Pobre diabo!

Dentre as muitas surpresas que a dialética da história e o Espírito Santo nos reservam, está o Papa Francisco. Ninguém de nós, em sã consciência, poderia esperar que do Conclave que escolheu o sucessor de Bento XVI surgissem um Papa argentino que assumisse o nome e o espírito de Francisco de Assis. E aí está ele hoje, em seu ainda curto e denso pontificado, assumindo a condição de única inconteste liderança moral da humanidade.
Seus gestos e suas palavras, solenes ou banais, não deixam ninguém indiferente. Há os que são radicalmente contra e os que são radicalmente a favor. A razão disso, penso eu, deve-se a que ele se atém à simplicidade do Evangelho: Deus quer a libertação e a salvação de todos e todas!
Essa é a alegre notícia da qual o Papa quer ser anunciador. Seu documentos magisteriais expressam-na nos títulos: Evangelii Gaudium, Laudato Sì, Amoris Laetitia, Gaudete et Exsultate. E tudo iluminado pela Misericordiae Vultus.
Na última Exortação Apostólica por ele publicada, a Gaudete et Exsultate, Francisco chama a atenção para duas pedras de tropeço dos católicos que buscam a santidade. Segundo ele, são heresias clássicas que, por nascerem da própria condição humana, “continuam a ser de alarmante atualidade”. Trata-se do gnosticismo e do pelagianismo. O primeiro, o gnosticismo, apresenta “uma mente sem Deus e sem carne”. Trata-se de “uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos”. É uma fé individualista, egoísta, que busca a própria satisfação e por isso é incapaz de abrir-se a Deus e ao irmão necessitado.
No outro extremo está o pelagianismo, ou a religião daqueles que creem que podem salvar-se por suas próprias forças. É uma “vontade sem humildade” que esquece que somos justificados unicamente pela graça de Deus.  O moderno pelagianismo, segundo Papa, “manifesta-se na obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial.”
Creio que todos nós, de uma forma ou de outra, nos sentimos exortados à conversão por estas palavras, tanto no agir pessoal enquanto cristãos, como no nosso atuar eclesial e social. Todos trazemos em nós algo de gnóstico ou de pelagiano e, como afirma constantemente o Papa Francisco referindo-se a si mesmo, somos pecadores e necessitamos do perdão e da misericórdia de Deus.
Lendo a Gaudete et Exsultate e suas advertências contra as versões modernas de velhas heresias, veio-me à mente uma outra velha heresia que também foi reciclada pela modernidade e não é abordada pelo Papa. Trata-se do maniqueísmo. De origem pagã, o maniqueísmo foi, nos primeiros séculos, um forte concorrente do cristianismo. Agostinho de Hipona, o grande teólogo do primeiro milênio, durante nove anos militou nas fileiras do maniqueísmo e, ao converter-se ao cristianismo, teve que enfrentar a grande questão que aquela doutrina solucionava com enorme facilidade: unde malum? De onde vem o mal? Por que o mal existe? Por que fazemos o mal?
O maniqueísmo tinha uma resposta fácil: há um deus bom e um deus mau. O primeiro é fonte de tudo o que é bom e o segundo de tudo o que é mau. E o universo também está dividido em duas esferas, a do bem e a do mal. Do mesmo modo a humanidade e cada ser humano.
Mas se afirmamos, como faz o cristianismo, que Deus é um só, que Ele é bom e que tudo foi criado por Ele no amor, a questão se torna mais exigente, como bem o demonstra Santo Agostinho nas “Confissões”: “E, uma vez que Deus, sendo bom, fez todas as coisas boas, donde vem então o mal? Será que, naquilo donde as fez boas as coisas mais pequenas, mas no entanto, tanto o Criador é bom como são boas todas as coisas criadas. Donde vem então o mal? Será que naquilo donde as fez, havia alguma matéria má, e formou-a, e ordenou-a, mas deixou nela qualquer coisa que não teria transformado em bem? E porquê isto? Será que, embora não sendo omnipotente, não tinha poder para transformá-la e mudá-la na totalidade, de modo a que nada de mal restasse? Finalmente, porque é que quis fazer dela alguma coisa e não preferiu fazer, com a mesma omnipotência com que ela não existisse em absoluto?”
Na sua argumentação, tanto nas Confissões como nos outros escritos, o bispo de Hipona refuta a afirmação de que Deus, direta ou indiretamente, seja a fonte do mal. Para Agostinho, tanto pelo caminho da lógica filosófica como o da tradição judaico-cristã, o mal existe por causa do pecado humano, seja o “pecado do mundo” que herdamos de nossos pais seja o pecado resultante de nossas opções pessoais.
Lembro do maniqueísmo ao ver tantos cristãos, católicos inclusive, obcecados pela ideia do demônio. Ao passar por certas igrejas e presenciar certos cultos – missas também! – parece que há uma preocupação maior com o diabo que com Deus. Na televisão então, é atroz! Cultos de cura e libertação, exorcismos, sessões de descarrego e outros aos quais é até difícil dar um nome, afirmam, clara ou sub-repticiamente, que o diabo tem tanto ou mais poder que Deus. E isso é maniqueísmo. Santo Agostinho ficou para trás… Foi vencido pelos novos maniqueus que, dizendo que cultuam a Deus, na verdade prestam culto ao demônio.
Que o diabo, existe, não nego! O Papa Francisco, na Gaudete et Exsultate, ocupa vários parágrafos com a questão. E afirma que o diabo não é um mito, mas uma realidade pessoal. E que, para combatê-lo, não há necessidade de ritos mirabolantes. Basta “a fé que se expressa na oração, a meditação da Palavra de Deus, a celebração da Missa, a adoração eucarística, a Reconciliação sacramental, as obras de caridade, a vida comunitária, o compromisso missionário”. É esse modo de ser cristão que afasta do Maligno e nos mantém firmes em Jesus no caminho do Reino do Pai.
Não coloquemos, pois, toda a culpa no pobre diabo. No inferno, onde ele habita, deve haver suficientes problemas com os quais ele tem que se ocupar. Não criemos mais problemas para ele. Que descanse em paz!

A banalidade da violência

Para os que se aventuram pelos campos da Filosofia, da Literatura ou do Cinema, certamente não lhes soa estranho o título deste despretensioso texto. Como já intuíram, inspiro-me abertamente na obra da filósofa Hannah Arendt. Entre suas obras, a mais conhecida é, sem dúvida, “A banalidade do mal”. Publicada como livro em 1963, ela reúne a série de reportagens por ela produzidas para o “The New Yorker” por ocasião do julgamento do oficial do exército alemão Adolf Eichmann. A obra ganhou como título “Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal”. Tal foi o impacto da obra que foi versada em filme pelo menos dez vezes. A última e mais contundente – pelo menos do meu ponto de vista – foi a lançada em 2012 por Margarethe von Trotta.
O impactante da obra é que, Hannah, ao relatar o julgamento de Eichmann, apresenta-o de uma forma diferente do esperado pelos leitores do “The New Yorquer” e, de modo especial, pela comunidade judaica. Todos esperavam uma descrição de um oficial alemão irascível, violento, sanguinário e monstruoso assim como monstruosa tinha sido a Segunda Guerra Mundial e, nela, o extermínio de judeus, comunistas, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais protagonizado pelo regime nazista e seus aliados. O Eichmann descrito – e tão bem representado no filme de Margarethe von Trotta – é uma pessoa normal, calma, tranquila e que responde com toda serenidade às perguntas que lhe são feitas e se sente inocente de todas as atrocidades cometidas. Na sua consciência, ele apenas obedecera ordens recebidas de seus superiores hierarquicamente estabelecidos na esperança de ser recompensado e assim poder galgar os degraus da burocracia e garantir os recursos econômicos que permitissem à sua família viver uma vida de segurança e tranquilidade.
Diante do fato, a filósofa se pergunta: como é possível tal consciência diante da brutalidade dos crimes cometidos? Fugindo da resposta fácil que responsabiliza um indivíduo em particular pelos males da humanidade, ela compreende o mal não como uma entidade metafísica em si mesma ou um dado natural inerente à condição humana e muito menos como uma perversão individual da condição humana de per si boa. Para Hannah Arendt, o mal tem uma natureza política e histórica. Ele é produzido pelos seres humanos e encontra guarida e se expande a partir de opções coletivas conscientes e deliberadas. Assim, o nazismo, por exemplo, não é fruto da mente perversa de Adolf Hitler ou de seus sequazes mais próximos, mas é resultado das condições históricas vividas na Alemanha no pós-guerra e da opção política da maioria dos alemães que a ele aderiram.
Tal análise que foge da obviedade de culpar um indivíduo pelo mal existente chocou a comunidade judaica norte-americana e a filósofa amargou o ostracismo que lhe foi imposto. E isso não foi sem razão. De fato, o argumento por ela desenvolvido deixava um sério questionamento no ar: não podemos nós, que ontem fomos vítimas, nos tornarmos amanhã vitimários e produzir atrocidades que se comparem às que hoje denunciamos? A história da relação entre o Estado de Israel e os árabes-palestinos mostra que há razões de sobra para se pensar nisso…
Mas meu objetivo era outro ao iniciar esta crônica. Como veem, meu propósito não era falar da banalidade do mal, mas da banalidade da violência. Afinal, o Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Sem que aqui haja guerra alguma, somos o 10º país com o maior número de mortes por armas de fogo. Dentre as 50 cidades mais violentas do mundo, 17 estão no Brasil. E a violência é seletiva. O maior índice de mortes acontece entre jovens, jovens negros, jovens negros com baixa escolaridade, mulheres, pessoas LGBT e indígenas.
É aqui que entra Hannah Arendt. Se seguimos sua argumentação, estas mortes não são casuais. Elas têm uma natureza política e histórica. O assassinato da vereadora Marielle Franco – ainda não elucidado, diga-se de passagem – mostrou isso de forma gritante. Por que ela? Mulher, pobre, negra, favelada, lésbica, defensora dos direitos humanos… Havia alvo melhor que ela para demonstrar a opção política e histórica da violência?
Meu temor é que, como sociedade, tornemos a violência banal e persigamos apenas atingir o índice de violência tolerável segundo os indicadores da Organização Mundial da Saúde: 10 mortos a cada 100 mil pessoas! E a partir deste índice básico passemos a tolerar outras formas de violência socialmente produzidas, seja por grupos sociais marginais, seja pelo Estado enquanto representante dos grupos sociais dominantes. E há indícios preocupantes! Pelo lado dos marginais, temos os verdadeiros “estados paralelos” criados pelas associações de traficantes nos presídios e nas periferias das grandes cidades. Com eles competem as milícias formadas por policiais na ativa ou já afastados das corporações militares. E não é só no Rio de Janeiro. Em todas as capitais e nas cidades médias do interior isto é notório.
Mas temos também os insistentes pedidos de intervenção militar nas manifestações políticas que iniciaram em 2013 e se prolongam até hoje. Depois ressurgiram os militares pronunciando-se publicamente sobre questões políticas sem que as autoridades desautorizassem tais pronunciamentos. E a escalada da normalização da violência galgou degraus com a intervenção militar no Rio de Janeiro que, ao invés de diminuir, aumento a violência nos bairros pobres e favelas. E hoje, enquanto escrevo estas linhas, o Presidente em exercício enviando os militares para reprimir a manifestação. Será que não nos estamos acostumando muito facilmente com a banalização da violência e já não somos capazes de reagir à sua normalização como forma de regular a convivência social?

Os monstros não caem do céus nem surgem do nada. Como nos ensinou Hannah Arendt, os monstros são frutos de construção histórica e política. E a política, a arte de conviver com o diferente, é a única forma de combatê-los.

Um Deus metamórfico

Acabamos de celebrar a Festa de Pentecostes. Nela proclamamos a divindade do Espírito Santo que com o Pai e o Filho merece a mesma honra e louvação. É o cerne da fé cristã. A afirmação de que Deus é Pai, Deus é Filho e Deus é Espírito Santo. É a Santíssima Trindade. Algo tão óbvio que os cristãos muitas vezes nos dispensamos de nela pensar. E, no entanto, é uma afirmação ousada a de dizer que há três realidades divinas que são, ao mesmo tempo, um só e mesmo Deus. Afinal, como um mesmo Deus pode ser três realidades distintas ou, visto desde outro ângulo, três realidades distintas – Pai, Filho e Espírito Santo – serem um só e mesmo Deus?
Dentro da lógica que rege o nosso pensamento ocidental, ou se é uma coisa ou se é outra e duas coisas não podem ser a mesma ao mesmo tempo. Com Parmênides de Eleia aprendemos que “o ser é e o não ser não é” e Aristóteles no capítulo VI de sua Metafísica nos ensinou que a proximidade ou distância do “ser” cria hierarquias. Quanto mais próximo do “ser” mais real, nobre e verdadeiro e quanto mais longe do “ser” mais aparente, vil e falso.
Dentro dessa lógica, se o Pai é Deus, o Filho não pode ser Deus e muito menos o Espírito Santo. Lógico. Ou Deus é uma coisa ou é outra. Dentro desta lógica, o máximo que o Filho e o Espírito Santo poderiam ser é “deuses” inferiores e submissos ao Pai. Esse modo de pensar fez surgir, nos inícios da Igreja, uma série de heresias conhecidas como subordinacionistas. Como o nome o diz, o Filho e o Espírito não seriam Deus igual ao Pai, mas seus subordinados. A mais famosa destas heresias foi o arianismo que, no final do século IV e início do século V, praticamente ganhou a unanimidade entre os doutros da Igreja no Ocidente. Mas não foi aceito pela fé popular e, com o tempo, rejeitado como herético.
Quem conseguiu fugir do aparentemente insuperável princípio da não contradição parmenídico e aristotélico foram os padres capadócios: São Basílio, São Gregório de Nissa e São Gregório de Nazianzo. Nascidos na atual Turquia, eles buscaram guardar o princípio original da experiência cristã e, nela, a afirmação da Trindade. Segundo o pensador francês Jean-Yves Leloup, eles são os “verdadeiros filósofos”, um “continente esquecido no pensamento ocidental”. E isso por duas razões. Primeira, porque pagaram com a vida o seu arraigo à experiência originante da fé cristã: a de que Jesus é Deus com o Pai e o Espírito. Segundo, porque colocaram os fundamentos de um nova forma de pensar não mais baseada na lógica parmenídico-aristotélica, mas no princípio da relacionalidade.
Segundo os padres capadócios, o que faz o “ser” das diversas realidades, não é a sua identidade e a contradição que ela possa estabelecer com as outras identidades. O que faz algo ser o que é, segundo os capadócios, é a sua relação com os outros seres. Assim, na Trindade, o que faz o Pai ser Pai é sua relação com o Filho e o Espírito Santo. E o que faz o Filho ser Filho é a sua relação como Pai e o Espírito e o que faz o Espírito ser Espírito é sua relação com o Pai e o Filho. É o princípio da relacionalidade que os capadócios chamaram, usando a língua grega na qual pensavam, de “pericoresis”. Em outras palavras, para que uma pessoa da Trindade seja o que Ela é, é necessário a sua relação com as outras. E essa relação, nos ensinam os padres do Oriente, é sempre dupla: ao mesmo tempo em que na relação cada um dos membros da Trindade é constituído em sua identidade, Ele também constrói a identidade do outro num jogo dinâmico de Amor entre os três.
E, como em Deus não há mentira, mas Ele age conforme é, Deus, em sua trinitariedade relacional, não poderia ficar sozinho. Para continuar expandindo sua relação de Amor, ele criou o mundo e a humanidade e nelas deixou a marca do seu ser, o princípio da relacionalidade. O mundo e, nele os humanos, somos feitos à imagem e semelhança de Deus-Trindade. Somos seres de relações. Ninguém “é” sozinho e nem encontra sua identidade na contradição com o outro. Nós somos o que somos na medida de nossas relações. O ser sozinho, a autonomia, a competição, a meritocracia… e outras tantas formas de isolacionismo e hierarquização social são o princípio da morte, do não-ser, do nada, tanto de si mesmo como do outro.
A ecologia integral tão bem apresentada pelo Papa Francisco na Laudato Sì já incorporou este conceito ao tratar dos seres da criação, entre eles o ser humano, que só existirá enquanto existirem os outros seres que tanto teimamos em destruir. A sabedoria popular também há muito tempo já acolheu esta realidade através do ditado “dize-me com quem andas e eu direi quem tu és”. Nós somos as nossas relações! Para o bem ou para o mal. E mudamos o nosso ser não apenas a partir de decisões interiores, mas no concreto da mudança das pessoas com quem convivemos, deixando que elas nos mudem e atuando para mudá-las.
Na linguagem parmenídico-aristotélica, nós não somos nem formados e nem amorfos. Somos seres capazes de transformação, ou seja, de ir além da forma que recebemos e caminharmos sempre em novas e inovadoras formas de ser. Assim como o Deus-Trindade o é: um Deus para além de todas as formas. Um Deus de relações. Um Deus meta-mórfico que nos faz sempre e cada vez novos em nosso ser.

Sozinhos, mas não abandonados!

As celebrações pascais são o centro da vida litúrgica cristã. Nelas, celebramos a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Através deste Mistério, presentificamos a salvação com a qual Deus agraciou toda a humanidade de uma vez por todas. Tal certeza nos permite viver a leveza e a responsabilidade daqueles e daquelas que se sabem livres em Jesus Cristo, pois, como diz o apóstolo, foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Para a nossa liberdade e para libertar os que vivem o peso da escravidão, seja ela qual for.
No último domingo celebramos a Festa da Ascensão. No próximo, será a de Pentecostes. Cada uma tem sua importância, é verdade, mas elas são intrinsecamente ligadas uma à outra e me suscitam uma breve meditação que quero partilhar com vocês, pois me parece muito consoladora.
Comecemos pela Festa da Ascensão. Em uma aproximação não atenta, ela pode parecer estranha dentro da lógica litúrgica. Afinal, no início de toda Celebração Eucarística, se estabelece o diálogo entre o Presidente e a Assembleia. O Presidente diz à Assembleia: “O Senhor esteja convosco!” A Assembleia responde: “Ele está no meio de nós”. Como dizemos que “Ele está no meio de nós” e, ao mesmo tempo, festejamos que Ele subiu aos céus? A resposta não é tão complicada se nos reportamos ao imaginário da época em que os Evangelhos foram escritos. Naquele tempo, afirmar que Jesus “foi levado para o céu” e acrescentar, como o faz o Evangelho, que “Ele agora está sentado à direita de Deus Pai”, significava afirmar a vitória de Deus sobre a morte e o reconhecimento da condição divina daquele que fora crucificado pelos romanos. Tanto no imaginário judaico como no helenístico, o céu é o lugar dos deuses e quem para lá é levado tem em si a condição divina. Ou seja, é uma outra linguagem para afirmar a ressurreição de Jesus e, nele, a vitória definitiva da vida sobre a morte.
Mas deixando de lado esta abordagem estritamente teológica, quero ater-me a outra mais vivencial e que nasce da minha imaginação. Tomando em sentido literal a figura da subida aos céus de Jesus, podemos interpretá-la como um afastamento daquele que, durante os três anos de caminhada com os discípulos e discípulas, fora o protagonista do grupo de homens e mulheres da Galileia que, na ânsia da chegada do Reino de Deus, tomaram o caminho de Jerusalém. Em todos os momentos do percurso, Jesus caminhara à cabeça do grupo, ensinando e mostrando como era o Reino que Ele estava inaugurando. Os discípulos seguiam Jesus e espelhavam-se nEle para aprender o novo jeito de viver e como anunciá-lo a todas as gentes.
Agora, nas Ascenção, Jesus sai de cena. Ele se afasta porque quer que os discípulos assumam o protagonismo da missão. É como o pai ou a mãe que, durante os primeiros meses, vão tomando o filho pelas mãos e ajudando-o a que se ponha de pé, ensaie os primeiros passos. O objetivo é que o filho aprenda a caminhar sozinho e não mais precise de ajuda de seus genitores. Durante o aprendizado, auando o filho cai, o pai ou a mãe o tomam pela mão, levantam-no outra vez, estimulam-no, vão na frente e pouco a pouco soltam a mão até que o filho caminhe sozinho.
Agora Jesus se foi. Ele não está mais aí para guiar os discípulos e discípulas. Mas como o pai e a mãe que, mesmo quando o filho começa a caminhar sozinho, sempre estão presentes para apoiá-lo e orientá-lo a fim de que faça o seu caminho, Jesus não deixa os seus discípulos abandonados a sua própria sorte. No mesmo momento em que se afasta deles, Ele lhes promete o envio de Seu Espírito a fim de que ele caminhem sozinhos, sim, mas permaneçam sob Sua orientação e direção.
Na Ascenção Deus nos diz: vocês são adultos na fé. Receberam, pelo batismo, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e agora cabe-lhes fazer o caminho com suas próprias pernas. Mas Deus não nos deixa sozinhos. Pelo contrário, estamos bem acompanhados pela força do Espírito que nunca nos abandona e sempre nos incentiva a pró-seguir o caminho iniciado por Jesus. Se o Filho conduziu os discípulos da Galileia até Jerusalém, o Espírito conduzirá os agora apóstolos de Jerusalém até os confins de toda a terra.
E, se da beira do mar de Tiberíades até Jerusalém os discípulos aprenderam a fazer o que Jesus fazia, agora, de Jerusalém em diante, eles terão que inovar e fazer coisas novas que o Espírito lhes suscitará. A tradição do Filho lembra o passado. A novidade do Espírito inspira o futuro. Sabemos de onde viemos, mas para onde vamos, só o Espírito sabe. O consolo é que, mesmo estando sozinhos, não estamos abandonados!

Padres casados. Por que não?

Um dado quase que praticamente desconhecido, inclusive entre os católicos, é que um em cada cinco sacerdotes da Igreja Católica Romana é casado! É isso mesmo. No mundo inteiro, hoje, há aproximadamente 500.000 homens ordenados ao ministério presbiteral na Igreja Católica Romana. Destes, aproximadamente 100.000 são casados. Em outros termos, 20%! Uma alta proporção que se mantém mais ou menos constante nas diversas áreas geográficas em que a Igreja Católica Romana está presente.
O único detalhe é que, na quase totalidade dos casos, esses padres estão “dispensados” da obrigação de prestar serviço às comunidades para as quais foram ordenados. Confuso? Não, se considerarmos a teologia da Igreja Católica Romana em relação ao ministério ordenado. Na compreensão católico-romana, a ordenação é um sacramento que confere um caráter indelével ao que o recebe. Em outras palavras, mesmo que alguém deixe de exercer o serviço à comunidade, ele não deixa de ser padre. Desse modo, não existem “ex-padres”. Existem apenas padres que não mais realizam aquelas atividades inerentes ao ministério ordenado como, por exemplo, administrar os sacramentos de forma ordinária.
Mas, perguntar-se-á alguém, por que tantos padres que um dia juraram ajoelhados em frente do bispo dedicar toda a sua vida à Igreja, deixam esse ministério e, na maioria dos casos, fazem-no para viver um relacionamento amoroso que se encaminha, muitas vezes, para o casamento?
Ensaio uma resposta que pode parecer simplória. Isso acontece porque ninguém é obrigado a ser padre! Na Igreja Católica, o ministério sacerdotal é assumido de livre e espontânea vontade pela pessoa. Geralmente os que o assumem são jovens que, no idealismo típico da idade, sentindo-se chamados por Deus, decidem dedicar-se integralmente ao serviço da Igreja. Para tornar isso possível, obedecendo a uma orientação do Segundo Concílio de Latrão (1139) e referendada pelo Concílio de Trento (1545-1563), o candidato renuncia a um relacionamento afetivo e esponsal com uma mulher e à constituição de uma família.
Com o passar dos anos, estes jovens que a cada ano vão tornando-se cada vez menos jovens e menos idealistas, começam a vergar sob o peso e as exigências do ministério ordenado. Exigências não só de ordem laboral, mas especialmente de ordem afetiva. A solidão não é fácil! Estar todos os dias atendendo, da manhã à noite, uma infinidade de pessoas que procuram o padre geralmente em situações de conflito e stress emocional e exigem uma atenção que o padre nem sempre tem condições de dar. Problemas econômicos de paróquias que não conseguem sustentar um padre. Conflitos com o bispo que nem sempre entende a situação do padre e exige dele mais do que pode dar. Falta de entendimento com os colegas padres que vivem a mesma situação, mas fazem de conta que o problema do colega não é o mesmo que ele está vivendo… E outros tantos problemas que levam o padre a perguntar-se se aquela opção juvenil era mesmo o melhor caminho para a sua vida.
Os números que acima referimos mostram que uma quantidade significativa decide, em situações como esta, dar novos rumos à sua vida. Renunciam ao exercício do ministério presbiteral e retomam sua vida buscando uma nova atividade profissional e construindo um relacionamento que já vinha se gestando durante o exercício do ministério ou que nasce das novas circunstâncias.
Quem tem ocasião de conviver com padres que deixaram o ministério – eu o faço quotidianamente e certamente muitos dos que estão a ler este texto agora o fazem – conhecem casos de padres casados que gostariam imensamente de continuar a entregar parte de sua vida no serviço da comunidade cristã. Em outras palavras, sentem-se chamados por Deus ao ministério ordenado, mas não conseguem vivê-lo conforme a lei da Igreja que condiciona o exercício do ministério presbiteral ao celibato.
E essa realidade é ainda mais dolorosa quando sabemos que tantas comunidades católicas, por falta de ministros ordenados, vivem sem ter acesso ao sacramentos a que tem direito, especialmente à Eucaristia dominical. No Brasil, estima-se que 70% das comunidades católicas não tem a missa dominical como deveriam tê-la.
Que fazer nesses casos? A norma geral até hoje, por parte das autoridades eclesiásticas, é manter-se insensível a essa situação. Tanto a dos padres que, tendo casado, gostariam de continuar a servir à comunidade como a situação das comunidades que gostariam de ter um padre para celebrar os sacramentos e de bom grado aceitariam um padre casado.
Minha humilde sugestão é simples. Para estas situações especiais, a Igreja deveria abrir exceções. Para tal, bastaria seguir a prática instaurada pelo Papa São João Paulo II. Em 2009, para acolher um grupo de padres católicos anglicanos que desejava integrar-se à Igreja Católica Romana, São João Paulo II permitiu que eles passassem a exercer seu ministério presbiteral na Igreja Católica e continuassem convivendo com suas esposas e seus filhos. Um não cumprimento da lei que se justificava pela circunstância especial que se colocava.
Por que, então, não usar o mesmo princípio para a realidade de comunidades que não tem – e provavelmente nunca terão – ministros ordenados e desejam ter alguém para administrar os sacramentos, mesmo que esse alguém seja um padre que viva com sua esposa e filhos? E ainda com a vantagem de que esse padre não vem de outra Igreja, mas foi criado, educado e ordenado na própria Igreja Católica?
Nesse caso, creio eu na minha humilde opinião, deveria valer o princípio ensinado por um antigo Mestre que um dia começou um movimento do qual mais tarde viria a nascer o cristianismo e a Igreja Católica, de que “a lei foi feita para o homem e não o homem para a lei”.

Mulheres na Igreja: da suplência à titulariedade

Era o ano de 1944. O mundo ardia sob as chamas e bombas da Segunda Guerra Mundial. Enquanto na Europa a grande batalha se dava entre as forças alemãs e italianas por um lado, e as soviéticas, britânicas, francesas e americanas por outro, na longínqua Ásia, os protagonistas do conflito eram japoneses e chineses. O império japonês, em um rápido e avassalador avanço, já no ano de 1937, havia conquistado todos os territórios do Pacífico e do Índico. A China, sob a liderança de Mao Tsé-Tung, resistia como podia. O caos era generalizado. As cidades de Hong Kong e Macau, ainda sob o domínio britânico e português, tornaram-se lugar de refúgio para milhares de pessoas que fugiam da guerra. A Igreja Anglicana de Hong Kong e Macau, sob a liderança do bispo Robert Hall, buscava, dentro de suas possibilidades, ajudar a foragidos e feridos.
Entre as pessoas destacadas para a missão em Macau, estava Florence Li Tim-Oi. Nascida no enclave português, Florence fez sua formação teológica no Seminário de Cantão e, em 1938, foi para Hong Kong onde, durante dois anos, dedicou-se ao serviço aos refugiados. Em 1940 ela foi enviada por seu bispo para Macau. Seis meses depois retornou a Hong Kong para ser ordenada diaconisa. De volta a seu posto em Macau, continuou servindo à comunidade que vivia um problema inusitado: por causa da guerra, não havia presbíteros para celebrar os sacramentos para a comunidade. As crianças não eram batizadas e não havia Eucaristia para a comunidade. Diante da situação e da demanda da comunidade, o bispo Robert Hall autorizou Florence a administrar os sacramentos à comunidade. E ela o fez, mesmo sem ainda ser ordenada ao presbiterato. Foi só em 2 de janeiro de 1944 que Florence, cruzando os territórios ainda ocupados pelos japoneses, conseguiu encontrar-se com o bispo e receber oficialmente a ordenação presbiteral. Foi a primeira mulher ordenada presbítero na Igreja Anglicana.
Com o fim da guerra e a normalização da vida, a Igreja Anglicana, na Conferência de Lambeth de 1948, decidiu pela invalidade das ordens concedidas a Florence e pela impossibilidade da ordenação de mulheres ao presbiterato. A questão só foi retomada na década de 1960 e, a partir de 1968, em várias partes do mundo, inclusive Hong Kong e Macau, a Igreja Anglicana começou a ordenar mulheres. Em 1971, Florence Li Tim-Oi teve suas ordens reconhecidas.
No Brasil, foi no ano de 1985 que a Igreja Anglicana passou a ordenar mulheres ao presbiterato. Neste fim de semana, no dia 21 de abril, na Catedral Anglicana Santa Maria de Belém do Pará, a Reverenda Cônega Marinez dos Santos Bassotto foi sagrada  bispa da Igreja Anglicana. Ela é a primeira mulher da Igreja Anglicana a receber a Sagração Episcopal na América Latina. Ela foi eleita pelo Concilio Extraordinário da Diocese Anglicana da Amazônia em 20 de janeiro de 2018 e servirá no ministério episcopal da Igreja naquela região.
Marinez é casada com Paulo Antônio Bassotto, com quem tem duas filhas, Laura e Luísa. Ela foi ordenada há 23 anos e, entre outras funções, foi Deã da Catedral Anglicana de Porto Alegre e responsável pela Liturgia e Diaconato na Diocese Meridional.
Para os católicos romanos que, no próximo ano, teremos o Sínodo Extraordinário sobre a Amazônia que discutirá, entre outros temas, a possibilidade da ordenação presbiteral de homens casados para o serviço da Igreja naquela região, a história da Reverenda Florence Li Tim-Oi e da Reverendíssima Marinez dos Santos Bassotto é muito desafiadora. Ela nos mostra como o Espírito Santo vai construindo seus caminhos e conduzindo a sua Igreja em meio às dificuldades da história. E nos mostra que, nos momentos em que parece que todos as estradas se fecham, surgem então novas luzes que, mesmo se num primeiro momento parecem nos cegar com sua claridade, com o tempo se tornam faróis a iluminar novos sendeiros a trilhar.
Nessa perspectiva, é muito significativa a nomeação feita, neste mesmo dia 21 de abril, pelo Papa Francisco, de três mulheres para o Colégio de Consultores da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. São elas a italiana Linda Ghisoni, susbcertária do Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé), especialista em Direito Canónico; a também italiana Michelina Tenace, professora de Teologia na Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma; e a belga Laetitia Calmeyn, professora de Teologia no Colégio dos Bernardinos, em Paris.
Elas, mulheres e leigas, passam a integrar o seleto e poderoso grupo que, historicamente, só teve homens e clérigos como seus membros e, quando ainda se chamava Santo Ofício da Inquisição, se notabilizou por condenar mulheres à fogueira sob a acusação de bruxaria.
Linda, Michelina e Laetitia vem juntar-se à irmã Carmen Ros Nortes que, em fevereiro deste ano,  foi nomeada pelo Papa Francisco como nova subsecretária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (Santa Sé). Em novembro de 2017, o Papa já havia nomeado duas mulheres como subsecretárias do novo Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé): a já referida Linda Ghisoni e e Gabriella Gambino, professora de Bioética. Desde julho de 2016, a jornalista espanhola Paloma García Ovejero é vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé. Entre outros cargos de alto escalão ocupados por mulheres no Vaticano, está Margaret Archer presidindo a Pontifícia Academia de Ciências Sociais e Barbara Jatta sendo a primeira diretora dos Museus Vaticanos desde janeiro de 2017.
São sinais que nos permitem sonhar com uma Igreja onde a diferença de gênero não seja mais vista como um fator de hierarquização, mas como uma possibilidade de mútuo engrandecimento para todos os filhos e filhas de Deus.

Por que os padres não casam?

Para quem trabalha com formação teológica em meio popular, esta pergunta, inevitável e reiteradamente, aparece: por quê os padres não casam?
Normalmente, quando interpelado sobre o tema, não dou uma resposta direta. Respondo quase sempre com uma outra pergunta: “Você iria se confessar com um padre casado?” Ou então, com essa outra pergunta: “Na sua comunidade, um padre casado seria bem aceito?” Diante destas perguntas, as respostas começam a variar… É que a pergunta em abstrato é fácil de responder. Mas quando situada e feita concretamente a alguém ou a alguma comunidade, a coisa começa a mudar de figura.
Com efeito, a manutenção ou a extinção da obrigatoriedade do celibato como condicionante para a ordenação presbiteral e episcopal, não é uma verdade de fé. Se o fosse, a resposta seria fácil: “Deus quer assim e ponto!” O celibato obrigatório foi instituído pela Igreja Católica Apostólica Romana em um determinado contexto histórico em que se fazia necessária um alinhamento absoluto de todo o clero com as determinações da Cúria Romana. Para isso o caminho escolhido foi a criação de um estamento eclesiástico totalmente separado do contato com o mundo. Assim foram criados os seminários onde os meninos, ainda crianças, eram enviados e ali recebiam uma educação, tanto humana como religiosa, totalmente em acordo com as determinações da hierarquia eclesiástica e aprendiam a exercer os ofícios relacionados à ação sacerdotal. Tal modelo foi implementado na sequência do Concílio de Trento (1545-1563) que tinha como objetivo a uniformização do catolicismo tornando-o assim romano.
E antes, como era? O que podemos dizer, de forma sintética, é que antes do Concílio de Trento a formação para o exercício do ministério ordenado na Igreja era muito variada. Não havia seminários para a formação do clero. Para que alguém fosse ordenado, bastava que tivesse algumas noções fundamentais de direito eclesiástico e fosse desenvolto na execução das tarefas litúrgicas. A designação para as funções presbiterais e episcopais dependia da eleição da comunidade ou da determinação por parte das autoridades civis e das autoridades eclesiásticas. E é bom lembrar que as duas autoridades em muitos casos coincidiam na mesma pessoa. O celibato, por sua vez, apesar de recomendado pelas autoridades eclesiásticas desde o século XII, não era uma realidade muito usual. Boa parte do clero era, formal ou informalmente, casada.
Mas por quê trago tudo isso à reflexão nesse momento? É que no próximo ano teremos o Sínodo para Amazônia. E neste Sínodo, uma das questões já em pauta é a possibilidade de ordenação de homens casados. Ou seja, muda-se a pergunta com a qual iniciamos nosso texto. Não se trata de “por quê os padres não casam”, mas de “por quê não ordenar homens casados”?
Digo de antemão que sou totalmente favorável à ordenação de homens casados. Assim como sou favorável à ordenação de mulheres. Não é o celibato ou a pertença ao gênero masculino que faz alguém ser mais ou menos apto para o serviço à comunidade. Homens, mulheres, casados, solteiros… todos têm a possibilidade de serem bons servidores da comunidade no ministério ordenado.
Mas, considero que esta questão tem que ser colocada para toda a comunidade cristã. Todos os católicos romanos – bispos, presbíteros, leigos, leigas, religiosos e religiosas – devem ser consultados sobre a possibilidade e a necessidade de ordenação de homens casados. E não apenas para as distantes regiões da Amazônia. Tanto quanto na Amazônia, nossas comunidades das periferias das grandes cidades e das zonas rurais sofrem com a ausência de um clero que com elas se identifique e conviva nas necessidades e alegrias do quotidiano. Mas é preciso que se construa um consenso eclesial para que estes novos ministros sejam aceitos e não relegados a uma função supletiva e auxiliar enquanto as decisões na Igreja continuariam a ser tomadas por senis machos celibatários.

A história é dialética…

Por que temos um Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos? Porque antes tivemos um Barack Obama… Simples assim. O Trump se elegeu prometendo desfazer tudo o que o Obama tinha feito: o plano de saúde popular conhecido como “Obama Care”; os direitos das minorias sociais, étnicas e sexuais; o tratamento digno para com os migrantes que a própria economia norte-americana necessita; um menor unilatelarismo imperial nas relações internacionais… Quem elegeu Trump? É conhecido até pelas árvores das ruas de Whashington que Trump foi o candidato da “velha indústria” americana – armas, segurança, automóveis e petróleo – que capitalizou os medos da classe média tradicional “wasp” (white, anglo-saxon and protestant) que sentia sua hegemonia sacudida pela emergência de novos sujeitos sociais tão simbolicamente representados pelo casal presidencial Barack e Michelle Obama. E Trump está dando respostas concretas aos que o elegeram. Ele não é louco. Muito antes pelo contrário. Ele tem uma clareza política ímpar e toma as pequenas decisões do dia-a-dia fundamentado neste norte político.
Por que temos um Papa Francisco à frente da Igreja Católica? Porque antes tivemos um Papa João Paulo II e um Papa Bento XVI. Simples assim… O Papa Francisco foi eleito para desfazer muito do que seus predecessores tinham feito à frente da Igreja Católica Romana: uma excessiva preocupação com a verdade dogmática, uma burocracia focada no dinheirismo e devassa do ponto de vista moral, um fechamento às novas realidades contemporâneas, um medo à democracia e ao popular, uma elitização gnóstica e uma liturgia e uma moral de corte pelagianiano… Quem elegeu o Papa Francisco? Até as Colunas de Bernini, mesmo sem nunca terem-se movido do lugar onde estão há cinco séculos, sabem que Francisco Bergoglio foi eleito pela maioria silenciosa dos cardeais que nos últimos 30 anos foram sistematicamente relegados pela Cúria Romana ao ostracismo eclesiástico e viam suas igrejas definharem em meio aos escândalos vaticanos e os novos desafios da realidade. E o Papa Francisco está dando respostas aos que o elegeram. Seus gestos e suas palavras – tanto nos grandes textos das Exortações Apostólicas e nas Encíclicas como nos pequenos textos dos sermões e catequeses – ele apresenta performaticamente um novo rosto da Igreja cuja maior característica é a alegria e a esperança para os que sofrem. Ele não é o anti-papa nem um pastor sem teologia como querem seus detratores. Tudo o que faz e diz é norteado pelo princípio do amor misericordioso pregado e vivido por Jesus.
Por que temos um golpe parlamentar-midiático-jurídico em curso no Brasil? Porque antes tivemos um Lula durante oito anos na Presidência e uma sua sucessora que, reeleita, ameaçava levar adiante o mesmo projeto por mais oito anos. Simples assim… Os governos Lula e Dilma, mesmo em meio a grandes contradições e a uma oposição feroz, estavam fazendo aquilo para o qual foram eleitos: tirar o Brasil do mapa da miséria e da fome através dos programas sociais, abrir as portas das escolas e das universidades às crianças e aos jovens de baixa renda que antes nunca haviam podido alcançar tais níveis de escolarização, criar políticas para o resgate da identidade e afirmação das peculiaridades de negros e quilombolas, fazer com que os direitos humanos básicos fossem acessíveis àqueles e àquelas que sempre tiveram sua humanidade espezinhada, oferecer emprego, casa e saúde digna para a maioria da população, fortalecer a economia nacional e inserir o país, de forma soberana e altiva, no cenário internacional… Quem elegeu Lula e Dilma? Até as emas dos jardins do Palácio da Alvorada sabem que o voto que elegeu Lula e Dilma veio das camadas mais pobres da população do campo e da cidade. E esse voto e as mudanças sociais nele fundamentadas começaram a mudar a cara da sociedade brasileira. E aqueles que governaram durante 500 anos o Brasil sentiram sua hegemonia ameaçada pelos novos sujeitos sociais que se transformavam em sujeitos políticos. E é bom lembrar que a reação não é recente. Começou com o dito “Mensalão” de 2005, passou pela reeleição de 2006, se explicitou nas eleições de 2010 e 2016. Mas como através do caminho democrático – mesmo que a nossa democracia seja apenas formal – as elites dominantes não conseguiram dar cabo do novo projeto em ascensão, foi necessário o golpe parlamentar de 2016 e, agora, em 2018, a joia da coroa, a prisão de Lula.
Onde vamos terminar? Não sei… Ninguém sabe! O que esperamos é que, depois do Trump, haja um Obama II. E depois de Francisco, um Francisco II. E nunca mais tenhamos que temer um Temer II! E muito menos generais e seus séquitos militares a enfeiar a paisagem do Planalto Central. Porque a democracia é um valor básico da convivência social. Sem ela, só resta o caos. E no caos, todos perdem. Inclusive as elites!

Maria Madalena outra vez no cinema

O que seria do Cristianismo se a liderança feminina de Maria Madalena não tivesse sido sufocada pela liderança masculina de Pedro, Tiago e João e pela misoginia do tardio Apóstolo Paulo? O que seria do Cristianismo se a tradição gnóstica, tão presente nos evangelhos apócrifos redescobertos na segunda metade do século XX, tivesse sobrevivido à ortodoxia imposta pela hierarquia eclesiástica do Norte da África, da Itália e de Constantinopla que buscava acomodar as sempre revoltosas comunidades cristãs à Pax Romana?
Difícil saber e arriscado afirmar algo sobre tal possibilidade. Afinal, a história não trabalha com hipóteses. Ela trabalha com fatos. E o fato é que Maria Madalena, mesmo sendo ela a personagem mais citada pelos evangelhos canônicos nas cenas decisivas da vida de Cristo – Morte e Ressurreição –, sua memória foi apagado dos outros textos do Novo Testamento. Em nenhuma das cartas de Paulo, tanto as autênticas como as deutero-paulinas, seu nome aparece. Tampouco nas cartas dos outros apóstolos. Nem mesmo nas de João e em seu Apocalipse.
Não tardou para que um terceiro passo fosse dado. Do protagonismo nos evangelhos sinóticos ao esquecimento nas cartas apostólicos passou-se, na tradição patrística, à difamação da mulher que mais aparece – até mesmo mais que a mãe de Jesus – nos evangelhos. Pouco a pouco, na literatura patrística, Maria Madalena passou a ser associada à pecadora que, no capítulo sete do Evangelho de Lucas, ungiu os pés de Jesus. E sem que o Evangelho o diga, o Papa Gregório Magno, no ano de 591 d.C., numa homilia proferida em Roma, afirmou que o pecado de Maria Madalena era a prostituição. A autoridade de Gregório sobre a Igreja era tal que sua versão a respeito de Maria Madalena espalhou-se rapidamente pelo Ocidente e passou a fazer parte das verdades tradicionais da Igreja.
A arte comprou tal versão. Basta fazer um passeio pela pintura renascentista e encontraremos dezenas de belas e sedutoras Marias Madalenas aproximando-se de Cristo em busca de arrependimento. Nikos Kazantzakis em “A última tentação de Cristo” trabalha maravilhosamente bem uma possível relação amorosa entre Maria Madalena e Jesus. O mesmo argumento é utilizado por Dan Brown em “O código Da Vinci”. Ambas as obras foram vertidas para o cinema e, por razões distintas que não temos aqui o espaço de discutir, atraíram milhões de pessoas e ajudaram a popularizar a versão de uma relação amorosa entre o Nazarena e a Madalena.
O filme de Garth Davis atualmente em cartaz nos cinemas não vai por esse caminho. Em nenhum momento há qualquer insinuação de uma relação amorosa entre os dois. O único sentimento que entre eles se estabelece é o de afeto fraterno na espera da chegada iminente do Reino de Deus que trará a justiça para os fracos da terra. O peculiar de Maria é que ela, diferentemente dos outros discípulos, entendeu a proposta de Jesus. Enquanto os outros discípulos viviam na expectativa de que Jesus levantasse as multidões contra o jugo do Império Romano, Maria compreendeu que as curas operadas por Jesus e sua proximidade amorosa para com os sofredores já eram esse Reino presente no mundo.
Se Maria tivesse sido substituída nesse papel por qualquer um dos outros discípulos homens, a trama em nada mudaria. Não há, propriamente falando, no filme, uma relação entre Jesus e Maria Madalena. A relação se dá dos dois para com o Reino de Deus. E nessa relação o filme parece se ater à tradicional divisão de trabalho por gênero: Jesus evangeliza os homens e Maria evangeliza as mulheres e as crianças! E mais: Maria é a única mulher entre os discípulos de Jesus. As outras mulheres mencionadas pelos evangelhos, simplesmente estão ausentes da trama… Ponto a menos para qualquer tentativa de reinterpretação feminista dos evangelhos.
Talvez a falta de uma trama mais ardente entre os dois tenha feito com que Rooney Mara e Joaquim Phoenix que interpretam Maria Madalena e Jesus, transmitam um certo ar de apatia, no sentido etimológico do termo. Falta paixão na interpretação. Os dois parecem deixar-se levar pela trama sem contribuir para que a história, em si já conhecida de todos, ganhe em dramaticidade. Por falar em trama, faltou às roteiristas Philippa Gosslett e Helen Edmundsen uma mais acurada pesquisa histórica sobre a Palestina do tempo de Jesus. O modo como é crucificado Jesus, por exemplo, nada tem a ver com o que nos revelaram as últimas pesquisas arqueológicas.
O que tem de bom o filme, então? Um olhar complacente que não considere a pesquisa histórica como acima consideramos, pode alegrar-se com a inclusão de vários personagens negros na história. Pedro, por exemplo, bem representado por Chiwetel Ejiofor, é um deles. Mas podemos ver outros negros entre os discípulos de Jesus. E também entre os soldados romanos.
O que salva o filme são as cenas iniciais e seu relacionamento com os últimos segundos. Maria Madalena, de uma mulher oprimido e controlada pelo pai e pelos irmãos nas cenas iniciais, depois do encontro com o curador de Nazaré, toma as rédeas da vida em suas próprias mãos e, impulsionada pelo encontro com o Ressuscitado, torna-se anunciadora da Boa Nova do Reino. Isso é o essencial que salva o filme. Para tal, não era necessária uma produção de 40 milhões de dólares e 119 minutos de duração. Com muitos menos dinheiro, poder-se-ia ter produzido um curta metragem muito mais apaixonante e contundente mostrando a importância feminina nos inícios do cristianismo e o desafio de incluir as mulheres, hoje, nas estruturas eclesiásticas de poder.
Mas Maria Madalena é sempre um argumento chamativo, ainda mais em tempo de Páscoa e com uma boa promoção no preço da entrada. Aí vale a pena!

Ah! Não sou gaúcho…

Quem teve a oportunidade de viajar por outros estados do Brasil, especialmente os do Norte e do Nordeste, sabe o quanto é difícil explicar que as pessoas nascidas no Rio Grande do Sul não são necessariamente gaúchas. Até muitos que moram no Estado mais ao sul do Brasil estranham quando afirmo que nasci neste Estado, mas nem por isso sou gaúcho. Mas é isso mesmo o diz o dicionário de gentílicos: quem nasce no Rio Grande do Sul é rio-grandense-do-sul. Assim de simples!
Gaúcho é outra coisa. Gaúcho não é um termo gentílico. É uma cultura. Tanto que existem gaúchos na Argentina e no Uruguai. Gaúcho é o morador do pampa, descendentes dos povos charruas que habitavam as pradarias pampeanas e foram dizimados pelos invasores espanhóis e portugueses.
Assim como eu e a maioria dos que hoje vivemos nestas terras, não somos descendentes dos índios charruas. Meus bisavós vieram do norte da Itália. Outros tem seus ancestrais oriundos da Alemanha, da Espanha, de Portugal, da França, Suíça, China, Japão… E há os que aqui estão porque seus antepassados foram trazidos à força da África para terem seu trabalho explorado como escravos nas fazendas e charqueadas do sul do Rio Grande do Sul.
Pergunto eu: um menino nascido hoje, filho de pais recém chegados do Haiti, de Bangladesh ou do Senegal, pode ser considerado gaúcho? Rio-grandense-do-sul com certeza é, pois a lei garante a todo nascido em solo brasileiro o direito de ser brasileiro. Mas se é ou não gaúcho, deixo para os gauchistas decidirem. Só lhes peço que tirem todas as consequências desta sua afirmação. E não apenas as que lhes são vantajosas. Se disserem que sim, que o recém nascido é gaúcho, lhes peço abandonem o discurso racista e xenófobo e acolham bem todos os estrangeiros aqui chegados e seus filhos que aqui nascem. Se disserem que não, parem de querer impor sobre toda a população do Estado uma identidade que não lhes diz respeito.
Sei que esta minha batalha é inglória. Sou exceção entre a maioria que, sem se questionar, brada nos estádios “Ah! Eu sou gaúcho…” e, na hora em que é entoado o Hino Nacional Brasileiro, viram de costas e cantam o Hino Riograndense onde se exaltam as façanhas de um passado que nunca existiu.
Lamento ter que dizer isso. Mas é uma afirmação necessária diante da ideologia gauchesca que teima em fazer dos CTG um espaço de reprodução simbólica da fazenda onde os escravos eram açoitados, os peões explorados até o fim de sua vida útil, e as mulheres tratadas como prendas e chinas. Ideologia que se atualiza em discursos escravagistas e excludentes de que “quilombolas, índios, gays, lésbicas … é tudo que não presta” e que volta a querem impor seu mando na base do chicote.
Se essa é a compreensão do gaúcho, posso então dizer, com toda a tranquilidade: “Ah! Não sou gaúcho…”