VOCÊ SABE QUEM É BERRY BENNELL?

A maioria de meus parcos leitores, com certeza, nunca ouviu falar de Berry Bennel. Tranquilos! Não há nenhum culpa nisso… Afinal, só mesmo um brasileiro maluco por futebol poderia saber quem é esse misterioso personagem. Eu não sou maluco por futebol. Falo dele por outro motivo que logo vocês verão, interessa a mim e a todos.

Mas qualquer inglês que tenha mínimas noções do esporte bretão que se joga com os pés, sabe quem é ele. De 1982 a 1994, Berry Bennel foi coordenador e treinador do Crewe Alexandra, clube da Quarta Divisão do Futebol Inglês. Não seria grande coisa, mas, além disso – e o que o tornou famoso – ele também era “olheiro” do Manchester City, do Chelsea e do Stoke City, clubes de primeira grandeza e “sonho de consumo” de qualquer iniciante no futebol. O faro futebolístico de Bennel em descobrir novos talentos fez com que fosse considerado o melhor olheiro das categorias de base de toda a Grã-Bretanha. E, nessa função e com tal fama, ele tinha acesso irrestrito a todos os garotos – a maioria de origem pobre – que sonhavam com um futuro melhor para eles e suas famílias graças ao talento futebolístico.

E aí se revelou o “lado monstro” de Bennel. Aproveitando-se do acesso aos garotos e a seus alojamentos, o treinador e olheiro construiu uma sórdida carreira de predador sexual que tem no currículo o registro de mais de cem meninos, entre 8 e 15 anos, abusados por ele. Sua carreira de pedófilo só foi interrompida por ocasião de uma excursão de seu time de crianças aos Estados Unidos. Longe da proteção que os grandes times poderiam lhe dar, foi preso pela justiça americana e condenado. Com a publicitação do fato, outras denúncias surgiram e ele foi deportado para a Inglaterra onde foi condenado a 30 anos de prisão.

Uma de suas vítimas, o ex-zagueiro Andy Woodward, esteve no Brasil no início de 2018 e, em várias cidades, proferiu uma séria de palestras sobre sua experiência e a necessidade de livrar o futebol deste tipo de predador. Sua visita estava relacionada ao escândalo que veio à tona nas categorias de base do Santos Futebol Clube onde o também “olheiro” Ricardo Marco Crivelli, conhecido como “Lica”, foi denunciado pelo jogador Ruan Pétrick Aguiar de ter abusado dele e de outros dos meninos da Vila Belmiro.

Na mesma época, na Argentina, o Independiente foi palco de outro escândalo que envolvia não apenas pedofilia, mas também prostituição de menores. Um jogador maior de idade e um árbitro de futebol agenciavam os atletas de base da equipe como “garotos de programa”.

Uma rápida busca na internet mostra inúmeros outros casos, tantos nos grandes clubes como nos pequenos clubes e escolinhas de futebol do interior onde o abuso sexual é moeda de troca para a possibilidade de inserção e ascensão no mundo da bola.

Apesar disso tudo, não tenho notícia, até hoje, de que a todo poderosa Sra. FIFA tenha convocado uma Assembleia Geral com os Presidentes de todas as Confederações Nacionais de Futebol para discutir um modo de punir os “olheiros”, treinadores, pessoal técnico e dirigentes que abusam – ou são coniventes – dos meninos que, supostamente, estariam sob sua guarda e proteção. E assim, pelo que parece, tais episódios continuarão a se reproduzir para a triste sorte de nossos meninos…

O SÍNODO PARA A AMAZÔNIA E O ESTADO LAICO

Causou espécie nas últimas semanas a informação divulgada por membros do alto escalão das Forças Armadas de que o Governo brasileiro estaria preocupado com o Sínodo sobre a Amazônia a ser realizado pela Igreja Católica mês de outubro de 2019. Mais espantosa foi a afirmação – primeiro confirmada e depois desmentida – de que bispos estariam sendo espionados e que haveria a intenção de setores do governo em interferir no Sínodo para que este não abordasse temáticas tidas como sensíveis tanto do ponto de vista econômico, político, ecológico e de segurança nacional.
Tal atitude por parte do Governo não era vista desde a redemocratização e fazia lembrar os tempos da recente ditadura militar em que, não só a Igreja, mas toda a sociedade, era mantida sob a vigilância e, se necessário, controle, pela persuasão ou pela força. Se há a vontade de controlar a Igreja Católica, quem poderá sentir-se livre? Imediatamente levantaram-se vozes, tanto na Igreja como na sociedade, contra esta suposta pretensão. Houve, como dissemos, também os desmentidos. Mas, como diz o ditado, “onde há fumaça, há fogo”.
Olhada no curto prazo, este episódio é, pela maioria dos analistas, situado dentro do quadro político resultante das eleições de 2018 onde venceu, em nível federal e na maioria dos Estados, um aglomerado de forças de corte neo-liberal no que tange ao econômico e marcadamente neo-fascista na sua proposta política e social. O Sínodo, por abordar temáticas sociais, culturais e ambientais, se coloca nos antípodas dessa corrente hoje hegemônica no Brasil e poderia soar como uma nota fora do tom no discurso monocórdico da propaganda governista e de sua mídia oficialista. E, como soe acontecer em governos de caráter fascista, toda voz discordante tem que ser calada e, se for o caso, eliminada.
Sem desmerecer este contexto próximo, a polêmica necessita ser situada no longo prazo e na tradição que remonta ao Brasil Colonial e ainda está muito presente na cabeça e nos corações de muitos brasileiros de que o Estado e a Igreja devem estar unidos para a manutenção da ordem social. Este modo de pensar, nascido com
Constantino e consolidado na Cristandade Medieval, foi institucionalizado no Padroado Colonial Português e em seu sucedâneo, o Padroado Imperial através do qual Dom Pedro I e Dom Pedro II outorgavam-se o direito de governar a Igreja Católica através do Ministério da Justiça. Até mesmo os revoltosos farrapos, aqui no Rio Grande do Sul, ao criar a fantasmagórica República de Piratini, nomearam ao Padre Chagas como Vigário Apostólico e chefe da Igreja Católica no Rio Grande do Sul. Em outras palavras, um “Papa” farroupilha para o Estado Farroupilha.
Verdade que a primeira Constituição Republicana de 1891 estabeleceu a liberdade religiosa e a separação entre Igreja e Estado. Mas uma união tão longa deixa marcas profundas nas duas partes que a compõem. E, depois de três curtas décadas de separação litigiosa, Igreja e Estado, através do Cardeal Leme e de Getúlio Vargas respectivamente, reataram, não legal, mas factualmente, a união entre os dois poderes naquilo que é conhecido como “neo-cristandade”.
Esse arranjo só foi colocado em crise pelo Golpe Civil-Militar de 1964 e a cruenta ditadura que se seguiu e que, em sua sanha persecutória a toda e qualquer fora de resistência, não titubeou em prender, torturar e matar a dezenas e dezenas de leigos, leigas, religiosos, religiosas e sacerdotes católicos. Contra estas ações, bispos formados dentro do espírito do Vaticano II, com coragem e valentia, se opuseram e constituíram um dos focos de denúncia contra o que vinha acontecendo no Brasil.
Se, nestes episódios das décadas de 1970/80, parte da Igreja Católica aprendeu que Igreja e Estado devem manter-se cada qual com sua identidade e missão própria e que, se em algumas circunstâncias podem operar cooperativamente, nenhuma das duas instituições pode querer utilizar a outra como instrumento para seus fins próprios. É, em outras palavras, o princípio do Estado Laico que faz bem tanto para o Estado como para a Igreja.
Mas, infelizmente, nem todos aprenderam com as lições da história e hoje vemos, no Brasil, renascer o desejo de um Estado teocrático ou de uma Igreja Imperial. E isso não só no mundo católico, mas com mais força e ressonância no campo das Igrejas pentecostais.
Isto posto, voltamos a afirmar que é importante, sim, denunciar a pretensa intenção do governo de imiscuir-se nos assuntos eclesiais. Mas é importante também, no quotidiano do agir eclesial e político, vencer a tentação da neo-cristandade e trabalhar para que o caráter laico do Estado – tanto no âmbito federal, como no estadual e municipal – seja respeitado e que as Igrejas tenham a liberdade para cumprir sua missão evangelizadora.

Sobre suicídios e suicidas: uma velha história sempre atual

Meu pai era um ótimo contador de histórias. Sabia por onde começar, dar os volteios, fazer o suspense, apresentar as diversas alternativas de sequência e aí arrematar com um bom final. E, mesmo tendo por língua materna e habitual o vêneto, as histórias eram sempre contadas em bom português. Até hoje eu me pergunto o por quê de seu Avelino escolher a segunda língua para contar as  melhores histórias. Claro que, no meio de cada conto, sempre deslizava sorrateiramente palavras e expressões em vêneto que davam à história um colorido todo especial. 
Algumas destas histórias as tenho até hoje na memória. Uma das mais interessantes era a do rapaz que queria se suicidar. O tema era difícil, pois o suicídio, no meio dos descendentes de italianos, tinha muito de tabu. Quem se suicidava, entre outras coisas, além de não ter velório público, era enterrado fora do cemitério. Na Linha Aimoré, lá onde eu me criei, no interior de Vila Flores, antes que se fizesse a atual ampliação do cemitério, havia um “anexo” em que eram sepultadas as crianças que morriam antes de serem batizadas, os que não eram católicos e os que se suicidavam. Ainda hoje lembro das três cruzes que havia naquele cercadinho ao lado do Campo Santo e da certeza que todos tinham de que as almas daquelas três pessoas estavam condenadas eternamente ao fogo do inferno. Era assim que se pensava… por isso, fazer piada de suicida, exigia uma boa dose de arte.
Sem a arte de meu pai e por ter que fazê-lo por escrito, reproduzo apenas o script da história do rapaz que, por razões que seu Avelino sempre deixava no entredito, queria se suicidar. A decisão dele era definitiva: não queria mais morrer e, sabendo de outros que haviam intentado tal desdita e haviam fracassado e se amostravam como mais confiáveis: um tiro na cabeça, o enforcamento em uma alta árvore e uma boa dose de veneno. Para não fracassar, o rapaz resolveu combinar as três possibilidades: corrependido de não terem morrido, buscava um meio seguro de alcançar seu objetivo. Depois de muito pesquisar e eliminar métodos de suicídio que não lhe pareciam seguros, chegou a três que se lhe nseguiu clandestinamente uma boa dose de estricnina, comprou um revólver novo carregadinho com sete balas para que não pudesse haver erro e uma corda soga novinha.
Tudo meticulosamente planejado, colocou a estricnina numa garrafa de água meticulosamente armazenada no bolso, fez a forca com a corda e molhou-a para dar-lhe mais resistência. Com a ajuda de uma escada, subiu em uma árvore, sentou-se no galho, empurrou a escada para o chão para não haver nenhuma tentação de retorno. Com todo cuidado, prendeu a corda firmemente ao galho e passou a forca no pescoço. Tudo pronto como no

passo-a-passo planejado. Agora, só faltava o ato final que envolvia os três componentes: a estricnina, a forca e revólver. Sorveu a garrafa de água envenenada em rápidos goles, deslizou do galho até a corda esticar e começar a apertar violentamente o pescoço e, antes que a falta de ar o impedisse de movimentos, sacou o revólver e desferiu um tiro contra a cabeça. E aí entrou em cena a fatalidade: A mão trêmula pelo sufocamento fez com que o tiro, ao invés de atingir a cabeça como o planejado, desviou para cima e acertou a corda soga que, esticada pelo peso do corpo, se rompesse fazendo com que o pobre infeliz tombasse rotundamente no chão e, com o golpe, vomitasse o veneno que ainda estava se acomodando no estômago. Resultado: o rapaz fracassou em seu intento de deixar esta vida de forma voluntária e, como a grande maioria dos suicidas, arrependeu-se e nunca mais tentou se matar.

Lembro desta história neste final de ano em que começamos a olhar para trás e tentar compreender a tentativa de suicídio que, como nação brasileira ensaiamos neste último ano utilizando os três métodos mais confiáveis para se acabar com uma democracia: a deslegitimação da representatividade política, a eleição de pessoas assumidamente autoritárias e a reabilitação dos militares como condutores da vida pública. Oxalá tenhamos a mesma sorte que o rapaz e a combinação dos três fatores leva a que um anule o outro.
Ah! A árvore da história que meu pai contava não era uma goiabeira. Lá na serra não havia goiabeiras. A árvores da história era uma araucária. E Jesus não subia nela…

Os Budas de Bamiyan e o Cristo Redentor

Bamiyan é um vale como outros tantos vales no centro do distante Afganistão. No ceu centro, uma pequena vilazinha à beira da estrada que liga Herat, na fronteira com Iraque, à capital Kabul. Seguindo em direção ao Oriente, depois de Kabul, a rota segue, para o sul, em direção a Islamabad, já no Paquistão e mais adiante, para a Índia. Ou então, de Kabul, outra alternativa é pender para o Norte e,  transitando entre os vales que separam o Tibet de Xingiang, chegar até a China, o Império do Centro. É a Rota da Seda que, durante milênios, fez a conexão entre o Oriente e o Ocidente. Marco Polo, no final do séc. XIII e início do séc. XIV, fez o percurso e tornou-o conhecido no mundo mediterrâneo. Hoje, a China, em seu anseio de firmar-se como liderança econômica mundial, está reconstruindo a Rota da Sede não mais com camelas, mulas e cavalos mas com modernos sistemas de transporte ferroviário, rodoviário e naval.

Voltando a Bamiyan… O que torna este vilarejo tão importante e tema deste nosso texto é que, nas encostas dos vales que a circundam, estavam as famosas estátuas dos Budas gigantes de Bamiyan. A maior das duas tinha 54 metros de altura. A outra, 36 metros. Escavadas dentro das cavernas, sua construção teve início no séc. VI quando a região era ocupada por dezenas de mosteiros budistas. No ano de 630, um chinês budista que passou pelo local descreveu-as como “decoradas com ouro e pedras preciosas”. Com o passar do tempo e a destruição dos mosteiros pela invasão árabe do séc. VIII, o ouro e as pedras preciosas foram levadas para o tesouro de alguma corte da região e só resistiram os Budas de pedra impávidos em suas cavernas dominando a região habitada pelos pashtuns e alternadamente dominada pelos impérios persa, árabe, turco e, finalmente, de 1830 a 1919, pelo Império Britânico. Com a saída dos britânicos, a região viveu décadas de instabilidade até que, em 1978, um golpe militar, apoiado pela então União Soviética, instalou uma república socialista no Afganistão.
Em plena Guerra Fria, o novo governo foi visto pelos Estados Unidos como uma ameaça para seus interesses na região. Com o apoio do Paquistão e da Arábia Saudita, o serviço secreto norte-americano começou a arregimentar, treinar e municiar grupos de opositores ao novo governo pró-soviético. Para dar-lhe coesão ideológica, fez recurso ao fundamentalista islâmico sunita. Nasceram assim os talibãs ou mujahidin. Traduzidas, estas duas palavras significam estudanteou guerreiro santo. Professando uma interpretação literal do Al Corão, financiados, armados e assessorados pelos Estados Unidos, lançaram-se à luta para expulsar os invasores soviéticos e seu regime ateu e construir um Emirato Islâmico na região. A operação foi a mais cara da Guerra Fria norte-americana e concluiu com a derrocada, em 1997, do governo pró-soviético e a instauração do Emirado Islâmico do Afeganistão. Nele, os estudantes do livro impuseram a sharia como legislação reguladora de todas as instâncias da vida do país. E, como manda a sharia, toda representação humana ou divina, deveria ser destruída. Entre estas representações, a mais simbólica, os Budas gigantes de Bamyian, tornaram-se alvo dos talibãs.
Os apelos da UNESCO e a pressão diplomática dos países ocidentais não foram suficientes para demover os guerreiros. Pelo contrário, tal ato tornou-se, para eles, simbólico do seu poder e de sua autonomia ante os antigos mestres. Para financiar a compra de armas não mais necessitavam de ajuda americana. O comércio do ópio lhes fornece os recursos de que precisam. Em março de 2001 as duas gigantescas estátuas foram transformadas em disformes blocos de pedra pela explosão de centenas de quilos de dinamite. Tudo filmado e disponibilizado na internet. Era o fim das estátuas dos Budas gigantes de Bamyian. O governo norte-americano lamentou o episódio mas foi incapaz de reconhecer que aquela barbárie só se tornou realidade porque, na década anterior, havia colocado armas na mão de fundamentalistas religiosos que, ao darem-se conta de seu poder, não mais obedeciam às ordens de seus antigos patrões e resolveram continuar o seu percurso fundamentalista independentes de seus antigos tutores.

O governo japonês se dispôs a reconstruir as estátuas assim que a guerra na região terminar. Talvez demore… mas será uma reconstrução importante. Afinal, aquelas duas estátuas talvez só sejam comparáveis, em seu poder simbólico, á estátua da Liberdade na entrada do porto de Nova Iorque e à do Cristo Redentor do alto do Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro. A estátua da Liberdade está bem protegida pelos serviços de segurança norte-americanos. Já a do Cristo Redentor, talvez tenha que ser protegida antes que seja dinamitada pelas milícias fundamentalistas que começam a ser formadas no Brasil. Oxalá que não…, mas é bom precaver-se!

O Evangelho de Satanás

A cada ano, geralmente no tempo da Quaresma ou do Natal, quando os sentimentos religiosos estão mais à flor da pele, a mídia sensacionalista mancheteia a descoberta de um novo Evangelho que durante milênios teria sido ocultado pela Igreja. Com o aval de um “cientista” de um instituto de pesquisa que ninguém sabe onde se localiza, sites sensacionalistas, jornais precisando chamar a atenção de leitores, emissoras de televisão em crise de audiência e rádios de duvidável credibilidade vão passando a informação adiante sem se perguntar da confiabilidade das fontes e da fiabilidade da informação. As redes sociais se encarregam de fazer o resto e logo uma multidão de pessoas está convicta de que descobriram uma namorada, a esposa ou um filho de Jesus.

Uma pesquisa mais atenta sobre o tema leva à conclusão de que se trata, na maioria dos casos, senão todos, da exploração requentada de uma cópia falsificada de um suposto fragmento de um texto apócrifo do séc. V que foi descoberto numa biblioteca do séc. XII!… Mas muita gente acredita e passa a escrever textos e textos sobre a hipocrisia da Igreja que tenta ocultar a verdade sobre Jesus e os youtubers do sensacionalismo produzem vídeos e mais vídeos que incautos assistem e compartilham em suas redes sociais na ânsia de convencer a mais e mais pessoas de que aquilo é verdade.

Por que tudo isso acontece? Por um lado, como já dissemos, pela necessidade da mídia em produzir conteúdos que chamem a atenção do público. E, conteúdos religiosos, principalmente quando tem um viés sensacionalista e mexem com a imaginação, sempre vendem bem. Por outro lado, o dos consumidores deste tipo de informação, está o desejo do novo, do extraordinário, do inaudito, do nunca visto que possa talvez preencher de uma vez por todas o vazio das pessoas carentes de sentido em meio a um mundo individualista e sensacionalista. Na verdade, este tipo de informação, nada diz a respeito de Jesus. Mas diz muito a respeito das pessoas que as buscam e nelas projetam seu eu e suas próprias necessidades, reais ou imaginárias.

Lembrei destes fatos ao ler nesta segunda-feira o texto da Liturgia Diária da Carta de Paulo aos Gálatas onde diz: Admiro-me de terdes abandonado tão depressa aquele que vos chamou, na graça de Cristo, e de terdes passado para um outro evangelho. Não que haja outro evangelho, mas algumas pessoas vos estão perturbando e querendo mudar o evangelho de Cristo. Pois bem, mesmo que nós ou um anjo vindo do céu vos pregasse um evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja excomungado. Como já dissemos e agora repito: Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja excomungado. Será que eu estou buscando a aprovação dos homens ou a aprovação de Deus? Ou estou procurando agradar aos homens? Se eu ainda estivesse preocupado em agradar aos homens, não seria servo de Cristo. Irmãos, asseguro-vos que o evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos. Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo. (Gl 1,6-12).

É um texto forte. Paulo excomunga da comunidade aqueles que pretendem alterar o Evangelho por ele anunciado. Nem que fosse um anjo que anunciasse um Evangelho diferente do recebido por Deus, deveria ser excomungado!

Pobres dos autores dos apócrifos. E pobres dos divulgadores de apócrifos, tão comuns, infelizmente, em nossos dias… Pobres daqueles que, mesmo ouvindo “amai-vos uns aos outros”, bradam a todos os ventos “armai-vos uns contra os outros”; pobres daqueles que, mesmo lendo “não matarás”, pregam a pena de morte; pobres daqueles que, ao invés de oferecer a outra face como ensinou Jesus, semeiam o ódio e o terror entre os pobres e desprotegidos; pobres daqueles que ao invés de repartir com os milhões de irmãos necessitados e famintos, acumulam insensatamente suas riquezas que as traças e a ferrugem hão de comer; pobres daqueles que do alto dos telhados, ao invés de proclamar a verdade, espalham mentiras, calúnias e fake news contra seus adversários; pobres daqueles que ao invés de descobrir que, em Jesus, não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher, discriminam as pessoas por sua origem étnica, condição social ou de gênero; pobres daqueles que percorrem mares e terras para fazer um prosélito e, depois que ele dizima em sua igreja, transforman-no num “filho do inferno duas vezes mais infernal” do que seus próprios pastores… Pobres enfim daqueles que levantam templos em honra a Deus e destroem o templo mais sagrado que é o corpo do irmão e da irmã.

É um novo Evangelho que está circulando, inclusive dentro de muitas igrejas. E, como todo apócrifo, perigoso porque se disfarça com o discurso da verdade e da religião. Como todo apócrifo, precisa ser desmascarado. E, caindo a sua máscara, deixar que se divise o verdadeiro rosto dos que o propagam para semear a discórdia e a divisão, a mentira e a morte, os frutos daquele que divide, os frutos do diabo, satanás.

A opção é sua!

Ser de direita ou de esquerda, é uma opção política. Em ambos os casos, nada mais do que uma opção política. A primeira privilegia o indivíduo e o capital. A segunda – a esquerda – privilegia o comunitário e o trabalho. Entre as duas opções, há vários tons, tanto de esquerda como de direita. Os mais conhecidos: centro-esquerda e centro-direita. E tem também os que se dizem de “centro”: nem esquerda e nem direita. Não sei muito bem o que isto significa. Mas, se há alguém que se autodenomina assim, é porque isso faz sentido para ele…
Ser democrata ou ser fascista, já não é mais uma questão política. Ser democrata ou ser fascista, é uma opção ética. É uma escolha entre a convivência humana baseada no reconhecimento do outro enquanto sujeito de direitos e deveres. Essa é a opção democrata. Já os fascistas, na base de sua opção está a afirmação de que há seres humanos que são superiores e outros que são inferiores e que os superiores tem o “direito” de dominar e até eliminar os inferiores.
No presente processo eleitoral, temos candidatos de esquerda e de direita. E de centro esquerda e de centro direita. E candidatos que se dizem de centro… João Amoedo, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias, por exemplo, são candidatos de direita. Boulos e Haddad são assumidamente de esquerda. Ciro se diz e pode ser dito de centro esquerda. Marina e Daciolo, não sei como classificá-los… Os argumentos por eles apresentados dificultam uma identificação clara de seu posicionamento político.
Todos eles têm algo em comum: lançaram-se ao pleito tentando conquistar votos da sociedade brasileira. E todos eles, pelos que pudemos constatar, aceitarão os resultados da eleição.
Minha opção política, como é do conhecimento de todos os que observam minhas postagens, é de esquerda. Privilegio o comunitário e os trabalhadores e trabalhadoras acima do individual e do capital. É uma opção que tomei e mantenho a partir dos princípios humanitários de minha formação pessoal e de minhas convicções religiosas.
E essa minha opção pelo comunitário e pelos pobres inclui a opção democrática. Creio que a convivência com o diferente e a resolução das diferenças deve dar-se pelo diálogo e, no caso da administração do poder e do Estado, pela disputa democrática.
Baseado nisso, respeito os que fazem a opção pela direita. Admiro o João Amoedo, o Meirelles e o Alckmin que, mesmo não “decolando” nas pesquisas eleitorais, mantém-se na disputa e apresentam argumentos para tentar convencer os eleitores. Da mesma forma os candidatos de esquerda. Boulos, Haddad, Ciro… certamente aceitarão os resultados eleitorais.
Mas há um candidato que, desde o início da campanha apresenta-se como um candidato anti-democrático. Afirma não conhecer nada de economia. E nem se interessa por isso. Seu único objetivo é acabar com as pessoas e grupos sociais que se apresentam, a seu modo de ver, como incompatíveis com sua proposta de sociedade. Ontem, dia 28 de setembro, este candidato, em entrevista a um apresentador de televisão também de tendência fascistóide, afirmou explicitamente que não irá aceitar outro resultado que não seja o da sua eleição. Essa postura já não é uma postura política. É uma postura ética inaceitável por quem se proclama do campo democrático.
Essa afirmação do candidato do qual declino pronunciar o nome é um teste para a maturidade de nossa democracia. Se a democracia brasileira sobreviver a essa reivindicação autoritária, ela terá dado um passo acima no patamar da convivência democrática.
E, é o que quero ressaltar, depende da nossa disposição de eleitores. O tamanho da derrota do candidato antidemocrático será a medida da capacidade democrática da sociedade brasileira. Cada voto a menos dado ao inominável, será um voto a mais para a democracia brasileira.
Vote em quem manda sua opção política. Vote em candidatos de direita ou de esquerda. Só não vote no candidato antidemocrático. Com a democracia não se brinca e nem se tergiversa. É uma questão ética.

De quanto é o juro?

O fato é real. Aconteceu com uma senhora conhecida minha. Mas com certeza aconteceu a cada dia com outras tantas pessoas no Brasil. Pode até ter acontecido com algum conhecido seu.
No caso que vou contar aqui, trata-se de Dona Cidinha. Uma mulher pobre de um bairro popular de uma cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre. Dona Cidinha é uma mulher pobre. E além de pobre, é negra. Hoje está com em torno de 70 anos. Mas aparenta ter mais fruto de uma vida de muito trabalho e sofrimento. Desde a infância Dona Cidinha trabalhou em “casa de família”. Como milhões de mulheres, trabalhava e morava na casa dos patrões. Isso até ter a primeira filha. Quando a menina nasceu, a patroa disse que não podia  morar na casa com a menina. Se quisesse continuar a trabalhar, tinha que deixar a menina com alguém. E foi com a avó que ela deixou a menina. Quando veio a segunda criança, a mesma coisa. E também com a terceira. E as crianças foram sendo criadas pela vó e sustentadas pelo trabalho de Dona Cidinha. Até o dia em que a patroa disse que não precisava mais do serviço de Dona Cidinha. Cansada do Brasil, a patroa ia se mudar para os Estados Unidos. E lá se foi a patroa para Nova Iorque. E Dona Cidinha foi morar com a avó e as filhas que, a estas alturas, as duas mais velhas, já eram mães também.
Mas a desgraça maior de Dona Cidinha não foi perder o emprego. Foi saber que todos aqueles anos trabalhados na casa da patroa não tiveram Registro em Carteira e ela não teria nem Seguro Desemprego, nem Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Como recorrer à justiça se a patroa já não morava no Brasil? Nenhum advogado quis assumir a causa. Por sorte, Dona Cidinha, com a ajuda de uma Assistente Social, conseguiu encaminhar o Benefício Continuado por idade. Foi a salvação para ela, suas filhas e suas duas netas.
Mas a desgraça não tinha acabado para Dona Cidinha. Aos dois meses, a mãe de Dona Cidinha faleceu. E poucos dias depois uma de suas filhas também adoeceu e morreu. A outra se foi com um homem morar na fronteira. A terceira ficou porque doente estava e não podia trabalhar. E o dono da casa que a mãe de Dona Cidinha alugava aproveitou a ocasião para pedir o imóvel de volta. E de uma hora para outra Dona Cidinha se viu sem um lugar para morar, com uma filha doente e duas netas para cuidar.
Por sorte conseguiu nas proximidades uma pecinha para morar. Pequena, apertada, calorenta no verão e húmida no inverno. Mas era o que cabia no chuleado orçamento de Dona Cidinha. E ainda havia a água e a luz. E a comida e os remédios seus e da filha doente.
Tudo pareceu se resolver quando um dia Dona Cidinha foi ao banco retirar sua aposentadoria. A uma quadra do banco, uma moça a abordou e, com uma gentileza que Dona Cidinha nunca tinha recebido na vida, convidou-a a entrar na Financeira. E explicou-lhe que, se ela quisesse, poderia dispor imediatamente de dez mil reais. E que esse empréstimo seria pago em pequenas parcelas descontadas mensalmente de sua aposentadoria. E o primeiro desconto só seria feita em três meses. Tudo muito fácil, sem exigência nenhuma. Apenas uma cópia dos documentos e a assinatura nos papéis. Dona Cidinha não queria acreditar. Mas era real. Não havia qualquer dúvida. E ela aí viu a ocasião para fazer aquelas compras com que tanto sonhava, garantir os remédios para a filha e uma melhor alimentação para os netos.
Com um frio na barriga vazia e o coração a mil, Dona Cidinha mandou que preenchessem os papeis, assinou onde lhe mandaram e saiu da financeira com o dinheiro apertado dentro da sacola fortemente segurada pelas duas mãos. Foi para casa direto e no dia seguinte começou a implementar seus sonhos com o tão precioso dinheiro. Foram três meses de felicidade. A filha doente, com os remédios certos e a alimentação melhorada, se sentiu quase boa. As netas, com as roupas novas e os brinquedos, até melhoraram na escola. O problema começou no quarto mês quando começaram entrar os descontos na aposentadoria. Os quase mil reais do salário mínimo baixaram para pouco mais de seiscentos. E, no mês seguinte, baixaram ainda mais. E no terceiro, mais ainda. Dona Cidinha não entendia o porquê isto estava acontecendo. Foi à financeira onde tomara o empréstimo e lhe disseram que era por causa dos juros. “Juros? Mas que juros?”, perguntou ela estupefata. “Vocês não me disseram que ia ter juros!” “A senhora não perguntou!” respondeu a moça com um sorriso amarelo no rosto. E Dona Cidinha soube ali que a cada mês seu saldo iria diminuir por causa dos juros e que não havia nada a fazer, pois ela tinha assinado sem ler!
No quinto mês Dona Cidinha não pagou a conta da água. No seguinte, foi a vez da conta da luz atrasar. E também o aluguel que atrasou já pelo segundo mês. E o remédio não pode ser comprado. E a comida começou a faltar… Tudo porque não tinha perguntado de quanto seriam os juros a pagar.
Penso na triste situação de Dona Cidinha nestes dias em que um séquito de candidatos de todos os partidos passam por nossas portas, ruas, rádios, jornais, televisão e internet oferecendo mil maravilhas para hoje e para amanhã. Eles se parecem com a funcionária da financeira que ofereceu o empréstimo a Dona Cidinha. São só sorrisos e amabilidades. E dizem que tudo é fácil. Basta digitar o número deles e apertar “confirma”.
Não podemos fazer como a pobre Dona Cidinha e não perguntar de quanto será o juro a pagar por essas benesses que nos oferecem. O Brasil já gasta, hoje, 43,98% do dinheiro arrecadado com impostos no pagamento dos juros da dívida. Isso mesmo: quase metade do dinheiro que pagamos em impostos são destinados ao pagamento dos juros da dívida pública. E quem detém esta dívida? Os bancos, públicos e privados. E quem estabelece de quanto vai ser o juro da dívida?  Quem estabelece os juros da dívida é o COPOM, um organismo do Ministério da Fazendo composto, em sua maioria, por representantes do mercado financeiro, ou seja, dos bancos. Alguns membros do COPOM fogem a essa regra. Mas são a minoria. É a raposa cuidando do galinheiro. Imagina então, se colocarmos um banqueiro ou um seu representante para governar o Brasil? Os bancos vão estar com a faca e o queijo na mão para aumentar ainda mais a fatia dos impostos por nós pagos e por eles apropriados.
Antes de votar, então, busque ver qual é a proposta de política financeira de seu candidato. Mais concretamente, busque saber como ele vai tratar a dívida pública. Qual vai ser a política dele em relação ao Banco Central? Vai deixá-lo à mercê do mercado ou vai utilizá-lo como instrumento de política pública? É bom saber antes de digitar o número e confirmar, porque depois, quando ele começar a cobrar os juros, podemos ficar sem educação, sem saúde, sem saneamento, sem investimento em infraestrutura… E aí já não vai mais ter o que chorar! Será tarde demais!

Que tal um Golpe de Democracia?

A origem do conceito – como não poderia deixar de ser – é francesa: Coup d’État. Dito assim, com a suavidade gaulesa, até parece uma coisa bonita, elegante, delicada: Coup d’État! Em português, foi traduzido literalmente: Golpe de Estado. Os ingleses, na sua mania de praticidade, nem se deram ao trabalho de traduzir a expressão para seu idioma. Utilizaram a versão francesa de modo que, em inglês, Golpe de Estado também se diz Coup d’État. De um lado e de outro do Canal da Mancha – ou do Atlântico, se preferirem – um Coup d’État é um Coup d’État. Já do outro lado do Reno, lá onde se fala a língua germânica, Golpe de Estado pode ser dito de duas formas. A mais breve, utilizada quando tudo acontece em poucas horas e sem muito sangue, diz-se Putsch. Rápido assim, quase que deslizando entre os dentes: Putsch! Já quando é violento, dura semanas, meses e tem como consequência a destruição de muitos bens e de muitas vidas, a palavra é bem mais solene e aterradora: Staatsstreich. Só de ouvir já dá medo! Em russo também soa assustador: gosudarstvennyy perevorot! Não sei se a sensação ao ouvir a expressão russa é de frio ou de ebriedade! Mas que é pesada, não há dúvida.

Mas voltemos ao sentido da expressão. Ela foi inventada por Gabriel Nodé no ano de 1639. Em sua obra Considerations politiques sur les coups d’Etat definiu o Golpe do Estado como a derrubada ilegal, por parte de um órgão do Estado, da ordem constitucional legítima. A primeira e a terceira parte da definição se relacionam entre si e são fáceis de entender. Golpe é quando alguém ou um grupo, de forma ilegal, toma o poder contra a lei e implanta uma nova lei. O detalhe importante na definição de Nodé está no elemento intermediário, ou seja, Golpe mesmo, no sentido estrito da expressão, acontece quando esta ruptura da ordem institucional e legal é feita por alguém que faz parte da estrutura do poder de Estado. Se só estivessem presentes o primeiro e terceiro elemento, Golpe poderia ser confundido por Revolução. Por isso os teóricos políticos do século XVII e XVIII aprofundaram o tema e explicitaram o implícito em Nodé: as Revoluções são as transformações da ordem institucional que vem de fora da estrutura do poder estatal. Revoluções acontecem quando pessoas ou grupos que nunca fizeram parte do Estado tomam o poder do Estado. Foi o caso da Revolução Francesa de 1789 onde a burguesia que não fazia parte do aparato estatal subverteu a ordem vigente e tomou o poder. O mesmo aconteceu na Revolução Russa de 1917 e em outras tantas revoluções populares que derrubaram sistemas oligárquicos de poder que excluíam do Estado a classe trabalhadora. O mesmo pode-se dizer da irrupção das mulheres nas democracias ocidentais no séc. XIX.

Voltando aos Golpes de Estado, eles podem dar-se de várias formas. O Golpe clássico, tão conhecido por nós latino-americanos, é aquele em que os militares – um poder do Estado – intervém destituindo a autoridade vigente e instalando em seu lugar outras pessoas ou grupos para exercer o poder. Mas existe também o autogolpe. Nele, o Presidente ou o Rei fecha o Parlamento e o Judiciário e torna-se a única autoridade da Nação. Foi o que aconteceu, por exemplo, no Peru no ano de 1992, quando o então Presidente Alberto Fujimori, com o apoio das Forças Armadas, dissolveu o Parlamento e interveio no Judiciário. Existe também o Golpe Parlamentar quando o Legislativo, à margem da Constituição, utiliza sua força para depor um Presidente legitimamente eleito. É o que vem ocorrendo nos últimos tempos na América Latina com a deposição do Presidente Lugo no Paraguai em 2012 e com a Presidenta Dilma em 2016 no Brasil. E existe ainda o Golpe Judiciário quando este poder do Estado em sua máxima expressão, o Supremo Tribunal Federal, utiliza a interpretação da Constituição para destituir ou impedir alguém de assumir o poder. É o que aconteceu no Equador com o ex-Presidente Rafael Correa em 2016; com o ex-Presidente de El Salvador, Mauricio Funes, também em 2016; no Brasil, com o ex-Presidente Lula neste ano de 2018 e possivelmente, acontecerá com a ex-Presidenta Cristina Kirchner na Argentina. Este último modelo de Golpe é o Golpe 3.0 em que o Judiciário age com o apoio das polícias e dos Meios de Comunicação que, na maioria dos países, também são uma concessão do Estado.

Depois disso tudo, passo a explicitar a minha proposta de “Golpe de democracia”. E no Brasil ele é necessário e, a meu ver, viável. A Constituição de 1988 que rege a atual vida política brasileira, em seu Art. 1º, parágrafo único, afirma: “todo o poder emana do povo, que exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta constituição”. No caso das eleições, através do voto, esse instrumento da democracia representativa previsto na Constituição, os eleitores podem alijar do poder, por via pacífica, as elites e seus representantes que se apossaram do Estado – no Executivo, Legislativo e, sobremaneira, no Judiciário – e usam-no para manter a população e as riquezas do país sob o seu controle. Por isso, é preciso votar. Nada de abster-se, anular ou votar em branco. E é preciso votar distinguindo claramente quem faz parte da elite e quem faz, realmente, parte do povo. Analisar quais são os partidos que sempre votaram em defesa dos 1% que detém a maior parte da riqueza nacional e os que sempre votaram a favor da imensa maioria que vive no limite da pobreza e dos miseráveis da nação.

Se não fizermos essa mudança radical pelo “golpe democrático”, talvez em breve tempo tenhamos que fazer não um golpe, mas uma revolução democrática. E as revoluções sempre são muito mais sangrentas e custosas que os golpes. Mas elas se tornam inevitáveis quando os “golpes democráticos” não funcionam.

Violência, desigualdade e fé.

Os dados são da Organização Mundial da Saúde: o Brasil é o nono país mais violento do mundo. Mata-se no Brasil cinco vezes mais que a média mundial. No cômputo global, a média da taxa de homicídios é 6,4 para cada 100 mil pessoas. Na África, a média é de 10 mortes a cada 100 mil, contra apenas 3,3 na Europa. O continente mais afetado pela violência é a América, com 17,9. O índice brasileiro é de 31,1 pessoas a cada 100 mil habitantes.
No ranking mundial da violência a liderança é ocupada por Honduras. No pequeno país centro-americano, são 55,5 homicídios para cada 100 mil pessoas. Em segundo lugar vem a Venezuela com 49,2 homicídios para cada cem mil venezuelanos. Na sequência vem El Salvador (46 para cada cem mil), Colômbia (42), Trinidad e Tobago (41), Jamaica (39,1). Lesoto (35) e África do Sul (33,1).
No ano de 2016, a OMS contabilizou 477 mil homicídios em todo o mundo. 80% das vítimas foram homens. Nas Américas, o total de mortes violentas chegou a 156 mil.
O espantoso é que, nas Américas, onde não há nenhuma guerra declarada, o número de homicídios é maior do que o daquelas regiões onde há conflitos bélicos. Há menos mortos de forma violenta na Síria, no Iraque e no Afeganistão do que no Brasil!
O que explica isso? Somos os americanos – latino-americanos em particular – mais violentos que os outros povos do mundo? Uma resposta simplista seria a afirmativa: sim, somos mais violentos que africanos, asiáticos e europeus!
Mas, como dissemos, é uma resposta simplista. Se formos a fundo e tomarmos outro dado, o da desigualdade social, podemos constatar que os índices de violência se sobrepõe quase que de forma absoluta sobre os índices de desigualdade. A América Latina é o continente mais desigual e, ao mesmo tempo, o mais violento do mundo. Honduras, o país mais violento da América Latina, é também o país mais desigual. O Brasil, nono no índice de violência, é o 10º em desigualdade social. 1% dos brasileiros mais ricos detém mais de 90% da riqueza brasileira. Os seis brasileiros mais ricos detém mais recuros econômicos que os 100 milhões de brasileiros mais pobres. Não há como não relacionar um dado com o outro. Só não querendo ver…
Mas há outro dado a colocar nesta análise. E ele é preocupante: a América Latina é o Continente com o maior percentual de cristãos e, particularmente, com o maior percentual de católicos. 50% dos católicos do mundo estão concentrados na América Latina. E com isso vem a pergunta que não pode ser evitada: há uma relação entre este dado e os dois anteriores? São os cristãos – e os católicos em particular – mais violentos e mais tolerantes com a desigualdade social? Ou, dita em outras formas: a fé declarada de cristãos e católicos tem alguma influência sobre o convívio social? Ou é o cristianismo apenas uma expressão religiosa que não tem nada a ver com o dia a dia das pessoas que a professam e com a sociedade em que elas vivem?
Questões a se por, especialmente nestes tempos em que a motivação religiosa é embaraçosamente misturada com as opções políticas de candidatos e eleitores. Pensemos nisso antes de ler o próximo trecho da Bíblia, de ir ao culto ou à Missa. E pensemos nisso, sobretudo, antes de ir às urnas. E que Deus nos proteja dos cristãos violentos!

O Oráculo de Delfos contra o voto feminino

Diferentemente do que alguns pensadores de viés positivista querem passar por verdade, os mitos não são uma forma primitiva de tentar explicar a realidade. Pelo contrário, os mitos são, talvez, a forma mais profunda de conhecer o ser humano. E não o ser humano passado dos tempos primitivos em que os mitos parecem situar-se. Mais do que explicar o passado, os mitos explicam o presente daqueles que os criam e recontam. Se quisermos conhecer uma sociedade, nada melhor que conhecer os mitos que lhe dão fundamento.

Além da mitologia do Oriente Próximo presente nas narrativas bíblicas, são muito conhecidas entre nós as mitologias gregas e romanas. Cada uma, a seu modo, ajudam-nos a entender a realidade das respectivas culturas em que foram fornadas. E, na medida em que as recontamos, elas se tornam significativas para explicar nossa própria cultura.

Pensando nisso, trago presente um mito grego pouco conhecido e que ajuda a explicar a exclusão das mulheres da vida política no berço da democracia ocidental. Exclusão que, como vemos no processo eleitoral atual, mesmo que legalmente superada, ainda é factualmente persistente.

Conta a mitologia grega que Atenas, o berço da democracia ocidental, nem sempre se chamou assim. Na origem, ela não tinha nome. Todos a chamavam de Cecrópia pelo fato de ela ter sido fundada pelo rei Cécropes. Filho de Hefesto e Gaia, o fundador tinha dupla natureza: era metade humano e metade réptil.

Cécropes era um rei cuidadoso e diligente e buscava com todo esforço e dedicação o bem estar de seus cidadãos. Além de edificar a cidade e construir muros para defendê-la, estimulou ele a navegação – a cidade era cercada por mares –, a agricultura e as artes.Preocupado em ter a proteção divina, Cécropes foi o primeiro a cultuar a Zeus, o soberano de todos os deuses. Quis também ele que a cidade tivesse um deus protetor em especial. Mas, temendo, ao escolher um, desagradar os outros deuses, não sabia qual escolher.

Posseidon, o deus dos mares, desejoso de ter uma cidade pujante como aquela sob sua proteção, logo se apresentou como candidato. Para ganhar o favor dos habitantes da cidade, jogou seu tridente contra o rochedo sob o qual estava situada a cidade e da rocha brotou uma fonte de água. A cidade se alegrou, pois a água era escassa naquele local.

Sabendo da competição, Atenas, a deusa da sabedoria, também se apresentou. Sua relação com a cidade era próxima por um outro fator. Com efeito, Hefesto tentara estuprar Atenas. Esta fugiu e o sêmem de Hefesto caiu sobre Gaia e dela surgiu Cécropres. Desse modo, mesmo a contragosto, Atenas tinha algo a ver com a origem de Cécropes e da cidade. Para mostrar seu interesse em tornar-se protetora, Atenas fez surgir do rochedo da cidade um pé de oliveira. Diante do presente que lhe fornecei comida, óleo, madeira e sombra, a cidade exultou e tendeu a escolhê-la como sua protetora. Sem saber como resolver o impasse, Cécrope chamou todos os cidadãos de Atenas para a praça para consultá-los e assim não assumir sozinho tão grande responsabilidade.

Ora, naquele tempos primordiais da democracia, tanto homens como mulheres votavam. E todos, homens e mulheres, votaram. Os homens, unanimemente elegeram Posseidon como protetor da cidade. As mulheres, por sua vez, votaram em Atenas. E esta venceu, porque na cidade  havia uma mulher a mais que o total dos homens. E Atena foi instalada como protetora da cidade que recebeu, então, o nome de Atenas.

Poseidon, derrotado, não se conformou. Furioso, agitou as águas dos mares e a navegação tornou-se impossível. Não contente com isso, jogou suas ondas sobre as terras circundantes da cidade que se tornaram incultiváveis. Levados pelo terror, os habitantes de Atenas apelaram para o Oráculo de Delfos. Este, após muitas oferendas e rituais, proclamou sua sentença: Posseidon só cessaria sua fúria quando as mulheres que haviam eleito Atena como sua protetora fossem castigadas. E era um triplo castigo o que tinha que ser imposto a elas. Primeiramente, elas perderiam o mátrio poder, ou seja, os filhos que elas gerassem, daquele momento em diante, já não seriam delas, mas de seus maridos dos quais herdariam o nome. Em segundo lugar, elas deveriam ser destituídas do título de cidadãs de Atenas. E, em terceiro lugar, e consequência do anterior, elas não mais poderiam votar nas decisões a serem tomadas relativas à cidade.

Satisfeitas as exigências de Posseidon, sua violência cessou e Atena pôde reinar sobre a cidade. Quanto às mulheres, a partir daquele momento, não mais puderam participar das atividades democráticas da cidade.

Como disse anteriormente, por sorte esse mito é um dos menos conhecidos entre nós. Mas não faltam os Posseidon que, furiosos por verem-se preteridos na escolha das cidadãs, ameaçam-nas com sua violência a cidade e seus cidadãos e propõem a supressão dos direitos cidadãos das mulheres. E, pior hoje do que nos tempos míticos, às vezes com o voto das próprias mulheres.