A república é misógina?

República. Do latim res publica: aquilo que interessa a todos. Substantivo feminino misógino. Não se assuste! O misógino não está no dicionário. Eu acrescentei. Vou tentar explicar.

Desde a sua primeira configuração histórica conhecida, aquilo que hoje chamamos de república, teve horror a mulheres. Em 509 a.C., quando os proprietários de terras romanos expulsaram os reis etruscos e decidiram inventar outra forma de governar seus interesses comuns, as mulheres ficaram de fora. Só os patres famílias eram proprietários. Consequentemente, só eles poderiam ser eleitos para o senado e toda outra e qualquer função pública. E não eram só as mulheres que não participavam da república. Plebeus, pessoas de origem estrangeira e escravizados não participavam das votações.

A república romana nasceu oligárquica. Era de poucos e para poucos. Vale lembrar: nem todo sistema republicano é democrático. Democracia é bem outra coisa. Os atenienses que o digam. Seu sistema de governo decantado em prosa e versa e teorizado por Platão, não era muito diferente da romana. Na sua Politeia, Platão é claro: há três tipos de pessoas: os trabalhadores, os lutadores e os filósofos. A essa pequena elite que pensa racionalmente cabe o governo da cidade. As mulheres, deixa ele bem claro, se deixam levar pelas emoções. Elas não raciocinam. Por isso não podem ser ativas na república. Seu lugar é dentro de casa e submissas ao varão da casa.

Deixando de lado as repúblicas medievais, vamos direto à revolucionária gesta de 1789 que derrubou a monarquia francesa e instalou ali a república que encantou o mundo. Mesmo instituindo uma mulher – Marianne – como seu símbolo, a nova forma de governo não deu voto às mulheres. Na república burguesa, só os proprietários podem votar. E como as mulheres, legalmente, não são proprietárias, não votam. Simples assim! As francesas só teriam o direito a voto reconhecido em 1945.

No Brasil, a implantação da república só aconteceu devido à misoginia dos militares. Sim! Dom Pedro II tinha uma única herdeira legal, a princesa Isabel. Os dois primeiros rebentos masculinos da Imperatriz Leopoldina, faleceram crianças. Restou Isabel e ela queria exercer seu direito. Três vezes o fez interinamente durante as viagens de seu pai. Na última proclamou a Lei Áurea que assustou os fazendeiros do café e tirou o apoio econômico à monarquia. Mas foram os militares que deram o golpe. Na cabeça da intentona, o monarquista Deodoro da Fonseca. Havia muitas razões para os militares implantarem a república. Uns, educados no positivismo, o fizeram por opção ideológica. Outros, machistas, pelo medo de, em breve terem que obedecer às ordens de uma mulher. A república brasileira nasceu misógina.

Na República Velha as mulheres não votavam. Foi em 1932 que as brasileiras conquistaram direito a voto e elegeram suas primeiras representantes. Vieram vereadoras, deputadas, senadoras e governadoras. Mas tardou até 2010 para que uma mulher fosse eleita Presidenta. E aí a história é recente e conhecida. O golpe de 2016 foi um golpe tipicamente republicano: elitista e machista. Todos lembramos os epítetos, gestos e imagens utilizados para desqualificar Dilma Roussef. Total misoginia. Veio o golpe e temos na presidência uma pessoa que despreza as mulheres dizendo que merecem ser estupradas e expõe em público sua intimidade sexual com a esposa. E o sistema republicano não faz nada para impedir tamanha desfaçatez.

Diante da história passada e do presente que vivemos, só me resta concluir: a república, mesmo sendo um substantivo masculino, revela uma realidade misógina. Talvez seria bom os franceses substituírem a Marianne por um Mariano. E lembrar que para todo Deodoro da Fonseca existe um Silveira Martins! Qu’est-ce que vous en pensez?

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Sobre reformas e concílios.

No próximo dia 31 de outubro celebramos o Dia da Reforma. Nesta data, no ano de 1517, o monge agostiniano Martilho Lutero expôs, como era de costume para as coisas importantes, na porta da Igreja de Wittenberg, 95 teses para uma sessão de Quaestiones Disputatae.

Frei Martinho era professor titular de Bíblia na Faculdade de Teologia da Universidade daquela cidade. Discutir publicamente posições teológicas era uma prática comum na época. O tema central das 95 teses eram as indulgências. Era um tema sensível que mexia com duas questões fundamentais: a salvação da alma e o dinheiro no bolso. Mas não era uma questão simples. Ela mexia com dois tópicos fundamentais da fé cristã e da organização da igreja: a graça salvadora de Deus na cruz de Jesus Cristo e a autoridade do Papa em declarar a salvação em troca de dinheiro.

Lutero sabia que estava mexendo com fogo. Mas ele nunca se propôs a dividir a Igreja. Ele, como tantos outros em seu tempo, queria uma reforma. E o caminho para alcançá-la, como era a tradição mais antiga, se daria com da realização de um concílio. Quando o incêndio se alastrou pelo Sacro Império Romano Germânico e alcançou toda a Europa, ele insistiu na necessidade de um grande diálogo a fim de resolver a questão. O jogo de força entre o Papado, o Imperador, os príncipes alemães e o rei da França tornaram o Concílio impossível. Cada um defendia seu interesse e os ideais do Evangelho ficaram em segundo plano. A crise prolongada pela não vontade de dialogar desaguou na tragédia. Quando Paulo III, em 1546, finalmente aceitou a realização do Concílio, já era tarde. A divisão do cristianismo no Ocidente estava consolidada e perdura até hoje. Trento erigiu uma das posições teológicas em dogma e declarou todos os que pensavam diferente como excluídos da Igreja.

Cincos séculos depois, no mesmo mês de outubro, quem convoca um Sínodo para a reforma da Igreja é o Papa Francisco. É o Sínodo sobre a Sinodalidade que se estenderá até outubro de 2023. A abertura já foi dada no dia 10 passado. O caminho foi aberto com uma chamada à ampla participação de todos os católicos, cristãos de outras igrejas, pessoas de outras religiões e também de quem não expressa nenhuma profissão religiosa. É um convite à escuta e ao discernimento para um caminhar conjunto de todos e todas. Um caminho sinodal aberto e inclusivo e esperançoso na direção de uma Igreja servidora do Evangelho.

As respostas até agora vista são variadas. Alguns aderiram com entusiasmo e já se puserem a trabalhar. Um número significativo reagiu com resignação, entrando no processo sem muito entusiasmo, mais por conveniência do que por convicção, numa mal disfarçada resistência passiva. Outros se opuseram abertamente à proposta recusando-se a participar e estimulando outros a boicotar o Sínodo numa clara atitude sectária.

O que acontecerá com a Igreja Católica Romana no decurso destes três anos de processo sinodal? Qual será o resultado final de tudo isso? Conseguirá o Papa Francisco romper com a inércia das instituições e a resistência das corporações eclesiásticas?

Nada é previsível. Tudo está em aberto. Neste cenário de incertezas, é bom lembrar que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem”. Se há decisões pessoais, como as do Papa Francisco, em promover o diálogo, sobre elas pesam as circunstâncias que não são de sua escolha e com as quais são confrontadas as vontades individuais. E, no quesito de tentativas de diálogo e conciliação, a Igreja tem um pesado legado de contradições, fechamentos, agressões e rupturas.

Tendo isso presente, aos que acreditamos na proposta sinodal de Francisco, só nos cabe agir e rezar para que a tragédia do séc. XVI não se repita como farsa neste início do séc. XXI.

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Nossa bandeira nunca será vermelha!

Talvez você lembre da Rosângela. O vídeo dela viralizou. Foi em novembro de 2018. O contexto era uma manifestação no Congresso Nacional a favor de um golpe militar. A jovem senhora parou diante de uma bandeira do Japão ali presente e, com seu celular, gravou um vídeo. Com voz rouca e aos gritos, ela apontava para o “símbolo comunista” que, segundo ela, havia substituído a verde-amarela brasileira.

Jogado na internet pela própria Rosângela, o vídeo rodou o mundo e inspirou dezenas de memes. Dias depois, Rosângela se retratou da confusa identificação entre a bandeira do Japão e uma suposta bandeira comunista. Mas continuou a insistir que “nossa bandeira jamais será vermelha”.

O “equívoco” visual de Rosângela não foi único naqueles dias. Houve carros vermelhos apedrejados pelo simples fato de serem vermelhos. Amigos meus evitavam sair às ruas com roupas vermelhas. Nos parquinhos das praças, os brinquedos vermelhos foram repintados em verde ou amarelo. A tinta vermelha sumiu das lojas de materiais de construção. Lojista nenhum arriscava ser tachado de comunista por vender qualquer item com a perigosa cor.

Mas Rosângela não foi a única “cidadã de bem” em ver por todos os lados a ameaça comunista. Ela foi apenas uma entre milhões de brasileiros e brasileiras que, levados pela velha teoria da conspiração do “marxismo cultural”, a ver comunismo por todos os lados: na bandeira vermelha do Japão, nas ciclovias de São Paulo, nas cores dos semáforos, nos direitos humanos, na defesa da Amazônia, na Campanha da Fraternidade da CNBB, nos materiais didáticos das escolas primárias, nas Universidades… Até as novelas da Globo e os filmes do Netflix eram vistos como propaganda esquerdista. Ah! E houve os casos de ameaças imaginárias como a nunca localizada “mamadeira de piroca” e o jamais encontrado “kit gay”. Se alguém, por acaso, tiver algum exemplar desses itens, favor enviar. E aí, sim, teremos finalmente a comprovação da materialidade da ameaça do “marxismo cultural”.

Efetivado o golpe parlamentar de 2016 e a trapaça judicial que tirou o candidato da oposição do páreo, um novo governo foi eleito em 2018 em base a fake news. E aí uma outra bandeira vermelha começou a aparecer pelo Brasil. Ela foi vista no fundo de uma piscina na casa de um professor em Santa Catarina. Foi riscada por três homens na pele de uma jovem em Porto Alegre. Foi estampada na logomarca de um supermercado na Bahia. Quatro homens a desenharam na testa de um jovem gay de Itaguara, na Grande Belorizonte. Foi pintada sobre um mural da campanha de prevenção ao câncer de mama em Dourados. Enfeitou a braçadeira de um jovem que passeava por um shopping em Caruaru. Outros jovens desfilaram braçadeiras com a mesma bandeira vermelha em Unaí e Curitiba. A mesma foi desfraldada por homens vestidos com as roupas rituais da Ku Klux Klan no Parque Moinhos de Vento em Porto Alegre. Membros do mesmo grupo invadiram, no último dia 20 de outubro, a Câmera de Vereadores de Porto Alegre, em protesto contra a vacina. Em suas mãos, outra suástica nazista.

Será que a bandeira vermelha nazista está substituindo a verde-amarela brasileira? Onde está a Rosângela para proclamar que “nossa bandeira nunca será vermelha”?

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Professor: um risco prazeroso

Ser professor é uma opção arriscada. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, em todos os países do mundo, é uma das profissões com os mais altos índices de stress. No Brasil, a pressão emocional vem acompanhada pela baixa remuneração. Num ranking de 48 países organizado pela OCDE, os professores e professoras brasileiros são os mais mal pagos. Junte-se a isso, a falta de reconhecimento social. São raros os docentes que já não ouviram a pergunta: “Você não trabalha? Só dá aula?” Como se “dar aula” não fosse trabalho!

Por que persistimos, então, nessa ocupação? Pelas razões de qualquer outra profissão: necessidade e satisfação. Por necessidade, porque todo ser humano, para sobreviver, precisa trabalhar. E ensinar é um labor como qualquer outro que busca a justa remuneração para a satisfação das necessidades básicas e dos prazeres que a vida humana merece.

E há também a satisfação como deveria haver em qualquer outra profissão. Uns sentem prazer em jogar futebol, em arar a terra, em esculpir ou desenhar, fabricar carros, cozinhar, limpar uma casa, vender… E nós sentimos prazer em ensinar, em transmitir conhecimento e em ver pessoas crescerem no saber e no ser. É neste último aspecto que está o maior prazer do professor e da professora.

Prazer que, há de se reconhecer, vem sempre acompanhado de uma dose de ansiedade. Afinal, o que vai ser desta criança, jovem ou adulto com o qual ocupamos nossas horas e dias?

Ser professor é viver a vida no futuro do pretérito. Quais vão ser as consequências futuras daquilo que ensinamos às pessoas do hoje que já é ontem? Pergunta difícil que, como diz o tempo verbal, mesmo sendo do modo indicativo, é sumamente dubitativo, marcam o dia a dia do professor e da professora.

Afinal, pessoas não são coisas nem máquinas. Não são determináveis. Não podemos moldá-las conforme nossos desejos e interesses. O êxito de nosso trabalho não depende, em última instância, de nós. Está assentado na acolhida e cultivo do que semeamos por parte de quem está à nossa frente. Ele é o sujeito. Nós, apenas os meios.

A maioria dos estudantes passa pelas nossas vidas e desaparece… Nunca mais os vemos ou temos notícias. Mesmo daqueles e daquelas que pareciam tão próximos. Outros aparecem muito tempo depois, quase sempre por acaso. Aparições que podem trazer alegria ou dor. Às vezes a notícia não é boa. Aquele ou aquela que um dia foi nosso aluno tomou um rumo na vida que o fez infeliz. Outras vezes a alegria explode ao descobrirmos que todo aquele potencial que apenas vislumbrávamos agora desabrochou e está a nossa frente uma pessoa realizada e transbordante de contribuições para a sociedade.

E a culminância do prazer do professor acontece quando um daqueles jovens que havia desaparecido da memória te encontra e diz: “Eu achava as suas aulas chatas e você muito exigente, mas agora me dei conta de como aquilo era importante e está sendo útil em minha vida”.

Mas há um degrau a mais, o suprassumo da razão de continuar na profissão de professor. É quando alguém chega e te diz: “As suas aulas me ajudaram a mudar o rumo da minha vida. Foi ouvindo a sua explicação que tomei uma decisão que foi decisiva para mim”. É uma frase que não tem preço. Ela compensa todas as horas mal pagas e arduamente trabalhadas. Ouvi-la, uma vez que seja na vida, justifica todos os esforços de quem se dedica ao ensino. É a realização antecipada de tudo o que sonhamos. É o presente do futuro.

Tenho o prazer de dizer que já ouvi essa frase. E foi  muito bom ouvi-la! Por ela e por todas as outras, agradeço a cada um e cada uma que, nestes 22 anos de magistério, partilharam a sala de aula comigo. Obrigado!

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São Francisco e os animais

Início de outubro e a mesma cena em inúmeras Igrejas: filas e filas de pessoas com seus animais para serem abençoados. A maioria são cães. Também há muitos gatos. E pássaros de todas as cores e plumagens. E não deixam de aparecer as lagartixas, tartarugas, peixes e iguanas. E alguns até estranhos para a vida doméstica: galinhas, mini-porcos, cabras, guaximins…

Estima-se que hoje, no Brasil, haja em torno de 150 milhões de animais domésticos: 55 milhões de cães, 25 milhões de gatos, 25 milhões de peixes ornamentais, 40 milhões de aves ornamentais e 2,5 milhões de répteis e pequenos mamíferos. Toda esta população animal gera um mercado de aproximadamente 40 bilhões de reais. Em plena pandemia, o “mercado pet” foi um dos que mais cresceu no Brasil: 13,5% no ano de 2020. Apenas para efeito de comparativo, o Bolsa Família, programa do governo federal destinado ao segmento mais pobre da população humana brasileira e que atende de 15 milhões de pessoas, teve, em 2019, um orçamento de 30 bilhões de reais.

A tendência, segundo especialistas do setor pet, é a de “humanização dos animais” com oferta de produtos premium, rações especiais e produtos de higiene que facilitam a convivência dos bichos de estimação com os humanos, bem como serviços veterinários, banho, tosa, fitness e hotelaria. Segundo um dos maiores empresários do setor, “o animal que ficava do lado de fora da casa e se alimentava com restos de comida, virou um filho”. Nesta descrição, claro, não estão incluídos os animais que acompanham as milhares e milhares de pessoas que, em todas as cidades do Brasil, desde as metrópoles até as pequenas interioranas, vivem na rua e se alimentam das sobras das comidas que já não são destinadas aos animais.

Mas voltando à bênção dos animais nos perguntamos: o que diria de tudo isso o santo que é invocado como protetor dos animais? Nessa questão que sempre provoca muita polêmica, é melhor deixar o santo falar. Na Primeira Regra, Francisco fala explicitamente da questão e diz: “Ordeno a todos os meus irmãos que de modo algum criem qualquer animal, nem junto a si mesmos, nem com outra pessoa, nem de qualquer outra forma”. É uma das poucas ordens que Francisco dá aos irmãos. Normalmente, ele pede ou aconselha. Aqui, ao se tratar de animais, ele ordena que os frades jamais os possuam.

Mas então, São Francisco não gostava dos animais? Ele gostava, sim. Podemos vê-lo em várias passagens das diversas biografias do santo. No relato de Tomás de Celano, há três episódios que mostram a relação que o Santo de Assis estabeleceu com três animais: um pássaro aquático, um faisão e uma cigarra. O pássaro aquático é trazido a Francisco por um pescador a fim de alegrar o santo em sua doença. Depois de ouvir o pássaro, ele “ordenou com bondade à ave que voltasse sem medo à sua primitiva liberdade”. Ao faisão, Francisco deixa a liberdade para escolher entre “morar conosco ou ir para os lugares de costume, que são mais adaptados para ele”. Quanto à cigarra, depois de desfrutar de seu mavioso canto, Francisco a despede para que parta livremente.

Quanto ao famoso Lobo de Gubbio, Francisco não o acorrenta e nem o encerra num tenebroso canil. Simplesmente o alimenta e lhe permite retornar a seu ambiente original.

Francisco ama os animais. Mas como seu amor é verdadeiro, não os quer submissos e a serviço do seu prazer. Ele quer os animais livres, vivendo em seu ambiente natural e sendo o que eles são e não instrumento para a satisfação das carências humanas. Quem escraviza animais pelo prazer que eles lhe proporcionam ou para suprir as próprias carências, não está vivendo o espírito de São Francisco. Muito antes pelo contrário…

O que fazer, então, com os 50 milhões de animais presos nas casas e apartamentos. Libertá-los seria condená-los à morte na selva urbana. É responsabilidade de quem os aprisionou cuidá-los até o fim de suas vidas. E, mais importante ainda, interromper o mercado de exploração animal não comprando outros para substitui-los na escravidão.

Quanto aos humanos que não conseguem viver sem o amor de um animal, para esses, talvez seja aconselhável procurar um psicólogo e desvendar as razões que o impedem de amar e deixar-se amar por humanos. O amor, como lembra outro santo medieval, Santo Tomás de Aquino, nos torna iguais àquilo que amamos. Se amamos a Deus, nos tornamos divinos. Se amamos os humanos, nos humanizamos cada vez mais. Quanto aos animais, cabe-nos apenas deixar que vivam livres em sua animalidade feliz.

Que São Francisco nos ajude neste caminho.

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O pulo do Paulo

Alfabetizar é mais do que aprender a colocar letras lado a lado e palavras formar. É construir palavras e relacioná-las entre si de modo a formar sentido. Frases podem ser eficientes, mas não são suficientes. É preciso que nasçam da própria mente e deem sentido ao mundo. Alfabetizar é descobrir quem somos no universo em que vivemos na relação com os outros e com a natureza. Alfabetizar é humanizar. Alfabetizar é libertar. Uma dupla libertação. Da incapacidade de ler as palavras e poder escrevê-las e das garras daqueles que querem impedir as pessoas de pensar o mundo com os próprios pés, com as próprias mãos, com o próprio coração, com a própria razão.

Alfabetizar é educar. Bem diferente de adestrar. O patrão quer o empregado adestrado. Apenas capacitado para executar a ordem sem perguntar o porquê. Ensino técnico, profissionalizante, despersonalizante, coisificante, instrumentalizante, alienante, escravizante. Nada de filosofia, história, geografia, sabedoria. Os humanos não precisam de humanas. Apenas exatas e práticas. Tecnologia copiada, imitada, sucateada, superada e descartada por aqueles que de verdade produzem ciência e conhecimento. Lixeira mundial do mundo do saber nos querem. Relés imitadores, copiadores e compradores do saber que os outros produzem em seu interesse e querem nos fazer pensar ser o nosso.

Alfabetizar é ensinar a perguntar a razão de ser de todas as coisas que existem. Por que eu não posso morar no condomínio que ajudei a levantar? Por que meu filho não pode estudar na escola que eu acabei de pintar? Por que eu não posso comprar na loja que acabo de limpar? Por que eu não posso compreender a fala do deputado que eu ajudei a eleger? Por que eu não posso comer na mesa que me obrigam a servir para ganhar um salário que não basta para meus filhos saciar?

Alfabetizar é politizar. É mediar as relações cidadãs com a comunicação que sabe dizer e sabe escutar. E sabe polemizar, discutir, cantar e dançar na emoção da multidão na praça reivindicando casa, trabalho e pão. Dizer tudo nas muitas formas de escrever a vida. De forma falada, escrita, gritada, dançada. Na prosa, poesia, música, canção e fantasia. E também com muita emoção e, se for preciso, convulsão, revolução. Sim, pois é preciso o grito, a loucura, qualquer coisa, menos o silêncio do gelo, o silêncio da morte que paira sobre as ruas e praças ao som dos soturnos soldados, armados ou não, que marcham mecanicamente aboletados nos gabinetes do poder.

Alfabetizar é esperançar. É sonhar com um futuro que não seja a repetição do passado ou a eterna continuidade do presente. É a capacidade de fazer-se ausente para contemplar de longe a sociedade em que vivemos e dizer que um outro mundo é possível, sim, se a gente quiser e decidir de fazê-lo, juntos, unindo a indignação e o compromisso com as multidões que não cabem nesse mundo e são impedidas de escrevê-lo com suas próprias histórias.

Alfabetizar é, acima de tudo, amar. Aproximar-se do outro e respeitá-lo em sua alteridade. No seu jeito de ser, de viver, de trabalhar, de rezar, de cantar. É desenvolver a capacidade de escutar o mundo do outro em suas próprias palavras, sem a pretensão de interpretar. Apenas acolher e, se for conveniente, responder, dizendo quem em sou e colocar nossos mundos em comum na diversidade do existir.

Alfabetizar é dar o pulo de Paulo Freire. Passar da mera repetição à criação do saber. Um pulo que assusta os que rastejam pelas estradas do mundo e querem impedir os outros de voar. Isso não deve amedrontar. Nem nos induzir a odiar. O opressor também é desumanizado em sua condição. Ele também precisa de libertação.

Viva Paulo Freire. Viva a educação!

Uma pátria para ser chamada de nossa.

Muito recente é a pátria-Brasil. Talvez um século. Sendo generoso, século e meio. Pouco mais talvez. Até 1922 éramos colônia. Colônia é o que não é por si mesma. É o colonizador quem a diz a partir de sua Pátria de origem. Colônia de Portugal. Mais precisamente: de Sua Majestade o Rei de Portugal. Ele é o pai da pátria, o dono das terras.

Pátria vem do latim pater. Em latim, pai. No caso, o rei de Portugal. Os que habitavam suas terras, eram seus filhos. Legítimos e reconhecidos alguns. Bastardos e desconhecidos, a maioria. Filhos de uma pátria que não os reconhecia como seus. Escravizados os negros. Peças d’África. Ou selvagens a serem domesticados. Nativos colocados à força dentro do domus, da casa do pai. Como escravizados. Jamais como filhos.

Com a Independência, a pátria não mudou de dono. O filho do rei de Portugal assumiu a coroa e fez destas terras a sua pátria. Muitos queriam sua própria pátria: Confederados do Equador, Farrapos do Sul, Cabanos do Grão-Pará, Praieiros de Pernambuco. Só os uruguaios conseguiram e da pátria-Brasil fugiram. À força de muitas guerras formou-se o Império do Brasil. O império da família Orleans e Bragança. Pedro I antes e Pedro II depois. Uma pátria onde mais de metade da população não podia assentar raízes. Não lhes era reconhecida como sua terra. Eram escravizados. Peça d’África aqui reproduzida do ventre escravo. Uma pátria de escravos não é pátria. É casa-grande-e-senzala. Mais senzala que casa grande. Pelourinho; porão; açoite e morte.

O medo de um grande Haiti fez branquear o Brasil. A migração foi a solução. Germânicos, poloneses, espanhóis, italianos, portugueses. Migrante não tem pátria. É hóspede na terra de outro.

O fim da escravidão trouxe a República. Mas a pátria continuou privatizada. A Velha República era do café com leite. O Império virou Fazenda. Donos da terra, da planta e do gado. Donos das gentes que aqui viviam. Os antigos escravos ainda não eram livres. Só passaram a ser reconhecidos como “nacionais” em 1910. Mas sem direito à terra, sem cidadania. Brasileiros de segunda categoria.

O Estado Novo ensaiou um projeto de nação. Fascista, elitista, autoritário. Com um viés nacionalista afinal. O suficiente para ser derrubado pela “revolução” de 1964. Um golpe entreguista que negou a pátria em nome do Império. Não mais o monarquista Orleans e Bragança caricatural. O império agora é do capital. Não tem pátria. É o império do dinheiro, dos bancos, do capital, estrangeiro ou nacional.

Passada a tormenta da ditadura, quisemos uma Nova República. Uma constituição com gosto de cidadania. Aquela de 1988. Universalização da saúde, da cultura, da educação. Trabalho com dignidade, respeito, dignidade. Uma pátria de cidadãos. Não de terra física só. Uma pátria palco de sonhos, de futuros, uma casa sem muros, aberta para todos. Não apenas pátria. Queremos mátria e frátria, uma terra de irmãos e irmãos. O que nos une não é só passado. O passado é dado, é fechado. Mas pode ser alterado. Pátria não é propriedade. Pátria é cidade, universalidade, multidiversidade, pluralidade, felicidade.

7 de setembro ficou para trás. 15 de novembro está no passado. A pátria futura é 20 de novembro, 19 de abril, 8 de março, 28 de junho. A pátria é todos os dias. Pátria é cidadania, real, plena a cada dia. Pátria é, acima de tudo, fantasia. Pátria é utopia.

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Raiana ou uma janela para a liberdade

Janela, fenestra ou ventana. Uma abertura, geralmente a meia altura, nas paredes externas de uma construção. Um buraco protegido. Por vidro, tela, grade, persiana, veneziana. De muitos materiais: madeira, ferro, alumínio, plástico. Em muitos formatos. Pequenos buracos, de parede inteira, panorâmicos, quadrados, redondos, alongados, hexagonais, verticais, horizontais, ogivais como as das góticas catedrais. Janelas de correr, de bater, basculantes.

Em muitas formas, uma só função: permitir, proibir, inibir. De entrar ou de sair. A janela é um regulador. De luz, de ar, de som, de frio ou calor. Na justa medida. De dentro para fora. E do exterior para o interior. Um excelente engenho controlador. Conforme a necessidade. Conforme a curiosidade. Há janelas discretas de cortinas repletas que impedem a vista do interior. E há as indiscretas que do alto contemplam tudo o que passa no exterior.

Janelas não são para pessoas. Gente passa por uma janela de um tipo diferente. Uma janela que chamamos de porta. Uma designação meio torta. Um buraco na parede que vai até o chão. Igual a uma janela. Só que até o chão. Regula a entrada de luz, ar, som, frio e calor. Igual a uma janela. Só que até o chão. Em muitos materiais e formas. Assim como as janelas. Só que até o chão. Com diferente função. Portas são para gente. Para entrar e sair. Ou para impedir.

Raiana Ribeiro da Silva entrou pela porta. Bairro Boca do Rio, Salvador, Brasil, agosto de 2021. A porta cumpriu sua função. Raiana entrou. Melina Esteves França fechou. Gente do bem a patroa. Anúncio na internet. Pouco trabalho. Bom salário. Comida boa. A porta não mais abriu, sua função cumpriu. Raiana de sair impediu. Ela não pode mais sair. O apartamento virou prisão. Cuidar de três crianças a servidão. Sem descanso. De noite e de dia. Todo dia. Todos os dias. Sem comida. Sem água. Sem descanso. Sem salário. Esse seu trabalho diário. Dormir no chão. Ao primeiro pedido de socorro, cortada a comunicação.

A janela trancada. De alto a baixo fechada. Encadeada. A liberdade cerceada. A servidão dos avós, bisavós, trisavós rememorada, revivida, renovada. A África-Brasil reescravizada. Patroa branca não pode viver sem escrava. Babá. Ama-de-leite. Cozinheira. Copeira. Faxineira. Lavadeira. Patroa branca tem mais o que fazer. Cabelereiro, manicure, pedicure, whatsapp, instagram, facebook, as amigas, reais e virtuais, cinema, teatro, shopping, praia e tudo mais.

Vivemos em outro mundo. Corremos em outra raia. Se reclamar bate, espanca, fere, deixa manca. No banheiro tranca. Pequeno cubículo. Escuridão. Uma pequena ventilação. Uma janela. Pequena. Mal entra o ar apenas. Basculante. Raiana olha hesitante. Como escada a pequena estante. Uma janela de oportunidades. O caminho para a liberdade. Desliza seu magro corpo no estreito vão. Três andares. A rua embaixo. Carros, gente, confusão. Arriscar a morte é melhor que a escravidão. Fecha os olhos. Lança o corpo. Tombo no chão. Saiu na televisão. Brasil século XXI. Cinco séculos de escravidão.

Um Corpo Que Cai

Um corpo que cai não é apenas um corpo que cai. Um corpo que cai é toda a humanidade que cai. Estrepitosamente. Fragorosamente. Absurdamente. Ensurdecedoramente cadente. Do alto de um avião em ascensão. Um avião que não é apenas um avião. É uma nação. Um império sem noção. Um império que fez da opressão o seu modo de ação. Vietnã. Coreia. Camboja. Irã. Nicarágua. Panamá. Síria. Iraque. Afeganistão. Até onde irão? Insensatos. Sem razão. Servidão das armas da destruição. Da fome a consorte. Indústria da morte.

O corpo cai. O império cai? Talvez seja cedo demais. Mas há sinais de que cai. Ou é apenas um tombo para subir ainda mais? Por enquanto ouvimos apenas os “ais” dos que caem do sonho de partir para um lugar onde não entrarão jamais. A porta está fechada. A fronteira está fechada. A amizade é apenas fachada que se esvai, se esfumaça, disfarça, trapaça. Aqui o afegão não passa. O turco não passa. O negro não passa. O chicano não passa. Se passa cai. Tomba do muro. Por tontura, altura, arame farpado ou bala. Muitos muros. Duros. Escuros. Berlim é passado. Virado. Desmanchado. Envergonhado. Agora é Ceuta, Melilla, Palestina, Evros, Coreia, El Paso, Ciudad Juarez. Em cada porto. Em cada aeroporto. Em cada cabeça. Em cada corpo. Em cada rosto o muro está escrito, restrito, dito.

Vertigem. A humanidade rodopia qual turbina do C-17 que decola deixando para trás um rastro de corpos que caem. Estamos todos tontos de tanto girar sobre nós mesmos sem saber para onde ir. Para que lado vamos cair na hora em que a piorra de nossos desejos insanos não mais rodar? Para o sul, o norte, o leste ou o oeste? Os corpos caem para baixo. Sempre é bom lembrar. Vertigem de humanidade. Quando um corpo cai, é toda a humanidade que se vai.

Vertigo. Luzes se apagam. Está escuro. Estamos num lugar chamado Vertigem. Isso é tudo o que não queríamos saber. E a noite é cheia de buracos abertos pelas balas douradas que rasgam o céu de Cabul, de Caracas, de Manágua, do Vigário Geral, da Cidade de Deus, do Jacarezinho, do Alemão, de Paraisópolis. Os corpos caem. Corpos árabes, afganis. pashtuns, filipinos, marroquinos, argelinos, indonesianos, chicanos, peruanos, humanos. Jovens. Negros. Pobres. A humanidade cai. Vamos cair. Um buraco sem fim.

Um corpo que cai. Hitchcock não troca mais os corpos. Madeleine não é Judy. “Scottie” Ferguson não está tonto nas alturas. Os corpos que caem são reais. Únicos em suas realidades carnais. Do avião que sai não é apenas um corpo que cai. É um filho, um irmão, um esposo, um namorado, um pai. É amado. Esperado. Chorado. Talvez nem seja enterrado.

O mundo está louco. Aloprado. Alucinado. Não é a papoula. Não é o ópio do talibã. É o ópio do povo. A religião do dinheiro, do negócio, do capital, do lucro. Os aviões vão e voltam. As lágrimas vão e não voltam. As vidas vão e não voltam. As balas e os canhões voltarão? Nossa humanidade voltará? Vertigem. Um corpo que cai. A humanidade que cai.

Madrugadas Olímpicas

As Olimpíadas de Tóquio terminaram. Jogos estranhos. Em meio à pandemia. Sem público. Sem torcida. Silenciosos. Tão silenciosos que podíamos ouvir o som dos golpes do boxeador no ringue, as passadas do atleta na pista, o suspiro da ginasta antes do salto final, o gemido do corredor de longa distância em seu esforço derradeiro para alcançar o pódio.

O congraçamento esperado, adiado e por fim realizado, se transformou em apreensão, medo, tensão. Os atletas foram testados em seus limites físicos. Deram o máximo de suas possibilidades corporais. E também das mentais. Diferente dos jogos anteriores, o desafio físico foi acompanhado pelo psicológico. Mesmo na elite mundial do esporte, alguns sucumbiram à tensão e desistiram da competição. Atletas não são super-heróis. São pessoas de carne, osso e sentimentos.

Em meio a tudo isso, os jogos de Tóquio foram generosos para o Brasil. Nunca o esporte nacional conquistou tantas medalhas. E em modalidades tão variadas. Coletivas e individuais. Novas e tradicionais. Com atletas fazendo subir ao pódio a imensa diversidade dos muitos brasis que somos. Brilharam atletas de ambos os sexos e de muitos gêneros não mais escondidos. Procedentes de todos os recantos e estratos desta imensa nação de muitas nacionalidades e imensas potencialidades. Nordestinos e sudestinos. Pampeanos e amazônidas. Cabeças chatas, redondas e quadradas. De todas as raças, de todas as cores, de todos os sabores e de todos os humores. Urbanos, suburbanos e interioranos. Sem medo de mostrar e dizer suas diversas identidades de um povo que quer, acima de tudo, a felicidade de brilhar e amar.

As noites insones de Tóquio mostraram que, apesar dos ventos contrários que por aqui sopram, o Brasil quer voltar a ser brasileiro. O Brasil com seus corpos atléticos que, diante do mundo, mantêm o bamboleio e sabem gingar, com suas cabeças livres que sabem pensar, capazes de tirar a mãe preta do cerrado e botar o Rei Congo no congado, o Preto Velho no tablado, nas pistas, quadras, ringues, ondas, piscinas, estádios, diante do mundo, sem medo de ser feliz, com ouro, prata ou bronze ou pelo simples orgulho de competir, de dizer “estamos aqui” e vamos comemorar.

Comemorar de muitos jeitos. Comemoração não tem uniforme. Comemoração tem coração. É coisa do coração. Tem silêncio, tem grito, tem soco no ar, tem choro avassalador, tem o olhar desafiador nascido da dor e dos muitos obstáculos superados até chegar a esse momento tão desejado e muitas vezes adiado. Um comemora sozinho, outro com os colegas, com o treinador e, sublimidade esportiva, festeja com o adversário derrotado ou com aquele que o venceu e passa a ser admirado sem ser invejado.

Alguns atletas já voltaram. Outros logo virão trazendo seus louros de bronze, prata e ouro. Já podemos voltar a dormir mais cedo e mais tarde levantar. E, bem descansados, continuar a pensar o país que somos, a nação que formamos e o futuro que sonhamos.