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Papa Bento XVI critica 'o escândalo da pobreza' na Argentina

BUENOS AIRES – O governo da Argentina fez duras críticas à imprensa nacional em resposta às declarações do Papa Bento XVI, que nesta quinta-feira, 6, convocou os católicos a realizarem um esforço para “reduzir o escândalo da pobreza e iniquidade social na Argentina”. Para o chefe de Gabinete da Presidência, Aníbal Fernández, “as palavras do Santo Padre são similares às que recebeu a Argentina em outros anos e é o que ele tem dito em outros lugares do mundo. Não tem nenhuma novidade. É uma característica habitual (…). É natural”.

Durante uma entrevista coletiva à imprensa, na Casa Rosada, no início da noite, Fernandez disse que a mensagem enviada pelo papa aos fiéis e à Igreja argentina, nesta quinta-feira, foi manipulada pela imprensa. “Manipular as palavras do Santo Padre é uma total falta de qualidade informativa e do ponto de vista humano é quase picaretagem”, acusou Fernández. “Não se pode trabalhar de uma maneira tão torpe e sem sensibilidade”, reclamou. “Quando nosso governo começou a trabalhar em 2003, a obsessão foi atacar a pobreza. Esta é a Argentina que dói e que é um escândalo. Um pobre é um escândalo”, destacou o ministro, afirmando que o governo concorda com as “expressões do papa, porque chegou à política para mudar isso”. O ministro pediu ainda aos meios de imprensa que “tenham qualidade informativa; não façam o papa dizer o que nunca disse”.

A mensagem do papa, que motivou a polêmica entre a Casa Rosada e a imprensa argentina, foi transmitida pelo monsenhor Adriano Bernardini. O papa usou as mesmas palavras do cardeal argentino Jorge Bergoglio durante visita ao Vaticano, em março último, e em entrevista à imprensa local para denunciar que a pobreza no país atinge 40% da população. A mensagem de Bento XVI foi enviada aos promotores e colaboradores da campanha tradicional de coleta que a Igreja Católica realiza todos os anos, denominada “Mais por menos”. A campanha terá início no próximo mês com o lema “Mais solidariedade por menos exclusão”.

Segundo a consultoria argentina Ecolatina, no primeiro semestre de 2009 a pobreza atingiu 31,8% da população (12,7 milhões de pessoas) e a indigência chegou a 11,7% (4,7 milhões de habitantes). O governo afirma que a pobreza atinge 15% (6,1 milhões de pessoas) e a indigência chega a 4,4% (1,6 milhão) da população.

MPF pede retirada de símbolos religiosos de repartições

SÃO PAULO – O Ministério Público Federal, em São Paulo, ajuizou, no último dia 31, uma ação para retirar símbolos religiosos de repartições públicas federais no Estado. O prazo para a retirada dos símbolos religiosos é de até 120 dias após a decisão.

No pedido feito à Justiça Federal, o MPF pede aplicação de multa diária simbólica no valor de R$ 1 para servir como um contador do desrespeito que poderá ser demonstrado pela União, caso não cumpra a determinação judicial.

A ação pública, com pedido de liminar, foi feita pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo, para obrigar a União a retirar todos os símbolos religiosos ostentados em locais de ampla visibilidade e de atendimento ao público em repartições públicas federais no Estado de São Paulo.

Segundo o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão e autor da ação, Jefferson Aparecido Dias, cabe ao Estado proteger todos as manifestações religiosas sem tomar partido de nenhuma delas. “Quando o Estado ostenta um símbolo religioso de uma determinada religião em uma repartição pública, está discriminado todas as demais, ou mesmo quem não tem religião afrontando o que diz a Constituição”, ressaltou.

Igreja mexicana condena operação que prendeu traficante em missa

Policial e Miguel Angel Beraza. Foto: AP

A Conferência do Episcopado Mexicano (CEM) condenou, na segunda-feira, a prisão de um dos mais procurados traficantes do país durante uma missa. A CEM criticou a “falta de respeito e a violência” dos policiais durante a cerimônia religiosa, celebrada por ocasião aniversário de 15 anos da filha do traficante, na localidade de Apatzingán, no Estado de Michohacán, no oeste do país.

“A Santa Missa é o ato sagrado mais importante para os fiéis católicos e, por isso, os fins não justificam os meios”, disse a entidade religiosa.

Mais de 200 homens participaram da operação, realizada junto com a Agência Antidrogas dos Estados Unidos.

Apreensão

Miguel Ángel Beraza, conhecido como “La Troca”, foi preso junto com outros 33 familiares e amigos. Ele é considerado “o maior exportador de drogas sintéticas para os Estados Unidos”.

Na operação também foram apreendidos 11 carros de luxo, duas armas de fogo, duas granadas de fragmentação, um computador, 30 telefones celulares, dinheiro no valor de US$ 13 mil e 4,5 mil comprimidos psicotrópicos usados na fabricação da droga sintética.

O traficante é suspeito de liderar o cartel “La Familia”, conhecido por exportar para os Estados Unidos metanfetamina, também chamada de “gelo”.

Segundo a polícia, o cartel é responsável pela produção e envio de pelo menos meia tonelada da droga para os Estados Unidos todos os meses.

Por essa razão, autoridades americanas e mexicanas classificaram a operação um passo significante nos esforços para interromper o transporte de metanfetamina para os Estados Unidos.

Beraza é acusado de ser responsável pela logística da operação de tráfico, que envolvia esconder a droga dentro de caminhões com frutas.

Casal da Renascer lota ginásio em SP

Após prisão nos EUA, Estevam e Sônia fazem primeira aparição pública no Brasil e pedem orações pelo filho, internado na UTI

São Paulo – Os líderes da Igreja Renascer, Estevam e Sônia Hernandes, que voltaram ao Brasil após cumprir prisão nos Estados Unidos, se emocionaram ao participar de culto no ginásio superlotado do Ibirapuera, sábado, em São Paulo. Em sua primeira aparição pública no Brasil, após a detenção nos EUA, o casal pediu uma corrente de orações pelo seu filho, Felippe Daniel Hernandes, o Bispo Tid, de 30 anos, internado na UTI do Hospital Oswaldo Cruz. Estevam e Sônia foram muito aplaudidos pelos fiéis que se emocionaram no ginásio.

Estevam e Sônia (atrás) fizeram culto sábado no ginásio do Ibirapuera. Foto reprodução

O retorno do casal, acusado de tentar entrar nos EUA com US$ 56,5 mil escondidos numa Bíblia, foi antecipado em duas semanas, após permissão da justiça americana para que eles pudessem acompanhar o filho, que sofre de problemas gastrointestinais.

A volta dos líderes da Renascer ao Brasil acontece pouco mais de seis meses depois que o teto da sede igreja, na Avenida Lins de Vasconcelos, na zona sul de São Paulo, desabou matando nove pessoas e deixando mais de 100 feridos. A mesma igreja onde o craque Kaká casou-se com a jovem Caroline em dezembro de 2005, e onde ele expôs troféu de melhor jogador do mundo dois anos depois.

Estevam chorou ao saber que iria para cadeia

Nos EUA, o casal foi condenado a 10 meses de detenção — cinco em regime fechado e cinco em prisão domiciliar por contrabando de dinheiro, após confessarem o crime. Para que um deles ficasse em casa cuidando dos filhos, a pena foi cumprida intercalada e por revezamento. Enquanto Estevam esteve na cadeia, Sônia ficou em casa. No período em que ficaram presos, os dois participaram de cultos por videoconferência. Estevam disse que chorou ao saber que iria para uma cadeia federal.

Banco católico pede desculpas por investir em armas, cigarros e pílulas

Pílula anticoncepcional

Um banco católico alemão pediu desculpas por comprar ações de indústrias de armamentos, cigarro e pílulas anticoncepcionais.

Uma reportagem da revista alemã Der Spiegel revelou que o Pax Bank havia investido 580 mil euros (cerca de 1,5 milhões) em ações da BAE Systems, empresa britânica de armamentos.

O banco também investiu 160 mil euros (cerca de R$ 425 mil) na fabricante americana de anticoncepcionais Wyeth e 870 mil euros (R$ 2,3 milhões) em empresas de cigarro.

Em nota, o Pax Bank pediu desculpas por “não manter seus padrões éticos”. O banco fazia propagandas nas quais defendia fundos de investimentos “éticos”, que evitavam comprar ações de empresas de armas e tabaco e outras companhias que não seguem princípios e crenças católicas.

“Nós vamos corrigir os erros imediatamente, sem consequências negativas para os nossos clientes”, disse um porta-voz do banco.

“Infelizmente em algumas revisões internas estes investimentos críticos foram ignorados – nós nos arrependemos profundamente.”

O porta-voz agradeceu aos jornalistas alemães por apontar os polêmicos investimentos do banco.

Espanholas oferecem serviço doméstico sexual

Foto em anúncio do serviço

Trabalho mistura serviços como lavar e cozinhar com atividades eróticas

A crise econômica global pode estar ajudando a impulsionar uma nova modalidade de trabalho na Espanha, os serviços domésticos eróticos, que no país ganharam o nome de porno-chachas.

O trabalho é uma mistura de serviços de limpeza, cozinha, lavar e passar com atividades eróticas. No último mês foram oferecidos nos jornais e na internet mais de 750 mil anúncios de empregadas que oferecem o serviço.

Apenas na última sexta-feira, 3.360 anúncios ofereciam propostas como “gostaria de conhecer moça que goste de se exibir enquanto realiza tarefas domésticas. Pago por hora.”

Ofertas como esta chamaram a atenção de especialistas em atividades relacionadas com a prostituição, como a ONG Amunod, que trabalha com projetos de reintegração social de prostitutas.

“Nunca vimos uma coisa assim. Estão inserindo ofertas de trabalho encobertas como serviço doméstico que incitam à prostituição. Há gente se aproveitando das pessoas necessitadas por causa da crise”, disse à BBC Brasil a presidente da ONG, Teresa López.

A Espanha é um dos países mais afetados pela crise econômica mundial, e a taxa de desemprego no país chega perto de 20%.

Queixa

A Amunod foi a primeira a prestar queixa policial contra anunciantes dos serviços domésticos eróticos. A denúncia já provocou a retirada de vários anúncios em páginas de classificados e foi feita para demonstrar que os empregadores tentam explorar mulheres desempregadas com ofertas de prostituição.

Alguns anunciantes, inclusive, avisam que não pagam ou pagam pouco. Eles propõem casa e comida em troca de sexo ou que as empregadas façam os serviços domésticos com pouca ou nenhuma roupa, pagando 20 ou 30 euros (cerca de R$ 53 a R$ 80) por hora.

Segundo estimativas da Associação Espanhola de Prostíbulos, o novo serviço tem atraído principalmente mulheres espanholas que jamais haviam exercido a prostituição.

“Isso para nós é um fenômeno surgido da crise. Nos últimos 15 anos não tínhamos nem 5% de espanholas neste mercado e agora elas já representam 30%”, disse à BBC Brasil o diretor da associação, Roberto Doval.

Ele afirma que a possibilidade de exercer a prostituição de forma livre e escondidas da sociedade faz com que muitas mulheres espanholas estejam aceitando mais a atividade de serviço doméstico erótico.

“Se você soubesse da quantidade de casadas e com filhos que atendem a estes anúncios se surpreenderia. Tem gente que não consegue pagar as contas no fim do mês e se vê aflita. Em 30 anos neste negócio nunca tinha visto algo assim”, afirmou Doval.

A prostituição movimenta cerca de 20 bilhões de euros (aproximadamente R$ 53 bilhões) por ano na Espanha, 2% do PIB nacional, segundo estatísticas do Ministério da Igualdade.

Desde o fim do ano passado, o número de anúncios de prostitutas na imprensa e internet cresceu 50% mas, apesar do aumento na oferta, empresários da prostituição esperam queda de 40% nos lucros em

Frade francês tem proteção policial 24 horas por dia no Pará

O frade dominicano francês Henri de Roziers tem três policiais militares destacados para protegê-lo 24 horas por dia no município de Xinguara, no sudeste do Pará, o município do Estado onde mais mortes ocorrem por conflitos de terra.

O religioso, que é coordenador da Pastoral da Terra de Xinguara, diz que está tranquilo porque é “estrangeiro, advogado, sacerdote e idoso (tem 75 anos)” e não recebe “ameaças diretas” desde 2007.

Mas desde o assassinato, em fevereiro de 2005, da freira americana Dorothy Stang – um episódio de violência fundiária que ganhou manchetes em todo mundo – o Estado fez questão de fornecer uma escolta permanente de policiais ao frade francês.

Nas investigações do assassinato da irmã Dorothy, a Policia Federal encontrou indícios de que o francês seria o próximo na lista dos acusados de cometer o crime.

“Eu me incomodo muito por ter uma escolta policial cuidando de mim enquanto líderes populares brasileiros, que correm dez vezes, cem vezes mais riscos do que eu, estão por aí desprotegidos”, diz o religioso.

Frei Henri cita o caso de dois ativistas da região de Santarém – o líder indigenista Dado Borari e o militante sem-terra Valdecir dos Santos – que foram ameaçados de morte, mas tiveram proteção recusada pelo governo do Estado.

“Se o problema é de falta de recursos, prefiro que tirem os três policiais que me escoltam e forneçam proteção a estas duas pessoas, que correm sério risco de assassinato”, afirma o frade.

Conflitos

Frei Henri diz acreditar que a tentativa de regularizar a posse de terras na Amazônia por meio da nova lei criada a partir da MP 458 só vai agravar os conflitos que existem na região.

“Infelizmente, o governo brasileiro não tem infraestrutura para cuidar dessa situação tão complexa”, critica o religioso. “A máfia dos madeireiros e fazendeiros no Pará é muito, muito perigosa.”

O frade francês afirma temer que o modelo de regularização de terras adotado pelo governo só sirva para agravar ainda mais a concentração fundiária que existe no Brasil.

“É verdade que os lotes máximos que o governo vai regularizar (de 1,5 mil hectares) não são muito grandes para os padrões de Amazônia, mas os fazendeiros vão ter recursos de fraudes, de laranjas e de usar membros da família pra conseguir registrar fazendas enormes”, diz.

“Os agricultores mais fracos que vivem na região vão acabar forçados a vender suas terras para que esses grandes fazendeiros façam estes registros fajutos.”

O Pará é o Estado brasileiro onde a violência fundiária faz mais vítimas. Segundo um levantamento da Pastoral da Terra, foram mais de 800 assassinatos desde 1975.

“Dessas 800 mortes, apenas 250 resultaram em alguma ação da Justiça. E nos 250 julgamentos, tivemos somente 22 condenações de mandantes”, diz frei Henri. “E o pior é que nenhum deles está na cadeia. Assim fica muito fácil matar e muito difícil confiar na Justiça.”

Mulher de Kaká vai abrir igreja evangélica em Madri

Caroline Celico, mulher de Kaká, vai abrir igreja em Madrid Foto: AgNews

Caroline Celico, mulher do jogador de futebol Kaká, vai abrir uma igreja evangélica em Madri, na Espanha. Ela anunciou as pretensões em um culto na Flórida, nos Estados Unidos. Caroline foi apresentada aos fiéis pela Bispa Sônia.

“Como pode alguém no meio da crise ter dinheiro? Deus colocou esse dinheiro na mão do Real Madrid para contratar o Kaká. Nós vamos poder abrir uma igreja lá. Existem vidas que têm que ouvir essa palavra”, disse.

Em seu testemunho, ela ainda falou sobre o fato de perder a virgindade só após o casamento. “Eu fiz uma aliança com o Senhor: quem ama espera. Quando eu conheci o Kaká eu não era convertida e acabei me apaixonando pela Renascer. Ele tinha colocado no meu espírito casar virgem. Eu não tinha dividido com o Kaká e pensei que quando eu falasse, ele iria me largar. Quando eu contei, teve aquele silêncio. Eu pensei que iria acabar. Mas ele disse: ‘Esse foi o sinal que eu tinha pedido para o Senhor'”, contou, antes de falar do “lado ruim” do sexo, das drogas e da prostituição. “Eu não me arrependo de nada”, completou.

Caroline ainda ressaltou o fato de o marido ter resistido às ofertas de outras mulheres. “É muito assédio no mundo do futebol. Vocês devem ver notícias de outras pessoas por aí”, disse.

Modelo psicológico e formativo dos Legionários de Cristo será revisto

Os inspetores nomeados pelo Vaticano irão revisar o modelo psicológico e formativo dos Legionários de Cristo durante a visita apostólica a todas as obras dessa congregação que iniciou nesta quarta-feira, 15. Segundo revelaram juízes da Apostólica, os auditores colocarão sob a lupa as normas vigentes há anos na Legião, estabelecidas pelo seu iniciador Marcial Maciel Degollado. Sobretudo, deverão analisar o “modelo do fundador” nos âmbitos afetivo e psicológico, assim como a estrutura e a forma de governo dessa congregação religiosa.

A reportagem é do sítio Religión Digital, 15-07-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Bento XVI ordenou a visita depois da aceitação pública, por parte da cúpula legionária em fevereiro passada, da “vida dupla” de Maciel, que incluiu a procriação de uma filha com a sua amante. Após vários meses de espera e de uma reunião privada em Roma, decidiu-se que a inspeção começaria fisicamente nesta quarta-feira, 15, e seria executada por cinco bispos que cobrirão as diversas zonas do mundo onde a Legião se encontra.

Segundo as fontes consultadas, os auditores deverão se assegurar de que os Legionários cumpram, na prática, a diretiva de cancelar os “votos secretos” professados por seus membros. Essas promessas, também conhecidas como “reservadas”, exigiam não criticar os superiores da ordem, além de não conspirar ou desejar cargos de poder em seu interior.

Tais promessas foram suspensas pelo Papa em 2008 por considerá-las “nocivas”. No Vaticano, suspeita-se que, apesar da instrução oficial de já não cumprir esse requisito, os seminaristas e consagrados ainda seriam “condicionados” por essa prática.

Além disso, acrescentaram que os visitadores serão os responsáveis por se certificar de que não exista o “culto à personalidade” propiciado em torno à figura de Marcial Maciel, que recebeu acusações de abuso sexual por um grupo de ex-seminaristas.

Os funcionários do governo central da Igreja católica esclareceram que as visitas apostólicas costumam ser processos reservados durante os quais dificilmente é possível conhecer detalhes de seu desenvolvimento e conclusão. Mas acrescentaram que, para isso, é previsível esperar também uma revisão do sistema financeiro que suporta os legionários, assim como do estado de sua relação institucional com os bispos e as dioceses onde trabalham.

Sobre o resultado da auditoria, as fontes mostraram prudência, assegurando que essa decisão se encontra nas mãos dos inspetores e, em última instância, do Papa Bento XVI. Mesmo assim, não descartaram nem a alternativa da convocatória a um Capítulo Geral que produza mudanças radicais ou, em um caso extremo, uma reforma da congregação que inclua novas constituições e outro nome.

Fonte: IHU/UNISINOS, 16/7/2009

O papa não confia no homem

por Gianni Carta

Intitulada Caritas in veritate, a terceira encíclica do papa Bento XVI foca nos grandes problemas provocados pela globalização na vida do homem, “o primeiro capital a salvar e a valorizar”. Oportunamente divulgada na terça-feira 7, às vésperas da cúpula do G-8 em L’Aquila, na Itália, Caridade na Verdade é uma encíclica social – mas está longe de ser revolucionária.

Há mais de um século a Igreja Católica busca a justiça social em prol do “bem comum”. Em 1891, Leão XXIII publicava Rerum novarum, texto, este sim então revolucionário, o qual, na alvorada do capitalismo industrial, estimulava o desenvolvimento de um sindicalismo cristão. Mais recentemente, em 1991, o conservador João Paulo II divulgou Centesimus annus, encíclica nada revolucionária na qual o papa reconheceu aspectos positivos na economia de mercado – que visaria ao bem comum. A encíclica Cem Anos foi publicada logo após o colapso da União Soviética.

Caritas in veritate surpreende porque revela um Joseph Ratzinger mais complexo do que se supunha: arguto, compreensivelmente tendencioso (a favor de ideias da Igreja Católica), e ideologicamente confuso. Arguto porque reconhece que os percalços da globalização não são inerentes ao mercado globalizado em si. Os percalços nascem da natureza do homem, este marcado pelo “pecado das origens”. E este é um ponto fundamental na terceira encíclica do alemão Ratzinger: o homem, de forma geral, é inconfiável. Tal percepção é válida do ponto de vista do crente (que acredita no “pecado das origens”), do político conservador ou liberal.

Na verdade, essa capacidade de compreender a essência do homem por parte do papa não surpreende. Ratzinger, de 82 anos, é catedrático de alto calibre. Embora não tenha o carisma de seu antecessor, e tenha expressões faciais um tanto sinistras, ao longo dos anos produziu dezenas de livros e fez inúmeras eloquentes conferências.

Bento XVI fornece, para ilustrar os limites do homem, exemplos para detalhar algumas lacunas do ser humano. Por exemplo, o empresário para o qual “o lucro torna-se seu objetivo exclusivo, e se (o lucro) for produzido por meios impróprios e sem o bem comum como fim principal, arrisca destruir a riqueza e criar pobreza”. A pobreza, por sua vez, afeta as democracias. Os poderosos das finanças, acrescenta Ratzinger, precisam “redescobrir o genuíno fundamento ético de suas atividades”.

A questão parece simples. Mas está longe de sê-lo. A pessoa ligada às finanças visa, óbvio, o lucro. Ela pode ou não ser ética em suas operações. O mesmo se aplica ao político conservador, de centro ou de esquerda. Mas o homem, com as claras exceções, falhou no capitalismo, no comunismo e na religião. Basta ver o atual estado do capitalismo mundial, o colapso do comunismo e o decrescente nível de religiosos praticantes.

E aqui chegamos ao segundo ponto acima mencionado: o papa é tendencioso. Ele precisa, claro, defender as doutrinas do Pontificado e seus 2 mil anos de existência. Um ser avaro pode corrigir suas fraquezas, ou improbidades, buscando valores espirituais, e principalmente aqueles cristãos, nos diz Ratzinger. O papa acrescenta: “O ateísmo subtrai dos cidadãos a força moral ou espiritual para se engajar a favor do desenvolvimento humano”. O papa indaga, já implicitamente dando sua resposta: “Um humanismo sem Deus é possível?” Isso significa que um homem ateu ou agnóstico, ou simplesmente não praticante, não pode ter força moral ou espiritual?

O terceiro ponto de Caritas in veritate, já citado acima, chama atenção: a confusão ideológica do papa. Antes de adentrar o campo social de reformas pedidas por Bento XVI, vale colocá-lo no seu contexto histórico. Já no número especial de quinze anos de CartaCapital, publicado em 27 de maio, recordamos quem é Ratzinger. Ex-líder da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Inquisição) a partir de 1981 sob João Paulo II, o alemão praticamente varreu do mapa católico a Teologia da Libertação, que pregava na América Latina uma Igreja voltada aos humildes e explorados.

O movimento ganhou espaço por duas- razões: a região concentra mais de 500 milhões de católicos. Nos anos 60, quando os teólogos da libertação se disseminaram, vários países eram controlados por ditaduras sangrentas. O objetivo da Teologia da Libertação era trazer mais solidariedade e humanidade para os pobres oprimidos por regimes totalitários. Nos anos 80, Ratzinger se opôs ao movimento latino-americano. Convenceu João Paulo II, sem grandes dificuldades, de que o movimento era perigoso à própria sobrevivência da religião porque tinha um viés marxista, de libertação nacional. Habilmente, Ratzinger lembrou ao polonês João Paulo II que regimes ateus e totalitários, como o soviético que dominou sua Polônia natal, chegaram ao poder por meio de revoltas populares.

Agora, com o naufrágio do comunismo e do capitalismo selvagem, Ratzinger adotou um discurso mais humanista e parecido com o dos teólogos da Libertação – e longe daquele propício ao líder da Congregação para a Doutrina da Fé. A economia global precisa ser regulamentada, prega Ratzinger. Motivo: a globalização não se revelou funcional. O nível de desemprego cresce em todo o mundo e Ratzinger lamenta o declínio da Previdência Social, e escreve sobre a importância de sindicatos para proteger os trabalhadores. “Trabalho para todos”, acentua. É preciso lutar contra a precariedade.

A pobreza, continua o pontífice, cria disparidades entre ricos e pobres e coloca a democracia em risco. Quanto à economia, precisa de ética. Para concluir sem originalidade, que a falta de ética no sistema financeiro provocou a atual crise econômica mundial.

Para regulamentar a economia mundial, Bento XVI crê que o papel do Estado precisa ser “repensado”. Estados têm de agir em sintonia com os organismos financeiros como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. De fato, Ratzinger crê que a ONU pede por uma reforma para se tornar uma verdadeira autoridade política mundial. A instituições como o FMI, ele também não poupa críticas: “(Elas) requisitaram cortes no orçamento social no Terceiro Mundo”.
Um flechada de Ratzinger nas organizações não-governamentais (ONGs) é merecida: “Acontece, por vezes, que os destinatários das ajudas se tornem funcionais a quem os ajuda, e os pobres servem para manter em vida ricas organizações burocráticas”. Bento XVI pede maior transparência por parte da ONU e das ONGs. De fato, é hora.

A encíclica ganhou elogios por seu corte social e pode nos ajudar a refletir sobre o futuro. Mas não oferece respostas concludentes.