Um pequeno grande passo.

“Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.” A frase é do astronauta norte-americano Neill Alden Armstrong, o primeiro ser humano a pisar na lua. O feito, como os mais velhos lembram e os mais novos seguramente vimos em imagens de arquivo, é um dos mais significativos da história. Pela primeira vez, em 20 de julho de 1969, um homem caminhava em outro solo que não o do planeta Terra.

O “pequeno passo” era a culminância do Projeto Apollo. A meta era colocar astronautas no solo lunar e, através deste feito científico e tecnológico, demonstrar a superioridade do capitalismo sobre o socialismo. Era a época da corrida espacial. Depois de vários fracassos e 200 bilhões de dólares consumidos, o objetivo foi alcançado e devidamente mediatizado. Mais de um bilhão de pessoas acompanharam ao vivo, pela televisão ou pelo rádio, a efeméride que culminou com a frase de efeito devidamente preparada para a ocasião.

A frase de Neil Armstrong que celebrizou o episódio me veio à mente esta semana quando o Papa Francisco, com um gesto pouco ou nada midiático, baixou um decreto modificando um parágrafo do Código de Direito Canônico. Trata-se do parágrafo primeiro do Cânon 230. Três palavras foram suprimidas: “do sexo masculino”. É o cânon que regula o acesso, na Igreja Católica Romana de Rito Latino, aos ministérios do Acolitato e Leitorado. Com a modificação, pela primeira vez na história moderna do catolicismo romano – vale sempre lembrar que além deste há outros cinco ritos na Igreja Católica Romana – o acesso a esses dois ministérios é aberto a mulheres.

Verdade que tanto aqui no Brasil como em outros lugares do mundo, desde o Concílio Vaticano II havia mulheres exercendo o ministério de acólitas e leitoras nas milhares de comunidades espalhadas por campos e cidades. Mas o faziam de forma extraordinária para suprir a carência de ministros homens ou na incapacidade ou não vontade deles em exercê-los. Era um ministério temporário, instável, passível de revogação a qualquer momento e visto como de caráter supletivo. Quando não mais necessárias, as mulheres que o exerciam eram dele dispensadas.

Agora a figura é outra: passam a ser ministérios permanentes, estáveis, instituídos pela competente autoridade eclesiástica. Como vai ser na prática, dependerá muito da dinâmica das comunidades que assumirão esta possibilidade canônica.

É um pequeno passo para as mulheres. Muitos gostariam de vê-las não apenas no exercício de ministérios auxiliares, mas na titularidade de ministérios ordenados e na direção das comunidades locais, paroquiais e diocesanas. Fato que, é bom lembrar, já é comum em outras igrejas cristãs. Mas talvez esse pequeno passo na longa luta feminina para o reconhecimento no espaço eclesial, se transforme num grande salto para a Igreja Católica Romana. Afinal, ter ou não a possibilidade de mulheres colocando os pés no espaço que circula o altar, é símbolo da corrida pelo exercício do poder na Igreja Católica Romana. Assim como, na década de 1960, colocar um homem a pisar na Lua era o marco da vitória na corrida espacial, ter mulheres ao redor do altar é sinal indicador de que o céu é o limite quando se pensa em uma Igreja aberta e participativa. Apenas um sinal, mas um sinal que desejamos promissor.

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FAROL DA SOLIDÃO

MOSTARDAS, RS, BRASIL, 24.01.12: Praia do Farol da Solidão. Foto: Claudio Fachel/Palácio Piratini

O nome é estranho. Para alguns, assustador. Quem gostaria de ir passar seu verão num lugar chamado Praia do Farol da Solidão? Poucos, com certeza. Diria mais: quase ninguém. A maioria, ao pensar em praia, busca um lugar de agitação, divertimento, badalação. Mesmo agora, em tempos de pandemia, os gaúchos urbanos e também os pampeanos insistem em ir para Torres, Imbé, Tramandaí, Capão e, correndo todos os riscos, fazer aglomeração. Parece fazer parte da idiossincrasia metropolitana que imita as aves de arribação. Estas passam pelo litoral sulino em maio e setembro. Os bípedes com o telencéfalo altamente desenvolvido e o dedo polegar opositor, para lá vão entre o Natal e o Carnaval.

Mas a Praia do Farol da Solidão existe. Está a meio caminho entre Palmares do Sul e Mostardas. De Porto Alegre, são 150 quilômetros. Duas horas e meia em carro. Saindo da capital pela RS 040, passando Viamão, segue-se para Capivari do Sul e daí em diante, pela 101 – a Estrada do Inferno já não é tão infernal! – até topar com a Estrada da Solidão, um pouco antes do Vilarejo Doutor Edgardo Pereira Velho. São oito quilômetros de areia que se move conforme os ventos de cada época do ano. Se tudo der certo, em meia hora o viajante tem à sua frente o edifício que dá o nome ao lugar: o Farol da Solidão.

Ninguém sabe exatamente quando o sinalizador foi construído. Diz-se que no início do séc. XX. A memória mais antiga é de uma estrutura de ferro. Mais tarde foi substituída pela atual torre em cimento que, do alto de seus 21 metros avermelhados, sinaliza aos navegantes que a costa está próxima.

O povoado são três avenidas com mais ou menos dez ruas transversais. Oitocentas casas, segundo o dono de um dos três mercadinhos que funcionam o ano todo. Armazém de secos, molhados, úmidos e todo tipo de gênero alimentício e não alimentício – da pasta de dente ao herbicida – que funciona ao mesmo tempo como boteco para otimizar a estrutura e garantir o faturamento. De março a dezembro, a vida gira ao redor da pesca que a cada ano se torna mais difícil. O peixe míngua e muitos residentes já se foram e outros pensam em partir. Em janeiro e fevereiro, a economia ganha impulso com os veranistas. As duas pousadas chegam nos fins de semana à lotação máxima: em torno de quarenta pessoas. Também há a opção de alugar – e aí os preços são muito favoráveis – uma das tantas casas de madeira disponíveis no balneário. Vem gente de Capivari do Sul, de Mostardas, Tavares, Viamão, Porto Alegre e, não raro, aqueles que fogem da badalação de Santa Catarina, Torres, Tramandaí, Imbé e Capão.  

Mas o que leva alguém a um lugar tão distante e tão fora do padrão daquilo que se imagina em Porto Alegre como passeio de verão? O nome do local já diz: solidão! Quem vai para lá sabe aonde está indo: um lugar onde se pode estar sozinho. Está escrito por todo lado que o lugar é de solidão: na estrada, no farol e na vila. E também no nome de um dos botecos e de uma das pousadas. Não tem como errar e depois reclamar!

São poucos os cidadãos que fazem esta opção. É muito penoso em nossa civilização do contato superficial e da hiperconexão aleatória estar sozinho e encontrar-se consigo mesmo. O Farol da Solidão fica longe. E a estrada é difícil. Menos, porém, do que o caminho para dentro do interior de si mesmo onde podemos vagar na íntima solidão. Não custa tentar! E que tenhas uma boa viagem…

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Da pandemia à empatia.

2020 já terminou! Um alívio… Um ano tão rápido que demorou tanto a passar. Parecia que não acabava mais. A tradicional contagem regressiva dos 10 segundos finais foi antecedida pela contagem dos últimos dias, das últimas semanas, dos últimos meses. Todos desejávamos que passasse logo. E passou. Estamos em 2021. Um ano novo cheio de otimismo e sonhos.

Esperança de tempos novos que foi alentada pela chegada das vacinas que prometem a superação da pandemia. Alguns países já começaram a imunizar sua população. O Brasil ainda não. A cadeira presidencial está sendo ocupada por um ser que afirma “não estar nem aí” com os 200 mil brasileiros mortos em consequência da Covid19. Esse ser do qual declino pronunciar o nome e a equipe de tanatófilos que o rodeiam, não se sente nem um pouco afligido pela dor daqueles e daquelas que perderam seus familiares e dos milhões de brasileiros e brasileiras que vivem a angústia da proximidade da morte e das consequências da crise econômica que, há de se dizer, não tem na pandemia sua única causa. A pandemia apenas veio potencializar o projeto de morte da elite de sempre que, para mantê-lo, precisa dos tradicionais cães de guarda verde-oliva que arreganham suas garras e dentes a cada vez que a maioria pobre da população ousa alçar a cabeça e reivindicar o direito à vida e à dignidade mínima que nos faz humanos.

Projeto de morte que se expressa na maior desigualdade econômica do mundo, na fascistização da política, na violência grotesca contra tudo o que nos faz plurais (diferenças culturais, de raça, sexo, gênero, idade, lugar de moradia, religião…) e na destruição da Casa Comum. Estas expressões e outras tantas que poderíamos elencar, tem sua raiz no pecado original da sociedade brasileira: o elitismo individualista. É a ideia de “cada um por si” e “salve-se quem puder” que veio junto com as naus de Colombo e Cabral e se constituiu como eixo articulador das relações sociais. “Pecado original” expresso de forma grotesca e criminosa no ocupante da cadeira presidencial que diz não temer a Covid19 por ter “histórico de atleta”. E os milhões de brasileiros e brasileiras que não tiveram a oportunidade de serem aposentados aos 33 anos por insanidade e, durante 28 anos de mandato parlamentar improdutivo, ter o tempo e os recursos para desenvolver um “histórico de atleta”? “Esses podem morrer”, pensa o carregador da faixa presidencial.

Mas também é expressão do elitismo individualista o comportamento daqueles que, em plena pandemia, promovem e participam em festas e aglomerações de todo o tipo onde, além do risco de infectar-se a si mesmos, criam a ocasião para que outros o sejam. Eles pensam e dizem: “se eu me infectar, o problema é meu!” Só pensam em si mesmos. Não se preocupam com as consequências de seu comportamento para a sociedade. Pior: sequer são capazes de imaginar o que seja “viver em sociedade”. Foram ensinados que existe “o povão, a ralé, a chusma, a gentalha”, da qual eles não fazem parte. Eles são ou imaginam ser um outro Brasil. O Brasil que vive em Miami, em Nova Iorque, em Paris ou Londres. Uns residem fisicamente lá. Outros vivem aqui como se lá estivessem.

Para superar o caos sanitário a vacina certamente ajudará. É preciso que ela chegue a todos e o mais pronto possível. Mas só sairemos melhores desta se formos capazes de controlar o vírus do individualismo elitista que assola, há séculos, essa terra chamada Brasil. É preciso que apliquemos em cada um de nós e em cada relação social, da mais próxima até as mais complexas, o sentimento de empatia e de solidariedade. Sentir cada brasileiro e brasileira como um ser humano de plenos direitos – independente das diferenças e das “comorbidades” – e mover-nos e estender a mão para que todos vivam.

Então, sim, a passagem de ano não será apenas um marco no calendário. Será possível passar do ano da pandemia ao ano da empatia e preparar um 2022 de muitas aglomerações. E torcer para que 2021 passe rápido!

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A síndrome de Herodes

“Le Massacre des Innocents” (Léon Cogniet. Paris, 1824. Detalhe)

Herodes não gostava de crianças. Mandou matar todas as que tinham menos de dois anos que em seu tempo viviam em Belém e proximidades. Está na Bíblia, lá no início do Evangelho de Mateus. Seu medo era que, entre as crianças, estivesse aquele que poderia derrubá-lo do trono. Seus soldados passaram casa por casa, povoado por povoado, vereda por vereda. Houve um grande pranto em Ramá. Choro e lamentação. Raquel chorava seus filhos e se recusava a ser consolada. Com ela, todas as mulheres, desde as recém paridas até as parteiras mais experimentadas. E, com elas, seus maridos e seus filhos, seus netos e bisnetos. Só escapou um: Jesus, o filho de Maria. E escapou porque um anjo avisou a José para que fugisse com Maria e o menino para o Egito.

Por essa e outras, Herodes também não gostava de anjos. Eram seres traiçoeiros. Não por serem anjos. Anjos são seres do bem. Um anjo nunca faz mal a ninguém. Por que, então, Herodes tinha medo de anjos? Simples: anjos não podem ser vistos. E, sendo invisíveis, não podem ser controlados. E, quem está no poder e a ele se aferra a todo custo, tem medo de tudo que possa fugir a seu controle. Nem os soldados, os mais treinados das forças romanas, cancheados nas mais duras lides da guerra por todo o Império, desde a Bretanha até a Mesopotâmia, conseguiam localizar os anjos e tê-los sob seu domínio.

Tal perigo já havia sido provado por Herodes. Foram os anjos que advertiram os velhos magos do Oriente para que não lhe passarem a informação sobre o lugar do nascimento do menino que viria a ser rei. Com isso, Herodes, além de não gostar de crianças e não gostar de anjos, passou a não gostar de velhos. Não por sua idade. Um velho não é um perigo para um rei. Ou pode ser. Se for na guerra, não é. Mas na sabedoria, com certeza é. O tempo ensina. E quem se deixa conduzir por esse pedagogo, quanto mais velho, mais sábio e mais perigoso para os poderosos. Junto com as dobras da pele e as canas que brilham, a vida ensina a ler os sinais dos tempos. Os velhos distinguem entre o verdadeiro brilho das estrelas do futuro e o fogo-fátuo dos pútridos gases que emanam dos cadáveres insepultos do passado. Os magos não voltaram para Herodes. Tomando o atalho da sabedoria, retornaram ao Oriente. Herodes enviou seus soldados para apresá-los. Mas os cavalos dos soldados não conseguiram alcançar os lépidos camelos dos forasteiros.

E por isso Herodes também não gostava de camelos. São resistentes. Não se deixam vencer tão facilmente. Fazem reservas nos tempos da abundância para usá-los na necessidade e no perigo. São lentos, sim, mas perseverantes e constantes. Assim como os jumentos que cercaram Jesus e o acalentaram com seu hálito na estrebaria de Belém e depois serviram de montaria para a mãe e o menino a caminho do Egito. O jumento só se parece com um burro. Engana-se quem confunde o jumento com o burro. Mas isso não é problema nem solução, nem para o jumento e nem para o burro. Herodes não gostava nem de um e nem de outro. E neste desgosto estavam incluídas as vacas, as ovelhas, as cabras, as galinhas. Tudo que não fosse animal de guerra, não interessava a Herodes. Só o cavalo valia. E não por ser cavalo, mas por ser montaria para os soldados e tração para os carros de guerra.

De quem então, Herodes gostava? A essas alturas o amigo leitor e a amiga leitora já devem estar se perguntando também. Herodes, na verdade, não gostava de ninguém. Não gostava de crianças, nem de anjos, nem de velhos e nem de animais. Será que ele gostava de si mesmo? Será que chegou a gostar de verdade de alguma das nove esposas que teve? Será que gostava dos sete filhos que com elas gerou? E dos militares que o cercavam? Dos generais, dos coronéis, dos capitães, dos tenentes e sargentos, dos cabos e soldados? Eles estavam por todos os lados. Seu governo era um governo de militares. E um militar nunca confia em ninguém. Confia apenas nas próprias armas e na capacidade de matar. Herodes sabia disso. E por isso, imagino, não gostava dos militares que o cercavam. E eles, num desprazer recíproco, não gostavam dele.

O que a história nos conta, é que o governo do Herodes que não gostava de crianças, nem de anjos, nem de velhos e tampouco de animais, durou pouco. Muito pouco. Foi tão violento e tão incompetente que seu superior, o Imperador Romano César Augusto, enviou-o ao exílio na França, onde morreu no esquecimento. Hoje, Herodes só é lembrado por suas maldades. Esse é o fim de todos os tiranos. Que assim seja. Amém.

Emily e Rabeca, assassinadas em um “confronto” com a policia no Rio de Janeiro, 2020.

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Fratelli Tutti: a paz e a superação dos conflitos.

Escrevo este texto sobre o Capítulo VII da Fratelli Tutti no dia 20 de novembro. Uma data importante na história do Brasil. Talvez a data mais importante. Ela celebra o fato mais significativo da nação brasileira. Hoje é dia de Dandara e Zumbi de Palmares. Um homem e um mulher que, nas suas individualidades, representam os milhões de africanos – estima-se em cinco milhões – que foram arrancados de suas aldeias e cidades e trazidos à força para o trabalho escravo no Brasil. Deles e de seus descendentes que, durante três séculos, de geração em geração, foram submetidos à mais degradante condição humana que é a privação da liberdade e a serem considerados não como pessoas, mas como instrumentos de trabalho.

Os três séculos de escravidão marcaram de forma estrutural a sociedade brasileira. Somos uma sociedade racista. Racismo que se expressa na cultura, na economia, na política, na educação, na literatura, nos meios de comunicação, nas religiões, no esporte, na vida familiar… Não há um recôndito das relações sociais brasileiras, das mais íntimas às mais públicas, que não esteja marcada pela violência racial.

Este ano o dia 20 de novembro, para os que moramos em Porto Alegre, é ainda mais triste. Na noite de ontem, em um hipermercado da Zona Norte da cidade, um homem negro de 40 anos, foi espancado até a morte por um segurança e um policial militar. O assassinato foi filmado pelas câmeras do estabelecimento. As imagens circularam nas redes sociais causando indignação. E gerou uma pergunta: quantos homens e mulheres negras, a cada dia, a cada hora, em todo o Brasil, sofrem violência e são mortos, pelo simples fato de serem negros e negras?

Há dados disponíveis. Subestimados, é claro. Escondidos, disfarçados, negados. A polícia, a justiça e a estatística também são racistas.

O que fazer diante destes fatos e outros semelhantes que se repetem a cada dia? A Fratelli Tutti nos dá algumas dicas. Primeiro, é preciso fazer memória das violências e injustiças cometidas. Elas não podem ser esquecidas. Precisam ser lembradas e celebradas. O esquecimento só perpetua a injustiça. E com isso está indicado o segundo passo: é preciso fazer justiça para com as vítimas. Um passo adiante para novas relações sociais só será possível quando o sofrimento das vítimas for reparado. A sociedade como um todo deve assumir o compromisso de sanar as feridas do passado criando as condições para que suas consequências não afetem o presente e nem comprometam o futuro.

Para isso, segundo o Papa Francisco, é necessário uma arquitetura da paz que consiste em criar mecanismos econômicos, políticos, educacionais e culturais que compensem aqueles e aquelas que, hoje, sofrem a violência herdada do passado. Projetos estruturais que encontram seu complemento no artesanato da paz que consiste em que cada pessoa, nas suas relações cotidianas, se comprometa a evitar e impedir a reprodução dos mecanismos discriminatórios que sutilmente se mantém no consciente ou no inconsciente das pessoas.

Depois destes passos, será possível a reconciliação, que não consiste num retorno à situação anterior à violência, mas em uma nova convivência capaz de reconhecer, integrar e superar os conflitos de modo a não repetir os erros do passado. Teremos então, a possibilidade de uma fraternidade universal e da amizade social com que tanto sonhamos.

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Fratelli Tutti – Em Defesa da Política

Há um fenômeno que, a cada período eleitoral, volta e ganha força em nosso país. Falo dos políticos que dizem odiar a política. São detentores de cargos públicos ou candidatos, de situação ou de oposição, que dizem que política é tudo sujeira, que os políticos não prestam para nada, que são todos corruptos, ladrões, falsos…e, no entanto, estas mesmas pessoas lutam com unhas e dentes para manter ou conquistar cargos ou para elegerem seus amigos e aliados!

Estranho fenômeno. Mas fenômeno que é real. Todos podemos constatá-lo, desde o nível municipal até o federal. Onde ele nasce e como ele se alimenta? Em primeiro lugar, há de se dizer que não é um fenômeno moral. Se fosse um julgamento moral sincero, estas pessoas não seriam candidatas e, as que não o são, deixariam de participar dos processos políticos. De fato, o desprezo e a satanização da política fazem parte de um projeto político que consiste em afastar os cidadãos da sua responsabilidade nas decisões que dizem respeito a toda a comunidade. Para os mal intencionados, quanto menos as pessoas participam da política, melhor. Esse é o sonho de todos os ditadores e de todos os corruptos.

Se vamos ao sentido último da política, constatamos que ela é a arte de organizar a vida em sociedade. Ninguém nasce, nem vive e nem morre sozinho. Todo o percurso de nossa existência é feito em sociedade. Dependemos dos outros para viver e com nosso trabalho contribuímos para que outras pessoas vivam. A regulação dessa troca entre os seres humanos e os vários grupos que compõem a sociedade e a humanidade se chama política. Política local, regional, estadual, nacional, internacional. Toda a convivência humana, próxima ou distante, é uma convivência política.

Conforme a análise do Papa Francisco, no capítulo V da Fratelli Tutti, há dois modos de destruir a convivência social e geral o caos e a opressão. O primeiro, é o populismo demagógico. Fenômeno bastante conhecido entre nós: falsos líderes que utilizam as expectativas populares para manipular o povo. Estabelecendo uma relação direta entre o líder, o condutor, o coronel, o “mito” e as massas necessitadas, destroem as instâncias institucionais para impossibilitar qualquer forma de controle e limitação a seus projetos e seus poderes.

O outro modo de destruir a convivência política, é o projeto liberal – também bastante conhecido entre nós – que alimenta o “dogma de fé” de que não há necessidade de organização social ou do Estado. Na utopia liberal, cada um busca por sua própria conta e risco a solução para seus problemas, contra tudo e contra todos. Na verdade, nesse modelo, o que vale é a lei do mais forte: “quem pode mais, chora menos”. E os fracos sempre perdem…

Para construir a fraternidade universal e a amizade social, não há caminho fora da política. Em outras palavras, é no esforço perseverante em construir e reforçar as instituições sociais – associações, movimentos populares, sindicatos, partidos políticos – e, através delas, cuidar dos mais fracos e velar pelo bem comum, que se dão os passos para uma convivência humana digna para todos.

Nesse sentido, a política é a prática coletiva do amor cristão. Ajudando uma pessoa necessitada que está ao nosso lado, estamos praticando a caridade que ajuda essa pessoa concreta a sair de sua situação de dor, sofrimento ou miséria. Isso é importante e necessário. Envolvendo-nos na política, temos a possibilidade de ajudar não apenas uma pessoa, mas toda a coletividade a fim de que outras pessoas não venham a cair nessa situação ou mais rapidamente posam dela sair. É urgente que os cristãos passemos da caridade individual à caridade política.

Essa é a via para a remoção dos muitos obstáculos que impedem a fraternidade universal e a amizade social. Não há outra. Na convivência entre os humanos, sem política, não há salvação!

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Fratelli Tutti – De Babel a Pentecostes.

A globalização não é um fenômeno novo na história da humanidade. Na verdade, ela faz, desde os primórdios, parte do jeito humano de ser. Quando, há mais ou menos 130 mil anos, o homo sapiens saiu das savanas africanas para habitar a Ásia e, depois, a Europa, ali iniciou o processo de globalização. Nos contínuos deslocamentos em busca de sobrevivência, os vários grupos humanos que se formaram passaram a estabelecer intercâmbios sociais, econômicos, políticos, culturais, religiosos…

Na medida em que novos recursos tecnológicos foram desenvolvidos, as trocas se tornaram mais volumosas, intensas e rápidas. Imaginemos o que significou, há 5.500 anos, a invenção da roda para as viagens, o comércio e as guerras! Nos últimos 500 anos, trens, automóveis e aviões deixaram o longínquo cada vez mais próximo. Distâncias que foram reduzidas – no tempo e no espaço – pela imprensa, o rádio, a televisão e, hoje, a internet que possibilita conexões e intercâmbios imediatos com qualquer lugar do mundo.

O mundo está cada vez menor. E, paradoxalmente, temos a impressão que estamos cada vez mais longe uns dos outros. Distância de pessoas e distância de povos. Por que isso? Por uma razão simples. Mudam os tempos, mudam os suportes tecnológicos das relações, mas os encontros ou desencontros seguem basicamente dois padrões: Babel e Pentecostes.

Babel é a globalização como projeto de dominação. É o encontro que leva à imposição de um povo, de uma cultura, de uma economia, de uma religião, de um poder sobre o outro. Enquanto um domina, o outro é anulado, calado, silenciado. A narrativa bíblica diz que a pretensão era construir uma torre, um equipamento militar, o mais poderoso da terra. O projeto foi impedido pela pluralidade das línguas, pela diversidade, que explodiu a uniformidade e criou a diversidade de povos, línguas e culturas.

O outro padrão é o Pentecostes. Sob a ação do Espírito Santo, a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus passa a falar as mais diversas línguas e, mesmo assim, todos se entendem. É o encontro daquilo que havia sido disperso em Babel, não mais sob o regime da uniformidade, mas sob o modo da diversidade comunicante. Nesse regime, cada um mantém a sua própria identidade e a coloca em diálogo com a identidade do outro para que ambos se enriqueçam.

O paradigma da diversidade comunicante é o proposto pelo Papa Francisco como caminho para o encontro de povos e culturas no mundo globalizado em que vivemos. Fora dele, há duas opções. A primeira é o fechamento dentro da própria cultura e do próprio país. Quem opta por ele, morre por asfixia cultural e perde a oportunidade de aproveitar da riqueza do diferente. A segunda opção, tão daninha como a primeira, é a de impor o próprio modo de ser sobre os outros. É a cultura do imperialismo, da dominação, da aniquilação do diferente.

A diversidade comunicante, a opção proposta pela Fratelli Tutti, permite dar do que é próprio para que o outro cresça e receber o que é do outro para com ele também aperfeiçoar. Em todos os âmbitos do humano: econômico, social, político, cultural, religioso e outros mais. É ela que garante a sobrevivência das identidades, a própria e a dos outros. O isolamento e a homogeneização levam à anulação e à morte. Podemos fazer isso por interesse de sobrevivência. Já é um passo… Como cristãos, temos um motivo a mais: a diversidade é graça, é dom de Deus, e tudo aquilo que dele recebemos, não é para que fique apenas conosco. É para ser partilhado com todos e todas.

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FRATELLI TUTTI – UMA POLÍTICA PARA ALÉM DA MODERNIDADE

SS. Papa Francesco – Udienza Movimenti Popolari 05-11-2016 @Servizio Fotografico – L’Osservatore Romano

A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. (Papa Francisco, FT 69).

De forma esquemática, podemos dizer que a história da relação do cristianismo com a política tem dois grandes marcos. O primeiro, a “virada constantiniana” do séc. IV, quando o Imperador Constantino se aproximou do cristianismo e as lideranças cristãs aceitaram esta oportunidade como um modo de viver pacificamente e expandir a fé cristã por todo o mundo conhecido de então.

Deste ponto inicial e numa série de movimentos muito variados configurou-se o que os historiadores chamam de cristandade: a união entre o poder político e o poder religioso. Foi um modus vivendi que se prolongou até o segundo grande evento, tão significativo quanto o primeiro: a Revolução Francesa e, nela, a separação entre Igreja e Estado. Separação traumática, consequência da ruptura de um laço profundo e sólido que se havia constituído ao longo dos séculos.

No período posterior à Revolução Francesa, para alguns, ser católico era ser contra a democracia, ser contra a soberania popular e negar os direitos humanos. Um modo de pensar que foi a doutrina oficial da Igreja durante o séc. XIX e só começou a mudar, lentamente, com o avanço da Doutrina Social da Igreja. O Vaticano II veio sepultar o sonho da volta das monarquias católicas e da união entre o trono e o altar. Sempre há alguns, claro, que sonham com esse passado. São os bufões da história cujas posturas caricaturais nem risos mais fazem despertar.

O fato é que o ideal iluminista da “liberdade, igualdade e fraternidade” se impôs como parâmetro político. Da diferente articulação dos três elementos surgiram variados modelos políticos. Por um lado, tivemos as sociedades que privilegiaram a liberdade e deixaram em segundo plano a igualdade. O indivíduo como sujeito político e a livre iniciativa econômica se tornaram os grandes valores neste modelo. Do outro lado, as sociedades que colocaram a igualdade no centro e deixaram a liberdade em segundo plano. A coletividade como sujeito político e o planejamento estatal tiveram mais importância neste modelo.

Os dois modelos tiveram seus êxitos e seus limites. Processos criativos houve em ambos os lados. Assim como em ambos os lados houve exacerbações que culminaram em individualismos excludentes ou regimes totalitários.

Para dar um passo adiante e sanar a crise que acossa a humanidade, o Papa Francisco propõe que resgatemos o terceiro elemento: a fraternidade. Ela ficou na sombra tanto no modelo liberal como nos projetos socialistas reais. Mas o que seria um projeto político baseado na fraternidade? Simples: pensar a vida em sociedade não apenas como um pacto entre sócios. O pacto é importante e não pode ser negado. É a partir dele que se formam as democracias. Mas é preciso ir além. É preciso incorporar na lógica política aqueles e aquelas que sequer tem condições para participar de um pacto social.

É preciso incorporar no fazer político a categoria de “próximo”, ou seja, incluir como sujeitos os grupos sociais e as nações que hoje jazem à beira do caminho da humanidade. É preciso acolher e colocar no centro da ação política os clamores que hoje não são ouvidos. No interno dos países, estados e cidades, escutar os fracos da sociedade: minorias sociais, étnicas, sexuais, de gênero, idade, condição sanitária… Na política internacional, as nações que, de tão empobrecidas, sequer contam no jogo político e econômico mundial. E o grande próximo e esquecido de quase todos os projetos políticos: a criação, tanto em seus seres particulares como nos grandes biomas.

Nas democracias, o poder emana das maiorias. Essa é a virtude da política moderna. Mas é também o seu defeito. Para superá-lo, não se anda para trás. É preciso radicalizar a democracia incluindo nela as vozes das minorias. Só assim liberdade e igualdade chegarão ao justo equilíbrio, pois cada um será considerado na igual dignidade a partir daquilo que o faz diferente de todos os outros. Teremos então uma sociedade fraterna para todos e todas.

Em seus encontros com os Movimentos Populares e na Laudato Sì, o Papa Francisco deu o exemplo deste novo jeito de fazer política. É nessa direção que os cristãos são convidados a impulsionar o jogo político. Não para trás, para a Idade Média. Caminhamos para o futuro, para além da modernidade.