A INSUSTENTÁVEL PARRESIA DO PAPA FRANCISCO
Amor e ódio. Diante dele ninguém ficava indiferente. Por quê? Porque ele não passava insensível
ante os grandes problemas da humanidade que se apresentavam a seus olhos nos rostos, corpos e
mentes de pessoas concretas que com ele cruzavam pelos caminhos da Galileia. As multidões
ficavam encantadas com seus gestos de carinho, compaixão, cura e perdão para com leprosos,
endemoninhados, aleijados, cegos, surdos, velhos, crianças, mulheres, estrangeiros, mulheres
estrangeiras, mulheres prostituídas, viúvas… Até mesmo os ricos publicanos por todos desprezados
e os soldados romanos pelos judeus odiados encontravam nele palavras e ações de aproximação e
apelo à conversão para a justiça do Reino.
Para os fracos, suas palavras eram suaves e ternas e não lhes impunha jugo algum. Para os fortes e
poderosos, palavras duras e exigências que não pediam apenas a conversão pessoal. Iam muito
além. A conversão por ele pregada implicava no fim do sistema de exploração tanto dos poderosos
da terra como de seus superiores romanos. Aos judeus pedia a justiça do “Ano da Misericórdia”.
Aos romanos, que voltassem para sua cidade e deixassem o Povo de Deus livre para o culto a Javé.
Qual a diferença entre o “Ano da Graça” com o qual Jesus abriu sua missão e o “Ano da
Misericórdia” que marcou o início do pontificado do Papa Francisco? Nenhuma! Graça e
misericórdia são duas palavras para falar do mesmo amor de Deus que vence o medo das religiões e
impérios que massacram a pessoa humana. Jesus iniciou sua missão na periferia da Galileia, região
desprezada pelos judeus e temida pelos romanos como fonte de distúrbios e provocações. O Papa
Francisco foi a Lampedusa acolher os desprezados da Europa e do mundo. Jesus reuniu junto a si
desempregados, pescadores, coletores de impostos e mulheres para fazer deles os anunciadores da
justiça e da graça de Deus. O Papa Francisco se reunião com os Movimentos Sociais e proclamou
que a justiça é que nenhuma família pode ficar sem teto, nenhum camponês sem terra, e nenhum
trabalhador sem emprego. O Filho do Homem não tinha onde reclinar sua cabeça e enviou seus
discípulos sem mochila, com apenas uma túnica e um par de sandálias. O Papa Francisco recusou
desde o princípio e persiste em manter-se distante de palácios, roupas, sapatos, faustos e honras dos
príncipes deste mundo e da Cúria Romana. Assim como Jesus se recusou a condenar a mulher que
lhe foi apresentada como adúltera, Jesus, ante aqueles indiciados como portadores de pecado ao
mundo, o Papa lembra que Jesus é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e pergunta:
“quem sou eu para condenar?”
O Papa é amado e odiado por uma única razão: ele insiste em ser simplesmente um cristão. E seu
cristianismo não se resume à afirmação de uma pertença religiosa. Seu cristianismo é uma fé, uma
aposta de vida, total, absoluta e, ao mesmo tempo, cotidiana e performática. Assim como Jesus, ele
não apenas fala. Ele também faz. E seu agir, provoca amor e ódio como todos os profetas que antes
dele percorreram o caminho da Esperança que passa, necessariamente, pela cruz.
NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A PAZ!
Conforme a narrativa do evangelista João, as primeiras experiências do encontro da comunidade com o Ressuscitado acontecem “no primeiro dia da semana”.
Para nós, cristãos, acostumados com o calendário que consagra este acontecimento, o primeiro dia da semana é o domingo, dia consagrado de encontro com a comunidade e com o Senhor. Para os homens e mulheres que seguiam a Jesus, o primeiro dia da semana era dia de labuta, de volta às atividades diárias depois do descanso sagrado do sábado. O “primeiro dia da semana” dos judeus equivaleria à nossa segunda-feira. Foi nesse dia normal, profano, laboral, que Jesus se manifestou às discípulas e discípulos.
"NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A ESPERANÇA!"
E nesse contexto que, como nos lembra o Papa Francisco, “o triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal.”
QUEM ESTIVER SEM PECADO DISPARE O PRIMEIRO TIRO
É nesse contexto que a pergunta de Jesus é dirigida a cada um de nós: quem não participa ou não é conivente com essa situação de injustiça e violência da sociedade brasileira, que dê o primeiro tiro.
Há esperança
Em meus pensamentos desejo outra vez uma boa viagem aos dois. E, mesmo que o ônibus corra mais e eles continuem andando na vagarosa tranquilidade do bem feito, certamente eles já chegaram ao seu destino.
Vamos celebrar o Golpe?
Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão.
Vamos celebrar nosso governo e nosso Estado que não é nação.
Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas.
Vamos celebrar Eros e Thanatos, Persephone e Hades.
Vamos celebrar nossa tristeza.
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos celebrar nossa justiça, a ganância e a difamação.
Comemorar a água podre e todos os impostos, queimadas, mentiras e sequestros, nosso castelo de cartas marcadas, o trabalho escravo, nosso pequeno universo, toda hipocrisia e toda ostentação, todo roubo e toda a indiferença.
Vamos celebrar epidemias, e a festa da torcida campeã,
Vamos alimentar o que é maldade, amos machucar um coração.
Vamos celebrar nossa saudade e comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada.
Vamos celebrar a aberração ee toda a nossa falta de bom senso, nosso descaso por educação.
Está tudo morto e enterrado agora, já que também podemos celebrar a estupidez de quem cantou esta canção.
Chega de maldade e ilusão.
Venha, que o que vem é perfeição!
São Patrício X Antônio Conselheiro?
NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS, O CARNAVAL ACABAVA…
“Cadê as marchas bonitas dos tempos de antigamente? Dos carnavais que passaram, que pena, hoje é tão diferente.” Com um início assim de saudosista, iniciava o agauchado e melancólico samba cantado por Teixeirinha sob o título de “A saudade que ficou”.
Segundo o autor do samba – não consegui informações exatas se era do próprio Teixeirinha ou de outra pessoa – duas razões há para que os carnavais de hoje não sejam mais como os de antigamente. A primeira é a da relação entre o fim do carnaval e a permanência, na memória das pessoas, das marchinhas nele cantadas. Segundo o autor, antigamente, o carnaval terminava na Quarta-feira de Cinzas, mas as marchinhas seguiam sendo cantadas o ano inteiro. Hoje, o carnaval continua terminando na Quarta-feira de Cinzas, mas as marchinhas “morrem ao baixar a poeira”. Isso se deve, sempre segundo o autor do samba, a que os compositores de hoje não são mais como os de antigamente: “O Noel Rosa morreu, Francisco Alves também. A velha guarda inteirinha partiu, subiu o céu e não vem. Oh! Velha guarda querida dos carnavais que passou, pra cantar e compor como eles, meu bem, nenhum herdeiro ficou.”
Não sei em que ano este samba foi composto. Na minha memória musical ele está presente deste a minha longínqua infância quando lá, no interior de Vila Flores, sintonizávamos, num rádio de pilha, as emissoras de Porto Alegre, e a Rádio Tupi de São Paulo e a Rádio Globo do Rio de Janeiro. É um samba antigo e que grudou no meu ouvido. Lembrando dele, perguntei-me: será que ele continua atual? Não! Definitivamente, não. Se a letra do samba fosse recomposta, hoje, ela teria que ser mudada. Em primeiro lugar, porque, hoje, o carnaval não termina na Quarta-feira de Cinzas. Movido pela lei do mercado que explora ao máximo um produto, até o limite da possibilidade de produzir lucro, o “produto carnaval” não respeita mais os princípios cristãos da Quaresma e, cruzando a Quarta-feira de Cinzas, se estende, no mínimo, até o fim de semana seguinte. E isso não só apenas um Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo em Porto Alegre e cidades do interior gaúcho, o carnaval vai se aproximando cada vez mais da Semana Santa. Não me admira se, daqui a alguns anos, não acabaremos tendo um Carnaval de Semana Santa. Se der lucro, o deus-mercado vai justificar…
Uma outra razão pela qual podemos discordar da letra do samba cantado por Teixeirinha, é de que as letras das marchinhas sejam esquecidas imediatamente após a Quarta-feira de Cinzas. Isso aconteceu até recentemente. Mas, nos últimos anos, há letras de sambas que vão ficar para sempre na memória das pessoas. Como esquecer, por exemplo, do Samba Enredo da Mangueira, campeã do Carnaval carioca de 2019 que teve a coragem de “contar histórias que a história não conta” e concluir com a desafiadora memória de tantos heróis do povo que não cabem nas molduras oficiais?
É uma “história para ninar gente grande” e que permanecerá, muito depois da Quarta-feira de Cinzas, lembrando ao Brasil que “teu nome é Dandara e a tua cara é de cariri. Não veio do céu, nem das mãos de Isabel, a liberdade é um dragão no mar de Aracati. Salve os caboclos de julho, quem foi de aço nos anos de chumbo. Brasil, chegou a vez, de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Sambas como este, ultrapassam não apenas a Quarta-feira de Cinzas, mas cruzam o ano todo e certamente continuarão na memória do povo brasileiro por muito tempo, passando pela cruz da Sexta-feira Santa até chegar no Domingo da Eterna Ressurreição.
DA “TORMENTA NO DESERTO” À “TORMENTA NO CARIBE”
A Tormenta no Deserto custou mais de um milhão de vidas e aproximadamente 150 bilhões de dólares. Um investimento humano e monetário fantástico que certamente deve ter dado um significativo retorno para os que o sustentaram. Quanto custará – em vidas humanas e em recursos materiais – uma invasão à Venezuela? A indústria petroleira e a de armamentos devem estar fazendo seus cálculos. Se a opção bélica for vantajosa, certamente acontecerá. A diferença é que não será mais transmitida pela CNN, via televisão a cabo. Ela será transmitida pela internet e um megaespectáculo de luzes, cores e sons que, mais uma vez, abafarão o sofrimento humano que ela comporta. É difícil ser humano num mundo dominado pela máquina do petróleo. É doloroso pensar…









