Escutar o silêncio.
ANDO DEVAGAR…
Um novo mundo é possível!
Tempos difíceis os que estamos vivendo. Tão difíceis que se tornam assustadores. Você liga a televisão e, quem aparece? O Trump e seu topete! Você troca de canal e quem te sorri? O Putin. E todos conhecem o sorriso do Putin: não existe. Nunca vi o Putin sorrir. Por que será? Outro canal e agora é o eterno sorriso banqueiro do jovem recém-eleito à Presidência da França. E aí você se pergunta: por que o Macron está sempre sorrindo? Desconfie de quem nunca sorri e desconfie também de quem está sempre sorrindo. Alguma coisa ambos estão tentando disfarçar com seu eterno não-sorriso ou com seu eterno sorriso. Para não ficar só em figuras masculinas: alguém poderia me informar se já viu a Angela Merkel sorrir? Não naquelas fotos de campanha retocadas por sofisticados programas. Numa situação real, alguém lembra de um sorriso da Merkel?
Um pequeno sinal, uma pequena experiência. Minúscula, ínfima, invisível na própria cidade em que acontece e que não aparecerá em nenhum noticiário. Mas um sinal, sim, de que um novo mundo é, sim, possível! Sinal de uma Vida Religiosa profética que continua a testemunhar o sonho do Reino de Deus. E sonhar, mais do que nunca hoje, é preciso! Pois sonhar, é o único caminho para sair do pesadelo mundial e nacional que estamos vivendo.
A reforma trabalhista tá na Bíblia!
Voltando à reforma trabalhista de 2017: quantas e quais pragas do Egito serão necessárias para que os faraós neoliberais adoradores do deus-mercado se convençam a deixar o povo descansar, pelo menos uma vez por semana? Oxalá Deus não tenha endurecido seu coração a ponto de exigirem a morte dos próprios primogênitos e, num gesto de insana teimosia, deixarem-se tragar pelas revoltas águas do Mar Vermelho.
O terno não faz o treinador
Harakiri
Tripas saltando para fora do ventre, espada cravada no coração, sangue jorrando dos pulsos… Cenas que, certamente, não são mais necessárias e nem desejáveis na nossa sociedade moderna e civilizada que rejeita a violência. No lugar delas, sugerimos o simples, singelo e incruento sincericídio. Se alguma noção de honra resta aos homens públicos neste momento de crise nacional, poder-se-ia apenas exigir-lhes que admitam seus crimes, deixem a vida pública, devolvam o dinheiro roubado e, num gesto de grandeza, nunca mais a ela voltem. E isso, de livre e espontânea vontade para que as mãos das vítimas não se sintam tentadas a sujar-se para fazer justiça.
"Nós não caminhamos sós!"
Melhor assim!
Porto Alegre. Rua da Conceição, Centro. João acordou cedo. O movimento já começara no entorno da Rodoviária. O velho viaduto range sob o peso dos carros, ônibus e caminhões que levavam e traziam mercadorias, pessoas, sonhos e esperanças no novo dia.
João olha para o lado. Aí está a caneca do café. No fundo do recipiente de metal, ainda um pouco do líquido negro, frio, depois da noite fria do início de maio. Ao lado, a garrafa de cachaça. Vazia. O pouco que sobrara na noite anterior, seu vizinho de rua e de abrigo havia sorvido para acalentar a noite. João estende a mão esquerda e, mesmo sem olhar, localiza o corpo quente e enrolado de sua companheira Kaká. Ela o acompanha há muito tempo. Encontrou-a solitária numa pracinha pros lados da Redenção. Abandonada, na rua, sem dono. Foi paixão à primeira vista. Desde aquele dia a cadelinha vira-lata segue João no seu roteiro diário em busca do pão de cada dia. Pode ser pão de ontem conseguido na porta da Padaria Soledade. Mas também serve uma fruta meio estragada no latão em frente ao mercadinho Boa Esperança. Ou um pedaço de xis abandonado por alguém num banco da Praça da Alfândega. Quem tem fome não escolhe. Isso bem sabe João. E Kaká também aprendeu a regra. Tanto que ela agora já come frutas e outros legumes. Afinal, como a carne tá difícil até prá quem tem casa e trabalho, prá cachorro de morador de rua, nem osso sobra.
Apoiando-se no braço direito e jogando o peso da cabeça para a frente, João volta-se para o lado esquerdo onde está Kaká. Entre ela e ele, o saco com aquilo que ele chama “minhas tralhas”. É pequeno, quase vazio, mas guarda quase tudo que João tem hoje: um par de calças conseguido ontem num Centro Espírito, duas camisas que ele encontrara abandonadas em frente a uma casa no Bom Fim e um tênis dado por Clécio, seu companheiro de abrigo noturno embaixo do elevado da Conceição. E, como não podia deixar de ser, o bem mais precioso: uma afiada faca com cabo de madeira para qualquer eventualidade. Afinal, a rua é cheia de perigos e o melhor é estar aprevenido*.
Clécio e João tinham se tornado amigos depois que os dois fugiram juntos da polícia que queria limpar a frente de um supermercado da Cristóvão Colombo. Clécio tinha vindo de São Paulo. De carona em carona chegara em Porto Alegre. A razão da fuga? “Em São Paulo a Guarda passa e tira os cobertor e as tralhas de morador de rua.” João, ainda sonolento, passa a mão na cabeça de Kaká que, reconhecendo a mão do dono, apenas grunhe. Sorrindo, João lembra daquela correria pela Cristóvão ao lado de Clécio. Cuspindo como se fosse na cara dos policiais, solta um sonora palavra e uma gargalhada. Passa a mão por sobre o corpo. Aí está seu cobertor que ele ganhou na Igreja São Carlos. Aqui não tem perigo. Não tem guarda prá tirar os cobertores e as tralhas dos moradores de rua.
Clécio, que acordara com o palavrão e a gargalhada de João, olha assustado e, como que saindo de um pesadelo e adivinhando os pensamentos de João, pergunta com voz pastosa: “João, quem é o prefeito de Porto Alegre?” “Sei lá eu e nem me interessa…” Enquanto João solta mais um sonoro palavrão, Clécio vira pro lado e murmura prá si mesmo um reconfortante “Melhor assim!”
Barbárie Civilizada
Em que anos estamos? Em 2017 ou em 1500? Em pleno 30 de abril, véspera do Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, um grupo de pistoleiros arregimentados pelos fazendeiros da região, depois de uma churrascada regada a muita bebida, armados com pistolas, facões, facas, paus, invadem a aldeia indígena Povoado das Bahias, no município de Viana, no Maranhão, e semeiam o terror esfaqueando homens e mulheres de todas as idades, aí incluídos velhos e crianças. Para deixar sua marca indelével, decepam as mãos de dois membros da comunidade Gamela.










