ADVENTO, RELIGIÃO E ARTE

Há muitas formas de se tentar dizer o que e a experiência religiosa. Tarefa nada fácil. Às vezes até conflitiva. Isso porque sempre falamos dela a partir da experiência que vivemos ou daquelas que vemos ao nosso redor. E, confessemos, hoje, no país e no mundo em que vivemos, não é nada fácil falar de religião de forma positiva. As diferentes expressões religiosas são usadas e abusadas para fazer o que de mais cruel o ser humano pode fazer. O nome “deus” justifica tudo, desde o assassinato de pessoas que tem um modo diferente de viver sua sexualidade até ataques terroristas, guerras e genocídios.

Isso tudo me fez lembrar uma tentativa de dizer o que é religião que me marcou. Ela foi escrita por Rubem Alves, teólogo, artista, poeta, um estilista da palavra. Dizia ele que religião é “uma teia de símbolos, redes de desejos, confissão da espera, horizonte dos horizontes, a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza”. Tomo aqui o transubstanciar não no sentido materialista em que algumas vezes é usado. Se substância, no sentido aristotélico, é o que faz uma coisa ser o que é, transubstanciar é fazer com que uma coisa seja outra diferente daquilo que originalmente era. É isso que toda religião faz! Tomamos algo do mundo criatural e lhe damos um sentido divino, eterno, transcendental. E o fazemos de modo absoluto a ponto de ver nessa nova realidade a presença de Deus e não mais a realidade que antes era. “Aquilo” deixou de ser o que era e passou a ser outra coisa. E isso é tão forte que, se alguém questiona tal modo de proceder, é considerado sacrílego. E, de fato, do ponto de vista de quem vive tal dinâmica, questionar a presença do sagrado numa realidade criatural transubstanciada, é sacrilégio.

Por isso, a religião é uma experiência muito próxima à arte. O artista é aquele que toma algo que é comum, corriqueiro, aparentemente quotidiano e o transforma em algo sublime que expressa aquilo que todos gostaríamos de dizer e não conseguimos. Aquilo que era um simples bloco de mármore se transformou, por obra de Michelângelo, em Davi; aqueles sons que todo mundo consegue emitir, agora são a Oitava Sinfonia de Bethoven; aquelas tintas que qualquer pinto usa, viram os Girassóis de Van Gogh. A arte, assim como a religião, é uma “fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza” estabelecendo uma teia de “símbolos, redes de desejos, confissão da espera”.

Me peguei pensando nisso tudo nesses dias de Advento quando, ao preparar uma reflexão sobre o tempo litúrgico que estamos vivendo, lembrei-me de uma música de um artista brasileiro que, pelo que eu saiba, não tem vínculo religioso. Nela, ele expressa o que há de mais profundo no humano: o sonho de que a “ponta de esperança” que hoje vislumbramos se transforme em um farol que faça brilhar “a bandeira da vida” vencendo toda dor, todo sofrimento, toda morte.

Isso segundo o artista, pode acontecer “quando menos se esperar” e pode vir “da onde ninguém imagina”. E, na sua fraqueza, “demolirá toda certeza vã, não sobrará pedra sobre pedra”. “Enquanto isso” ainda não for realidade, nos convida o artista a não abandonar o sonho de transformação “desafiando de vez a noção na qual se crê que o inferno é aqui”. E termina ele numa “profissão de fé” afirmando que esta nova realidade “existirá, e toda raça então experimentará, para todo mal, a cura”.

Existe melhor poema “não-cristão” para este tempo de advento? Talvez só os do profeta Isaías que lemos na liturgia neste tempo de espera-ativa-da-salvação-que-vêm.

Bom Advento a todos nós!

P.S.: Imagino que muitos já identificaram o artista e a música citada. Para quem não identificou, uma simples busca lhe fará chegar à música “A Cura” de Lulu Santos. Leiam a letra e depois, saboreiam a música.

Bem vindos ao quinto dos infernos!

Com certeza muitos dos que agora tomaram um pouco de seu tempo para ler estas linhas – eram tempo que eu não escrevia um novo post! – em algum momento da vida, em uma situação de raiva, mandaram alguém pro quinto dos infernos. Ou, se não mandou, pode mandar, pois sempre há tempo!

Hoje, num momento de tranquilidade e calma, me pus a pensar a origem desta expressão. Meu primeiro impulso foi pesquisar na internet. E foi o que fiz, E logo encontrei uma explicação, Melhor dizendo, uma mesma explicação em muitas páginas que repetiam uma a outra, A explicação era a de que no tempo do Brasil colônia o governo português, para pagar suas dívidas com a Inglaterra, instituiu o imposto do quinto sobre o ouro. Ou seja, 20% de todo o ouro levado da colônia para o Reino, acabava nas mãos da Coroa que o repassava para os ingleses. A medida era vista como infernal pelos mineradores e pelos comerciantes de ouro. Daí o “quinto dos infernos”.

Até aí tudo bem. Tem fundamento histórico. Mas porque “mandar” alguém para o quinto dos infernos? Isso faz parte da expressão e não encontra explicação na historieta dos 20%. Algumas páginas tentam encontrar um nexo dizendo que o navio que vinha buscar o quinto no Brasil era o mesmo que para cá trazia os condenados em Portugal ao degredo perpétuo nestas terras tropicais. A explicação é interessante. Mas não se sustenta. Pois o quinto era descontado em Portugal no hora da fundição do ouro que não era permitida no Brasil.

A inconsistência das explicações me fez voltar à minha primeira hipótese. A de que mandar alguém pro quinto dos infernos não tem nada a ver com o quinto do ouro. Sua origem estaria na Divina Comédia de Dante Alighieri. O escritor florentino descreve o inferno em nove círculos concêntricos. Em cada um deles há um tipo de castigo que corresponde ao pecado cometido durante a vida.

No quinto dos infernos de Dante, estão os que cometeram o pecado da ira e do rancor. Eles jazem eternamente num lago formado pelas torrentes do Rio Estige compostas por uma mescla de água e sangue fervente. Os que cometeram o pecado da ira permanecem na superfície digladiando-se mutuamente numa luta à morte sem que um consiga derrotar o outro. É uma guerra sem fim onde o castigo consiste em não morrer e ser obrigado a continuar lutando com a certeza de nunca poder derrotar o outro.

No fundo do lago, sem poder vir à superfície, jazem os rancorosos que, removendo o lodo do fundo do lago, fazem subir bolhas que são vistas na superfície e alimentam a ira dos que aí se digladiam no temor de ter que afrontar novos inimigos. O rancor alimenta a ira que leva à autodestruição que inferniza – literalmente! – a vida dos demais.

Uma cena que hoje chamamos apropriadamente de “dantesca” e que descrevia o modo como o escritor florentina considerava as disputas políticas de sua cidade, de Roma e do poder papal e da Europa como um todo.

A Divina Comédia, onde está inserido o quinto dos infernos, tornou-se um clássico não só por ter utilizado o vernáculo como forma de expressão literária. É um clássico porque, Dante, a partir de uma situação concreta do início do séc. XIV, conseguiu descrever uma condição humana universal e suas consequências para aqueles que não a reconhecem e não buscam um caminho de humanidade melhor.

Infelizmente, se Dante vivesse hoje, talvez sua descrição da condição dos irados e rancorosos depois da morte não mudaria muito. Pior! Talvez ele situasse o inferno para antes da travessia do Aqueronte. As torrentes ferventes de água e sangue já estão a invadir nosso planeta. E os primeiros a se afogarem nelas são os que semearam a ira e fizeram do rancor um instrumento de poder político.

O triste é que, muitos que não tem nada a ver com isso, estão fornecendo a água e o sangue para que o Estige continue a correr. Nessas horas, gostaríamos que, no quinto dos infernos, os que se digladiam na superfície alcançassem o objetivo da própria morte e os que chafurdam na lama do fundo perecessem definitivamente. Dantesco, sim, mas seria um modo trágico de acabar com a dor e sofrimento de muitos inocentes.

Uma Igreja para além da Modernidade

Amanhã inicia a primeira sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade. Talvez o evento eclesial católico romano mais importante depois do Vaticano II. Ou, visto de outro ângulo, a consequência maior e mais radical daquele Concílio que colocou a Igreja Católica Romana em diálogo com a Modernidade.

Um diálogo com um atraso de quinhentos anos. Desde o Concílio de Trento no séc. XVI o catolicismo andava em caminho contrário à Modernidade. Ser “do contra” tornou-se a identidade católico-romana. Pio IX, o Papa do longo séc. XIX, tornou-se o expoente maior deste modo de ser no mundo.

O Dogma da Imaculada Conceição, o “Syllabus Errorum” e o Vaticano I com o dogma da infalibilidade papa, foram a expressão doutrinário deste modo de “ser do contra”. O Vaticano II foi a passagem do contra para o diálogo. “Alegria e Esperança” foram a nova postura que, por contraditório que possa parecer, tornou-se o germe da crise que não é a da decadência, mas a da purificação.

A “volta à grande disciplina” ensaiada nos tempos woytilianos e ratzingerianos mostrou-se falido e quase fez a Igreja soçobrar. Graças à resistência de muitos e à força do Espírito, com Francisco de Roma retomamos o rumo e seguimos navegando para diante, para além da modernidade.

Com o Papa Francisco, somos convidados a superar as fronteiras da modernidade e seu produtivismo consumista e aventurar-nos em uma economia da frugalidade na convivência com as outras criaturas com as quais dividimos a Casa Comum. Com Francisco de Roma, ultrapassamos as barreiras dos nacionalismos para convivermos numa humanidade onde sejamos, de fato, “fratelli tutti”. Com Francisco de Roma e sua proposta de sinodalidade, as maiorias deixarão de impor sua vontade sobre as minorias e as relações entre humanos e na própria Igreja passarão a ter em conta a “todos, todos, todos”, para que ninguém fique para trás ou de fora.

Não será fácil! Mas a Esperança nunca é fácil. A Esperança é viver o hoje como se já estivéssemos no amanhã testemunhando que esse amanhã é possível. A Esperança não é ignorar ou esquecer o presente, mas Transfigurá-lo para que o presente se mostre e desabroche em todas as suas potencialidades para que o futuro não seja mais como e antigamente.

É hora de respirar fundo. Hora de mirar o horizonte. Hora de caminhar sem medo e com a alegria mesmo em meio aos sofrimentos. Caminhemos de mãos dadas, conciliarmente, sinodalmente, pois o caminhar já é objetivo alcançado.

Um inverno infernal

Foto por Harrison Haines em Pexels.com

Primavera chegando. Último dia de inverno. Um inverno que foi um inferno. De água e de calor. No sul do país e em quase todo o Brasil. O sul sofreu com as chuvas torrenciais. Muita chuva. E de uma vez só. E correndo diretamente para os arroios, destes para os riachos serra abaixo até chegar aos grandes rios que não suportaram a carga d’água e se espraiaram pelas várzeas que um dia foram deles e agora estão ocupadas pelas cidades. Dezenas de mortos. Milhares de desabrigados. Milhões em prejuízo econômico. Danos sociais, mentais e espirituais incomensuráveis. Casas, fábricas, escolas, ruas, estradas, pontes… tudo pode ser reconstruído. Menos as vidas perdidas, as relações rompidas e os sofrimentos padecidos.

Tudo na mesma semana em que o governo do Estado do Rio Grande do Sul, baseado em um estudo financiado por uma multinacional da indústria de celulose, permitiu a transformação de mais 10% do bioma pampa em deserto verde. Justamente o pampa, o bioma mais degradado do país nos últimos anos.

Mais degradado que o cerrado, a “caixa d’água” do Brasil. Mais degradado que a Amazônia de onde vêm as chuvas que faltam ou que sobram, pois está cada vez mais desregulado. Amazônia onde estão as árvores que regulam a temperatura do planeta. Temperaturas que, no nível global, neste ano, estão sendo as mais altas da história. E o Brasil está no centro deste esquentamento global. No dia de ontem, onze capitais brasileiras bateram recordes de temperaturas. Um fim de inverno beirando e, alguns lugares, até ultrapassando os quarenta graus. Um fim de inverno que está um verdadeiro inferno.

“De quem é a culpa?” somos tentados a perguntar. O “El Niño” sempre existiu. Por que está se intensificando e fazendo cada vez mais estragos? Os que estudam os fenômenos climáticos dizem que o fator principal é o humano. Não é apenas uma crise ecológica. Com lembra o Papa Francisco na “Laudato Sì”, trata-se de uma crise sócio ambiental. Há um fator ambiental. Chuvas volumosas sempre aconteceram e vão continuar acontecendo. Picos de temperatura alta, também. Mas sua intensidade e seus efeitos são agravados pela ação humana que pensa o seu ser no mundo sem ter em conta os outros seres e o ambiente onde vive.

Precisamos nos perguntar sobre o lugar e o como construímos nossas cidades. Sobre o modo e objetivo com que cultivamos e sobre os animais que criamos. O jeito como nos transportamos a produção dos campos e das indústrias e como nos deslocamos de um lugar para outro. Pensar sobre o que comemos, como nos divertimos, como nos reproduzimos, curamos nossas doenças, cremos, rezamos, celebramos e nos preparamos para envelhecer e morrer.

É preciso desaprender, apreender e reaprender para poder sobreviver. Ou vamos morrer, seja afogados nos rios que não respeitamos ou no calor que geramos. Que a primavera, suas cores e flores nos ajudem a pensar.

Divagação paulina em tempos sinodais.

A leitura da Bíblia sempre é surpreendente. Pelo menos, aos que o fazem na perspectiva da fé e da vivência eclesial. Há leituras que lemos tantas vezes que já não percebemos o seu sentido porque supomos saber de antemão o que nos dizem. Mau sinal. É leitura viciada, cega, manietada pelas pré-compreensões. Esse é um tipo de leitura que não nos ajuda a crescer na fé. Leitura boa é aquela que nos surpreende, nos interroga, nos assusta e, porque não, nos consola, reconforta, suaviza nossas dores e amores.

Hoje fui surpreendido por uma leitura que muitas vezes já havia lido. Mesmo tendo lido muitas outras vezes o texto, hoje ele me pareceu novo pela sua simplicidade. Paulo, na Primeira Carta a Timóteo, no capítulo três, descreve as qualidades do epíscopo e do diácono e de suas esposas. A lista é tão grande que nos faz pensar o quanto Paulo era exigente ou o quanto era exigente ser cristão no tempo de Paulo. A lista de qualidades recomendadas para o episcopado é longa: irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar, não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, moderado, não contencioso, não avarento, capaz de bem governar a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia, não neófito e que tenha uma bom testemunho dos que não são da comunidade.

Já para os diáconos, a lista é mais sucinta. Basta que sejam sejam honestos, não de língua dobre, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância, que guardem o mistério da fé numa consciência pura, sejam maridos de uma só mulher e governem bem a seus filhos e suas próprias casas.

Para as esposas – supõe-se dos bispos e dos diáconos – é exigido que sejam honestas, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo.

Paulo não fala dos presbíteros. Provavelmente, na comunidade de Timóteo, não havia presbíteros. Como todos sabemos, no início do cristianismo, as funções ministeriais variavam de uma comunidade para outra e de uma região para outra.

O que me chamou atenção ao ler este texto hoje foi a tranquilidade com que Paulo fala que os bispos e os diáconos deveriam ser marido de uma mulher. Talvez houvesse nas comunidades bispos e diáconos com várias mulheres. No mundo mediterrâneo do tempo de Paulo, a poligamia era habitual e aceita pela sociedade. E, pelo que indica a carta, algumas comunidades cristãs também a aceitavam como natural.

Paulo, a partir de sua experiência pastoral, recomenda que os ministros da comunidade sejam marido de uma mulher e não de várias. Ele não rejeita o matrimônio para os ministros das comunidades. Ele não vê nenhum empecilho teológico para que bispos e diáconos sejam casados e tenham filhos. Mais tarde, com o passar do tempo e também por razões pastorais, a igreja convirá que bispos e presbíteros não sejam escolhidos dentre os homens casados e, depois de ordenados, não possam contrair matrimônio. É assim que estabelece o direito do Rito Latino da Igreja Católica Apostólica Romana. Outras Igrejas e outros ritos dentro da própria Igreja Católica Apostólica Romana estabelecem isso diferentemente podendo conferir-se a ordenação a homens casados. Tudo assim bem simples! Tão simples quanto Paulo em sua Primeira Carta a Timóteo: casado ou solteiro, o importante é que o ministro tenha condições humanas para ser respeitado pela comunidade no encargo de conduzir a comunidade nos desígnios de Deus.

Se seguirmos a tradição mais antiga da Igreja, que é a consignada nas cartas paulinas, não há problema nenhum em que os ministros das comunidades – inclusive o bispo – sejam casados. Por outro lado, se olharmos a evolução histórica da Igreja, em um determinado momento chegou-se à conclusão de que bispos e presbíteros não fossem homens casados. E isso também tem que ser considerado como tradição. Mas, como a Igreja não é só tradição, mas é também caminho em direção ao desígnio futuro que Deus para ela estabeleceu – pelo menos é o que diz a Lumen Gentium – cabe-nos também perguntar: o que é melhor para o futuro da Igreja no que tange à legislação que regra a ordenação dos ministros para a comunidade?

Uma pergunta que, esperamos, o Sínodo sobre a Sinodalidade tenha a coragem e determinação de responder.

O VAR da Liturgia

Muitos que gostam de futebol ainda não nos acostumamos com o árbitro de vídeo, o tal de VAR. Ele consegue ser mais chato que o impedimento. Eu sempre achei que não devia haver impedimento no futebol. É uma lei que coage a dinâmica do ataque e favorece os retranqueiros que ficam armando a tal “linha do impedimento”, uma coisa que os juízes – o de campo e os de linha – sempre tiveram dificuldade de administrar. Quem não lembra de algum jogo e até de campeonatos que foram decididos porque o bandeirinha ou o juiz, equivocadamente, anulou ou validou um gol em que o impedimento era duvidoso.

Pois com o árbitro de vídeo aquilo que era ruim ficou pior. O jogador faz o gol, comemora e depois tem que esperar a validação pelo VAR. E lá vem as tais linhas vermelha e azul que, por milímetros, decidem o jogo ou o campeonato. E, como a prática tem mostrada, essa decisão tomada dentro de uma sala isolada e longe da pressão dos jogadores, dirigentes e da torcida, nem sempre é neutra. É tão subjetiva quanto a dos juízes que correm sobre a grama.

Pois, na Igreja Católica Apostólica Romana, a moda do VAR entrou na Liturgia. Em muitas paróquias e em quase todas as dioceses é cada vez mais frequente a presença do VAR da Liturgia. Não é um ministério oficial como no futebol. É para oficial. Verdade que às vezes é feito com o consentimento ou até a mando das autoridades. Mas, na maioria dos casos, são pessoas que se autoinsituem no Ministério de Fiscais da Liturgia. Elas vão na Missa não para rezar. Elas vão para observar se tudo é feito segundo a interpretação que elas têm dos cânones litúrgicos. E, ao invés de se importar com apresentar a vida da comunidade diante de Deus e escutar o que Ele tem a nos dizer, ficam observando se o padre diz todas as palavras do ritual na ordem e no ritmo certo, se os acólitos se movem nas linhas e nas curvas estabelecidas, se os coroinhas não se aproximam demais do padre e – o detalhe mais importante para os Fiscais da Liturgia – se não há nenhuma mulher ou nenhum homem separado ou “amasiado” perto demais da hóstia.

Fiscalizam a cor e a quantidade das roupas dos ministros, os panos e outros objetos colocados sobre o altar, o estado dos livros litúrgicos, o tamanho das hóstias, a cor e o odor do vinho, o volume da fumaça do incenso, o tamanho da vela, a cor das flores, a roupa dos fiéis, se se sentem, levantam e ajoelham no hora e na forma correta, se tomam a hóstia na mão ou na boca, se os cantos escolhidos são autenticamente litúrgicos, se não há instrumentos profanos sendo tocados…

Fiscalizam tudo e todos nos mínimos detalhes e, terminada a Missa, correm para casa e do alto do tribunal das redes sociais dão seu veredicto sobre a validade ou não do que se celebrou. Eles pretendem dizer se, pelo fato de o padre, na hora da Consagração, ter-se inclinado dois milímetros a menos do que deveria, impediu que o pão e o vinho se tornassem o Corpo e Sangue de Cristo. Ou então, se o padre titubeou na hora de pronunciar uma das palavras do ritual, fez com que a missa toda fosse inválida. E que a palavra “libertação” presente num dos cantos tornou a missa impura. Eles traçam a “linha do impedimento” que torna válida ou não a Liturgia rezada pela comunidade. E seu julgamento, igual ao do VAR, não tem apelo, mesmo que a decisão tenha sido subjetiva.

Triste. Muito triste, verdadeiramente triste. Mas, infelizmente, real e frequente. É uma atitude deprimente de quem não crê na presença viva de Cristo na comunidade que se reúne para celebrar sua fé no Deus da Vida que aceita o rito não pela sua correção formal, mas por sua intenção fundamental que é de celebrar a Graça de Deus que nos salva e nos alimenta para continuarmos na jornada.

O árbitro de vídeo tornou o futebol chato. Não deixemos que façam o mesmo com nossas liturgias. Mais do que uma suposta defesa da Liturgia que os Fiscais pretendem fazer, preocupemo-nos com Aquele que é a razão de rezarmos e com aqueles que levantam a voz para louvar o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó e de Jesus, o Deus de todos nós, aquele que nos dá a vida e quer que todos a tenham em abundância e sem qualquer tipo de impedimento.

Valha-nos Santo Espírito!

No fim de semana passada a Liturgia da Igreja nos convidou a celebrar a presença do Espírito de Deus em nós, na Igreja e em toda criação. Uma das mais belas festas do ano! Aliás, uma das mais importantes. Mais propriamente, ao lado da Páscoa cujo ciclo acabamos de encerrar e da Santíssima Trindade que celebraremos no próximo domingo, é a mais importante do Calendário Litúrgico. Páscoa, Pentecostes e Santíssima Trindade celebram o próprio ser de Deus em sua diversidade de pessoas e unidade de ser.

Meu Pentecostes deste ano foi marcado por uma certa preocupação teológica. Quem foi professor de Teologia Trinitária e, nela, de Cristologia e Pneumatologia durante 23 anos, ficou com o vício de estar atento ao que se fala sobre o Espírito Santo, que, depois de, por séculos na Igreja Católica Romana, ficar relegado da teologia, da espiritualidade, da liturgia e da pastoral, nas últimas décadas, na vaga pentecostal assimilada de outras Igrejas, passou a um lugar central.

Meu primeiro choque pneumatológico deste ano foi na missa de sábado de manhã. Ainda não era a liturgia de Pentecostes. Mas o padre, um senhor de uns quarenta anos, iniciou a Missa lembrando da festa que se acercava e convidando a comunidade a fazer o sinal da cruz “Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo e da Virgem Maria”. Estranhei… Afinal, eu não sabia que a Virgem Maria tinha passado a fazer parte da Trindade que, com ela, não seria mais Trindade, mas Quaternidade. O interessante é que, em várias das saudações trinitárias da Liturgia Eucarística, o acréscimo se repetiu. Relevei o fato considerando que era sábado e muitos católicos tem a devoção de, neste dia, lembrar de modo especial da Virgem Maria. Continuei no entanto a estranhar a inovação teológica radical do tal padre.

Domingo de manhã, o rádio ligado em uma emissora pública que transmitia um programa mantido por um movimento católico pentecostal, o apresentador – um leigo de muito boa prosa e pouca consistência doutrinal – depois de muitas exortações a afastar-se das coisas do mundo e de muitos “aleluias”, encerrou sua peroração exortando os ouvintes a “pedir à Virgem Maria que envie o Espírito Santo para que ele aqueça nosso coração para que ele se entregue a Deus”.

Minha memória teológica não podia deixar de sobressaltar-se com tal afirmação e lembrar que, por muito menos que isso, tivemos o cisma entre as Igrejas do Oriente e a Igreja Latina ou Romana. Os orientais, seguinte o Credo Nicenoconstatinopolitano, diziam e continuam até hoje a afirmar que o Espírito Santo procede do Pai. É o chamado “Patreque”. Os latinos, movidos pela teologia trinitária de Agostinho de Hipona, a partir do Século V, passaram a dizer que o Espírito Santo “procede do Pai e do Filho”. Foi o famoso caso do “Filioque” que levou ao primeiro grande cisma na Igreja que perdura até hoje. E agora, na manhã de Domingo de Pentecostes, fico informado, através de um programa de rádio, que o Espírito procede de Maria! Seria o caso de um “Marioque”? Todo respeito e devoção a Maria! Mas ela não merece ser envolvida nessa polêmica e pagar a conta de nossa vã teologia que pretende compreender como são as relações em Deus e sua ação no mundo.

Para minha preocupação, minhas surpresas teológicas do dia de Pentecostes não tinham terminado. Na Missa da Paróquia que costumo frequentar, o padre que presidia, em seu sermão, depois de falar muitas coisas sobre o Espírito e tantas outras coisas mais que não tinham nada a ver com o Espírito, pronunciou uma pérola eclesiológica relacionada ao Espírito Santo que me fez mais uma vez tremer. Para descrever o modo de agir do Espírito, ele se reportou ao Concílio Vaticano II afirmando que só o Papa tem a plenitude do Espírito Santo e que em virtude disso, tudo o que ele diz é verdade. E, para demonstrar sua afirmação, fez referência a um Papa já falecido dizendo que tudo o que ele dizia era verdade, “bem diferente de outros por aí que andam fazendo afirmações que são completamente falsas e que mostram que esses não têm a presença do Espírito Santo”.

Não sei se a comunidade, já cansada de um sermão de mais de quarenta minutos e pouca lógica, entendeu o que ele quis dizer. Eu, que acompanhava o discurso com atenção devido ao seu viés ideológico . marcado, entendi perfeitamente. E não estranhei. Aliás, com aquela frase, tudo se encaixava e se tornava completamente compreensível naquela liturgia. Nem precisava ter dito. Mas, sendo dito, ficou explícito.

Tempos preocupantes para quem é católico. Quando a performance teatral substituiu a liturgia, a estética toma o lugar da teologia e a religião se assume como ideologia, tempos lúgubres se anunciam. Ou, sendo um pouco mais realistas, já assomam no horizonte e nos cobrem com seu gélido ar hibernal.

Que o Espírito nos proteja e dê forças para continuar caminhando.

Brasília – Asa Sul

Eu ainda não havia nascido quando Brasília foi inaugurada. Em 1960 o Brasil ainda respirava ares democráticos e sonhava com mais cinquenta anos em cinco. A nova capital foi inaugurada. O “avião” de Lúcia Costa decolou na esperança de com ele alçarem-se tempos novos para todo o país. Mas veio 1962. E, depois, 1964 e o golpe militar consumado.

Meus olhos viram a luz no final de 1965. Criado no sul do sul do Brasil, só vim conhecer o Planalto Central em 1986 em meio à transição da ditadura para a democracia. O Presidente era o ex-arenista José Sarney que foi empossado sem nunca ser eleito nem diplomado. Era a transição negociada com os militares que largavam o governo mas continuavam com muito do poder. Depois daquele primeiro encontro, várias vezes tive a oportunidade de visitar a cidade que nasceu da vontade desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, foi planejada na prancheta de Lúcia Costa e adornada pelas obras do comunista Oscar Niemeyer.

Morar aqui, nunca passou pelas minhas mínimas cogitações. Mas eis que, 36 anos depois, cá estou eu morando numa das avenidas identificadas por letras e números da Asa Sul do Plano Piloto e trabalhando no ponto de encontro da Asa Sul com a Asa Norte e delas com o Eixão. Da janela da sala do trabalho vejo, ao leste, vejo a Esplanada dos Ministérios no lado em que o último prédio é o Palácio do Planalto e, à sua direita (no sentido físico e também político do termo), o Congresso com as duas torres e as cúpulas, uma na posição normal e a outra, invertida. Ao oeste ergue-se a Torre de Comunicação e o setor hoteleiro norte.

Como diz a música da banda que aqui surgiu na década de 1980, aqui, no coração da capital, “as ruas tem cheiro de gasolina e óleo diesel” como as de qualquer outra cidade grande. Diferentemente do planejado por seus idealizadores que a queriam com trezentos mil habitantes, nestes sessenta e poucos anos, Brasília se tornou uma cidade de três milhões de moradores. As “cidades satélites” não são mais satélites. Têm vida própria e espelham a realidade brasileira não apenas quanto à origem de seus moradores. Brasília, no seu todo, é um reflexo exacerbado da nação que somos. Aqui convivem, lado a lado, a maior renda per capita com a maior favela do país. O sol que nasce para os que vivem nas mansões do Lago Sul é muito diferente daquele que brilha na Sol Nascente. No Lago Sul, o astro aquece as piscinas. Na favela, ele seca a pele, o chão e toda esperança.

Morar em Brasília é uma experiência particular. É uma viagem entre o que foi planejado, o que deu certo e o que deu errado. O Parque da Cidade, as alamedas nas entrequadras, as praças, as árvores frutíferas por todos os lados, as flores, os amplos espaços ajardinados chamando à convivialidade… são o lado bom da cidade que busco aproveitar nos pouco tempo de folga que a atividade me permite. As distâncias, o privilégio ao automóvel, a frieza do cimento, a segregação por faixa de renda concretizada gráfica e geograficamente são o lado que dói e faz pensar que a utopia, quando esquece o lugar onde é gestada, pode se tornar distópica.

Minha residência aqui é transitória e ligada à atividade específica que me fez vir para este lugar do Brasil. Vivo a cada dia que estou aqui esta cidade que estou aprendendo a gostar na esperança de, nela e com as pessoas que aqui vivem e com as quais convivo, muito possa me ensinar.

Ano passado eu morri…

…mas esse ano eu não morro! Assim cantava Belchior na música “Sujeito de Sorte”, gravada primeiro por ele, na sequência por muitos intérpretes e ultimamente tornada outra vez famosa na voz de Emicida que a regravou pensando no povo negro do Brasil – especialmente os mais jovens – que estão sempre sob o risco de serem mortos pela polícia pelo simples fato de serem negros e, em sua maioria, pobres.

A música me veio à mente ao pensar no Evangelho do Quinto Domingo de Quaresma em que Jesus faz seu amigo Lázaro voltar à vida. Lázaro, assim como o compositor a que nos referimos, é um “sujeito de sorte”. Ele teve a sorte de ser amigo de Jesus e por isso, depois de morto, voltar à vida. O Evangelho de João não diz de que Lázaro morreu. Provavelmente por alguma “doença de pobre” tão comum na Palestina naquela época: tuberculose, hanseníase, esquistossomose, malária, helmintíase, tracoma… Ou então foi vítima do trabalho exaustivo e da fome, da violência da polícia do Templo ou das forças de ocupação romana. As mesmas causas que provocam, a cada ano, milhões de mortes não só nos países empobrecidos, mas também nos países ricos.

Lázaro foi um sujeito de sorte. Jesus, avisado por Marta e Maria, veio e mandou que tirassem a pedra que tapava o sepulcro e ordenou que Lázaro viesse para fora. Mas Lázaro ainda estava amarrado pelos laços da morte e não podia caminhar. Ele estava vivo, mas ainda preso pela morte. Como diz Belchior, ele ainda sofria o sofrimento do ano passado. A morte do passado ainda dominava o presente daquele que tinha voltado à vida. Era preciso não apenas fazê-lo reviver, mas livrá-lo do que tinha causado sua morte para que não voltasse a morrer. Imagino que, se Lázaro conhecesse Belchior ou Emicida, ele também cantaria com Jesus: “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” porque fui libertado daquilo que causou a morte “e assim já não posso sofrer no ano passado”.

A morte pode ser, no seu acontecer, um evento pontual. Mas, na maioria dos casos, tem causas estruturais que enraízam no passado de nossa sociedade e se expressam em nossa história familiar e pessoal. Há laços mortais que perpassam gerações e gerações e continuam matando hoje como matavam no tempo de Jesus. Laços fatais que mataram nossos pais e que continuarão a matar nossos filhos e netos se nós não tivermos a coragem de tirar as pedras, cortar as cortas da morte e queimá-las para que não voltem a amarrar a ninguém mais.

Não tenho a certeza, como a tinha o cantor nordestino, de “Deus é brasileiro”. Mesmo assim, com ele compartilho a constante sensação de que Ele “anda sempre a meu lado” e, na Sua Páscoa, tivemos removida a pedra que nos matava e desatados os laços que nos impediam de caminhar.

Por isso olho sempre e cada vez para diante na certeza de que, se no ano passado quase morremos, esse ano e no futuro, temos o compromisso de deixar que ninguém morra.

A pior cegueira.

O pior cego não é aquele que não vê. Também não é aquele que não quer ver. O pior cego é aquele que não quer que os outros vejam o que ele vê. Sim! Essa é a conclusão do longo diálogo entre Jesus e os fariseus no episódio do Evangelho de João do Quarto Domingo de Quaresma.

Jesus cura um cego e os fariseus, questionados em seu senhorio religioso, querem convencer o curado e seus familiares de que o fato de o rapaz agora enxergar é algo pecaminoso diante de Deus. Os fariseus não se importam com a mudança radical na vida daquela pessoa que passou da cegueira à visão perfeita e das consequências positivas que isso tem na vida de seus familiares.

A preocupação dos senhores da lei é deslegitimar a ação de Jesus que colocava em crise seu domínio religioso sobre a comunidade judaica. Para isso, eles tentam ocultar a verdade que salta aos olhos: Jesus curou o cego! E se a vida do jovem mudou para melhor, é obra de Deus. Essa é a lógica da tradição judaica. Quem quer a cegueira é o diabo e seus sequazes. Se fosse obra do diabo, o jovem continuaria dependendo em tudo de seus pais.

Tão óbvio que somos tentados a pensar que isso é coisa de um passado remoto. Ledo engano! A situação é muito mais atual do que imaginamos. Talvez nunca antes na história da humanidade houve tantos videntes tentando impedir os cegos de verem. Talvez nunca antes a mentira foi utilizada tão amplamente como estratégia política para criar cegos e convencê-los de que a melhor condição par eles é a de não ver o que na verdade acontece ao seu redor.

Apenas a título de exemplo, um ex-presidente norte-americano dizia que ele não mentia, mas que apenas apresentava uma “verdade alternativa”. Um ex-presidente brasileiro, emulando seu tutor do norte, afirmava que nunca mentia, mas que apenas dizia uma verdade que os outros não reconheciam como tal. E os dois fizeram multidões se negarem a tomar vacinais e a devorar cloroquina e primaquina para combater a Covid-19. E o pior da história é que milhões de pessoas os seguiram e milhares morreram por se negarem a aceitar o que a ciência indicava e insistirem com os tratamentos inócuos recomendados pelos cegos que sabiam que não estavam vendo e queriam manter seus seguidores na escuridão para que não se dessem conta do precipício para o qual estavam sendo conduzidos.

Não querer ver é um modo terrível de conviver com a cegueira. Até aceitável em certos casos. Mas não recomendável como regra geral. Não querer que os outros vejam é uma opção satânica diante da cegueira de outrem. A primeira pode se dar por ignorância ou por acomodação. A segunda, por maldade ou ganância. Para a primeira pode haver perdão. Para a segunda, o fogo do inferno é a única solução.