Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

O paradoxo da abundância.

Comer é um ato biológico. Nosso corpo precisa ser provido dos nutrientes necessários para permanecer vivo. Se não comemos, morremos. Por isso a fome é algo tão terrível. Ela é a antessala da morte. A pessoa que está com fome, para comer, ou seja, para sobreviver, é capaz de qualquer coisa: trapacear, roubar e, no limite, até matar.

Mas, comer, é também um ato social. Amostra disto é afirmação de que, mais importante do que comemos, é com quem comemos. Como diz a Bíblia no Livro dos Provérbios, “é melhor comer um prato de hortaliças, onde há amor, do que ter um boi gordo acompanhado de ódio na refeição”. A forma como são produzidos, intercambiados e consumidos os alimentos revelam a verdadeira natureza de uma sociedade.

A comida, por ser indispensável para a sobrevivência e por ser símbolo de relações sociais, é um elemento presente em todas as religiões, inclusive no cristianismo. Nos Evangelhos, há mais comida e refeições do que milagres e exorcismos. Se tomamos, por exemplo, o Evangelho de João, a obra do Salvador começa com uma festa de casamento em Caná onde ele transforma a água em vinho e termina com um encontro do Ressuscitado com os discípulos à beira do lago onde Jesus partilha pão e peixe assado com seus amigos e amigas.

Partilha de comida e bebida que, durante o percurso da Galileia até Jerusalém, Jesus já havia feito em muitos lugares e com muitas pessoas. Na casa de pobres e de ricos, de santos e de pecadores, de homens e de mulheres, de judeus e de estrangeiros. Às vezes comendo e bebendo muito, a ponto de dizerem que era um comilão e um beberrão. Outras vezes, comendo as sobras ou o quase nada do que as pessoas tinham. E, em algumas situações, até roubando o trigo da beira da estrada para poder saciar a fome dos discípulos.

Mas acima de tudo e em todas as ocasiões, ensinando que a comida deve ser partilhada sem que ninguém fique de fora. Quando os discípulos, vendo a multidão com fome, pedem que o Mestre mande todos embora para que cada um se vire como pode, Jesus ensina que a partilha é o caminho para que todos fiquem saciados. E dos cinco pães e dois peixes nasce a consciência e a prática de que, para que todos comam, é preciso que os que tem muito partilhem com os que pouco ou nada têm.

No tempo de Jesus, assim como hoje, o problema não é a falta de comida. É a falta de partilha. No mundo, há comida de sobra. No caso do Brasil, somos o maior exportador mundial de alimentos. E, mesmo assim, há gente passando fome…

Como dizia o Papa João Paulo II na Inauguração da Primeira Conferência da ONU sobre alimentação no ano de 1992, vivemos o “paradoxo da abundância”: há alimento para todos, mas nem todos podem comer.

Precisamos de novo, aprender com Jesus: que a partilha do pão, do peixe, do vinho, da alegria e da mesa aberta para todos e todas, nos ajude a matar a fome de comida e o anseio por uma nova e justa sociedade.

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Nole mi tangere!

Dia 22 de julho a Igreja celebra Santa Maria Madalena. E o faz com uma festa. Dentro das categorias litúrgicas, é o modo mais elevado de lembrar um santo, no caso, uma santa. A elevação de categoria litúrgica de Maria Madalena aconteceu em 2016 por decisão do Papa Francisco. Até então, celebrava-se apenas a memória desta mulher.

A decisão não foi uma inovação. Na Idade Média, vários teólogos, incluído Santo Tomás de Aquino, a chamaram de “apóstola dos apóstolos”. Título mais do que merecido pois, segundo os Evangelhos, foi a encarregada por Jesus de anunciar a ressurreição aos outros discípulos.

Ela fazia parte do grupo dos seguidores e seguidoras do Mestre desde a Galileia. Juntamente com Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana e muitas outras, elas sustentavam o grupo com seus bens. Eram mulheres poderosas e independentes que, contrariando as tradições e leis, abandonaram tudo para seguir Jesus.

Maria Madalena é uma das personagens mais frequentes nos evangelhos. Quatorze vezes é citada nominalmente. Acompanhou Jesus até Jerusalém e, junto com a mãe de Jesus e as outras mulheres, foi das poucas que presenciaram a crucificação.

Além de discípula fiel e apóstola de primeira hora, a única informação que dela nos dão os evangelhos é que foi libertada de sete demônios. Em linguagem bíblica, era uma pessoa que sofria muito e, no encontro com Jesus, foi libertada. De que ela sofria? Os evangelhos nada dizem.

Por que então a tradição associou Maria Madalena a uma prostituta? É uma boa pergunta… A primeira vez que isso aconteceu foi num sermão de São Gregório Magno, pronunciado no ano de 591 d.C. No sermão, o Papa confunde a Madalena com a mulher adúltera e com a Maria que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas. Uma indevida ligação que que se perpetuou em sermões e obras de arte e chegou até o cinema contemporâneo.

E mais: por que durante séculos tal associação foi aceita acriticamente? Também é uma boa pergunta… Não sei se tenho uma boa resposta para as duas boas perguntas. Mas tenho, no mínimo, uma suspeita: a dificuldade, tanto na Igreja como na sociedade, em aceitar o protagonismo das. São Gregório Magno, em seu sermão, já deixou a dica. Maria, a Mãe de Jesus, era o modelo de mulher submissa. Madalena, a de mulher independente que se arrepende e passa a ser submissa.

São João Paulo II, na Encíclica sobre a Dignidade da Mulher, lembra que estamos em outros tempos e precisamos reconhecer a dignidade e protagonismo das mulheres na sociedade e na Igreja. Nessa mudança, é preciso ouvir das mulheres de hoje, aquilo que Jesus disse outrora a Maria de Magdala: “Noli me tangere! Não me detenhas!” Elas pedem passagem.

*Imagem: “Nole mi tangere!” de Fra Angelico (c. 1440).

A Lei do Retorno

Sou avesso a todo determinismo. Desde os simples até os científicos e religiosos. Não acho que “tal pai, tal filho” seja insuperável. A experiência nos diz que, felizmente, os filhos são, quase sempre, muito diferentes dos pais. E com isso fica eliminado o “a fruta não cai longe da árvore”. E o preconceito de que os povos originários de climas frios e temperados são trabalhadores e previdentes e que aqueles das regiões tropicais são malandros e indolentes. Assim o queria um certo vice-presidente de uma república onde mais da metade da população se autodeclara preta, parda ou amarela… Ele incluído!

Também não é comprovado que quem nasce na favela seja potencial bandido e quem cresceu no condomínio está fadado a ser “doutor”. A incipiente e ameaçada experiência das cotas, do PROUNI e do FIES mostra que todos e todas, independentemente da origem social, quando têm as necessárias condições, podem alcançar todos os lugares sociais. Mas, na nossa sociedade de poucas oportunidades, quando um se move, tira o lugar de outro. E isso incomoda…

Apesar de Freud, fica difícil comprovar que somos nada mais que os frutos dos traumas de nossa infância. Se assim fosse, faltariam psicólogos! E, contra Marx, que o desenvolvimento das forças produtivas leva necessariamente ao comunismo. E se a mão invisível do mercado trouxesse inexoravelmente a riqueza para todos, como dizia Adam Smith e hoje continuam a repetir os ajurujurás ministeriais de ocasião, a pobreza do Brasil e do mundo já teria encontrado solução. E, a cada crise, as grandes empresas não estariam correndo em busca de socorro das burras públicas.

E também é insustentável dizer que se os pais comem uvas verdes, os filhos nascem com os dentes enfraquecidos. Está na Bíblia. Mas a Bíblia é a verdade divina dita com palavras humanas. E o dizer humano nem sempre consegue transmitir o querer divino. Às vezes colocamos na boca de Deus nossos desejos e sentimentos.

Com efeito, o campo da religião é propício para os determinismos mais perigosos. Desde a lei da causa e do efeito até a doutrina da predestinação. Não sou especialista em budismo, hinduísmo e espiritismo, mas, no que se refere à fé cristã, a liberdade do ser humano é respeitada por Deus até as últimas consequências. E, mesmo que o ser humano se decida contra aquilo que Deus deseja – ele não determina! – para além e acima de todo pecado, está a graça divina que respeita o agir humano. Complexo, mas só assim Deus é Deus e o ser humano é humano. Fora disso, o divino se transforma em tirano e o humano em marionete. Aí já não há mais religião. Há fanatismo e escravidão.

Calvino e Jansênio me dão arrepios espirituais. Entre Lutero e Armínio, fico com os dois sem eliminar nenhum. Bem assim como o fez o Concílio de Trento.

Isso posto, devo confessar que, às vezes, dá um prazer enorme dizer: aqui se faz, aqui se paga! Mas, fiquem tranquilos: vou me confessar!

Imagem: “Marionete”, por Alex Silva by Flickr

Será que nem desenhando?

Uma das figuras mais usadas na literatura, principalmente na oriental, é a parábola. Ela é leve, deliciosa, facilmente memorizável e altamente instrutiva. A estrutura da parábola é simples. Uma alegoria que, inserida numa rápida narrativa com poucos personagens, apresenta um ensinamento útil.

A maioria de nós, ao ouvir falar em parábolas, logo as associamos a Jesus. Como outros pregadores, ele a utilizou com maestria. Tomava situações do quotidiano e, a partir delas, procurava transmitir seu ensinamento.

A utilização de tal método por parte de Jesus muitas vezes funcionou. Podemos percebê-lo pelas reações dos ouvintes. Alguns vibravam com o que Jesus dizia. Outros entendiam tão bem que partiam para cima de Jesus para prendê-lo e matá-lo. É o caso, por exemplo, dos fariseus e sacerdotes que entendem muito bem o que Jesus quer dizer com a parábola dos vinhateiros assassinos.

Mas a parábola, ainda segundo Jesus, pode ter uma outra finalidade. Ela pode ser usada para confundir os ouvintes e fazer com que eles não entendam o que está acontecendo. É estranho, mas é isso mesmo. Tal intencionalidade está presente numa das narrativas mais conhecidas de Jesus, a dita Parábola do Semeador. Todos já a conhecem. Mas nem todo mundo presta atenção naquele trecho entre a parábola propriamente dita e a explicação dada por Jesus.

Ao findar a parábola, os discípulos perguntam: “Por que falas ao povo em parábolas?” Jesus responde citando o profeta Isaías: “Eles olharão e olharão, mas não conseguirão ver; eles escutarão e ouvirão, mas não conseguirão entender. Isto acontecerá para que eles não venham a arrepender-se e a ser perdoados de seus pecados.”

A constatação de Jesus é desoladora. Para ele e para os discípulos. E para o seu projeto de levar a cura a todas as pessoas. Como diz Jesus, há pessoas que “nem desenhando” entendem aquilo que pareceria óbvio. Assim como Jesus, às vezes nos perguntamos: se é tão óbvio o que se diz, por que tem gente que não entende de jeito nenhum?

Não sãos os ouvidos o problema. Nem os olhos. O problema está no coração que não permite entender o que os olhos veem e os ouvidos ouvem. Há cegos da vista. Há surdos dos ouvidos. E há cegos e surdos do coração. Para estes, a parábola, por mais clara que seja, é confusão, é ocultamento, é perdição.

Felizmente, como diz o próprio Jesus, há também os corações que acolhem com alegria a semente e produzem trinta, sessenta e cem por um! Esses são a real parábola do futuro que esperamos para toda a humanidade.

e.

Não basta ser doutor…

Ter um doutorado é importante. Tão importante que até quem não tem faz questão de dizer que tem. E alguns, infelizmente, até mentem e inventam falsos diplomas para dizer que são doutores.

Deixando de lado estes casos bizarros, no mundo real e normal, o doutorado é importante por ser o ponto culminante do processo de educação. Ser doutor é demonstrar a capacidade de produzir conhecimento em benefício da sociedade. E, hoje, mais do que nunca, está provado que as nações só passam da pobreza ao bem estar através da produção de conhecimento. A China, o país que mais progrediu economicamente nas últimas décadas e lidera a economia mundial, ultrapassou os Estados Unidos e a União Europeia em número de doutores formados e pesquisadores em atividade.

Basear a atividade econômica na exportação de matérias primas, manufaturados e produtos agrícolas é aceitar um posto subalterno na economia mundial. Nenhum país saiu da situação de pobreza sem um maciço investimento em educação. Processo que abarca desde a pré-escola até o ensino superior. Alfabetizar com qualidade é importante. É a base. Mas não basta. É preciso mais.

A miséria da educação no Brasil tem uma razão muito simples: falta de investimento público. Dentre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), somos o que menos investe, per capita, no sistema educativo. Três dados mostram as consequências desta opção: o número de alunos em tempo integral nas escolas públicas baixou de 18 para 10% entre 2014 e 2018; o salário das professoras do Ensino Básico brasileiro está entre os mais baixos do mundo (em média, 10% do que ganha um professor europeu!); o ingresso no Ensino Superior continua estagnado em 18% dos jovens entre 18 e 24 anos, e só se mantém neste nível graças ao ensino à distância, de duvidosa qualidade.

Por que tanta desatenção com a educação? A resposta é simples: falta de sabedoria. No Brasil, acesso à educação é visto como luxo para poucos. É uma reserva para as elites que se auto reproduzem em seus guetos sociais e educacionais. Nos poucos momentos em que se ensaiou uma ruptura deste ciclo através de programas de inclusão educacional como o PROUNI, o FIES e o sistema de cotas, a reação da minoria privilegiado foi violenta e levou à ruptura e destruição dos processos educacionais em andamento e do próprio sistema democrático. Uma triste opção da qual toda a nação pagará as consequências no longo prazo.

Conhecimento é importante. Mas ele só é possível quando nos rendemos à sabedoria de Jesus. Em sua oração, ele louva o Pai que revela o seu saber aos pobres e pequeninos e o ocultou aos ricos e poderosos. Esta é a sabedoria de Jesus. Se não nos rendermos a ela, nunca haverá conhecimento, nunca haverá educação e nunca, como nação, sairemos da situação de pobreza econômica e miséria moral da qual a ostentação de títulos nunca alcançados é apenas uma deprimente manifestação.

Viva São Pedro, Santo Antônio e São João!

Junho é o mês das festas dos santos do povo. Começa com Santo Antônio, passa por São João e termina com São Pedro.

Santo Antônio é o casamenteiro. Arruma namorada para o pior dos encalhados. Para outros, é o “pão dos pobres”, aquele que convida a partilhar o pouco que temos com os que menos ainda têm. João Batista é o profeta. Ele anuncia uma sociedade de justiça onde os poderosos terão que prestar contas de suas prepotências. Ele prepara o caminho e batiza o Messias que veio realizar a justiça para os pobres.

São Pedro, o último a ser celebrado, é o braço direito de Jesus aqui na terra. No céu, ele tem as chaves da porta e controla quem entra e quem fica de fora. É o líder, o chefe. E talvez por isso sua figura não seja tão popular como a dos outros dois. Aliás, até nos evangelhos sua fama é duvidosa. Jesus o chama de Satanás quando o discípulo quer que ele seja um chefe poderoso que vai esmagar os opressores judeus e romanos. O Mestre o repreende por ter tomado a espada e cortado a orelha de um escravo do Sumo Sacerdote e o adverte de que todos os que lançam mão da espada pela espada morrerão! Na hora do lava-pés, Pedro se recusa a entrar na fila e deixar-se lavar. No dia da prisão, nega três vezes conhecer o nazareno. Depois da ressurreição, Jesus lhe pergunta se é capaz de dar a vida por ele. Pedro titubeia e Jesus tem que repetir a pergunta três vezes.

Perguntamo-nos então: quando foi que Pedro mudou a ponto de se tornar a liderança da comunidade? Segundo o livro dos Atos dos Apóstolos, foi a experiência da prisão que levou Pedro à mudança. Ele sempre pensou a liderança como um exercício do poder. Olhava para cima e pensava em como chegar ao alto. Ao passar pela cadeia, experimentou que o verdadeiro poder só se alcança quando se desce até os últimos da sociedade. Foi convencido a deixar de sonhar com o principado e passar a pensar nos humilhados. Foi isso que aconteceu com Jesus. Pedro, ao passar pela cadeia, assumiu essa forma de liderança.

É uma experiência que se repetiu com Francisco de Assis, Mahatma Ghandi, Martim Luther King, Nelson Mandela, Dom Hélder Câmara, Tereza de Calcutá, Irmã Dulce e outros tantos e tantas que fizeram suas as dores, sofrimentos e prisões dos leprosos, dos párias, dos segregados, discriminados e empobrecidos da sociedade.

O Papa Francisco, atual sucessor de Pedro no serviço à Igreja, lembra que a verdadeira liderança precisa se despir não apenas das roupas de príncipe, mas da “psicologia de príncipe”. Uma conversão difícil que implica em mudar de lugar social e eclesial: sair dos palácios e misturar-se ao povo nas festas da esperança da volta da fogueira que aquece a convivência dos pequenos e humilhados. Mas uma conversão possível e necessária para uma nova humanidade que possa viver a alegria da festa da vida.

A Angústia e o Medo

Acabo de ler “A História do Medo no Ocidente”. Fazia tempo que estava na minha lista de espera. Agora, em tempo de pandemia, tirei-o do descanso da estante e me dei ao agradável trabalho de percorrer suas mais de 500 páginas.

Um grande livro do excepcional historiador Jean Delumeau. De forma concisa e profunda ele analisa os medos que percorreram a Europa do séc. XIV ao séc. XVII. Época do Renascimento da cultura clássica e aprofundamento dos medos da Idade Média. Medo da fome, da peste, da noite, do mar, da guerra, do fim do mundo, dos hereges, do diabo, dos judeus, dos turcos, das mulheres, das feiticeiras.

Medos que são organizados pelo autor em dois grandes blocos: o medo das classes populares e os medos das classes dirigentes. Os pobres têm medo daquilo que lhes ameaça a subsistência e a sobrevivência. As classes dirigentes, nobres e clero, têm medo dos pobres que, acossados pela necessidade, podem provocar o caos no qual os ricos serão submergidos com suas riquezas.

De onde nascem estes medos? Ao longo do texto e com sólida argumentação, o autor demonstra que estes medos só foram possíveis porque a sociedade europeia vivia um tempo de angústia. Com efeito, angústia e medo são coisas diferentes. Em termos sociais, a angústia nasce da situação de instabilidade que leva à incerteza do amanhã. As profundas transformações culturais, econômicas, políticas, sociais e religiosas porque passava o continente fazia com que ninguém tivesse segurança quanto ao futuro – imediato e mediato – que lhe caberia viver.

A angústia, enquanto fenômeno social, é indefinida e abrangente. Abarca o todo da vida e é de difícil solução pois não depende da vontade do indivíduo ou de um grupo. Para os que dominam a sociedade e a cultura, a melhor forma de superá-la é através do medo. Este direciona a angústia para um inimigo específico e apresenta-o como culpado de todos os males. Eliminando o fator de medo, a sociedade crê eliminar a angústia que a invade e assim garantir outra vez a estabilidade.

O grupo social apontado como aquele que deve ser temido e combatido, torna-se “bode expiatório” sobre o qual é jogada a angústia da sociedade. Sua morte é vista como um sacrifício necessário para a sobrevivência de todos. Aquele que o elimina, é um herói a ser exaltado. Tal lógica explica os massacres dos camponeses, dos judeus, dos muçulmanos, dos ciganos, dos hereges, das feiticeiras…

E, digo eu, talvez extrapolando Dellumeau, explica os medos que hoje são criados para desviar a atenção da angústia de nossa desigual sociedade. Sem curar a causa, não adiante tratar o sintoma. Medo é sintoma, muitas vezes falsificador da verdadeira causa da doença de nossa sociedade.

A Bolsa ou a Vida

bolsa

Segundo a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, “economia é o conjunto de atividades desenvolvidas pelos homens visando a produção, distribuição e o consumo de bens e serviços necessários à sobrevivência e à qualidade de vida”.

Uma bela definição a ser lembrada nestes tempos em que, segundo alguns, o distanciamento social, que ajuda a salvar vidas no contexto da Covid19, levaria à ruína da economia. Mas, nos perguntamos nós: que economia é essa que se opõe à sobrevivência e à qualidade de vida das pessoas?

Afinal, vale a pena produzir, distribuir e consumir bens e serviços se toda esta atividade não tem como objetivo maior salvar pessoas? Pode existir uma economia desvinculada da vida humana? Que economia é essa que não se importa com a vida dos homens e mulheres que produzem, distribuem e consomem bens e serviços?

Na Encíclica Laudato Sì, publicada lá se vão já cinco anos, o Papa Francisco chamava a atenção para o grande perigo de uma economia desvinculada das reais necessidades humanas. Segundo o Papa, quando a economia já não é pensada como a arte de suprir as demandas da sobrevivência e da qualidade de vida, cai-se num “vale tudo” em que a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras, o trabalho escravo, o tráfico de órgãos, pessoas e drogas, o comércio sexual de mulheres e crianças, o abandono dos idosos e a depredação do meio ambiente, são justificados como necessários para que a economia continue funcionando e dando lucros. Dá lucro? Então pode… parece ser o mote de alguns economistas.

Segundo o Papa Francisco, a hegemonia do sistema financeiro sobre a economia real é o sintoma mais claro da desvirtuação da economia. Segundo ele, “a finança sufoca a economia real”. Não é apenas uma frase bonita. Ela expressa o mundo concreto em que vivemos. Na medida em que as medidas de isolamento social são levantadas e, em consequência, o número de mortos pela Covid19 explode, a Bolsa de Valores retoma seu viés de alta.

Para dar vida à Bolsa de Valores, é necessário dar morte a milhares de brasileiros e brasileiras. Tal qual Baal, o sistema financeiro exige o sacrifício de vidas humanas. É um sistema idolátrico que se nutre do sangue das pessoas. E, no caso da pandemia que estamos vivendo, exige o sacrifício das pessoas mais frágeis da sociedade, os idosos e doentes.

Já dizia Jesus em sua crítica aos fariseus: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” Quando o lucro é colocado acima da vida, já não há lugar para o verdadeiro Deus. A religião se torna ideologia e a economia se transforma em uma máquina de morte que devora, primeiro os mais fracos, e depois aqueles e aquelas que pensavam dominá-la.

Palavras que precisam ser lembradas antes que nos tornemos todos vítimas. Alguns da Covid19. Outros, da ganância cega, surda e muda diante da vida que clama. Temos que escolher: ou a bolsa, ou a vida.

A vaca foi pro espaço!

Qual a relação entre a cifra de cem mil mortos pela COVID19, o assassinato por sufocamento de um homem negro nas mãos de policiais brancos em Minneapolis e o envio ao espaço pela SpaceX de um foguete tripulado?
Os três fatos aconteceram nos Estados Unidos. Todos os três, no curto intervalo de uma semana. Todos ocuparam espaço considerável na mídia internacional. E, como não poderia deixar de ser, no noticiário brasileiro. Um comentarista televisivo ressaltou a importância do lançamento do Dragon Crew: possibilitar que, em um futuro muito próximo, qualquer pessoa possa viajar para o espaço. E concluiu sorridente: “Reserve já o seu bilhete!”
Fiquei pensando cá comigo: Será que George Floyd, o homem negro que foi sufocado pelos policiais brancos, já teria ele reservado seu bilhete para um passeio espacial a bordo da cápsula do Elon Musk?Será que os cem mil cidadãos norte-americanos que morreram de COVID19 também já haviam comprado seu bilhete para a viagem orbital?
Na certeza de uma resposta negativa me pergunto: que país é esse que se permite o luxo de programas de turismo espacial privado financiado com dinheiro público, enquanto cem mil cidadãos morrem por uma “gripezinha” e a lei e a ordem treinam policiais brancos para assassinar homens pretos que se sublevam contra mais um dos tantos atos de racismo institucionalizado?
Esse país é o líder da civilização ocidental. Líder econômico, político, cultural e moral. Se assim é a liderança, o que não seria dos que por eles se deixam liderar? O neo-racismo brasileiro está passando da versão “democracia racial” para a simbólica supremacista da Ku Klux Klan com suas túnicas brancas em marchas noturnas à luz de tochas. E não é numa cidadezinha do Alabama. É em frente ao Supremo Tribunal Federal. E nada acontece… Assim como nada acontece com aqueles que, no mesmo colonialismo racista, vêm a público brindar com copos de leite….branco! Já as forças da lei e da ordem executam o lado prático: de cada cem pessoas assassinadas pela polícia, oitenta são negros. Proporcionalmente, superamos os Estados Unidos. Assim como, em breve, sempre proporcionalmente, também superaremos os Estados Unidos no número de mortos pela COVID19. E, coisa que nos Estados Unidos nunca aconteceu: temos, no Brasil, um astronauta como Ministro da Ciência e Tecnologia. Sua maior habilidade: vender travesseiros de uma marca fake que imita o nome da Agência Espacial Norte-americana.
O Ocidente está doente. O Brasil está febril. E não é apenas a COVID19 que nos enfraquece. É a nossa civilização que perece. Foi pro espaço.  Foi pro brejo. Precisamos urgente de uma vacina contra o coronavírus. E de anticorpos de sensibilidade, empatia e solidariedade para enfrentar a doença do racismo, do egoísmo e da desumanidade.
Que a Festa da Santíssima Trindade, o Deus-Amor que é comunidade, nos inspire e fortaleça na conversão da cultura e da sociedade.
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Falar é muito perigoso!

Guimarães Rosa, em seu clássico “Grande Sertão Veredas”, colocou na voz de Riobaldo uma frase que lembra o trágico da vida. Diz o cangaceiro: “Viver é muito perigoso: sempre acaba em morte”. Parece óbvio. Mas o óbvio, quando pensado, choca. Todos os que estamos vivos, um dia morreremos. Como? Não sabemos. Quando? Também não. Cada ano, cada mês, cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo, pode ser o instante de nossa morte. Por isso, segundo ele, a vida é uma “travessia perigosa, mas é a vida”.
Mas há algo mais que o simplesmente viver. Segundo o filósofo da caatinga, “o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”. Se bem entendi a frase, o desafio é estabelecer a relação entre o que somos, o que queremos ser e o sentido que damos àquilo que vivemos. O que estabelece a coerência entre os três elementos – ser, querer ser e dar sentido ao viver – é a palavra. Por isso, se “viver é muito perigoso”, falar também é algo que precisa ser feito com muito cuidado, pois também pode ser muito perigoso.
Martin Heidegger, com toda a seriedade da filosofia alemã, dizia o mesmo que Riobaldo: “A linguagem é a morada do ser”. É ela que nos permite sair da inércia das coisas e passar a sermos no mundo junto com os outros compreendendo o sentido da própria existência e da vida dos que conosco caminham perigosamente entre a vida e a morte.
Fernando Pessoa afirma que a nossa verdadeira pátria não é um território ou um Estado. Nossa Pátria é a Língua que falamos. Dizia ele não chorar por nada que a vida trouxesse ou levasse. Mas odiava a escrita mal feita, errada, criminosa, que deturpa “a palavra que também é gente”.
Atrevo-me a acrescentar à frase do poeta luso um artigo definido feminino singular: “a palavra que também é a gente”. Faço isso pensando numa altercação de Jesus com os fariseus onde ele, tomado de raiva, os desafia: “Raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração. Mas eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado. Pois por suas palavras você será absolvido, e por suas palavras será condenado”.
Para Jesus, são as palavras que pronunciamos as que revelam o espírito que habita em nosso interior. Se é o Espírito de Deus ou o espírito do diabo. Para saber quem é uma pessoa, basta estar atento às palavras que saem de sua boca e, como dizia Riobaldo, ir “até o rabo da palavra” para descobrir a casa e a pátria em que essa pessoa mora.
De fato, falar, assim como viver, é muito comprometedor. É uma travessia perigosa. Mas essa é a vida!
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