Os livros que eu nunca li

Aproveito a ocasião do Dia do Livro para tornar pública uma paixão que eu nunca ocultei de ninguém: sou viciado em livros. E não é vício novo. É antigo. Vem desde a infância. Aos sete anos, ganhei meus primeiros livros. Só aos sete? Sim. Livro, lá no interior, para uma família pobre como a nossa, era um luxo!

Estava eu no Segundo Ano do Primeiro Grau (era assim que se dizia na época), e a professora Maria Polesel Didoné, minha primeira professora, pediu aos pais que comprassem livros para seus filhos, alunos na brizoleta da Linha Aimoré, a Escola Estadual Rural João Ghellere.

Na primeira ida à cidade, meu pai voltou com três livros. Capa dura, coloridos, papel branco… Devem ter custado caro os meus três primeiros livros: “João e o Pé de Feijão”, “Os Três Porquinhos” e “Chapeuzinho Vermelho”. Três clássicos da Literatura Infantil certamente recomendados pela vendedora da Livraria Parisi, a única existente na época em Veranópolis.

Não sei quantas vezes li e reli aqueles três livros. Em seguida começaram a circular entre nós os gibis da Walt Disney. Fiz meu up grade com a leitura do “Príncipe Valente” do Harold Forster. Aí o vício estava instalado e não parei mais. Lia de tudo. O que viesse pela frente. Comecei a exercitar meu discernimento literário com a professora de Língua Portuguesa e Literatura no Segundo Grau, a incrível e inesquecível Professora Ida Sonda Pessin. Professora com “P” maiúsculo. Ela me apresentou os clássicos da Literatura Brasileira. Jorge Amado foi minha grande paixão. E na Biblioteca do Seminário estava todo o Jorge Amado: uma longa fila de livros de capa vermelha que fui degustando um a um, saboreando aquele mundo tão estranho para mim.

Foi a professora Ida quem me apresentou aquele que para mim é, até hoje, o clássico dos clássicos brasileiros: “Grande Sertão: Veredas” do João Guimarães Rosa. No final do ano, no último dia de aula, ela veio até mim, me estendeu o livro e me disse: “Aproveita para ler esse livro nas férias”. Não li de uma sentada só porque isso é impossível! Mas não conseguia parar… Foi uma experiência espetacular que só se repetiria em outras duas ocasiões com outros dois livros: “O Nome da Rosa” de Umberto Eco e o “Ciem Años de Soledad”, de Gabo Márquez. Uma experiência da qual se aproximaria a leitura de “La Ciudad y los Perros” de Vargas Llosa, “Waslala” de Gioconda Belli e “La Casa de los Espiritos” de Isabel Allende.

Minha paixão por livros é tanta que as bibliotecas são o meu playground preferido. O cheiro dos livros é perfume comparável aos das flores do jardim. Passear entre as estantes, um verdadeiro prazer. Passeando as mãos nos livros enfileirados, me sinto como Mário Quintana olhando o mapa de Porto Alegre:

Olhos os livros da biblioteca
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo
(E nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Dos livros da biblioteca
Que jamais eu lerei…

O outro lado desta história é que o meu vício virou profissão quando meu tornei professor. E os livros que antes eram diversão, transformaram-se em instrumentos de trabalho. O que era prazer, virou obrigação. Não que haja oposição entre as duas versões da paixão. Leio com prazer o que é obrigação e faço da obrigação um prazer. Mais ou menos como o amante de vinhos que vira enólogo. Só não leio com moderação! Não me peçam isso jamais… Leio e sempre lerei com devoção e com tesão.
Até quando lerei? Não sei… Só sei que gostaria de morrer com a cabeça descansando sobre um livro. Ou com um livro nas mãos. Ou no meio de uma leitura, o livro caído ao lado da cama, leitura inconclusa de uma vida que se vai.

Hoje, olhando para trás nessa história toda, me faço uma pergunta: e se meu pai, em vez de ouvir as palavras da professora Maria e comprar meus três primeiros livros, tivesse comprado e me presenteado com uma arma de brinquedo? O que eu teria me tornado se tivesse ganho, aos sete anos, uma imitação de um revólver, espingarda ou metralhadora?

É muito provável que eu não teria lido tantos livros em minha vida… E hoje, certamente, eu não seria professor. Poderia ser algo bem diferente. Talvez Capitão Presidente ou General Ministro de Estado. Ou simplesmente um miliciano.

Os livros traçam destinos. Tanto os que lemos como os que não lemos. Tenho gratidão pelos livros que eu li. E tenho saudades dos que ainda não li e ficam na esperança de que um dia talvez possa ler.

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Morrer para dentro

Os números nos excedem. São tão monstruosos que ultrapassam nossa capacidade de mensuração. Não é que não saibamos mais contar ou que dois mil, três mil, quatro mil ou quatrocentos mil sejam quantidades que já não nos dizem nada. Nosso cérebro conta. Mas ele não consegue mais processar o que significa tal quantidade de mortos. A cifra e a dor embutidas nela são de tal monta que a única defesa é o anestesiamento auto infligido. Um anestesiamento emocional para poder suportar a dor e a vergonha de uma sociedade que se permite a morte das pessoas mais frágeis.

A eutanásia é algo não admitido pela maioria das pessoas em nossa sociedade. Muito menos a eugenia e o extermínio dos fracos e indigentes. Na história da humanidade, apenas regimes totalitários adotaram tais práticas. E as pessoas que lideraram tais processos genocidas são hoje apresentados como excrecências históricas. No entanto, o modo como está sendo abordada por alguns líderes brasileiros a crise da Covid19 faz com que nos coloquemos interrogações sobre as reais intenções que os animam. Quando um prefeito de uma capital apela a um cidadão para que “contribua com sua vida para que a gente salve a economia”, estamos muito perto da barbárie.

O peso é tanto, que muitos já não o suportam. A dose de autoanestiamento exigido para poder suportar o absurdo civilizatório em que fomos jogados é tão pesada que muitos já não conseguem emergir das trevas que nos rodeiam. São poucas as manchetes dos jornais e os espaços televisivos e radiofônicos que tratam de tal assunto. Mas cada um de nós – feliz de você se não está neste número – sabe de um familiar, amigo ou conhecido que, em meio à pandemia, tomou a decisão de acabar com a própria vida. Às vezes pessoas que imaginávamos nunca chegariam a tão trágica opção. Um médico, um professor, um padre, um pastor… Personalidades que sempre imaginamos fortes, conscientes, respeitosas da vida dos outros e da própria. Num gesto inexplicável e incompreensível decidem partir deste mundo que se tornou insuportável.

Alguns dos que desta maneira partem deixam uma mensagem de despedida. Outros partem sorrateiramente sem deixar qualquer vestígio. No primeiro caso, suas palavras são um chamado a ser escutado. No segundo, seu silêncio é um grito de dor a ser respeitado. Porque ninguém que parte desta maneira, parte sem dor. O suicídio é o ponto final de um longo e penoso processo de partidas interrompidas e nunca escutadas.

O suicídio é uma decisão individual. Mas ele revela um mal-estar social. Assim como não existe vida que nasça por si mesmo, toda morte carrega consigo um pedaço da vida dos outros. Cada suicídio é também um pouco de cada um de nós que morre. Em cada um que opta por partir, é denunciada a cultura tanatófila de nosso tempo que se tornou insensível à morte de milhões.

Vivemos uma explosão de mortes. É tamanha que ultrapassa tudo o que nossa geração já viveu. É preciso interrompê-la já. Mas é preciso estar também e desde já atentos às vidas que implodem por já não suportarem tanta dor. É preciso manter distância física para evitar o contágio viral. É indispensável aproximarmo-nos dos que estão à deriva e na ameaça de implosão e dar-lhes apoio emocional. A morte não é apenas o espetáculo morboso no jornal televisivo da noite. Há muitos morrendo silenciosamente para dentro. Para estes, não basta máscara, distanciamento e vacina. É preciso aproximação, carinho e compaixão.

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A Igreja não se fecha!

Escrevo este texto na terça-feira da Páscoa. Uma Páscoa diferente. Diferente como foi a do ano passado. Uma segunda Páscoa em meio à Pandemia. Uma Páscoa com celebrações restritas. E com poucas comemorações. Uma Páscoa com Igrejas fechadas ou com acesso limitado. Uma Páscoa com o comércio vazio e os cemitérios lotados. O choro da Paixão do Senhor continuou no sábado e domingo e segue ainda hoje pelo contágio, intubação e morte de pessoas cada vez mais próximas de nós.

O silêncio do sábado de espera foi rompido por uma notícia insólita. Um ministro do Supremo Tribunal Federal autorizou liminarmente a realização de cultos religiosos em todo o Brasil. Decisão monocrática e contrária a outras decisões anteriores do Pleno do STF. Prefeitos, governadores e até outros membros da Suprema Corte manifestaram-se contrários. As igrejas afiliadas ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) chamaram ao bom senso e à necessidade de não fazer dos templos um lugar de transmissão do vírus e de propagação da morte.

A intervenção de outro ministro do STF fez com que a disputa seja decidida amanhã, quarta-feira, no plenário do STF. Esperamos a decisão. Será uma decisão jurídica que todos os brasileiros e brasileiras terão como referência. Do ponto de vista religioso, no entanto, a polêmica veio colocar um ponto de não retorno no cristianismo brasileiro. E não apenas nesta ou naquela denominação religiosa. É um marco que atravessa todo o cristianismo porque, em todas as igrejas, há membros que defendem a abertura e membros que defendem o fechamento.

O que está em questão, é o que compreendemos por Igreja. Quando falamos a palavra “igreja”, pensamos no prédio em que nos reunimos ou pensamos na comunidade que é o Corpo de Cristo e o Templo do Espírito Santo? Se esta segunda compreensão é a que habita nossos corações, não há necessidade de templos abertos para praticar a fé. Onde dois ou mais estiverem reunidos, aí está Deus no meio de nós. Como diz a nota do CONIC, isto pode ser feito em família, online e no coração de cada um. E mais: onde houver um irmão ou uma irmã passando fome, com sede, nu, doente, preso… aí está o próprio Cristo. Não há necessidade de ir ao templo para encontrá-Lo. Ele está abandonado em nossas ruas, parques, praças perambulando por não ter casa e, desempregado, pedindo pão para seus filhos. Ele está clamando nos hospitais lotados e nas UTIs abarrotadas, esperando atendimento, intubado, morrendo… Os verdadeiros adoradores, já dizia Jesus, não são os que vão ao Templo de Jerusalém ou ao Monte Garizim para rezar, mas os que o adoram em Espírito e Verdade.

A decisão do STF será uma decisão jurídica. Prevalecerá a lei, a Constituição que esperamos seja interpretada com o bom senso que a situação merece. Mas a decisão de fé já está dada. As duas opções são claras: há os que adoram o Deus da Vida e os servidores da morte. Há os pastores que dão a vida pelas ovelhas (e os há em todas as igrejas) e há os mercenários que só pensam no dízimo e nas doações dos fieis. Há as Igrejas e há os grupos empresarias que exploram a fé dos pobres e desesperados. Essa é a divisão básica entre as igrejas e em todas as igrejas. Independentemente do que decida o Supremo Tribunal Federal, cada um e cada uma sabe o lado que está tomando. Não há mais o que fingir. Deus está vendo. E todos nós também. Amém.

Sexta-feira de Páscoa

Por que no Brasil as celebrações da Sexta-feira Santa são muito mais concorridas que as do Domingo da Ressurreição? Muitos agentes de pastoral se fazem essa pergunta e a respondem, geralmente, culpando a ignorância religiosa dos fieis. Nessa resposta há um equívoco que nasce do desconhecimento da história do catolicismo no Brasil e de um lapso teológico grave.

Nós também nos fazemos esta pergunta e buscamos respondê-la no vídeo abaixo. Confira e pense conosco:

Meus medos.

Sou uma pessoa medrosa, sim, e não tenho escrúpulos em confessá-lo. E não tenho um medo só. Tenho muitos medos. Inumeráveis medos. Um deles é o medo das alturas. Não gosto de chegar perto de precipícios. O Cânion do Itaimbezinho é um dos meus lugares preferidos para passear. Mas nada de me aproximar da borda do precipício. Fico bem longe! Só olhando…

Também tenho medo de velocidade. Quando dirijo, nunca ultrapasso os cem quilômetros por hora. Mesmo na autoestrada onde isso é possível. É o meu limite! Por mais que zombem de mim e da lentidão com que ando… E se estou de carona e o motorista passa dos cem, já fico incômodo e peço para andar mais devagar.

Também tenho medo de instalações elétricas. Nunca levei um choque nem presenciei algum acidente elétrico mais grave. Mas quando vejo um emaranhado de fios, ainda mais se houver algum velho, solto ou desencapado, eu é que fico pilhado!

Teria muitos outros medos a confessar. Mas fico por aqui. São suficientes para dizer que não tenho medo dos meus medos. Aprendi a conviver e até gostar deles quando me dei conta que são uma proteção. Cair do alto de um prédio ou de um penhasco, fazer um acidente em alta velocidade, levar um choque de 220 volts, é um risco de morte. Ter medo é uma forma instintiva ou aprendida de preservar a vida.

Os medos são bons. Todos precisamos deles para sobreviver. O contrário do medo não é a coragem e a valentia. Muitos dicionários dizem isso. E o senso comum também. Mas é preciso pensar. E se formos a fundo, veremos que o contrário do medo é a imprudência e a inconsequência. Quem não tem medo de nada, muito facilmente acaba tomando atitudes e assumindo comportamentos que provocam dano a si mesmo ou fazem mal aos outros. Não ter medo de dirigir em alta velocidade pode levar à morte do motorista, de quem está com ele no carro e de outras pessoas que se tornam vítimas inocentes da suposta coragem do dito motorista. Não ter medo de ficar doente, nestes tempos de pandemia, está levando à morte de muitos valentões e, o que é pior, de seus familiares e amigos que sofrem as consequências de seus comportamentos desatinados.

Não sei se existe uma palavra que possa ser tida como expressão exata daquilo que é contrário ao medo. Mas, naquilo que a vida me ensinou, considero que, para viver com os medos do dia a dia, duas atitudes são necessárias. A primeira, é a prudência. Uma virtude que anda bastante esquecida nestes tempos de muita pressa. Ser prudente, no entanto, não é ir devagar. Muito menos desistir do que se quer. Ser prudente é analisar as diversas possibilidades e discernir o melhor caminho para atingir o fim almejado.

Pode não ser o caminho mais fácil. E nem o mais rápido. Mas aquele que, ao fim e ao cabo, resulta no objetivo almejado. Ao lado da prudência, para conviver com os medos, é preciso a serenidade. Todos sabemos o que é um céu sereno. E todos deveríamos saber que, quem tem um espaço interior despejado, limpo, sem nuvens escuras e tempestuosas, consegue aceitar e superar seus medos e não se deixar intimidar pelos perigos que vem de fora.

Hoje, assim como em todos os tempos, não ter medo, é um perigo. Para si e para os outros. E uma confissão de fraqueza disfarçada em aparente valentia. Com meus medos, procuro cultivá-los e conviver com eles. Dos que não sabem conviver com os próprios medos, guardo distância e um indisfarçável desprezo: coitados, são covardes a ponto de ter medo de seus medos!

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Plenamente humano, simplesmente irmão!

2020 foi o Ano da Pandemia. Tivemos que nos isolar e reinventar para continuar trabalhando. Entre as tarefas extras do ano que passou, tive a alegria de organizar, junto com o Irmão Edimar Moreira, este livro sobre a Vida Religiosa de Irmãos.

Foi um compromisso e um privilégio. O resultado foi publicado agora no início de 2021. É um trabalho a muitas mãos, dentre elas as da querida Irmã Annete Havenne, de Rivadalve Paz Torquato, Paulo Dullius, Epifânio Barbosa Lima, Jorge Luiz de Paula, Oton da Silva A. Junior, Edgar Genuíno Nicodem, João Gutenberg Mariano C. Sampaio, Lucas José Ramos Lopes, Otalívio Sarturi, Rubens Nunes da Mota, Edimar Fernando Moreira e Cláudio André Dierings. E, claro, também tem um texto de minha autoria.

O livro pode ser adquirido na página da CRB Nacional.

Sobre escrófulas e cloroquina

Cloroquina todo mundo já sabe o que é: um medicamente usado para prevenir ou controlar os efeitos da malária. Eu o conheço pessoalmente. Durante cinco anos tomei cloroquina como preventivo à malária e, até o fim dos meus dias, guardarei seus efeitos colaterais. O primeiro, pequenas coagulações no humor vítreo do olho direito. Elas fazem que, ao olhar para um fundo claro, eu enxergue pequenos pontos pretos movendo-se de um lado para outro. O outro é uma taquicardia que, graças aos medicamentos que tomo diariamente, está sob controle.

Tem gente que, contra todas as evidências disponíveis, acha que a cloroquina também serve para prevenir a Covid19. Resultado dessa crença é que, no final da pandemia – espero que seja para breve – haverá muitos brasileiros com problemas oculares, cardíacos e hepáticos (que eu não tive, graças a Deus!).

Já sobre as escrófulas, só fiquei sabendo delas ao ler as obras de Marc Bloch. No livro “Os Reis Taumaturgos”, o historiador francês faz um estudo sobre um curioso fenômeno medieval: a crença de que os reis da França e da Inglaterra tinham o poder de, com o toque das mãos, curar os doentes afetados por este terrível mal. Geralmente associadas à tuberculose, as escrófulas têm sua origem na inflamação dos gânglios linfáticos na região do pescoço. Nos casos graves, a inflamação chega à fistulização e o aspecto do paciente se torna deveras repugnante.

Do séc. XII ao séc. XVII, tanto na França como na Inglaterra, milhares de pessoas, anualmente, vinham até o rei para serem tocadas e curadas. Em ambas as nações, estabeleceu-se um ritual litúrgico que era praticado regularmente pelo monarca de turno.

Tal prática se baseava na afirmação de que o rei, pela unção recebida no dia da sua entronização, passava a ser uma pessoa sagrada e, como tal, tinha o poder de curar. Era o mesmo poder exercido por Jesus e pelos santos. E com uma vantagem: tal poder não dependia da santidade pessoal do rei, mas da unção por ele recebida na entronização.

A essas alturas você já deve estar se perguntando: mas, e as pessoas, realmente ficavam curadas? A resposta é “sim”! Quem vinha ao rei e recebia seu toque e sua bênção, efetivamente ficavam curado… Como? Simples: as escrófulas são uma inflamação cíclica. Após a supuração, elas, por si mesmas, fecham seu ciclo e cicatrizam. Tal processo era favorecido pelo fato de os doentes terem que aguardar perto do palácio por alguns dias à espera do ritual. E enquanto aguardavam recebiam boa alimentação. E, depois do toque, ainda recebiam do rei uma esmola que lhes permitia manter a boa alimentação. Com descanso e comida, a imunidade aumentava e as escrófulas fechavam seu ciclo até nova irrupção.

Naquela época, claro, não havia os conhecimentos médicos que temos hoje. E os milagres faziam parte do cotidiano. Aconteciam todos os dias e em toda parte. E isso não porque naquele tempo Deus interviesse mais que hoje no cotidiano das pessoas. Mas porque as pessoas estavam predispostas a acreditar neles. Dentro da compreensão medieval, não havia separação entre o sagrado e o profano. Deus e seus auxiliares, os santos e os anjos, bem como Satanás e seus diabinhos, conviviam lado a lado com as pessoas e intervinham no dia a dia e em todos os âmbitos da vida.

O que os reis fizeram – e nisso esteve a sua genialidade política – foi usar a ignorância e a crença nos milagres para consolidar a instituição real. Assim explica Marc Bloch essa jogada fenomenal dos monarcas franceses e ingleses: “Para que uma instituição destinada a atender a fins precisos indicados por uma vontade individual possa impor-se a todo um povo, é necessário ainda que ela seja sustentada pelas tendências profundas da consciência coletiva; e talvez, reciprocamente, para que uma crença um pouco vaga possa concretizar-se num rito regular, não seja indiferente que algumas vontades conscientes ajudem-na a tomar forma.”

Voltando à nossa conhecida cloroquina e outras crenças sem evidência científica, devemos nos perguntar não apenas sobre as intenções dos que as querem impor à população. Devemos nos perguntar também quais são as “tendências profundas da consciência coletiva” que tornam essas mentiras aceitáveis para uma parcela significativa da população.

A Covid19 é um desafio à medicina. No Brasil, tornou-se uma questão política. Mas o mais profundo e grave, é que ela está revelando muito sobre as profundezas culturais de nossa nação.
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Ecumenismo e Libertação

O título desta postagem é uma homenagem a um livro que li pela primeira vez no final da década de 1980, quando cursava a Graduação em Teologia. Era a época da disputa em torno à Teologia da Libertação, um movimento de intelectuais cristãos que queria pensar a fé a partir das lutas dos povos do continente para superar a pobreza e a opressão.

A Teologia da Libertação, desde as suas origens até hoje, sempre se entendeu como um movimento transeclesial, ou seja, constituído por homens e mulheres que, identificando-se com uma comunidade cristã específica, não fica restrito a esta ou aquela comunidade, mas pensa o cristianismo no seu todo, para além dos limites institucionais. Claro que, sendo o Brasil um país naquela época ainda majoritariamente católico romano, a tensão se expressava de maneira mais viva dentro da Igreja Católica Romana. O “caso Leonardo Boff” tornou-se emblemático desta disputa pelo sentido da fé no contexto brasileiro e latino-americano.

O autor do livro “Ecumenismo e Libertação” que motiva esta reflexão é o teólogo uruguaio Júlio H. de Santa Ana. De formação metodista, Júlio fez-se, por opção, amplamente ecumênico e, como tantos uruguaios de seu tempo e de hoje, girou pelo mundo a serviço da causa em que acreditava, a unidade das Igrejas e do Povo de Deus. Atuou em vários organismos ecumênicos internacionais, inclusive no Conselho Mundial de Igrejas.

Neste livro que é, sem dúvidas, um clássico no tema, o autor discorre sobre as causas das diversas divisões que, ao longo de dois mil anos, afetaram a desejada unidade do Povo de Deus. Houve causas dogmáticas, litúrgicas, canônicas, culturais, políticas, econômicas, pessoais… Muitas divisões com muitas causas e muitas causas em cada divisão. O cisma do séc. XI, por exemplo, que separou latinos e orientais, não teve como única causa a discussão sobre a procedência do Espírito Santo apenas do Pai ou do Pai e do Filho. A disputa de poder entre o Império Bizantino, o Papado e as repúblicas italianas também influíram no triste desfecho. Do mesmo modo, não foram as “Cinco Sola” de Lutero que suscitaram as rupturas na Igreja do Ocidente. Sem os interesses econômicos e políticos dos príncipes alemães, de Carlos V e dos Papas Imperadores e de sua corte, a crise das reformas não teria tão triste desfecho.

Mas a razão que sempre me faz voltar ao livro de Júlio de Santa Ana é a parte conclusiva em que, olhando o presente e as perspectivas futuras para os que sonham com a unidade das Igrejas e do Povo de Deus, o autor, citando Emílio Castro, também uruguaio, metodista e apaixonado pelo ecumenismo, afirma que Ecumenismo é Solidariedade. Solidariedade na busca do Reino, solidariedade no serviço aos pobres.

Para Emílio e para Júlio, assim como para muitos outros cristãos e cristãs que buscam ser fieis ao projeto do Reino de Deus, a unidade cristã se constrói não apenas na discussão sobre princípios dogmáticos, litúrgicos, canônicos, sacramentais, ministeriais… O que une ou separa os cristãos, é a atenção que é dedicada aos pobres. Isso não é novo. É muito antigo. Já Paulo o afirmou na Carta aos Gálatas. Segundo o Apóstolo dos Gentios, para quem tem fé no Deus de Jesus, tudo é relativo, menos o cuidado para com os pobres. Estes nunca podem ser esquecidos.

Esse é o princípio que está hoje por trás de todas as discussões em torno à Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. Há cristãos que se preocupam com os pobres e há cristãos que, com argumentos supostamente religiosos, justificam sua desatenção para com os preferidos por Jesus Cristo. E isso não é privilégio desta ou daquela Igreja. São posturas que ultrapassam as barreiras confessionais e provocam uma divisão em todas as igrejas.

É a divisão mais radical, mais que as do séc. V, do séc. XI e dos séc. XVI-XVII. Uma divisão que recoloca o cristianismo frente à questão fundamental que temos sempre de novo responder: quem é o Deus em que acreditamos? É o Deus de Jesus que dá a vida para que todos tenham vida ou é um Baal que exige o sacrifício da vida dos pobres?

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Minha mentira de estimação

“A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”, disse um dia Mário Quintana. Não sei o que levou o poeta a cunhar a expressão. Mas hoje, mais do que nunca, no contexto avassalador de notícias mentirosas, as ditas fake news, ela dá o que pensar.

Verdade que notícias mentirosas sempre existiram. A história da comunicação, comprova-o com facilidade. Desde as pinturas rupestres até as redes sociais. Nossos ancestrais das cavernas, para impressionar seus amigos e assustar os inimigos, exageravam no tamanho dos animais que caçavam ou na quantidade de mulheres que estavam sob seu domínio. Uma visita às grutas de Altamira ou à Serra da Capivara demonstra de forma cabal que as fake news estão no DNA da humanidade. O que os modernos meios fizeram – imprensa, rádio, televisão, internet – foi potencializar aquilo que antes se fazia no boca a boca, na cerca da vizinha, no boteco da esquina, no banco da praça, no púlpito da igreja, na sombra da figueira.

Um exemplo clássico são os jornais televisivos. Se, num mesmo dia, assistimos aos noticiários da noite das várias redes de televisão aberta, parece que cada uma delas vive uma realidade diferente. Na atual crise da Covid19, se você assiste à rede “A”, com certeza terá a impressão de que a pandemia não existe; na rede “B”, basta ir até a farmácia da esquina e comprar um vermífugo e tudo está resolvido; na rede “C”, a informação é de que a vacina já está disponível para todos; na rede “D”, depois do Boa Noite sorridente dos apresentadores, você liga para a funerária e encomenda o caixão porque a morte de todos os brasileiros, você incluído, é inevitável.

O rádio não foge deste paradigma. E os jornais tampouco nos oferecem uma verdade mais objetiva. Mas o que é verdade? Aí é que mora o problema… Tomás de Aquino, dizia que “a verdade é a adequação entre o intelecto e a realidade”. Podemos ler esta frase de duas maneiras. A primeira, é afirmando que, para chegar à verdade, a nossa mente deve adequar-se ao que está acontecendo ao nosso redor. A segunda, também possível segundo o filósofo e teólogo medieval, é a de que a verdade é a adequação da realidade à nossa mente.

Para o santo, a verdade só se alcança com o equilíbrio entre as duas perspectivas. Esquecer de um dos lados, induz inevitavelmente ao erro. As fake news são uma prova do acertado da análise do doutor da Igreja. Elas se limitam a adequar a realidade à mente humana. São construídas para oferecer às pessoas a versão da realidade que elas gostariam que fosse verdadeira. Em outras palavras, elas dizem às pessoas o que elas gostariam de ouvir. Por isso é tão difícil convencer o vizinho, o amigo, o tio, a tia, o primo, o irmão, o cunhado…, de que a notícia que eles receberam e passaram adiante no grupo da família ou do bairro é falsa: “Mas como é falsa, se é nisso mesmo que eu acredito?” E quando, com fatos e dados, você prova que aquilo não é verdadeiro, vem o argumento fatal: “Se não foi assim, poderia ter sido e, se não aconteceu, ainda pode acontecer”.

O propagador de fake news não tem a consciência de ser mentiroso. Ele simplesmente tem a convicção de que a realidade deve espelhar o que a sua mente pensa e deseja. Para o propagador de notícias mentirosas, a verdade é uma mentira que infelizmente aconteceu e deve ser negada. Ele tem sua mentira de estimação. Ele a ama. Vive para ela. E por ela é capaz de morrer e, se preciso for, capaz de matar.

Que nos salvem os poetas e os santos!

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Urbanos Insanos e Humanos

Tirar férias faz bem. Para a saúde da alma, do corpo e do coração também. Férias, por muito tempo, foi um direito negado até que duramente conquistado. Isso não pode ser olvidado. Não é presente. Não é regalo. É conquista, benquista e espero que resista a todas as reformas trabalhistas. Por mais que o capital insista!

Para quem mora e trabalha na cidade, férias implica necessariamente uma saída para o interior ou para o litoral. Não que férias sejam incompatíveis com a cidade. Ela tem suas belezas. Com certeza! Tantas que a gente se acostuma e precisa ir em busca de vistas que ficaram no passado – no meu caso que nasci no interior – ou que fazem parte do sonho futuro – morar no litoral! – para, depois voltar e redescobrir tudo aquilo que o dia a dia oculta da vista.

Mas as férias não são o ano todo. São apenas “férias”! Alguns dias e nada mais. Com sorte uma ou duas semanas. E depois lá voltamos nós para a cidade com suas ruas, carros, ônibus, metrô, prédios, escolas, universidades, hospitais, bares, restaurantes, fábricas (cada vez mais ausentadas das cidades), shoppings, praças e seus típicos barulhos, cores, odores, calores, sabores e pavores. Sim! A cidade tem seus prazeres. Mas também tem seus horrores.

Mas a cidade não são apenas suas construções e espaço. A cidade é gente. São homens e mulheres. Não apenas amontoados, juntados, justapostos, expostos. São homens e mulheres relacionados. Cidade é relação. É o bem maior da humanidade. Está acima da família e da aldeia. Isso dizia Aristóteles, trezentos anos antes de Cristo. Dizia o filósofo grego que a cidade faz o ser humano ser político, polido. Quem não mora na cidade é bruto, rude. Em latim, a “polis” de Aristóteles virou “civitas”. Morar na cidade é ser civilizado. Fora da cidade está o selvagem.

Descendo a Elevada da Rodoviária e mergulhando no caos do túnel da Conceição me pergunto se Aristóteles tinha razão. Sei não. Acho que não. E o meu não se faz ainda mais negativo quando vejo em cada rua, em cada esquina, um monte de mendigos e milhares de pessoas morando na rua em frente a prédios desabitados e gente passando fome ao lado de supermercados abarrotados. A civilização virou insana, desumana. A cidade perdeu a humanidade. É apenas um intrincado de prédios, ruas e espaços onde perambulamos sem saber para onde vamos.

Ligo o rádio e a filosofia brasileira toma o lugar de Aristóteles. Cada cidade brasileira – incluída a Porto Alegre em que vivo – é uma “Rio quarenta graus”, uma cidade de cidades misturadas, uma cidade de cidades camufladas, com governos misturados, camuflados, paralelos, com governos sorrateiros ocultando comandos do submundo oficial, bandidaço, classe média, camelô, com submáfias de todas as espécies – manicure, de boate, de madame, da TV, de deputado, aposentado, papai, mamãe, vovó, criancinha, dos filhinhos – e tantas outras que a lista cantada pela Fernanda Abreu não poderia jamais abarcar.

O funk tem razão. Toda cidade é um purgatório da beleza e do caos. Uma mescla da qual não podemos escapar. Um lugar que, com seus muitos donos – donos de becos, de ruas, de edifícios, de praças, de parques, de prefeituras e palácios – é também o nosso lugar, o meu lugar. Um lugar que, com nosso esforço e nossa palavra, precisamos a cada dia, voltar a civilizar. Aristóteles tem razão. O funk também tem. Mesmo insana, a cidade é humana, é o nosso maior bem! É o lugar que escolhemos para viver, para sofrer, ter prazer e amar.

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