma acabava criando jogos de sedução e prazer sexual com as novatas que chegam ao convento. Irmã Perdida, por sua vez, que tem como preocupação acolher as dependentes de drogas, faz do consumo do LSD um caminho para supostas para experiências espirituais que, na verdade, são experiências químicas. Irmã Ratazana de Esgoto e Irmã Víbora, recuperadoras de mulheres que vivem a frívola vida da ascendente burguesia espanhola impulsionada pela retomada econômica da Europa, têm como passatempo, a primeira, escrever, sob pseudônimo, livros sensacionalistas e, a segunda, criar roupas vanguardistas para os santos da capela do convento.
O roteiro do filme avança com a complexidade das tramas típicas de Pedro Almodóvar que levariam a clássicos como “Carne Trêmula” (1997), “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), “Fale com Ela” (2002), “Má Educação” (2004) e o insuperável “Volver” (2006). Ah! E não podia de deixar de mencionar “A Pele que Habito” (2011).
Mas voltemos a “Entre Tinieblas/Maus Hábitos”. Lembrei deste filme ontem, quando vi, estupefato, na televisão, a imagem das três equipes da Força Tarefa da Lava Jato reunidas no Rio de Janeiro para preparar o Combate Final (sic!) contra a corrupção no Brasil. Combate que, segundo o porta voz das equipes, o impagável Profeta-do-Apocalipse-do-Power-Point-das-Bolinhas-Azuis, terá que ser assestado antes das eleições de 2018. A televisão, numa mise em scène típica de um filme de segunda categoria, ia focando um a um os personagens da insólita reunião. A medida que os rostos iam aparecendo em close up, não tive como não lembrar da Madre Superiora, da Irmã Perdida, da Irmã Ratazana de Esgoto e da Irmã Víbora e sua tentativa de livrar o mundo dos vícios.

E, como a fugitiva Yolanda, me perguntei: será que, para acabar com a corrupção, teremos que nos tornar tão corruptos quanto aqueles que queremos combater? Só a genialidade de uma trama de Almodóvar para nos conduzir na busca de uma saída para o labirinto de trevas em que nossos maus hábitos nos colocaram.

Francisco, Lutero e Francisco

Neste dia 31 de outubro, data em que se comemoram as muitas reformas religiosas do séc. XVI, me encontro a imaginar uma conversa entre Francisco de Assis e Lutero…
– Bom te ver, aqui, Frei Francisco, o grande fundador da Ordem dos Frades Menores.
– Bom te ver também, Frei Martinho, o grande fundador da Igreja Luterana!
– Pois é, Frei Francisco… Mas a verdade é que eu nunca quis fundar uma igreja. Meu único desejo era ver a única Igreja de Cristo toda ela reformada.
– Coincidência, Frei Martinho! Eu também nunca quis fundar uma Ordem Religiosa. Eu só queria que todos os cristãos, desde os mais simples até o Papa, apenas vivessem o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, pobre, humilde e obediente. Até hoje não me conformo que os frades tenham aceito uma regra, conventos, títulos… Tem até frade que é bispo, cardeal! Acho que falhei em alguma coisa.
– Eu também acho que falhei. Eu só queria que a Igreja voltasse a viver o Evangelho de Jesus Cristo e deixasse de se preocupar com riqueza e poder.
– Pois era isso exatamente o que eu queria: uma Igreja pobre e que estivesse junto dos pobres.
– Meu problema acho que foram os príncipes alemães que se aproveitaram da insatisfação religiosa e a direcionaram para seus interesses políticos. E eu, ingenuamente, crendo que eles tivessem boa vontade, me deixei levar por sua proteção e seus benesses. Erro meu!
– Eu resisti até o fim. Renunciei à liderança da fraternidade fugi para as montanhas, fiz jejum, muita oração, meu corpo ficou todo dilacerado, escrevi para os frades um Testamento dizendo quais eram meus desejos e intenções… mas não adiantou! O canto de sereia das benesses eclesiásticas foi mais forte e o movimento foi domesticado. Por sorte teve Clara de Assis, minha companheira desde a juventude, que se manteve até o fim, até fazendo greve de fome. E depois vieram os frades que se chamavam de espirituais, pois diziam que o único superior da Ordem é o Espírito Santo e que os frades não podem ter nenhuma propriedade. Mas foram expulsos da Igreja como hereges…
– Pois, ouviste, Frei Francisco, falar desse Papa que aí está, que aliás, leva o teu nome, o Papa Francisco?
– Sim, e parece que ele também está tendo problemas com a Igreja..
– Mas ele não é o Papa?
-É, sim. Só que é um Papa meio estranho. Ele quer uma Igreja pobre e com os pobres. E muita gente na Igreja, principalmente alguns cardeais, bispos, padres, não estão a fim de deixar seu poder e sua riqueza para servir aos mais fracos e humildes…
– Bah! Se o Papa do meu tempo fosse assim, eu não teria pregado as 95 teses na Igreja de Wittenburg. Teria feito uma aliança com ele e teríamos mudado a Igreja.
– Será que ele vai conseguir mudar a Igreja?
– Eu só espero que os seus seguidores não sejam obrigados a fundar outra Igreja. Já chega de divisões na Igreja de Cristo.
– E eu espero que ele não seja obrigado a fundar mais uma Ordem Religiosa. Já tem demais…
– Prazer te ver, Frei Francisco.
– Prazer foi meu, Frei Martinho. Quer vir jantar lá em casa?
– Com certeza. Mas antes da janta, vais ter que me deixar fazer um sermão sobre a Carta aos Romanos.
– Sem problema! Desde que tu me deixes eu te lavar os pés antes da leitura.
– De acordo. Até logo…