Prá ficar na história

O mês de março em Porto Alegre é quente. Muito quente. E esta semana foi particularmente quente. Demais… como muitas coisas são demais em Porto Alegre. Para quebrar a rotina depois de uma semana de intenso trabalho, penso em ir ao cinema. Consulto a programação cultural da cidade e, em meio aos premiados e insosos filmes de Hollywood, um estranho título de um documentário brasileiro: “Prá Ficar na História”. A sinopse me surpreende mais que o título: trata-se de uma produção de um diretor gaúcho – Boca Migotto – sobre o empenho de um veterinário garibaldense – Luiz Henrique Fitarelli –  em resgatar, restaurar e guardar objetos relacionados à imigração italiana. Leio alguns comentários sobre o filme disponíveis na internet e me decido: vou ver!
Como a linha de ônibus 255 Caldre Fião desaparece nos finais de semana, desço a pé até a Bento Gonçalves e espero pacientemente por um ônibus que vá até o Centro. O São José me deixa na Rua Uruguai. Subo até a Rua da Praia que no sábado de tarde está transformada em um verdadeiro shopping popular a céu aberto. A sombra dos edifícios e a brisa que sopra do Gasômetro formam um microclima agradável em meio ao torpor das três da tarde. No meio da rua, todo tipo de pessoas vendendo todo tipo de coisas. A maioria são brasileiros que, com o “crescimento negativo” da economia, encontraram no comércio informal uma forma de suavizar a precarização da vida. Chama a atenção também o número significativo de estrangeiros vendendo suas mercadorias nas improvisadas lojas sobre caixas e panos. A maioria são senegaleses. E aí estão os haitianos. Pela convivência com senegaleses na França e com haitianos aqui no Brasil, consigo distinguir, pelo tipo físico e pela fala, quem é de uma nacionalidade e quem é de outra. E há também os equatorianos e peruanos com suas flautas e CDs de música andina. Mais para diante, um casal com duas crianças. Falam espanhol com um sotaque que não conheço. Pode ser que sejam venezuelanos.
Sigo sem pressa pela Rua da Praia. Entro numa farmácia para comprar meus remédios para hipertensão. Coisa de 20 anos de professor! Mais adiante passo pelo restaurante da Tauane. Assim como o diretor do filme que vou assistir, ela também é de Carlos Barbosa. Há 22 anos a família Pedruzzi mantém o restaurante Tauta na Rua da Praia, um pouquinho antes da Casa de Cultura Mário Quintana. Com a dedicação típica dos descendentes de imigrantes, fizeram do restaurante o ganha pão – e algo mais! – para toda a família.
Com o Cartão Banrisul tenho direito à meia-entrada. Uma regalia que é mantida em meio a tantos cortes nos gastos públicos. Umas 20 pessoas de meia idade pra cima na plateia. Pelo tipo físico, tenho certeza de todos são descentes de imigrantes italianos. O documentário tem um pouco o estilo do objeto documentado: uma montanha de belas imagens e entrecortadas falas em português, vêneto e italiano  sobre um amontoado de objetos que Luiz Henrique Fitarelli foi colecionando aleatoriamente durante 40 anos. Não há preocupação em construir uma narrativa orgânica do trabalho de Fitarelli nem um discurso interpretativo da imigração italiana. Nem mesmo as sequências filmadas na Itália tentam estabelecer uma relação entre a situação da Itália no final do séc. XIX e a imigração para o Brasil. Não afirmo isso como um defeito do filme. Pelo contrário, é uma virtude, pois a produção tenta manter-se fiel à proposta do objeto que tenta transmitir. E essa é a virtude maior de um bom documentário. Se Fitarelli não tem sequer um catálogo dos milhares e milhares de objetos que mantém depositados nas várias construções da Villa Fitarelli, que direito teria Migotto de tentar catalogar o trabalho de Fitarelli?
A fala que destoa do conjunto é a da professora Loraine Slomp Giron, uma das maiores estudiosas da imigração italiana no Rio Grande do Sul. Ciceroneada pelo próprio Fitarelli, ela percorre os depósitos e não esconde o seu desdém pelo trabalho do veterinário que se transformou em antiquário. Para ela, os objetos aí guardados, assim como todos os que estão em todos os museus, são objetos mortos que lembram pessoas mortas que lhe trazem “energias negativas”.
Mas uma fala da doutora me chama sobremaneira atenção. Ela lembra que os descendentes dos imigrantes italianos só começaram a ter orgulho e a se interessar pela história da imigração quando esta começou a ser interessante para a indústria do turismo. E que enquanto os descendentes dos imigrantes italianos eram pobres, suas histórias não interessavam a ninguém. E quando estas histórias vinham à tona, eram escondidas ou reprimidas. E arremata provocativamente ela: quem se interessa pela história dos senegalês e haitianos que hoje estão chegando ao Brasil?
Enquanto o documentário prossegue, minha mente sai da Sala Eduardo Hirtz da Casa de Cultura Mário Quintana e sobrevoa os vendedores ambulantes da Rua da Praia que falam sotaques dos diversos cantos do mundo. Cada um e cada uma tem suas histórias de vida que nem sempre são contadas e muitas vezes são ocultadas sobre o genérico nome de “estrangeiros”. Qual o nome do vendedor dos Nikes falsificados? De onde veio a senhora que vende leques chineses? Quantos filhos tem o casal de peruanos que tenta vender seus CDs de música andina? Quem é o pai do adolescente haitiano que vende “pau de selfie” e capas para celular? Quem se interessa por suas histórias?

Talvez daqui a 30, 50 ou 100 anos, seus netos e bisnetos, já estabelecidos no Brasil e com estabilidade econômica, comecem a buscar suas origens, resgatar objetos e contar histórias sobre a chegada de seus antepassados ao Brasil. E quem sabe, um documentário Prá Ficar na História.

A classe media e o complexo de vira-lata

A expressão foi cunhada pelo grande Nelson Gonçalves. Originalmente referia-se à condição do povo brasileiro depois da derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. O gol de Gigghia que fez calar o Maracanã abarrotado selava o sentimento presente na mente de muitos brasileiros de que o nosso destino seria o de ser eternos tupiniquins e quenunca alcançaríamos a glória das grandes civilizações. Nem mesmo no mundo desportivo.
A vitória por 5 X 2 contra a anfitriã Suécia no final da Copa de 1958 foi o começo da virada que se consolidou em 1962 e chegou ao seu auge em 1970 com a seleção canarinho do “Brasil ame-o ou deixe-o”. Os títulos que vieram depois – 1994 nos Estados Unidos e 1992 no Japão – foram apenas decorrência do “melhor futebol do mundo”. O sonho durou até a Copa do Brasil de 2014 e o fatídico 7 X 1 contra a Alemanha. E aí voltou o complexo de vira-lata até que a seleção prove ganhando outro mundial. Quem sabe o da Rússia em 2018?
Mas aí eu coloco uma pergunta: será que é mesmo real o complexo de vira-latas do povo brasileiro? Quem sou eu para desmentir ou corrigir o Nelson Gonçalves… Mas, desde a minha humildade, lanço a tese de que o tal complexo não atinge todos os brasileiros. Ele é um complexo típico da classe média. E isso não é o resultado de nossa composição étnica mestiça ou da fatalidade de sermos um país tropical, como afirmaram vários “cientistas” brasileiros do séc. XX. O complexo de vira-lata é uma opção da classe média. Tenho muitas razões para pensar assim. Elenco apenas algumas. Sigam-me na lista se tiverem paciência.
A classe média brasileira – a do sul, pelo menos – nunca esteve em Belém do Pará, nem em Manaus, Fortaleza, João Pessoa ou Salvador. Mas a classe média faz questão de ir a Nova Iorque, Paris, Londres e Roma. A classe média nunca comeu uma feijoada, um vatapá, uma moqueca de peixe, um tutu mineiro, um autêntico churrasco gaúcho. Mas a classe média faz questão de dizer que adora escargot, come o insosso McDonalds e faz um esforço danado prá engolir sushis, sashimis e tamakes. A classe média não vai ao cinema para ver filmes brasileiros. Ela despreza os nossos atores e atrizes e afirma que nossos filmes não tem qualidade técnica. Mas a classe média lota os cinemas com as produções hollywoodianas de quinta categoria. A classe média não houve rock brasileiro, tem horror de música sertaneja e passa longe do samba, do pagode e do funk. Mas a classe média lota os estádios nos shows de ridículas bandas americanas que não tem o menor pudor com o uso do playback. A classe média não compra roupa nos shoppings brasileiros. Ela vai fazer suas compras em Miami onde paga o dobro pelos mesmos produtos chineses, bengalis e tailandeses vendidos em Ciudaddel Este. Mas a classe média tem orgulho de dizer que fez suas compras em Miami. A classe média jamais participa das festas juninas, do Círio de Nazaré ou do carnaval de rua. A classe média comemora o Halloween, o Thanksgiving Day e o Saint Patrick’s Day.
O fato é que a classe média não gosta do Brasil. Ela não quer que o Brasil saia de sua situação de Terceiro Mundo. A classe média quer que o Brasil continue sendo um país marcado pela pobreza. Imagina se o Brasil dá certo e essa multidão de pretos e pobres começa a tomar o lugar que historicamente foi da classe média branca e bem nascida? Seria o fim da própria classe média… Melhor que o Brasil perca de novo para a Alemanha de 7 X 1! E que a Petrobrás seja vendida. Afinal, prá que ter a maior e melhor petroleira do mundo? O Brasil não merece, pensa a classe média. E as reservas do pré-sal? O Brasil não sabe o que fazer com elas. Melhor entregá-la para os europeus e norte-americanos que sabem o que fazer com o petróleo. As reservas naturais de fero, manganês, bauxita, níquel, cádmio, titânio? Entreguemos para os chineses, pensa a classe média. Chinês transforma tudo em manufaturado e depois nós compramos! A biodiversidade da Amazônia? Os cientistas brasileiros não são capazes de aproveitá-la… Aliás, prá que incentivar o desenvolvimento científico e tecnológico se podemos comprar tudo já pronto nos shoppings de Miami, Cingapura, Doha, Hong Kong ou Taiwan? A caatinga e o cerrado? São só árvores tortas e espinhentas. Belas de verdade, para a classe média, são as florestas de coníferas do norte da Europa e do Canadá. O pampa? Um imenso deserto verde. Vamos enchê-lo de eucaliptos australianos! São lindos os eucaliptos australianos… Bom mesmo seria importar cangurus prá substituírem os pangarés e as ovelhas. Prá que sermos a sexta economia do mundo se podemos ser a primeira colônia americana?
E o pior é que a classe média, mesmo dizendo-se admiradora dos Estados Unidos e defensora das liberdades individuais, ela tem pavor de democracia. Democracia só existe nos Estados Unidos e Europa. Aqui, o bom mesmo é uma boa ditadura. Daquelas bem sanguinárias, com tanques e tropas nas ruas. Porque “bandido bom é bandido morto” e as “pessoas de bem” tem direito a se armar para se defender. Políticas públicas, só para os ricos, tipo bolsa-empresário e auxílio moradia para juízes, ministros, deputados e senadores. Pobre tem que aprender a pescar. Nada de acostumá-los com as benesses do Estado. Vicia, torna preguiçoso. Ajuda do Estado apenas para o andar de cima no qual a classe média acha que habita. Se o filho de trabalhador não pode pagar pela universidade, que não estude. O Brasil precisa de mão de obra barata para rebaixar o “custo Brasil”. Políticos decentes? Melhor impedir que se candidatem. Se forem eleitos, podem dar mau exemplo e o populacho pode querer fazer política.E, caso algum consiga candidatar-se e ser eleito, faz-se um impeachment sem qualquer base legal. Com a Câmara, com o Senado, com o Supremo e com tudo, como bem lembrou o Romero Jucá. E se o impeachment for muito trabalhoso, tem sempre um miliciano disposto a ganhar uns trocados para fazer o serviço sujo numa noite escura de uma rua do centro do Rio de Janeiro. Foi feito com Mariella Franco. Pode ser feito com outros.
Como disse a filósofa Marilena Chauí, a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”.

CENAS DE VERÃO IV: OS BANQUEIROS, O ROTTWEILER E O SAPO BARBUDO

Dia seis de fevereiro. Ainda era verão nos quatro cantos do Brasil com sol de norte a sul. Véspera de carnaval. Mas a cidade de São Paulo fica longe do litoral. Aqui nada para. A vida segue normal. Afinal, tempo é dinheiro e como o tempo não para, o dinheiro também não pode parar. Ainda mais em ano eleitoral. As fichas tem que ser jogadas desde cedo para que os senhores da mesa tenham a segurança de nada perder.
Hotel Hyatt. Um dos mais sofisticados de São Paulo. O evento foi organizado pelo Banco Pactual. Quem comanda o espetáculo é um dos seus fundadores que deixou a função de executivo para dedicar-se à articulação política dos interesses do segmento que domina a economia brasileira. Presente na plateia o reduzido clube dos donos de bancos. Além deles, os operadores de mercado. Aqueles que, no dia a dia, administram os interesses dos donos dos bancos.
É um seleto grupo. O grupo dos ganhadores. Em um ano de profunda crise da economia brasileira, o maior dos bancos privados, o Banco Itaú, viu sua lucratividade crescer 12,3% e aproximar-se, em valor líquido, dos 25 milhões de reais. Na soma dos quatro maiores bancos – Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander – o aumento da lucratividade foi de 10,4%.
Mas os banqueiros e seus lugares-tenente não estão aqui para discutir economia. Para eles, o atual cenário econômico brasileiro está muito bom. Mais: nunca esteve tão bom! Eles querem que continue assim. E para isso precisam garantir seu candidato que já governa a economia brasileira há um bom tempo servindo aos diversos governos de plantão. Seu nome é conhecido: Henrique Meirelles. O único problema do Henrique Meirelles é que, ao mesmo tempo que produz os número espetaculares para os banqueiros, produz também os mais horripilantes números para os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. O pior deles, o do desemprego. E todas as pesquisas de opinião mostram a sua inviabilidade. Não decola porque o lastro de desgraças que sua política econômica amarrou aos pés dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil é muito grande.
Que fazer então? Coloca-se o bode na sala. Ele tem nome e consequências: Reforma da Previdência. Para o desprazer dos engravatados que lotam o auditório do Hotel Hyatt, a tática do bode não funcionou. A Reforma da Previdência foi adiada e os brasileiros e brasileiras começaram a dar-se conta dos reais interesses que estão por trás das jogadas legislativas desde o golpe midiático-jurídico-parlamentar que afastou Dilma Roussef da Presidência.
Como a tática do bode não funcionou, a solução é apelar para a seguinte chama o rottweiler. Ovacionado em sua entrada triunfal e, na fala de quase uma hora, interrompido por frequentes aplausos, falou o pré-candidato à Presidência Jair Messias Bolsonaro. O que disse? Uma série de lugares comuns de seu repertório fascista. O que mais chamou a atenção foi sua incapacidade de apresentar qualquer proposta sensata sobre economia, saúde, educação e outros temas de interesse nacional. Sua maior pérola foi quando perguntado sobre como resolver o problema da segurança no Rio de Janeiro. A solução foi radiante: mandar metralhar a favela da Rocinha. Simples assim… E todos aplaudiram!
A pergunta é: o que leva homens inteligentes – se não fossem inteligentes não ganhariam tanto dinheiro… – a aplaudir tal personagem? A resposta me parece óbvia: eles precisam de um rottweiler para proteger seu território e assustar àquelas e àquelas que, mesmo timidamente, começam a querer a volta daquele que, durante oito anos, conduziu o maior processo de crescimento e redistribuição de renda do Brasil. Metade da população brasileira quer a volta do sapo barbudo ao governo. E a tendência é que aumente…
Será que a tática do rotweiler vai funcionar? Não sei. Não se sabe… Por precaução, o postiço que está onde nunca deveria ter estado, soltou sua matilha de rottweilers sobre a cidade do Rio de Janeiro. Se um rottweiler assusta, imagina milhares… Mas, não poderá acontecer com a tática do rottweiler o mesmo que aconteceu com a do bode? Só o tempo dirá… Mas, para desprazer dos banqueiros, no calor e na umidade típica dos trópicos, os sapos se multiplicam.

CENAS DE VERÃO III: O PADRE E O PINSCHER

Para boa parcela dos gaúchos que desfrutamos apenas de um breve e instável verão, ir à praia entre o Natal e o Carnaval é praticamente um ritual. Para muitos, mais do que o mar, o sol e a areia, os poucos dias ou semanas – para os mais agraciados, um mês! – tornam-se uma espécie de parêntesis onde se pode viver a distopia do quotidiano assoberbado por trabalho, compromissos, aparências e rotinas. Aproveita-se este tempo, mesmo que breve, para não fazer nada ou para fazer aquilo que não se pode fazer durante o ano. Para o bem ou para o mal…
Uma das coisas que muito me impressiona no Litoral Norte gaúcho é a frequência das pessoas às igrejas. Falo, concretamente, da Igreja Católica. Em cada pequena praia há uma capela. Algumas em condições precárias que só funcionam durante o veraneio. Outras, com sólidas estruturas e que funcionam o ano todo. Em umas e outras, é quase corrente haver missa todos os dias. Padres que se deslocam do interior, da serra ou da região metropolitana para descansar e, a convite da comunidade ou por interesse próprio, celebram a missa nas capelas. Tanto nos fins de semana como durante a semana.
Sábado de tarde. Tempo chuvoso e nordestão batendo. Impossível ir à praia. A missa na capela próxima da casa é às 20 horas. Chego quinze minutos antes. O espaço é grande. Cabem, tranquilamente, umas quatrocentas pessoas. Lotada. Consigo um lugar para sentar na fila de bancos do lado direito. Uma enorme variedade de idades, cores e vestimentas. É o Rio Grande mesclado em oração!
Um rapaz com um violão e um pequeno grupo de senhores e senhoras afina a voz para animar a missa. Um ruído no fundo da capela e depois o silêncio. Um perfume de incenso se espalha no ar. Olho para trás e aí está o padre para a procissão de entrada. Idade mediana, entre os 40 e 50. Um pouco mais do que bem paramentado para meu gosto. À sua frente um séquito de seis coroinhas e dois ministros. Os coroinhas marcham à frente com velas e o incenso. Um dos ministros carrega a cruz. O outro a Biblia. Em seguida o padre fechando a procissão e, a seu lado, um pinscher marron-avermelhado. A procissão é acompanhada por um canto tipicamente carismático.
Ao chegar ao altar, depois das devidas genuflexões e inclinações, cada um toma seu lugar. O pinscher também teu o seu. Quando o padre está sentado, descansa deitado entre seus pés. Quando o padre se levanta, o pinscher vai para baixo do altar e permanece de pé, olhando a assembleia. De vez em quando, sabe-se lá se motivado pelo irritante som da microfonia, pelo canto desafinado ou por algum olhar ou gesto de alguém da assembleia, o pequeno cão solta três ou quatro de seus agudos latidos que são pacientemente suportados pelos frequentadores da missa. Afinal, o pinscher é do padre. Os paroquianos o sabem e os visitantes desde o início da missa se deram conta do fato.
O movimento dos coroinhas, dos ministros e do comentarista não provoca qualquer reação do pequeno cão. Mas os latidos se tornam mais agressivos quando as leitoras se aproximam para proclamar os textos bíblicos que antecedem os evangelhos. Parece que ao pinscher do padre não agradam as presenças femininas perto do altar.
Depois do Evangelho, o padre inicia o seu sermão. O pinscher permanece sob o altar olhando a assembleia. A fala se prolonga monotamente mais do que o tempo recomendado. Depois dos primeiros minutos de atenção, os assistentes começam a torcer para que o tempo passe rapidamente. Uns fecham os olhos, talvez lembrando as ondas do mar. Outros ocupam o tempo vasculhando as visagens e vestimentas de seus vizinhos e vizinhas. Nos fundos, não faltam aqueles que aproveitam para dar uma olhadinha nas redes sociais. Na terceira fila do lado oposto de onde estou, uma senhora de meia idade com seu filhinho no colo. Pela aparência, não é veranista. É moradora do local. Talvez uma senhora que tenha trabalhado o dia todo e que, no fim do sábado de labuta, tenha vindo à igreja para encontrar um momento de consolo e esperança. No seu colo, a criança com o rosto tão cansado como o da mãe. Talvez não cansada esta do trabalho, mas da solidão ou quem sabe da fome, da multidão da igreja cheia, do calor que já começa a se tornar incômodo ou do sermão que não termina mais. Previsivelmente, a criança começa a chorar. A mãe tudo faz para acalmá-la. Por um momento, ela cessa seu lamento para em seguida recomeçar. Os circundantes olham, uns com compreensão e comiseração e outros com um certo incômodo. De sob o altar, a cada choro da criança, os agudos latidos do pinscher… O padre, sem interromper a fala que repete as mesmas frases pela enésima vez, olha para a criança, a mãe e o pinscher. Diante dos olhos assustados da assembleia, desce do altar com o microfone e se dirige até a terceira fila onde está a mãe e a ela se dirige falando ao microfone para que toda a igreja ouça: — A senhora, por favor, faz essa criança parar de chorar ou se retira da igreja!
Todos os oitocentos olhos estão cravados na criança e na mulher. Esta, com uma calma muito além do que se poderia esperar da situação, responde tranquilamente: — Quando o senhor fizer o seu cachorro parar de latir, eu faço o meu guri parar de chorar. Mas sair da igreja eu não saio…

O padre olha para a criança, para a mulher, para o pinscher, para a assembleia. Todos os presentes estão com os olhos cravados no padre. Uns olhares sérios, outros interrogativos, risonhos e até desafiadores. Sem abaixar a cabeça nem dizer outra palavra, o padre dá meia volta, retorna ao altar, levanta os braços e inicia a rezar o “Creio em Deus Pai”. A assembleia se levanta. A mulher continua sentada com seu filho que já não chora no colo. O pinscher está sob o altar, de pé, atento ao menor movimento da assembleia. A missa segue…

Cenas de Verão II: o menino e o pitbull

Praia da Conceição. Uma das tantas pequenas e pouco conhecidas praias do Litoral Norte gaúcho. São apenas três ruas ligando a Interpraias e as dunas da orla entre Arroio Teixeira e Curumim. Até os anos 1970, eram apenas algumas choupanas de pescadores e umas poucas casas de madeira de araucária construídas pelos abastados de São Francisco de Paula e Bom Jesus que aqui vinham veranear. A partir dos anos 80 e as sucessivas promessas de abertura da Rota do Sol, chegou o povo de Canela e Gramado. As avenidas foram calçadas e as travessas assinaladas e ocupadas por mais e mais veranistas.Com a finalização da Rota do Sol, veio a invasão dos gringos de Bento Gonçalves e Caxias do Sul. Foram comprando e construindo casas e mansões sempre maiores e melhores que as dos vizinhos. Quem é gringo sabe como é isso…Apesar dessa mudança, a Praia da Conceição continuou sendo eminentemente residencial. O único comércio é o Minimercado Mattos na esquina da Interpraias com a avenida por onde passa o ônibus urbano. Tem de tudo: do pão francês ao material elétrico e hidráulico para concertos básicos. O espaço é pequeno. Tudo apertadinho, especialmente no verão, quando todos buscam este “pronto socorro material”. Na porta de entrada, um enorme cartaz com dois dizeres: “Proibido entrar sem camisa. Proibida a entrada de animais”.Sábado de Carnaval. Chego para buscar o pão para o lanche da tarde. Pequeno tumulto na entrada. Dona Bela, esposa do proprietário e caixa, impede um rapazote sem camisa de entrar. Depois de uma rápida discussão, o rapaz sai e, desde a rua, anuncia em tom de ameaça: — Vou chamar meu pai!Dona Bela olha para seu Ervino que está no açougue que olha para o genro que atende na padaria que olha para a nora que repõe as verduras nas caixas de plástico… Eu olho para os fregueses que se apressam nas compras e, ao sair, se postam na parada de ônibus em frente ao armazém. Algo de ameaçador paira no ar…No momento em que estou colocando as maçãs no saquinho plástico, uma sombra de dois metros tapa a luz do fim da tarde que entra pela porta. Ele aí está, de bermuda e sem camisa, no braço direito uma tatuagem de uma caveira sobre dois fuzis, no esquerdo, o emblema de um time de futebol. A seu lado, um pitbull que lhe chega ao joelho. Sem focinheira nem laço. Solto, pronto para o bote. Atrás dos dois, o rapazote…Olhando ameaçadoramente para os presentes – eu incluído – o homem dirige a palavra ao filho: — Luizinho! O que você queria nesta espelunca? — A tatuagem do dragão com o arco-íris. — Onde é que tá essa p…? — Ali! — Pega logo essa m…O meninote vai passando um por um os saquinhos com as tatuagens até achar a desejada. Olha para o pai. Olha para Dona Bela que segue estática atrás do caixa. O pai toma o filho pelo braço e sem qualquer menção de pagar pelo dragão com arco-íris, toma a porta da rua. O pitbull espera que os dois cheguem a calçada, solta um rosnado, dá meia volta e também parte. Os vira-latas que habitam a entrada do Minimercado Mattos seguem o pitbull a uma cuidadosa distância até este desaparecer na esquina.A parada de ônibus se esvazia. Uns voltam para casa. Outros para o armazém. Dona Bela enxuga o suor. Seu Ervino guarda a faca do açougue. O genro emerge da padaria. Sorrio para Dona Bela, pago minhas contas e retorno para casa. No caminho cruzo com um vira-lata que me rosna insistentemente.  Talvez ele esteja treinando para ser pitbull. Ignoro-o e signo meu caminho pensando no perfume do café colombiano que me espera.

Cenas de Verão I: a menina e o cachorro

Primeiro dia de fevereiro. Primeiro dia de férias. Um dos poucos dias de sol e sem vento no litoral norte gaúcho. Preparo meu mate, junto cadeira e guarda sol e vou até a praia. Água azul e ondas calmas: espetacular. Instalo o guarda sol, acomodo a cadeira e, cuia apos cuia, sorvo o mate embalado pelo rítmico bater das ondas.
A medida que o sol esquenta, a praia vai sendo colorida por outros guarda-sois, cadeiras e pessoas de todas as idades, sexos, pesos, cores e estilos. A poucos metros ao meu lado direito, três mulheres de três distintas gerações: avó, mãe e filha. Da mesma forma que eu tinha feito, instalam seu guarda-sol, duas cadeiras, a toalha e os brinquedos para a menina. Mais uns metros e outra senhora também prepara seu lugar para passar a manhã. Tampouco ela veio sozinha. Acompanha-a um cachorrinho que ela ternamente chama de “filhinho”. Instalado o guarda sol e a cadeira, o cãozinho – aparentemente macho – dá a clássica volta ao redor do sítio e deita-se entre os pés da mamãe.
De forma quase sincronizada, as três senhoras levantam-se e se dirigem até a água. São nada mais que oito a dez metros. A menininha, ocupada com seus brinquedos, continua sob o guarda-sol e o olhar vigilante de duas gerações. O cãozinho, por sua vez, acompanha sua mae até a água. De repente, ao perceber que a criança ficará só, o cao dispara em direção aos guarda-sois. Numa primeira mordida, arrasta a toalha sobre a qual estava sentada a criança. Na segunda, destrói o patinho de borracha. Antes que a terceira dilacere uma mao, um pe ou o rosto da menina, a mae alcança a criança e a protege no seu colo. O cãozinho permanece rosnando ao redor. Sua mãe chega e, olhando a menininha que esconde seu rosto no regaco da mãe, vocifera em tom ameaçador: “– Você devia afastar essa criança daqui. Ela está incomodando meu filhinho! “
A avó, refeita do susto, em silêncio e sabedoria, fecha o guarda-sol, dobra as cadeiras, recolhe toalha e brinquedos e, seguida pela filha e neta, afasta-se para o lado esquerdo de onde estou sentado. A outra senhora também recolhe seu guarda-sol, sua cadeira, seu cãozinho e toma o caminho de casa.
Os olhares dos circundantes que, pela rapidez da cena não puderam intervir, impediam que ela ai continuasse. Era uma manhã de sol, sem vento, de águas limpas e ondas suaves. Algo raro no litoral norte gaúcho.

Três presépios e várias questões

O Natal já passou. A Festa de Reis também. Os presépios foram desarmados e as imagens natalinas retornaram às caixas que as guardarão silenciosamente até o próximo dezembro. Na Liturgia Cristã, já entramos no tempo comum. Mas permitam-me uma pequena reflexão tardia sobre o Natal. Mais propriamente, a reflexão é sobre presépios.
Todos sabemos que a tradição do presépio foi popularizada no Ocidente por São Francisco de Assis. No ano de 1223, o Pobrezinho de Assis, fascinado pelo mistério do Deus que se faz humano tão belamente narrado nos Evangelhos de Mateus e Lucas, decidiu reviver fato tão maravilhoso. Numa gruta, na vilazinha de Greccio, relembrou a cena do nascimento criando um presépio vivo. Tomás de Celano, um dos primeiros biógrafos de Francisco de Assis, assim descreve o primeiro presépio: “A manjedoura que o Santo fez era cheia de feno e foram colocados perto dela um boi e um burro. Acima da manjedoura foi improvisado um altar e nesse cenário ocorreu a missa da meia-noite, na qual o próprio Santo (…) cantou solenemente o Evangelho juntamente com o povo simples e pronunciou um comovente sermão sobre o nascimento do menino Jesus”.
Para os que estamos acostumados com a tradição dos presépios, a cena pode parecer banal. Mas não o era para os homens e as mulheres, especialmente os que se afirmavam cristãos naqueles tempos medievais em que a Igreja se constituía como o grupo social mais rico e poderoso. Nesse contexto, a mise en scène de Francisco era provocativa: uma missa improvisada, celebrada num lugar não consagrado, com o Evangelho lido e interpretado por um leigo. E mais: num mundo em que Deus era representado como O Altíssimo, Francisco o coloca num presépio, ou seja, numa estrebaria, rodeado por bois e por burros… E todos os que fomos criados no campo sabemos das cores e dos odores de uma estrebaria.
Tomás de Celano, assim como os outros biógrafos de Francisco, não relatam as reações dos presentes naquela noite de dezembro de 1223 na Gruta de Greccio. Evadem a questão dizendo que aquele evento foi lembrado por muito tempo e se perpetuou como um símbolo da proposta genial do Santo de Assis.
Mas, hoje, quase mil anos depois, ouso imaginar que a criação de Francisco tenha provocado escândalo semelhante ao do Presépio da Diversidade criado pelo artista plástico paulista Luciano de Almeida. Nele, o artista coloca, junto com as tradicionais figuras da cena, uma prostituta, um casal homossexual, um portador de HIV, um cadeirante, um casal de idosos e vários meninos de rua. Mesmo tendo sido anteriormente exposto em São Paulo, na Alemanha e na Itália, tal montagem provocou grande celeuma nas redes sociais. Grupos fundamentalistas cristãos e movimentos sociais ultraconservadores clamaram contra a presença na cena natalina de um casal homossexual. A pressão foi tanto eu frei Roger Brunório, curador da exposição, teve que retirar o presépio da exposição antes que algo de mais grave acontecesse.
Enquanto isso, vários sites da “grande imprensa” tradicional brasileira anunciavam “presépios de cãezinhos” como “a coisa mais fofa que você verá neste Natal”. Várias imagens ilustravam as chamadas para os “novos presépios”. Nelas, no lugar de Maria, José, os Magos e Pastores, cães e cadelas devidamente ornados com trajes orientais. E, no meio da cena, no lugar do Menino Jesus, um filhotinho deitado numa manjedoura. E o mais surpreendente: nenhuma crítica a tais representações por parte dos cristãos e católicos fundamentalistas e dos grupos conservadores de direita que se pretendem defensores da moral e dos bons costumes!

Três presépios e uma pergunta: a quem os moralistas defendem? Será que Francisco de Assis se sentiria representado pelos presépios que hoje são feitos nas Igrejas, praças públicas, lojas e shopping centers? Ou, se estivesse por aqui hoje, não procuraria uma outra Greccio para reinventar a tradição de Natal? Talvez as favelas, os viadutos, as zonas de prostituição fossem o único lugar onde ele encontraria gente disposta a acreditar que Deus se fez humano e está presente em cada pessoa marginalizada. Inclusive nos casais homossexuais expulsos do presépio pelos puritanos e moralistas. Bem dizia Jesus: “As prostitutas e os publicanos vos precederão no Reino dos Céus”. A prova disso está no próprio presépio: prostitutas e publicanos ali nos precederam!

Ordem e Progresso

Mesmo os críticos mais acerbos do golpe de 2016 temos que reconhecer: a economia está retomando! A mudança é claramente perceptível. Só não enxerga quem não quer.
Mesmo se os dados de todos os telejornais abundantemente irrigados pela propaganda governamental não bastassem para nos convencer disso, uma pequena volta pelas ruas, avenidas, praças e parques de qualquer cidade de médio ou grande porte, maiormente as capitais, é suficiente para nos abrir os olhos à nova realidade de estabilidade e crescimento econômico.
Tomo o exemplo de Porto Alegre. Na esquina da Ipiranga com a Azenha, só havia um rapaz que limpava os para-brisas dos carros. Agora já são dois. 100% de aumento da força de trabalho ocupada! Impressionante mesmo para o mais cético dos economistas. E além dos dois, agora há uma senhora que vende água. E um quarto que faz malabarismos e, em troca, pede gentilmente uns trocados. Em frente à UFRGS, um senhor vestido de palhaço dá, diariamente seu show de pirotecnia e equilíbrio. Antes da crise, ele só trabalhava das 17 às 22h. Agora, com a retomada da economia, ele aí está labutando das 8h da manhã às 23h.
No portão do Banrisul da Avenida Bento Gonçalves, um jovem senhor oferece abacaxi com a opção de inteiro ou em fatias. Isso que ele não é um empreendedor individual. Ele é empregado. E, como a nova legislação trabalhista permite, seu trabalho é intermitente. Só trabalha quando as condições climáticas são ótimas. Em outras palavras, nos dias de chuva, ele não trabalha. Isso só foi possível porque agora já não há, nas negociações trabalhistas, a nefasta interferência dos sindicatos.
E o mais interessante é que o novo espírito econômico começa a vencer os vícios do estado protetor e provocador da inércia. Exemplo deste novo espírito econômico, é a notória quantidade de pessoas que já não esperam pelas benesses do Estado na forma do Minha Casa Minha Vida e, com muita iniciativa e criatividade, fazem das praças, viadutos e marquises seu lugar de moradia. Em alguns pontos há verdadeiros conjuntos habitacionais que renovam a paisagem urbana.
Também no âmbito comercial, no centro de Porto Alegre então, a retomada é fantástica. Em cada esquina e sob cada marquise, verdadeiros shopping centers onde encontra-se de tudo. Pena que o prefeito Despacito Júnior, tão liberal em suas ideias econômicas, teime em querer controlar a livre iniciativa que aos poucos vai demonstrando sua superioridade em relação ao Estado opressor. Não entendo o porquê de, de tempos em tempos, ele jogar sua guarda pretoriana sobre os empreendedores individuais que exercem o comércio nas ruas e praças da capital gaúcha.
Ah! E não podia, é claro, esquecer que a educação empreendedorista está também mostrando seus resultados nas inúmeras crianças que, livres da ideologia que as prendia à tutela do Estado em matéria de educação, alimentação e lazer, lançam-se às ruas e põe-se a labutar para ganhar a própria sobrevivência. Eles não esperam por seus pais inaptos e dependentes das leis trabalhistas. Com 8, 10 ou 12 anos já andam pelos semáforos pedindo um suporte e econômico para suas atividades empreendedoras ou então exercendo o pequeno comercio de todo tipo de mercadoria, desde as importadas da China até a do próprio corpo, para educar-se no espírito empreendedor.
Estamos avançando. É um novo país que se desenha. Viva a nova economia! Viva a liberdade de mercado! Viva o espírito empreendedor! Viva a ordem e o progresso!

Propósitos, planos e projetos

Fim de ano é tempo de propósitos e planos. Tem o fulano que decide parar de fumar. Já o sicrano jura que vai largar sua vida sedentária e incorporar nos seus hábitos uma caminhada diária. O beltrano garante que vai parar de comprar no cartão de crédito. Este afirma com certeza que não vai faltar à missa nos domingos. Já aquele promete que trabalhará um pouco menos para passar mais tempo com os filhos. Cada um com seu propósito. Geralmente muito delimitado e, em princípio, exequível, de curto prazo e mensurável. Quantos conseguirão? A experiência diz que muito poucas pessoas conseguem, de fato, realizar seus propósitos de final de ano… E não é de estranhar. É da própria natureza do propósito que se fundamenta mais na emoção que na razão. Provavelmente os mesmos propósitos serão refeitos no próximo final de ano para não serem executados outra vez.
E há os que fazem planos. Estes pensam a mais longo prazo e se perguntam: o que quero para o final do próximo ano? Onde e como quero estar? Elaborar planos é uma tarefa mais lenta e mais difícil e que vai para além de um final de ano. E mais: os resultados de um plano são, no imediato, menos delimitáveis e tangíveis. Fazer um plano implica em mais trabalho. Estabelecer uma meta, estratégias, atividades, recursos… Muito mais difícil. Por isso menos gente faz planos. Mas, sem que isso seja contraditório, proporcionalmente, quem faz planos tem mais possibilidade de êxito do que quem faz propósitos. O planejador é menos emocional, menos volúvel e mais persistente.
Mas existe um passo que vai além de propósitos e planos. Existem os projetos. E estes ultrapassam a dimensão dos propósitos e dos planos. Um projeto sempre é de longo prazo. Ultrapassa os limites do calendário anual e implica uma decisão de vida. Não se pergunta por onde e como quero estar no final do próximo ano. O projeto exige pensar onde e como quero estar no final desta vida. Ele exige a combinação de diferentes planos convergentes com o fim estabelecido.
Claro: a execução de um projeto implica na elaboração de  planos com a sua racionalidade que por sua vez começa sua implementação com um propósito que só se realiza com a emocionalidade. Um não descarta o outro. Pelo contrário. Exige uma combinação.
Comecei a rabiscar estas reflexões a partir de duas situações que me preocupam. A primeira é a que me ponho como cidadão brasileiro. Depois do 2017 que tivemos e das falas de final de ano das autoridades – executivas, legislativas e judiciárias – tanto no nível federal, como estadual e municipal, a pergunta que me vem é: qual é o projeto que rege os planos e propósitos para o próximo ano? Enquanto cidadãos desta terra brasilis, teremos, no próximo ano, que viver de propósitos ou é possível ter planos e projetos?
A outra preocupação é a que me ponho como cristão, membro da Igreja Católica Romana e profissional do ensino teológico. Depois de um 2017 em que a oposição ao Papa Francisco apareceu de forma articulada e agressiva, é possível sonhar com um projeto de uma “Igreja em saída” para as periferias sociais e existenciais ou teremos que nos contentar com planos e propósitos de curto prazo? Acontecerá com a primavera do Papa Francisco o mesmo que aconteceu com a primavera do Papa João XXIII? Além dos propósitos que se movem pela emoção, há um plano e um projeto de real e radical transformação eclesial?
São preocupações que levo comigo para estes últimos dias de 2017 e espero possamos juntos pensá-las em 2018 e por muito tempo mais.
Feliz Ano Novo!

Mercado em recuperação

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