A INSUSTENTÁVEL PARRESIA DO PAPA FRANCISCO

Amor e ódio. Diante dele ninguém ficava indiferente. Por quê? Porque ele não passava insensível
ante os grandes problemas da humanidade que se apresentavam a seus olhos nos rostos, corpos e
mentes de pessoas concretas que com ele cruzavam pelos caminhos da Galileia. As multidões
ficavam encantadas com seus gestos de carinho, compaixão, cura e perdão para com leprosos,
endemoninhados, aleijados, cegos, surdos, velhos, crianças, mulheres, estrangeiros, mulheres
estrangeiras, mulheres prostituídas, viúvas… Até mesmo os ricos publicanos por todos desprezados
e os soldados romanos pelos judeus odiados encontravam nele palavras e ações de aproximação e
apelo à conversão para a justiça do Reino.

Para os fracos, suas palavras eram suaves e ternas e não lhes impunha jugo algum. Para os fortes e
poderosos, palavras duras e exigências que não pediam apenas a conversão pessoal. Iam muito
além. A conversão por ele pregada implicava no fim do sistema de exploração tanto dos poderosos
da terra como de seus superiores romanos. Aos judeus pedia a justiça do “Ano da Misericórdia”.
Aos romanos, que voltassem para sua cidade e deixassem o Povo de Deus livre para o culto a Javé.

Qual a diferença entre o “Ano da Graça” com o qual Jesus abriu sua missão e o “Ano da
Misericórdia” que marcou o início do pontificado do Papa Francisco? Nenhuma! Graça e
misericórdia são duas palavras para falar do mesmo amor de Deus que vence o medo das religiões e
impérios que massacram a pessoa humana. Jesus iniciou sua missão na periferia da Galileia, região
desprezada pelos judeus e temida pelos romanos como fonte de distúrbios e provocações. O Papa
Francisco foi a Lampedusa acolher os desprezados da Europa e do mundo. Jesus reuniu junto a si
desempregados, pescadores, coletores de impostos e mulheres para fazer deles os anunciadores da
justiça e da graça de Deus. O Papa Francisco se reunião com os Movimentos Sociais e proclamou
que a justiça é que nenhuma família pode ficar sem teto, nenhum camponês sem terra, e nenhum
trabalhador sem emprego. O Filho do Homem não tinha onde reclinar sua cabeça e enviou seus
discípulos sem mochila, com apenas uma túnica e um par de sandálias. O Papa Francisco recusou
desde o princípio e persiste em manter-se distante de palácios, roupas, sapatos, faustos e honras dos
príncipes deste mundo e da Cúria Romana. Assim como Jesus se recusou a condenar a mulher que
lhe foi apresentada como adúltera, Jesus, ante aqueles indiciados como portadores de pecado ao
mundo, o Papa lembra que Jesus é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e pergunta:
“quem sou eu para condenar?”

O Papa é amado e odiado por uma única razão: ele insiste em ser simplesmente um cristão. E seu
cristianismo não se resume à afirmação de uma pertença religiosa. Seu cristianismo é uma fé, uma
aposta de vida, total, absoluta e, ao mesmo tempo, cotidiana e performática. Assim como Jesus, ele
não apenas fala. Ele também faz. E seu agir, provoca amor e ódio como todos os profetas que antes
dele percorreram o caminho da Esperança que passa, necessariamente, pela cruz.

NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A PAZ!

Conforme a narrativa do evangelista João, as primeiras experiências do encontro da comunidade com o Ressuscitado acontecem “no primeiro dia da semana”.

Para nós, cristãos, acostumados com o calendário que consagra este acontecimento, o primeiro dia da semana é o domingo, dia consagrado de encontro com a comunidade e com o Senhor. Para os homens e mulheres que seguiam a Jesus, o primeiro dia da semana era dia de labuta, de volta às atividades diárias depois do descanso sagrado do sábado. O “primeiro dia da semana” dos judeus equivaleria à nossa segunda-feira. Foi nesse dia normal, profano, laboral, que Jesus se manifestou às discípulas e discípulos.

A primeira experiência do ressuscitado foi a de Maria Madalena junto ao sepulcro. Diferentemente de Pedro e João que viram o sepulcro vazio e não ligaram o que os seus olhos viam com o que ensinava a Escritura, Maria Madalena, ao ser chamada pelo nome, reconheceu a ressurreição de Jesus e o cumprimento da promessa da vitória da morte sobre a vida.
A segunda experiência com o ressuscitado aconteceu na tarde daquele primeiro dia. Desta vez, não apenas a Maria Madalena, Pedro e João. É toda a comunidade dos discípulos e discípulas que é encontrada por Jesus. Com efeito, eles estavam fugindo, estavam com medo de que o que aconteceu com Jesus pudesse acontecer com eles também. Não seria absurdo se as cruzes que sustentaram o corpo de Jesus e os corpos de seus dois companheiros, fossem ocupadas para pender os corpos daqueles que com Ele tinham feito o caminho da Galileia a Jerusalém. Aqueles homens e mulheres sabiam muito bem de que o Império Romano era capaz. E sabiam eles também do que era capaz o povo judeu espezinhado e humilhado pelo portentoso império. A cada ano, quase sempre no tempo da Páscoa que celebrava a libertação da escravidão do Egito, grupos de judeus tomavam em armas e manifestavam sua revolta e cólera atacando e, quando possível, assassinando os soldados invasores. E o sangue – tanto judeu como romano – jorrava pelos campos, colinas, montanhas, caminhos, vilarejos, cidades e até na Cidade de Jerusalém e – para horror de todos – até no Templo Santo.
É nesse clima de terror imperial e ódio popular contra os romanos e seus testa de ferro locais que Jesus se faz presente no meio deles e lhes oferece a paz. Oito dias depois ele novamente se dirigiu aos discípulos e discípulas e saudou-os dizendo “a paz esteja com vocês!” Por que tanta insistência em Jesus nesta saudação de paz? Primeiro, como os textos mesmo o explicitam, porque aqueles homens e mulheres tinham sido tomados pelo medo do império opressor e seus sequazes nacionais que impunham a ordem à ferro, fogo e crucificações. Segundo, por que havia a tentação, entre os próprios discípulos, de revidar da mesma forma e fazer girar a roda insana da violência que se alimenta da própria violência.
Hoje, no nosso contexto, todos sabemos como essa roda insana funciona. À violência dos que muito têm para proteger-se dos despossuídos da terra gera reações de violência que justificam mais repressão e morte. E isso acontece tanto em escala global como em escala local e até mesmo nas relações individuais quando a legalização da violência e de seus instrumentos de execução é apresentada como única forma de se obter segurança.
Mas, segurança não é paz! A segurança é fruto do medo. E mais do que eliminar o medo, ela o aumenta, pois, ao rodear-se de grades, cercas, muros e armas, a pessoa ou grupo de pessoas reconhece que o suposto inimigo continua vivo do outro lado do muro. Seja do lado de dentro ou seja do lado de fora. A paz, a verdadeira paz, só é possível quando os muros forem destruídos e as armas atrás deles ou encima deles postadas forem transformadas em foices e arados, como já dizia antigamente o profeta Isaías.
Essa paz, no entanto, como bem o mostra o evangelista João, só pode ser proclamada e realizada por aqueles e aquelas que foram capazes de vencer a morte. É a paz daquele que fez justiça para com o injustiçado e assim iniciou um futuro de novas relações onde não mais há opressores e espezinhados.
O que venceu a morte, não foi a força do Império Romano com suas legiões armadas com lanças, flechas, carros, cavalos e o terror da cruz justificado pelos juízes sedentos de vingança que aplicavam seletivamente as leis, tanto judaicas como romanas, que não admitiam que um pobre camponês fosse reconhecido pelo povo como seu verdadeiro líder. O que venceu a morte, foi o humilde nazareno que passou a vida consolando os pais que perderam seus filhos assassinados pelos guardas do Templo e pelos soldados romanos, as mães que tiveram suas filhas raptadas ou estupradas pelo patriarcado factual e legal, os doentes e leprosos expulsos da cidade para não contaminarem os saudáveis cidadãos que tinham acesso à medicina, as crianças das ruas e praças dos vilarejos a quem era negada a condição humana e podiam ser eliminados para não enfeiar os passeis dos puros e limpos em direção ao Templo.
O que venceu a morte e podia proclamar a paz como modo de vida, é aquele que ensinou que, repartindo o pão acumulado nos silos e alforjes, é possível alimentar as multidões famintas e assim iniciar a romper o ciclo da violência que degrada tanto aos que a exercem como aos que a sofrem.
Neste tempo pascal, deixemo-nos saudar com a paz que nasce da justiça que liberta aqueles e aquelas que foram injustamente condenados pelos poderosos que clamam discursos de pacificação, prendem, condenam e matam. Não nos deixemos vencem pelo discursos de ódio e pela propaganda da violência. Não deixemos que nos roubem a paz!

"NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A ESPERANÇA!"

“Não tenhais medo!” São essas as primeiras palavras que, segundo o Evangelho de Marcos, Jesus diz às mulheres – Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé – que vão ao sepulcro para ungir seu corpo. Jesus sabia que elas não tinham medo. Afinal, se tiveram a coragem de levantar-se de madrugada para ir ao local onde o corpo do mestre havia sido depositado e dar-lhe as honras fúnebres como mandava a tradição judaica, era porque elas já haviam vencido o medo.
Mas, medo de que? Do Ressuscitado? Do Anjo que se fez ver? Não… Nada disso! Fazer tal afirmação é desconhecer o contexto em que se deu a morte de Jesus.
O medo ao qual Jesus se refere, era o medo da cruz. Era o medo do suplício infligido pelas autoridades romanas a todos aqueles que ousavam levantar-se contra o seu jugo dominador. Dentro do “terror de Estado” imposto pelas tropas romanas sobre as populações subjugadas, as crucificações, geralmente múltiplas – é sempre bom lembrar que Jesus não foi crucificado sozinho – tinham como objetivo, além de eliminar um revoltoso, evitar que outros seguissem no mesmo caminho. Para tal, utilizava-se o instrumento de tortura inventado pelos persas, introduzido no Ocidente por Alexandre Magno e otimizado pelos romanos: a crucificação.
O objetivo de tal método de tortura e morte não era o de matar, mas prolongar pelo máximo de tempo o sofrimento do prisioneiro. Tal macabro espetáculo – sempre levado a cabo de forma espetacular – era um forte antídoto contra toda ânsia de contestação da dominação romana.
Do ponto de vista romano, a morte na cruz de Jesus foi um fracasso. Ele morreu rapidamente e seu corpo não ficou exposto até ser consumido pelas aves do céu. Mesmo assim, haviam alcançado seu objetivo: os discípulos, aterrorizados com o sucedido ao seu mestre, haviam fugido e retornado aos seus lugares de origem. Os pescadores – seis dentre os doze discípulos – haviam voltado ao lago para pescar. Mateus talvez tenha retomado sua banca de impostos… Dos outros, não há notícias. Só as mulheres ficaram ao pé da cruz. Só elas não se deixaram vencer pelo terror de estado do Império Romano. Por isso vieram até o sepulcro trazendo os óleos aromáticos para ungir o corpo de Jesus.
Dentro da tradição judaica, tal gesto era um sinal de esperança. Ungir o corpo de um prisioneiro trucidado pelo poder imperial, era afirmar que, acima do poder do tirano facínora, está o poder de Deus que fará justiça para com o injustiçado. E império nenhum tolera tal ato de sublevação simbólica. Nem os de ontem e nem os de hoje.
Jesus apresentara-se na sinagoga de Nazara como aquele que veio libertar os aprisionados pelo poder opressor dos latifundiários da Galileia, dos sacerdotes de Jerusalém e dos ocupantes helenistas e romanos. As mulheres, indo ao túmulo para ungir Jesus, estavam afirmando que, apesar do brutal assassinato cometido contra Jesus e suas esperanças, continuavam a acreditar que a justiça para com os pobres da terra um dia será realidade. Por isso, sua vitória sobre o medo tinha que ser reafirmada e anunciada a todos os que estavam sobre a tentação de deixar-se vencer pela desesperança.
Hoje e sempre, visitar e consolar os injustamente aprisionados pelo poder opressor é um sinal revolucionário e de esperança. Recolher e cuidar dos corpos e mentes trucidadas pela sanha exploradora de um sistema econômico que vê as pessoas apenas como força mecânica e intelectual para obter mais lucro, é confirmar nossa fé no Deus que não deixa o seu justo na morte para sempre. Crer no ressuscitado, é afirmar a certeza da vitória dos aprisionados e crucificados sobre os seus algozes.

E nesse contexto que, como nos lembra o Papa Francisco, “o triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal.”

QUEM ESTIVER SEM PECADO DISPARE O PRIMEIRO TIRO

Todos os que tem uma mínima familiaridade com a Bíblia cristã lembram com facilidade o episódio apresentado pela liturgia no Quinto Domingo do Tempo da Quaresma. Trata-se da perícope de abertura do capítulo 9 do Evangelho do João.
Numa mis-en-cène típica da tradição joanina, os fariseus e doutores da Lei trazem até Jesus uma mulher flagrada em adultério. Diferentemente do que se diz em muitos sermões, não se trata de uma prostituta, mas de uma mulher, casada, que traiu seu marido com outro homem. O detalhe da acusação é que os homens que trazem a mulher até Jesus viram, com os próprios olhos, a mulher adulterando. Por consequência, viram também o homem com o qual a mulher estava a adulterar. E, assim como prenderam a mulher e a levaram até Jesus, poderiam também ter apreendido o adúltero e tê-lo trazido até Jesus para ser apedrejado. Mas não! Eles trazem só a mulher… E a Lei de Moisés, no capítulo 20 do Livro do Levítico, mandava que o homem fosse apedrejado junto com a mulher. Dentro da mentalidade patriarcal e machista, era o homem o sujeito principal do adultério e ele deveria ser apedrejado por primeiro. A mulher devia ser apedrejada junto com ele. Mas por que apedrejar a mulher pelo simples fato de ter sido vítima do adultério?
Essa interpretação é corroborada pelas leis que se seguem e tratam da zoofilia. A Lei ordena que um homem que tenha relações sexuais com um animal seja apedrejado. O mesmo para o caso de uma mulher relacionar-se sexualmente com um animal. E a Lei, em ambos os casos, manda que o animal também seja apedrejado. Pergunta-se: por que apedrejar o animal? Não tendo consciência nem liberdade, o animal é, no caso da zoofilia, vítima da perversão sexual do homem ou da mulher. Por que matá-lo, então?
A Lei não diz. Mas há uma hipótese que considero plausível e se fundamenta no modo como Jesus responde à questão a ele apresentada a respeito da mulher. A hipótese é a seguinte: as vítimas devem ser eliminadas porque elas nos recordam dos nossos crimes. “Sem corpo, não há crime”, dizia um velho princípio jurídico que vigorou por muitos anos. Felizmente, a justiça, a duras penas, conseguiu superá-lo. Mas ele continua vigente na mentalidade daqueles que procuram eliminar os corpos de suas vítimas mortas ou, de forma mais comum do que pensamos, buscam eliminar as próprias vítimas pelo ocultamento ou pela destruição física.
Jesus desmascara essa prática quando, depois de rabiscar sobre a areia num suspense sem fim para a mulher e para seus algozes, afirma calmamente: “quem não estiver em pecado, atire a primeira pedra”. Certamente passou pela cabeça dos presentes os muitos adultérios que cada um deles tinha praticado e que mereciam a morte antes mesmo da lapidação daquela mulher jogada ao chão no meio do círculo de mãos levantadas e armadas com 80 pedras. Ao assassinar aquela mulher – e Jesus com sua fala calma lhes aponta isso – eles não queriam primeiramente fazer justiça à mulher flagrada em adultério, mas apagar a memória viva de seus próprios adultérios. A vítima é perigosa porque lembra ao assassino de seu crime. É preciso eliminá-la porque sua presença fala por si mesma e é uma acusação contra os crimes daqueles que se pretendem inocentes.
Pergunto-me nesta noite do Quinto Domingo de Quaresma: qual a razão que levou a um grupo de militares a assassinar, com 80 tiros, um pai de família que se dirigia, junto com sua esposa, seu sogro e seu filho, para um chá de bebê na favela de Guadalupe. Foi apenas um engano, como alegado imediatamente pelas autoridades? Um tiro por engano, até poderia ser. Dois ou três, ainda vai… Mas 80 tiros por engano? E ainda debochar da esposa que pede para que ajudem o marido que está a morrer? O que fazia com que esse homem se tornasse um possível suspeito para a polícia? Simples: ele era preto e estava num carro que não condizia com seu “lugar social”.
No mesmo domingo, na mesma cidade do Rio de Janeiro, um jovem de 17 anos foi morto, a tiros, pelas costas, por policiais militares. E, se abrirmos os jornais e as páginas da internet, veremos isso a cada dia. E veremos mais: comandantes das polícias, governadores e até o Ministro da Justiça propondo a legalização e a despenalização dos assassinatos cometidos por policiais, mesmo quando os mortos são inocentes e em circunstâncias que não justificam tal violência. Tal “lei do abate” é apresentada como uma forma de defender os policiais e suas vidas. Se tal argumento tivesse base real, o Brasil não seria o país onde mais a polícia mata e onde mais policiais são mortos em serviço. Se a polícia matar os supostos bandidos fosse uma real solução, não haveria mais crimes no Brasil e nenhum policial mais seria morto. Infelizmente, no entanto, a realidade nos mostra que as coisas não são assim.
Fica então a pergunta: a quem interessa tantas vítimas da violência, seja entre a população, seja entre os policiais? Seguindo a lógica da fala de Jesus, surge poderosa a suspeita de que a eliminação das vítimas – homens pretos das favelas e policiais na sua maioria também pretos –  interessa apenas aos que produzem as vítimas: a pequena parcela da sociedade – os 5% que detém renda equivalente à soma dos outros 95% – que, para manter seus privilégios e requintes, precisa produzir milhões de empobrecidos e marginalizados e, para defender-se deles, necessita a força das armas e da polícia.

É nesse contexto que a pergunta de Jesus é dirigida a cada um de nós: quem não participa ou não é conivente com essa situação de injustiça e violência da sociedade brasileira, que dê o primeiro tiro.

Há esperança

Primeiro sábado de outono. Porto Alegre ensolarada. Mas já não tão quente.  Trânsito tranquilo a caminho da Estação Rodoviária. Chego antes do tempo. Aproveito os 45 minutos que ainda me separam da partida do ônibus para ler. Me sinto um extraterrestre em meio aos não muitos outros passageiros que também aguardam as respectivas partidas. Sou o único – confiro para não estar equivocado – a ter um livro mãos. Quase todos ocupam o tempo em teclar nas redes sociais ou ouvir música. Alguns fones de ouvido se escondem no interior do pavilhão auricular. Outros, escondem a cabeça de seus ouvintes.
Na hora marcada o ônibus parte. Pontualidade brasileira com preços britânicos. Com duas passagens pagar-se-ia uma viagem em carro para o mesmo destino. É o preço do monopólio construído em tempos de governos liberais. Como de costume, durmo na primeira hora de viagem. Acordo já para lá da Estrada do Conde que leva a Guaíba. Retomo minha leitura de “Sodoma” e observo as ondas multicoloridas dos arrozais em ponto de colheita. O tema da leitura e a paisagem se complementam. O tempo passa rápido apesar da pista que teima em não ser duplicada desde o ano de 2014. Aqui e ali um pequeno sinal de obras em andamento. Aparências para enganar eleitores incautos e cultivar futuras expectativas que alimentarão novas eleições.
A platitude do terreno me remete ao ano de 1983 quando, pela primeira vez, fiz este percurso. Em meus então 17 anos, saia da terra natal e me aventurava na distante Pelotas. Tempos de abertura e de descortinamento de um novo mundo. A democracia ainda tardaria mas já vivíamos os albores das Diretas Já, da Constituinte e do fim da ditadura militar. Tantas lembranças destes tempos
Depois de duas horas e um pouco mais de viagem, o tradicional paradouro: 20 minutos! Para minha surpresa, para usar o banheiro, não há necessidade de passar pela loja e restaurante. E, surpresa maior, o banheiro masculino está surpreendentemente limpo. Algo a louvar. Passo na lojinha, compro uma água mineral e um pacotinho de torrões de arroz. Preço dobrado em relação aos mercados urbanos. Não há opção. O preço do banheiro limpo está embutido. Faz parte do jogo.
Como meus torrões e tomo a água sentado em frente ao ônibus. Ninguém conversa com ninguém. Apenas os smartphones falam. Deixo o tempo passar. Faltam poucos minutos e não vale a pena buscar meu livro. Do restaurante sai calmamente um casal de idosos. Por volta dos 70 ou um pouco mais. Não são passageiros do ônibus. Estão viajando de carro. Ao passar, o senhor – mais velho que a senhora – olha a origem e o destino do ônibus. Volta-se para mim e me diz: — Vamos ver quem chega antes! Eu sorria e desejo boa viagem. Os dois se encaminham em direção ao carro estacionado sob uma sombra. Levam nas mãos plásticos e papeis para descartar na lixeira. Mas a lixeira está virada e há papeis e plásticos espalhados pelo chão. Um olha para o outro e, com a calma de quem não tem pressa para chegar ao destino, os dois começam a recolher o lixo jogado pelo chão e acomodá-lo nas sacolas plásticas que carregavam. O senhor vai até o carro, busca mais uma sacola plástica e continua a coleta no gramado que se estende à beira da estrada.
Ao terminar o trabalho, recolocam a lixeira na vertical, depositam nela as sacolas recheadas de dejetos por outros produzidos e, sem pressa, dirigem-se ao pé da árvore. Tomam seus celulares e fazem fotos. Ele dela e, ela, dele. Em seguida, um selfie os junta na mesma imagem. Tudo acompanhado por sorrisos e gestos de carinho.
O ônibus parte. O carro vermelho de modelo popular com o casal de idosos segue o ônibus com toda calma e tranquilidade. Quem chegará antes em Rio Grande?

Em meus pensamentos desejo outra vez uma boa viagem aos dois. E, mesmo que o ônibus corra mais e eles continuem andando na vagarosa tranquilidade do bem feito, certamente eles já chegaram ao seu destino.

Vamos celebrar o Golpe?

Diferente de meus amigos democratas que se escalofriaram com a proposta do Presidente de plantão em mandar os quartéis celebrarem o Golpe de 1964, eu, decididamente, oPTtei por seguir a ordem do dia e me agregar à nova velha política da morte da democracia. Vou celebrar, sim, o 31 de março. E o faço com o texto de um poeta que, se vivo, ontem, 27 de março, estaria comemorando 59 anos. Como todos os da minha geração já adivinharam, trata-se de Renato Russo. A poesia, musicada e lançada no álbum “O Descobrimento do Brasil” de 1993, chama-se “Perfeição”. E é tão perfeita a letra que não pode ser em nada emendada na medida em que desvela o caráter profundo deste Brasil tão esquizofrenicamente injusto que, por isso, nunca chega a construir-se como nação pois isso implicaria abolir o caráter escravista de nossa sociedade. Mas, como diz o poeta, mesmo se “a esperança está dispersa”, sabemos que “só a verdade nos liberta”, e, como temos a certeza de que “o amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera, nosso futuro recomeça”.
Com a palavra, o poeta:
PERFEIÇÃO (Renato Russo, 1993)
Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações, o meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões.
Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão.
Vamos celebrar nosso governo e nosso Estado que não é nação.
Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas.
Celebrar nossa desunião.
Vamos celebrar Eros e Thanatos, Persephone e Hades.
Vamos celebrar nossa tristeza.
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado, todos os mortos nas estradas, os mortos por falta de hospitais.
Vamos celebrar nossa justiça, a ganância e a difamação.
Vamos celebrar os preconceitos por volta dos analfabetos.
Comemorar a água podre e todos os impostos, queimadas, mentiras e sequestros, nosso castelo de cartas marcadas, o trabalho escravo, nosso pequeno universo, toda hipocrisia e toda ostentação, todo roubo e toda a indiferença.
Vamos celebrar epidemias, e a festa da torcida campeã,
Vamos celebrar a fome, não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar.
Vamos alimentar o que é maldade, amos machucar um coração.
Vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos, tudo o que é gratuito e feio, tudo que é normal.
Vamos cantar juntos o Hino Nacional (A lágrima é verdadeira).
Vamos celebrar nossa saudade e comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja, a intolerância e a incompreensão.
Vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada.
Vamos celebrar a aberração ee toda a nossa falta de bom senso, nosso descaso por educação.
Vamos celebrar o horror de tudo isso com festa, velório e caixão.
Está tudo morto e enterrado agora, já que também podemos celebrar a estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa, só a verdade me liberta.
Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera. Nosso futuro recomeça.
Venha, que o que vem é perfeição!

São Patrício X Antônio Conselheiro?

A modernidade é a era da “colonialidade”. O neologismo difundido pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano, quer expressar as relações políticas e suas consequências econômicas, culturais, pedagógicas, étnicas, de gênero… que foram construídas no Ocidente a partir do séc. XIV e resultaram no euro-centrismo típico da modernidade. Eurocentrismo que teria sua expressão maior no atual processo de globalização capitaneado pelo capital transnacional.

A colonialidade se expressou de forma brutal no modo como as potências europeias – Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Alemanha, Itália, Rússia – invadiram, cada uma a seu turno, territórios na América, África, Ásia e Oceania subjugaram militarmente os povos nativos destes continentes, provocaram genocídios, exploraram as riquezas naturais e impuseram sua cultura. É uma história que todos conhecemos e muitos sofremos as consequências ainda hoje. A colonialidade não é algo do passado. Ela se instalou de tal modo nas mentes e corações das pessoas – tanto dos colonizadores como dos colonizados – que, muita vezes, parece ser difícil superar suas expressões tanto no macro das relações internacionais como no micro das suas manifestações culturais.

Dentro do histórico da expansão colonial europeia há um fato muito particular que poucos conhecem. A Inglaterra foi a nação que conseguiu manter pelo tempo mais prolongado uma colônia dentro da própria Europa. Trata-se da Irlanda. A partir do séc. XX, a dominação inglesa sobre a Irlanda sendo imposta de forma cada vez mais rígida. A propriedade das terras passou a ser um direito exclusivo dos ingleses e só eles tinham representação política. A língua nativa – o gaeilge– foi substituído pelo inglês e as profissões liberais foram proibidas aos nativos.

Dominados por todos os lados, os irlandeses encontraram na religião o refúgio pra manter a identidade cultural. Por oposição aos ingleses anglicanos, ser irlandês tornou-se sinônimo de ser católico romano. E, dentro do catolicismo, a figura de São Patrício – o escravo do séc. V que evangelizou a ilha verde – a grande referência de vida para os que resistiam ao colonialismo.
A grande fome do séc. XIX – provocada pela exploração inglesa e por um fungo importado do México – provocou a morte de mais de um milhão de irlandeses e fez com que mais de outros dois milhões deixassem a ilha em busca da sobrevivência. A maioria cruzou o Atlântico e se instalou na então conflituosa e próspera nação dos Estados Unidos da América. Antes do afluxo de latinos aos Estados Unidos, ser católico nos Estados Unidos equivalia quase que normalmente a ser descendente de irlandeses.

Junto com a fome e os poucos pertences, levaram para lá a tradição católica e a devoção a São Patrício expressa no nome de incontáveis paróquias, instituições religiosas e sociais. Para um descendente irlandês nos Estados Unidos, festejar São Patrícia é fazer memória do passado de dominação colonial da Inglaterra sobre a Irlanda e, ao mesmo tempo, afirmar a identidade cultural e a resistência de tantos homens e mulheres que deram a vida para que, no início do séc. XX, a pequena ilha pudesse proclamar sua independência e afastar definitivamente o sombrio passado colonialista inglês.

Há alguns anos, em Porto Alegre, assim como em outras cidades brasileiras, começaram a pipocar, especialmente nos bairros nobres, as “Saint Patrick’s Day”. Neste ano, em Porto Alegre, a Prefeitura autorizou a realização de onze eventos ao ar livre com ocupação de praças e interrupção de ruas. Todos eles acontecem nos bairros nobres de Porto Alegre. Decoração verde, trevos, cerveja verde, música típica… fazem parte do menu disponibilizado.

Enquanto dirijo lentamente ao som de uma música tradicional irlandesa à base de foles e violinos, pergunto às palhetas de meu Peugeot 208 que bailam de um lado para outro em um ritmo que não combina com a música se os organizadores da festa sabem quem foi São Patrício e a história colonial da Irlanda e sua luta pela afirmação da independência econômica, política e cultura. Como bom francês, meu Peugeot 208 responde um suave “penso que não”. Concordo com ele. Lembro do Halloween, do Black Friday e da gravata do Pelé na final do Copa de 1994. “Yes, nós temos banana, banana prá dar e vender”, como dizia o samba de antigamente. E junto vai a Petrobrás, a Embraer e a Base de Alcântara.

Enquanto deixo a Avenida Goethe e começo a descer a Doutor Timóteo, a sanfona, acompanhada da zabumba, do triângulo e da inigualável voz de Luiz Gonzaga me lembra que “Minha vida é andar por este país, pra ver se um dia descanso feliz, guardando as recordações, das terras onde passei, andando pelos sertões, e dos amigos que lá deixei…” Sigo meu caminhando esperando encontrar, na esquina com a Cristóvão Colombo, uma festa em homenagem a Antônio Conselheiro. Não custa sonhar!

NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS, O CARNAVAL ACABAVA…

“Cadê as marchas bonitas dos tempos de antigamente? Dos carnavais que passaram, que pena, hoje é tão diferente.” Com um início assim de saudosista, iniciava o agauchado e melancólico samba cantado por Teixeirinha sob o título de “A saudade que ficou”.

Segundo o autor do samba – não consegui informações exatas se era do próprio Teixeirinha ou de outra pessoa – duas razões há para que os carnavais de hoje não sejam mais como os de antigamente. A primeira é a da relação entre o fim do carnaval e a permanência, na memória das pessoas, das marchinhas nele cantadas. Segundo o autor, antigamente, o carnaval terminava na Quarta-feira de Cinzas, mas as marchinhas seguiam sendo cantadas o ano inteiro. Hoje, o carnaval continua terminando na Quarta-feira de Cinzas, mas as marchinhas “morrem ao baixar a poeira”. Isso se deve, sempre segundo o autor do samba, a que os compositores de hoje não são mais como os de antigamente: “O Noel Rosa morreu, Francisco Alves também. A velha guarda inteirinha partiu, subiu o céu e não vem. Oh! Velha guarda querida dos carnavais que passou, pra cantar e compor como eles, meu bem, nenhum herdeiro ficou.”

Não sei em que ano este samba foi composto. Na minha memória musical ele está presente deste a minha longínqua infância quando lá, no interior de Vila Flores, sintonizávamos, num rádio de pilha, as emissoras de Porto Alegre, e a Rádio Tupi de São Paulo e a Rádio Globo do Rio de Janeiro. É um samba antigo e que grudou no meu ouvido. Lembrando dele, perguntei-me: será que ele continua atual? Não! Definitivamente, não. Se a letra do samba fosse recomposta, hoje, ela teria que ser mudada. Em primeiro lugar, porque, hoje, o carnaval não termina na Quarta-feira de Cinzas. Movido pela lei do mercado que explora ao máximo um produto, até o limite da possibilidade de produzir lucro, o “produto carnaval” não respeita mais os princípios cristãos da Quaresma e, cruzando a Quarta-feira de Cinzas, se estende, no mínimo, até o fim de semana seguinte. E isso não só apenas um Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo em Porto Alegre e cidades do interior gaúcho, o carnaval vai se aproximando cada vez mais da Semana Santa. Não me admira se, daqui a alguns anos, não acabaremos tendo um Carnaval de Semana Santa. Se der lucro, o deus-mercado vai justificar…

Uma outra razão pela qual podemos discordar da letra do samba cantado por Teixeirinha, é de que as letras das marchinhas sejam esquecidas imediatamente após a Quarta-feira de Cinzas. Isso aconteceu até recentemente. Mas, nos últimos anos, há letras de sambas que vão ficar para sempre na memória das pessoas. Como esquecer, por exemplo, do Samba Enredo da Mangueira, campeã do Carnaval carioca de 2019 que teve a coragem de “contar histórias que a história não conta” e concluir com a desafiadora memória de tantos heróis do povo que não cabem nas molduras oficiais?

É uma “história para ninar gente grande” e que permanecerá, muito depois da Quarta-feira de Cinzas, lembrando ao Brasil que “teu nome é Dandara e a tua cara é de cariri. Não veio do céu, nem das mãos de Isabel, a liberdade é um dragão no mar de Aracati. Salve os caboclos de julho, quem foi de aço nos anos de chumbo. Brasil, chegou a vez, de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Sambas como este, ultrapassam não apenas a Quarta-feira de Cinzas, mas cruzam o ano todo e certamente continuarão na memória do povo brasileiro por muito tempo, passando pela cruz da Sexta-feira Santa até chegar no Domingo da Eterna Ressurreição.

DA “TORMENTA NO DESERTO” À “TORMENTA NO CARIBE”

Os fatos que lembramos e aos quais fazemos referência em nossos discursos revelam a idade que temos. Saber o que foi a “Tormenta no Deserto” revela que a pessoa – fora os apaixonados por história – tem mais de cinquenta anos… É o meu caso. Estou iniciando a segunda parte daquilo que espera seja o século que me cabe viver e por isso lembro o que foi a “Tormenta no Deserto”.

A “Tormenta no Deserto” também marca um tempo na minha vida e ganha com isso um significado especial. No dia 24 de fevereiro de 1991 eu deixava o Brasil para iniciar um período de trabalho na Nicarágua pós-sandinista. Naquele exato dia, enquanto juntamente com o agora falecido Vitor Poloni, deixava Porto Alegre nas asas da Varig e, depois de uma escala no Equador e outra na Costa Rica, chegávamos em Manágua, as areias do deserto do Golfo Pérsico e os céus do Oriente Médio sacudiam sob o peso da maior operação militar desencadeada depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Em uma única noite, as forças de uma coalização internacional liderada pelos Estados Unidos despejaram sobre o Kuwait e o Iraque, apenas através de bombardeios aéreos, nada mais nada menos que oitenta e oito mil e quinhentas toneladas de explosivos.

Foi a primeira guerra televisionada ao vivo. A CNN, então uma emergente cadeia de televisão, foi encarregada de divulgar ao mundo o espetáculo do bombardeio. A Tormenta no Deserto foi transformada em espetáculo e videogame. Os soldados, nos aviões ou nos bunkers de comando, apertavam botões e os céus e cidades do Iraque explodiam num espetáculo de cores que ocultava a morte de em torno de um milhão de pessoas.

No dia seguinte, 25 de fevereiro, por terra, a coalização militar ocidental entrou no Kuwait e, em menos de 24 horas, já fazia as tropas iraquianas comandadas por Saddam Hussein recuarem ao norte da fronteira. No dia 26 o Iraque é invadido e no dia 27 um armistício é assinado. Na retirada, as forças iraquianas incendiaram os poços de petróleo que não haviam sido destruídos pelo bombardeio norte-americano.

Qual a causa dessa guerra? Muitas podem ser elencadas… Cada historiador escolhe as suas e dá destaque a esta ou aquela. Mas a causa imediata é clara: o preço do petróleo. Para poder manter a dinâmica de sua economia, os Estados Unidos obrigavam a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Kuwait a uma superprodução para além dos limites estabelecidos pela OPEP. Com isso, o preço do petróleo baixou de dezesseis a dez dólares o barril. O Iraque, maior produtor da época e necessitado de divisas para reconstruir o país após a guerra contra o Irã – guerra patrocinada do lado iraquiano pelos norte-americanos, há de se lembrar – era o maior prejudicado com essa política. Impossibilitado de resolver diplomaticamente seu problema, invadiu o Kuwait como uma forma de regular o mercado petroleiro.

O Iraque pagou e continua pagando até hoje um alto preço por essa aventura. Em 2003 sofreu outra invasão por parte dos Estados Unidos que, desta vez, depôs Saddam Hussein sob o pretexto de armas químicas e nucleares nunca encontradas. O território do país do Tigre e do Eufrates foi dividido em três zonas e hoje é um dos abrigos do chamado “Estado Islâmico” que continua a convulsionar aquela região.

Quase trinta anos depois, o mapa do petróleo mudou. As maiores reservas conhecidas não estão mais no Oriente Médio. Novas descobertas revelaram que o maior volume de ouro negro ainda disponível é o que se esconde no Golfo de Maracaibo. E é o tipo de petróleo – o “petróleo pesado” – que mais faz falta à indústria americana. E que com o embargo dos Estados Unidos ao Irã, este petróleo, no mercado internacional, tornou-se extremamente caro. E o disponível na Venezuela está a apenas três dias de viagem das refinarias do Texas. Enquanto que, o importado do Oriente Médio leva quase três meses para fazer o percurso.

O único problema é que os venezuelanos não estão mais dispostos – como o estiveram no passado – a entregar o petróleo de graça. A solução: uma Tormenta no Caribe. É o que talvez se aproxime. Outra vez, o problema é o petróleo.

A Tormenta no Deserto custou mais de um milhão de vidas e aproximadamente 150 bilhões de dólares. Um investimento humano e monetário fantástico que certamente deve ter dado um significativo retorno para os que o sustentaram. Quanto custará – em vidas humanas e em recursos materiais – uma invasão à Venezuela? A indústria petroleira e a de armamentos devem estar fazendo seus cálculos. Se a opção bélica for vantajosa, certamente acontecerá. A diferença é que não será mais transmitida pela CNN, via televisão a cabo. Ela será transmitida pela internet e um megaespectáculo de luzes, cores e sons que, mais uma vez, abafarão o sofrimento humano que ela comporta. É difícil ser humano num mundo dominado pela máquina do petróleo. É doloroso pensar…