Arquivo mensal: março 2013

Brasil melhora IDH, mas cai uma posição

Da BBC

O Brasil melhorou o seu desempenho no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) de 2012, mas perdeu uma posição no ranking. Segundo o relatório A Ascensão do Sul: Progresso Humano em um Mundo Diverso (em tradução do inglês), divulgado nesta quinta-feira 13, o Brasil foi da 84ª colocação em 2011, para a 85ª no ano passado. Mesmo assim, registrou um índice de 0,730, ante os 0,728 do período anterior. Quanto mais próxima do 1, melhor a nota.

Foto: Christophe Simon/AFP

Mesmo melhorando o IDH, Brasil perde uma posição no ranking de desenvolvimento humano da ONU. Foto: Christophe Simon/AFP

A Noruega se manteve no topo da lista com 0,955, seguida por Austrália (0,938), Estados Unidos (0,937), Holanda (0,921) e Alemanha (0,920). Entre os 186 países analisados, o Brasil aparece no grupo daqueles com IDH elevado, abaixo dos com índice muito elevado. Há ainda dois outros níveis, com os países classificados como de IDH médio e baixo.

O estudo do Pnud, que mede os avanços nacionais em saúde, educação e renda, indica que o mundo está menos desigual devido aos avanços significativos na maioria dos países do Hemisfério Sul nos últimos 20 anos, principalmente em locais de nível médio e baixo de IDH.

Neste quadro, o relatório procura analisar mais de 40 países em desenvolvimento que alcançaram rápidos ganhos em IDH nos últimos anos ao investirem em educação, saúde, serviços sociais e comprometimento estratégico com a economia global. Segundo o estudo, 14 países registraram ganhos de mais de 2% anualmente no IDH desde 2000, entre eles o Afeganistão, Serra Leoa, Angola, Níger e República Democrática do Congo.

Na lanterna do ranking, está o Níger (0,304), afetado por uma intensa seca. Em penúltimo lugar aparece a República Democrática do Congo (0,304), em conflito interno. Ainda assim, esses países tiveram melhoras em seus resultados na comparação com 2011.

O país com a melhor classificação na América do Sul é o Chile (0,819) na 40ª posição, o único do continente no grupo das nações com nível de desenvolvimento humano muito elevado. O Brasil também está bem atrás da Argentina (0,811), em 45º lugar, do Uruguai (0,792), em 51º, da Venezuela (0,748), em 71º, e do Peru (0,741), em 77º.

Desigualdades internas fazem vários países perderem pontos

O Pnud também calculou um ranking com o IDH ajustado pelas desigualdades internas em saúde, educação e renda. Os números mostram que a desigualdade entre os países pode estar caindo, mas dentro deles cresce em diversos lugares.

Levando em contas estes fatores, alguns dos países mais ricos do mundo caem diversas posições. Noruega e Austrália perdem pontos, mas se mantém em 1º e 2º lugares, respectivamente. Já os Estados Unidos despenca do 3º lugar para o 16º, porque, embora tenha um IDH geral de 0,937, a comunidade latina tem um nível de 0,750 e os negros, 0,700. Outros que caem na lista são o Canadá (de 11º para 15º), Coreia do Sul (de 12º para 28º) e Israel (de 16º para 24º).

O Brasil perde 12 posições com os critérios do IDH ajustado, deixando a 85º para 97º. Com isso, o país perde o status de desenvolvimento humano elevado e passa para médio. Entre os países que sobem neste ranking estão a Suécia, que vai do 7º para o 4º lugar, a Islândia (de 13º para 10º) e a Dinamarca (de 15º para 12º).

Com o IDH ajustado pela desigualdade em 132 países em 2012, 23% do IDH é perdido pela desigualdade. Entre 1990 e 2005, esse mesmo índice para 66 países mostra que a desigualdade geral caiu apenas de forma marginal, porque a diminuição da desigualdade em saúde e educação foi superada pelo aumento da desigualdade de renda. A América Latina, em contraste com o restante do mundo, tem visto a desigualdade de renda cair desde 2000. Mas ainda tem a mais desigual distribuição do mundo.

Desigualdade de gênero

Segundo o Pnud, a Holanda tomou a ponta da Suécia como o país com a menor desigualdade de gênero, com um índice de 0,045. O estudo considera dados oficiais sobre saúde reprodutiva, poder das mulheres e participação no mercado de trabalho. Quanto mais próximo de zero, melhor. Logo atrás da Holanda vêm a Suécia (0,055) e a Suíça (0,057).

O Brasil aparece na 85ª posição, com 0,447. Um nível quase dez vezes maior que o do primeiro colocado na lista. A situação brasileira, porém, é intermediária entre os 148 países com dados disponíveis sobre o tema. As regiões com maior desigualdade são a África Subsaariana, Sul da Ásia e os Estados árabes. Nas últimas posições estão Iêmen (0,747), em 148º, o Afeganistão (0,712), em 147º, a Índia (0,610), em 132º, e o Egito (0,590), em 126º.

Extrema pobreza

O estudo também apontou que a primeira meta do Milênio da ONU, a redução pela metade da proporção de pessoas vivendo com menos de 1,25 dólares por dia relativa, foi atingida três anos antes do esperado. Algo que ocorreu em função, principalmente, do sucesso de países populosos em erradicar a pobreza extrema. “Brasil, China e Índia diminuíram dramaticamente a proporção de seus cidadãos pobres. O Brasil foi de 17,2% da população em 1990 para 6,1% em 2009; a China de 60,2% para 13,1% em 2008; a Índia de 49,4% para 32,7% em 2010”, destaca o texto.

O resultado, no entanto, é ofuscado pelo número de pessoas vivendo em pobreza multidimensional: cerca de 1,56 bilhão de pessoas, mais de 30% da população dos 104 países analisados para este índice. Um valor maior que as cerca de 1,14 bilhão de pessoas vivendo com menos de 1,25 dólares por dia, embora abaixo da proporção daqueles que têm menos de 2 dólares por dia.

A pobreza multidimensional é calculada por meio de fatores a nível familiar, como alfabetização adulta, matriculas escolares infantis, mortalidade infantil, acesso à agua limpa, eletricidade e saneamento básico, assim como bens familiares básicos e construção de casa, que juntos fornecem um retrato mais amplo da pobreza que as medidas por renda.

Os países com maior índice estão todos na África: Etiópia (87%), Libéria (84%) e Moçambique (79%) são os que mais têm pobres multidimensionais. Ainda assim, o maior número absoluto de pobres multidimensionais está no sul da Ásia, sendo 612 milhões deles indianos.

Risco de cofres vazios dá força à eleição de um papa italiano

Contam os anticlericais que os cartuchos – que fazem voto de silêncio – elegem o seu representante de forma agitada. Ninguém fala, mas os cartuchos trocam bilhetes debaixo das mesas o tempo todo.

O cardeal Ravasi conta com o lobby fortíssimo da agremiação laico-social dos Focolari. Foto: Osservatore Romano

O cardeal Ravasi conta com o lobby fortíssimo da agremiação laico-social dos Focolari. Foto: Osservatore Romano

Nessa eleição para o sucessor de Ratzinger ao trono petrino, o silêncio foi posto de lado e só faltaram comícios, embora, no domingo, cada cardeal papável tenha se apresentado a celebrar missa nas suas paróquias honorárias. E todos os vaticanistas ficaram de olho no que foi dito na homilia.

Mas, dos 115 cardeais votantes, muitos estão preocupados. A ponto de reformularem o voto a fim de eleger um papa italiano. Afinal, os votantes precisam “segurar a barra”. E a barra é valiosa.

Pelos cálculos do respeitado matemático Piergiorgio Odiffeddi, a Santa Sé custa (para o governo e o povo italiano) 9 bilhões de euros por ano. A propósito, a Itália está internamente mais quebrada e 3 em cada 5 jovens não conseguem um posto para trabalhar. Atenção: 9 bilhões/ano em dinheiro vivo. Ou, como dizem por aqui, em “contante”.

A “grana” decorre do pacto e da concordata Lateranense, que, em 1929, o papa Pio IX (astai-Ferretti) firmou com o então primeiro-ministro Mussolini. Este, interessado no apoio da Igreja ao seu projeto fascista. Convém lembrar que, antes de chegar ao poder, Mussolini era um anticlerical.

Os últimos três primeiros ministros italianos jamais cogitaram em revisar o pacto e a concordata Lateranense. Berlusconi se dizia, como chefe de governo, o garante dos valores morais pregados pela Santa Sé. Antes dele, o premier era Romano Prodi, católico de sacristia. Mario Monte, que arrochou a Itália e produziu recessão e desemprego jamais sentidos, virou, na última eleição, o candidato veladamente apoiado pelo Vaticano, tudo em dobradinha com o “papa-hostia” Casini. Com medidas impopulares e a mexer com o bolso e o estômago dos italianos, Monti foi o maior fracasso da última eleição. Nem para coligações a assegurar governabilidade o premier-vacante é cogitado.

Hoje, e em tempo de midiática eleição papal, vários políticos italianos, com o populista Grillo à frente, aproveitam para falar de revisão do pacto lateranense ou calote.

Esse quadro está a pesar em favor de um papa italiano. Italiano e capaz de garantir os 9 bilhões de euros anuais. Isso vem sendo ressaltado por canonistas (no mundo laico se chamariam juristas) e vaticanistas.

Como percebem até os coroinhas dos bairros paulistanos da Mooca e do Bom Retiro, não é por acaso que existem 28 cardeais italianos num colégio votante de 115. Toda a América Latina tem menos cardeais que a igreja italiana. Idem a África, a Ásia e as Américas do Norte e Central.

Esse risco de cofres vazios teria levado a uma frustrada tentativa de acordo no final de semana. Acordo entre os dois grupos que polarizaram o pré-conclave. Ou seja, acordo entre o grupo reformista da Cúria, liderado por Angelo Scola e o grupo antirreformista da cúria, com Odilo Sherer à frente.

Pelo acordo, Sherer seria o papa e o italiano Scola ficaria, como secretário de Estado (equivalente a primeiro-ministro) no governo da Cúria, que deseja reformar.  Scola teria resistido ao acordo. Até porque teria, no momento, 40 votos e o brasileiro Scherer apenas 25. Mais ainda, o secretário de Estado é nomeado pelo papa e, como o latim é língua oficial do Vaticano, demissível “ad nutun”, ou seja, com um balançar de cabeça do papa.

Como o acordo não saiu, apareceu um terceiro papável italiano e com trânsito na política italiana. Trata-se do biblista e hebraísta Gianfranco Ravasi. O cardeal Ravasi conta com o lobby fortíssimo da agremiação laico-social dos Focolari. E o lobby dos focolari é tão forte como o religioso do Opus Dei ou o lobby da Comunhão e Libertação que apoiam Scola. Já o lobby dos Cavaleiros de Colombo, fundado em 1920 nos EUA, é feito para eleger o carismático e bem humorado cardeal de Nova York.

“Bento 16 apostou todas as fichas no continente errado”, diz historiador

Sucessão Papal Contradizendo projeções demográficas e da própria história recente da Igreja Católica, o papa Bento 16 priorizou a Europa no seu pontificado, afirma o padre e históriador José Oscar Beozzo.

Em entrevista à Folha por telefone, Beozzo diz que, apesar do apoio de Bento 16 ao arcebispo de Milão, Angelo Scola, muitas vezes os papas não fazem seu sucessor.

Padre da paróquia São Benedito, em Lins (SP), Beozzo é coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular e autor de livros e artigos sobre a história da igreja no Brasil e na América Latina.

Rogério Cassimiro/Folhapress
O padre e historiador José Oscar Beozzo
O padre e historiador José Oscar Beozzo

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Folha – O que se pode dizer sobre o provável novo papa?

José Oscar Beozzo – Essa renúncia de Bento 16 mexeu profundamente com a igreja toda, com o inusitado do seu gesto. Ele fechou o arco de um movimento iniciado no Concílio Vaticano 2º (1962-65), que de maneira muito sábia fixou um limite de idade para bispos e párocos: 75 anos.

Bento 16, com a renúncia, apontou com toda clareza que a norma conciliar devia ser tomada em conta também pelo papa e abriu caminho para que seja levada em consideração por futuros papas.

Creio que os cardeais serão muito cautelosos no conclave. A tendência, após um pontificado muito longo, é escolher um cardeal de mais idade, para um pontificado breve. Quando ele é breve, surge a tendência inversa ou um meio-termo. Tenho a impressão de que o papa vai ser escolhido entre cardeais perto dos 70 anos de idade, mas não mais, por causa do breve pontificado de Bento 16.

O Brasil tem cinco cardeais no conclave, menos que os EUA (11), por exemplo. Por quê?

Acho que foi uma política de Bento 16. Primeiro, ele fez muitos cardeais na Europa e na Cúria ou nos países do norte. De fora da Europa, foram criados só três. Nenhum, porém, na América Latina ou na África, que juntos abrigam quase 60% dos católicos.

Houve críticas generalizadas. Nove meses depois, inopinadamente, ele criou seis cardeais: nas Filipinas, na Índia, na Nigéria, no Líbano, na Colômbia… foi uma espécie de remendo na escolha anterior, que incluiu um brasileiro, mas como cardeal de Cúria: dom João Braz de Aviz.

Três quartos dos fiéis da igreja estão fora da Europa. Não há muito cabimento em ter mais da metade dos cardeais eleitores lá, quando ela representa hoje só uns 23% dos católicos do mundo. Nesse sentido, há sobrerrepresentação europeia entre cardeais e “sub-sub-sub-representação” da América Latina.

Por que Bento 16 reforçou o eurocentrismo?

Ele viu como o grande desafio do seu pontificado recristianizar a Europa. Apostou todas as fichas no lugar errado, a meu ver. A população da Europa, envelhecida, decresce em vários países.

Quando se tem uma população envelhecida, não se sonha muito com o futuro. A igreja na Europa e a igreja na África vivem dois mundos totalmente diferentes. Uma está ancorada no passado, a outra projetada para o futuro.

Mais da metade dos cardeais com direito a voto foi escolhida por Bento 16. Esse colégio pode chegar à conclusão de que é preciso deseuropeizar?

Depende muito da conversa entre os cardeais nos próximos dias e do amplo debate, em escala mundial, que a renúncia desencadeou.

Cardeais asiáticos e da África vão apresentar a realidade daqueles continentes. É um momento rico nesse sentido, pois se sairá do discurso monocórdico ditado pelo centro da igreja. Quem vai dar as cartas não será só a Cúria.

Bento 16 preparou um sucessor, o arcebispo de Milão…

Bento 16 transferiu o cardeal Scola de Veneza –que é meio fim de carreira, como o posto de um marechal no Exército– para Milão. Para bom entendedor da política interna, é uma sinalização.

Havia mais de 400 bispos na Itália, entre os quais o papa podia escolher livremente um para Milão. Escolheu alguém que aparentemente não deveria ser removido, por estar num lugar prestigioso.

Outra possível sinalização foi a escolha de um dos cardeais eleitores, Gianfranco Ravasi, para pregar seu último retiro como papa.

Mas podemos também nos voltar para a história: Leão 13 falou aos cardeais sobre quem ele gostaria que fosse seu sucessor, mas o indicado não foi o escolhido. Depois, Pio 10º apostou no cardeal Gotti, mas ele também não foi eleito. O papa pode dar seu pitaco, mas não significa que os cardeais necessariamente seguirão sua sugestão.

Com a renúncia, Bento 16 está enfraquecido ou fortalecido para a escolha do sucessor?

Ele nomeou 67 cardeais, mais da metade dos votantes. Há poder maior? Por outro lado, com a renúncia, ele vai se recolher em copas. Não tem sentido ele ter renunciado e buscar influenciar diretamente o conclave. Com seu gesto, mostrou humildade e grandeza humana e espiritual.

Renúncia de Bento 16 ‘cria dilema de legitimidade’ para novo papa

Michael Walsh*, Especial para a BBC

Papa Bento 16 (Foto Reuters)Muita gente esperava que Bento 16 voltasse a ser cardeal após a renúncia

A renúncia de Bento 16 tem gerado questionamentos entre teólogos, sendo que alguns alegam que o agora “papa emérito” não deveria ou mesmo não poderia ter se desligado do pontificado.

De acordo com essa segunda tese, defendida pelo teólogo Enrico Maria Radaelli, quando os cardeais se reunirem para eleger um sucessor estarão, na realidade, elegendo um antipapa – ou um impostor.

Não é a primeira vez que esses questionamentos ocorrem.Bento 16 disse que renunciou porque sentiu que não poderia cumprir com os compromissos de seu cargo – e os mesmos motivos foram alegados em 1294 por Pietro da Morrone, o papa Celestino 5º, que renunciou apenas seis meses depois de assumir a liderança da Igreja Católica.

Morrone queria voltar a ser ermitão, mas Bonifácio 8º, seu sucessor, achou mais prudente prendê-lo em um castelo para o resto de sua vida, temendo que seus desafetos se reunissem em torno do ex-papa.

E não faltaram desafetos durante o pontificado de Bonifácio 8º. Um dos argumentos levantados por seus inimigos era que papas não poderiam renunciar – então Bonifácio 8º não poderia ser o legítimo herdeiro de São Pedro.

Cisma

Há figuras dentro e fora da Igreja que poderiam explorar tais teorias de ilegitimidade se o novo pontífice começar a tomar um caminho muito diferente de seu antecessor – por exemplo, no que diz respeito ao papel das mulheres na Igreja ou à promoção da tradicional liturgia em latim.

Um exemplo é o do grupo católico dissidente Sociedade de São Pio 10º.

O grupo esteve à beira de declarar que Bento 16 não era um legítimo sucessor de São Pedro porque ele aceitou os ensinamentos do Concílio Vaticano 2º, de 1960 – aos quais a Sociedade de São Pio 10º se opõe.

Bento 16 trabalhou duro tentando trazê-los de volta para a Igreja Católica – duro demais aos olhos de alguns -, mas não teve sucesso. E a Sociedade de São Pio 10º continua a ser uma Igreja separada, atraindo católicos descontentes. Mais uma divisão dentro do cristianismo.

Papa Bento 16 (Foto AP)Para historiador, decisão de transformar Bento 16 em ‘papa emérito’ causaria confusão

O colapso dessas negociações, ocorrido pouco tempo antes de Bento 16 anunciar sua renúncia, pode ter contribuído para o seu cansaço.

Uma lição (muito) curta de teologia católica é necessária neste ponto: os postos de padre e bispo são considerados sacramentais, como o batismo ou o casamento.

Um bispo e um padre podem renunciar a seu trabalho, mas, segundo a Igreja, continuam a ser bispos ou padres.

O papado, porém, não tem um status sacramental, mas é uma função.

Confusão

O papa é o bispo de Roma. Ele pode deixar essa função (todos os outros bispos devem apresentar sua renúncia aos 75 anos) e, portanto, pode deixar de ser papa.

Não há problema nisso.

Muita gente esperava que Bento 16 voltasse a ser o cardeal Joseph Ratzinger após a renúncia – o que aconteceu com dois papas rivais em 1415 (por um período, um cisma na Igreja Católica fez com que houvesse três papas).

Em vez dessa solução sensata, porém, foi anunciado que ele será “emérito pontífice”, devendo ser chamado de “sua santidade” e podendo se vestir de branco (ainda que tenha de deixar de usar o sapato vermelho dos papas).

A decisão cria incertezas, fazendo Bento 16 parecer quase um “papa alternativo”.

E a confusão fica ainda pior: Ratzinger vai manter seu secretário particular, o arcebispo Georg Gaenswein, que atualmente também é o “guardião” da casa do papa – embora seja provável que o novo pontífice escolha outra pessoa para a função.

Vaticano (Foto Reuters)Helicóptero do papa sobrevoa o Vaticano: incertezas

Além disso, o “papa emérito” vai continuar a viver no Vaticano e o novo papa pode achar a proximidade desconfortável, sentindo-se obrigado a consultá-lo especialmente sobre assuntos que foram importantes durante o seu papado, como a controversa reintrodução do latim na liturgia católica.

Reclusão

Bento 16 diz que passará a viver em reclusão. Ele sempre foi mais feliz com seus livros (e gatos) do que com pessoas, de modo que isso não deve ser um fardo muito pesado.

Ratzinger também pretende escrever. Como papa ele costumava insistir que seus textos teológicos eram uma produção de Joseph Ratzinger, não de Bento 16, embora seja impossível negar que seu posto à frente da Igreja Católica ajudou a impulsionar as vendas dessas obras.

Talvez não haja alternativa realista à permanência de Ratzinger no Vaticano.

Se ele voltasse para sua amada Regensburg, por exemplo, alguns poderiam tentar processá-lo por não dar tratamento adequado às denúncias de abuso de padres e bispos, enquanto outros poderiam transformar sua residência em um santuário, um ponto de encontro para dissidentes do novo pontífice.

Mas certamente há questões legítimas sobre seu título de “pontífice emérito”.

Além das mencionadas acima, tal opção também abre a possibilidade de que Ratzinger, sempre elogiado por sua humildade, seja acusado de deixar-se tomar pela vaidade.

* Michael Walsh é um historiador papal e autor de vários livros sobre o tema, entre eles o Dicionário dos Papas, publicado no Brasil pela Edições 70.