Situação de índios Guarani-Kaiowá é de confinamento, reconhece Funai

Cinco mil cruzes foram fincadas no gramado da Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional, em um ato em defesa dos povos indígenas na semana passada. Foto: José Cruz / ABr

Após a grande repercussão que o caso Guarani-Kaiowá provocou nos últimos dias, a Fundação Nacional do Índio (Funai) decidiu se pronunciar nesta quinta-feira 25 a respeito da situação dos índios do Mato Grosso do Sul.

Por meio de uma nota oficial, a fundação reconhece a legimitidade da luta indígena por “seu território ancestral” e afirma que a situação dos Guarani e Kaiowá é “caracterizada como de confinamento, devido à alta densidade populacional”. Hoje, 45 mil índios Guarani-Kaiowá se dividem em pequenas porções de terras.

Em tom de justificativa, a Funai ressaltou suas ações de regularização das terras indígenas e o caráter prioritário dos processos de regularização fundiária nas terras Guarani-Kaiowá, que já se encontram em estágio avançado do procedimento administrativo de demarcação, segundo o órgão.

A fundação também se diz confiante de que o Poder Judiciário reconheça e reafirme o direito do povo Guarani e Kaiowá às suas terras tradicionais.

Nesta quinta-feira 25, a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado também anunciou que vai realizar na próxima semana uma audiência pública para tratar da situação dos Guarani-Kaiowá.

O presidente da Comissão, senador Paulo Paim (PT-RS), afirmou que pretende realizar o debate com as partes envolvidas no conflito o quanto antes. Para isso, ele pretende aprovar um requerimento na segunda-feira 29.

Confira abaixo a íntegra da nota oficial da Funai:

A Fundação Nacional do Índio (Funai) reconhece a luta dos povos Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, por suas terras tradicionais e esclarece que a determinação da comunidade de Pyelito Kue de não sair do local que considera seu território ancestral é uma decisão legítima. A Funai respeita sua decisão e sua autodeterminação.

Nesse sentido, a Funai se manifesta para informar as ações que vem desenvolvendo na região, a fim de garantir os direitos dos Guarani e Kaiowá e de minimizar a grave situação que têm vivenciado.

Desde 2008, a Funai investe no trabalho de regularização das terras indígenas, quando instituiu seis Grupos de Trabalho (GTs) para a identificação e delimitação de terras Guarani e Kaiowá no Cone Sul do estado de Mato Grosso do Sul. Em julho deste ano, a presidenta e assessores da Funai estiveram presentes à Aty Guasu (Grande Assembléia dos Povos Kaiowá e Guarani), na aldeia Rancho Jacaré, município de Laguna Carapã/MS. Na ocasião, ficaram acordados novos prazos para entrega e aprovação dos relatórios de identificação e delimitação feitos pelos antropólogos responsáveis. Esse acordo foi pactuado pelos antropólogos coordenadores dos Grupos Técnicos, junto com a Funai, perante os indígenas.

A Funai reafirma, assim, o compromisso de aprovar os Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação das terras indígenas Guarani e Kaiowá no Cone Sul/MS, dentro dos prazos pactuado na Aty Guassu. Ademais, a Funai segue dando continuidade, em caráter prioritário, aos processos de regularização fundiária das terras Guarani e Kaiowá que já se encontram em estágio avançado do procedimento administrativo de demarcação.

No caso das comunidades Guarani e Kaiowá que sofrem com processos de judicialização de suas terras, como, por exemplo, Pyelito Kue, Passo Piraju, Arroio Korá, Kurusu Ambá, Ypoi, Nhanderu Marangatu, Laranjeira Nhanderu, entre tantas outras, a Funai reitera que continuará prestando assessoria e acompanhamento jurídico, a fim de que os processos sejam julgados o mais breve possível. A Funai permanece confiando que as decisões do Poder Judiciário sejam emanadas no sentido do reconhecimento e da reafirmação do direito do povo Guarani e Kaiowá às suas terras de ocupação tradicional.

A Funai afirma, mais uma vez, seu apoio às comunidades que se encontram em acampamentos e áreas de retomada nessa região, em sua legítima luta pela terra. Para isso, ações coordenadas emergenciais, efetuadas por várias instâncias do governo federal, de segurança e garantia de atendimento à saúde e segurança alimentar, vêm sendo implementadas desde a segunda semana de outubro, com rondas periódicas da Força Nacional e da Polícia Federal, atendimentos de emergência, além de inclusão de lideranças ameaçadas no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH).

A Funai trabalha ainda na finalização de um Plano de Proteção e Prevenção de Conflitos Fundiários para essa região. A formulação do plano foi iniciada em agosto deste ano, a partir de reunião provocada pela vinda de lideranças indígenas do Conselho da Aty Guasu e do tekohá Arroio Korá que demandavam soluções imediatas para os sérios problemas que as comunidades vêm enfrentando. Participaram da reunião representantes da Funai, da Secretaria Nacional de Articulação Social, da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança Pública e da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

A Funai ressalta a gravidade da situação dos Guarani e Kaiowá, cuja população é de 45 mil pessoas distribuídas por pequenas áreas. A situação é caracterizada como de confinamento, devido à alta densidade populacional. A qualidade de vida e, especificamente, a segurança alimentar, estão associadas ao acesso efetivo dos povos indígenas ao seu território tradicional.

Fundação Nacional do Índio – Funai

“A quien tienen miedo es a Jesús, no a Pagola”

José Antonio Pagola habla tres lenguas muertas y seis vivas. / ÁLVARO GARCÍA

El teólogo José Antonio Pagola, llevado por la Conferencia Episcopal ante la Inquisición romana, se alegra cuando le digo que también a Jesucristo lo harían preso si osara volver. “Claro, el peligro no soy yo, sino Jesús. A quien tienen miedo es a Jesús, no a Pagola”. Le cito a Dostoievski y se entusiasma, como si acabase de leer en Los hermanos Karamázov, la historia del Gran Inquisidor. Ahí está la esencia de la inquina del poder imperial del Vaticano contra la Ilustración, la libertad y la ciencia moderna.

Dostoievski sitúa la acción en Sevilla, en los tiempos más pavorosos de la Inquisición. Un día, el cardenal inquisidor, vestido como un emperador romano, hace quemar a 100 herejes “a mayor gloria de Dios”. Los sevillanos asisten en silencio, hasta que reconocen a Jesús entre ellos. Lo rodean, entusiasmados. El viejo inquisidor no resiste la escena. Ordena arrestar a Jesús y que se lo lleven al caserón del Santo Oficio. “¿Por qué has venido a estorbarnos?”, le dice cuando lo visita de noche. Pagola: “Claro. Jesús estorba. La crítica más dura a la Iglesia no llega de fuera. Llega desde las palabras de su fundador. Hoy estaría con los que se están quedando sin nada. Un libro sobre el auténtico Jesús es peligroso, sobre todo si se vende”.

Almorzamos cerca de la sede de Comisiones Obreras en Madrid, donde Pagola ha hablado al congreso de la Asociación de Teólogos Juan XXIII. “Busca un sitio sencillo. Voy a comer poco”, dice, como si diera por sentado que a un vasco de su tamaño, de aspecto tan sano a sus 75 años, lo querría llevar a restaurantes de abundancia.

“El detonante es que ‘Jesús. Aproximación histórica’ se vendía como rosquillas”

Nos hemos quedado colgados de la historia del Gran Inquisidor porque resume lo que ha pasado “con nuestra Iglesia”, reflexiona Pagola, con ese posesivo. “Nuestra Iglesia. Adoramos al crucificado ignorando a los crucificados de hoy”. Jesús predica la libertad. El Inquisidor se lo reprocha. “Los hombres se alegran de verse otra vez conducidos como un rebaño”, le dice. El Preso le da un beso en los labios. El viejo se estremece. Se dirige a la puerta, la abre y dice: “¡Vete y no vuelvas nunca, nunca!”.

Pagola publicó Jesús. Aproximación histórica en 2007 y todo iba bien hasta que el libro empezó a venderse. “Se está vendiendo como rosquillas”, advirtió un obispo a la Inquisición española. “Ese fue el detonante: ‘Que se vendía como rosquillas”.

Nacido en un muy humilde caserío guipuzcoano, el sexto de ocho hermanos, Pagola fue discípulo del cardenal Martini en Roma. También estudió en Jerusalén. Una cabeza privilegiada, que habla tres lenguas muertas y cuatro lenguas vivas, además de las suyas de origen (español y vasco). Fue vicario del obispo de San Sebastián (21 años con José María Setién y uno con Juan María Uriarte). Lleva vendidos 140.000 ejemplares de su Jesús en media docena de lenguas. En España es un libro clandestino, agotada la novena edición. En Navidad sale en Francia y están en marcha traducciones al ruso, japonés y croata.

“¡Estoy almorzando con un hereje!”. “No creo que lleguen a decir tanto, cuando se pronuncie la Inquisición romana, que ya lleva tomándose tiempo”. Se ha escrito que el cardenal Rouco y el obispo de San Sebastián, Munilla, dicen no haber leído su Jesús. “Si es verdad, malo; si mienten, peor”, le consuelo. “Déjelo estar”, replica. La atracción del hereje también está en su resistente paciencia.

Brasil melhora 20 posições em ranking de desigualdade de gêneros

Dilma Rousseff com a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster

Mulher na Presidência e em posições de destaque elevam posição do Brasil no ranking

O Brasil ganhou 20 posições em um ranking global sobre desigualdade de gêneros, graças aos avanços na educação para mulheres e no aumento da participação feminina em cargos políticos.

Segundo o ranking anual elaborado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF , na sigla em inglês), o Brasil saiu da 82ª para a 62ª posição entre 135 países pesquisados.

O ranking é liderado pela Islândia pelo quarto ano consecutivo, seguida por Finlândia, Noruega, Suécia e Irlanda.No lado oposto do ranking, o Iêmen é considerado o país com a pior desigualdade de gênero do mundo. Paquistão, Chade, Síria e Arábia Saudita completam a lista dos cinco piores.

Entre os países da América Latina e do Caribe, a Nicarágua, na 9ª posição no ranking global, é o país com a menor desigualdade de gêneros, seguida de Cuba, Barbados, Costa Rica e Bolívia.

O Brasil é apenas o 14º entre os 26 países da região pesquisados.

Entre os países considerados desenvolvidos, a Coreia do Sul é o que tem a maior diferença entre gêneros, com a 108ª posição no ranking. O Japão aparece em posição próxima, no 101º lugar.

Ranking da desigualdade de gêneros

(Lista selecionada de países)

1. Islândia

2. Finlândia

3. Noruega

4. Suécia

5. Irlanda

13. Alemanha

18. Grã-Bretanha

22. Estados Unidos

25. Austrália

26. Espanha

32. Argentina

47. Portugal

48. Venezuela

57. França

59. Rússia

62. Brasil

69. China

76. Uruguai

80. Itália

83. Paraguai

84. México

87. Chile

101. Japão

105. Índia

108. Coreia do Sul

Para elaborar o ranking, a WEF estabelece uma pontuação baseada em quatro critérios – participação econômica e oportunidade, acesso à educação, saúde e sobrevivência e participação política.

O Brasil recebe a pontuação máxima nos itens relativos a educação e saúde, mas tem uma avaliação pior em participação econômica (no qual está em 73º entre os países avaliados) e participação política (na 72ª posição).

Ainda assim, o estudo destaca que o avanço do país no ranking geral se deve a “melhorias em educação primária e na porcentagem de mulheres em posições ministeriais (de 7% a 27%)”.

O fato de ter uma mulher na Presidência, Dilma Rousseff, também conta positivamente para a posição do Brasil no ranking.

Redução desde 2006

O WEF, conhecido pelas reuniões anuais realizadas na estação de esqui suíça de Davos, publica anualmente o ranking de desigualdade de gênero desde 2006.

Segundo a organização, no último ano 61% dos países pesquisados registraram uma diminuição da desigualdade entre os gêneros e 39% tiveram aumento. Entre 2006 e 2012, no entanto, a porcentagem de países com redução da desigualdade salta para 88%.

A Nicarágua foi o país que registrou o maior avanço na eliminação da desigualdade entre os gêneros nos últimos seis anos, pulando do 62º posto em 2006 (entre 115 países pesquisados naquele ano) para a 9ª posição neste ano, com uma melhora de 17,3% na pontuação geral.

A Bolívia é o segundo país com o maior avanço, com uma melhora de 14% na pontuação, passando da 87ª para a 30ª posição do ranking.

Ministros do Supremo, 380 milhões de olhos vos contemplam

Cynara Menezes

Em agosto deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello concedeu liminar suspendendo o júri popular que finalmente faria Justiça ao “caso Nicole”. O empresário Pablo Russel Rocha é acusado de, em 1998, ter arrastado com sua caminhonete, até a morte, a garota de programa Selma Artigas da Silva, então com 22 anos, em Ribeirão Preto. A jovem era conhecida como Nicole.

Grávida, Nicole teve uma discussão com Pablo. A acusação diz que ele a prendeu ao cinto de segurança e a arrastou pela rua. Pablo, que responde pelo crime em liberdade, diz “não ter percebido” que a moça estava presa ao cinto e nem ter ouvido os gritos da moça porque “o som da Pajero estava muito alto”. O corpo de Nicole foi encontrado, totalmente desfigurado, do outro lado da cidade. Com a suspensão, a família de Selma/Nicole vai esperar não se sabe quantos anos mais pelo julgamento do acusado.

Na segunda-feira 22 de outubro, o mesmo ministro Celso de Mello condenaria os petistas Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino pelo crime de formação de quadrilha. Já os havia condenado por corrupção ativa. “Eu nunca vi algo tão claro”, disse ele, sobre a culpabilidade dos réus.

Em novembro de 2011, o ministro do STF Marco Aurélio Mello concedeu habeas corpus ao empresário Alfeu Crozado Mozaquatro, de São José do Rio Preto (SP), acusado de liderar a “máfia do boi”, mega-esquema de sonegação fiscal no setor de frigoríficos desvendado pela Polícia Federal. De acordo com a Receita Federal, o esquema foi responsável pela sonegação de mais de 1 bilhão e meio de reais em impostos. Relator do processo, Marco Aurélio alegou haver “excesso” de imputações aos réus.

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Na segunda-feira 22 de outubro, o mesmo ministro Marco Aurélio Mello condenaria os petistas Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino pelo crime de “formação de quadrilha”. Já os havia condenado por “corrupção ativa”. O esquema do chamado “mensalão” envolveria a quantia de 150 milhões de reais. “Houve a formação de uma quadrilha das mais complexas.  Os integrantes estariam a lembrar a máfia italiana”, disse Marco Aurélio.

Em julho de 2008, o ministro do STF Gilmar Mendes concedeu dois habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, sua irmã Verônica e mais nove pessoas presas na operação Satiagraha da PF, entre elas o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (que morreu em 2009). A Satiagraha investigava justamente desdobramentos do chamado mensalão, mas, para Mendes, a prisão era “desnecessária”.

Segundo o MPF (Ministério Público Federal), o grupo de Dantas teria cometido o crime de evasão de divisas, por meio do Opportunity Fund, uma offshore nas ilhas Cayman que movimentou entre 1992 e 2004 quase 2 bilhões de reais. O grupo também era acusado de formação de quadrilha e gestão fraudulenta.

Na segunda-feira 22 de outubro o mesmo ministro Gilmar Mendes que livrou o banqueiro Daniel Dantas da cadeia enviou para a prisão a banqueira Kátia Rabello, presidente do banco Rural, por formação de quadrilha. Já a havia condenado por gestão fraudulenta, evasão e lavagem de dinheiro. “Sem dúvida, entrelaçaram-se interesses. Houve a formação de uma engrenagem ilícita que atendeu a todos”, disse Gilmar.

O final do julgamento do mensalão multiplica por 25 – o número de condenados – a responsabilidade futura do STF. É inegavelmente salutar que, pela primeira vez na história do País, um grupo de políticos e banqueiros tenha sido condenado por corrupção. Mas, a partir de agora, os olhos da Nação estarão voltados para cada um dos ministros do Supremo para exigir idêntico rigor, para que a Justiça se multiplique e de fato valha para todos.

Estamos fartos da impunidade, sim. E também estamos fartos dos habeas corpus e liminares concedidos por alguns ministros em decisão monocrática, em geral nos finais de semana ou em férias, quando o plenário não pode ser reunido. Não se pode esquecer que o Supremo que agora condena os petistas pelo “mensalão” é o mesmo Supremo que tomou decisões progressistas importantes, como a liberação do aborto de anencéfalos e da união civil homossexual e a aprovação das cotas para afro-descendentes nas universidades. Estas foram, porém, decisões do colegiado. Separadamente, saltam aos olhos decisões injustas como as que expus acima.

Se há, como defendem alguns ministros, uma evolução no pensamento do STF como um todo, que isto também se reflita nas posições tomadas individualmente por seus membros. Não se pode, diante das câmeras de tevê, anunciar com toda a pompa a condenação e a prisão de poderosos e, à sorrelfa, na calada da noite, soltar outros. Cada vez que um poderoso for libertado por um habeas corpus inexplicável, ou que uma liminar sem pé nem cabeça for concedida por um ministro do Supremo para adiar o julgamento de gente rica, estará demonstrado que o mensalão não foi um divisor de águas coisa nenhuma.

Daqui para a frente, os ministros do Supremo Tribunal Federal têm, mais do que nunca, a obrigação de serem fiéis a si próprios e ao que demarcaram neste julgamento. Nós, cidadãos, estaremos atentos às contradições. Elas serão denunciadas, ainda que ignoradas pela grande mídia.

A Justiça pode ser cega. Mas nós, brasileiros, temos milhões de olhos. E estaremos vigiando.

Engajamento eleitoral da Igreja Católica é inédito, diz dom Fernando Figueiredo

Bispo responsável por uma das igrejas mais assediadas por políticos em São Paulo –o Santuário do Terço Bizantino, do padre Marcelo Rossi–, dom Fernando Figueiredo admite nunca ter visto a Igreja Católica se envolver tão fortemente numa eleição municipal quanto neste ano.

“Já vi uma manifestaçãozinha aqui e acolá, mas jamais um pronunciamento oficial”, afirma, ao comentar a ação do arcebispo dom Odilo Scherer, que no primeiro turno determinou que padres lessem comunicado com críticas à campanha de Celso Russomanno (PRB).

À Folha, o bispo de Santo Amaro diz que abre as portas de seu Santuário para que os fiéis possam “conhecer melhor” os candidatos.

Rechaça, no entanto, que líderes religiosos indiquem nomes aos eleitores. Apesar disso, direcionou os maiores elogios a José Serra (PSDB), que concorre com Fernando Haddad (PT).

Alessandro Shinoda/Folhapress
Dom Fernando Figueiredo concede entrevista na sede da Diocese de Santo Amaro, em São Paulo
Dom Fernando Figueiredo concede entrevista na sede da Diocese de Santo Amaro, em São Paulo

Folha – O Santuário acabou se tornando alvo do périplo de políticos. Como vê isso?
Vejo o santuário como local de congregação do nosso povo. Isso não só chama a atenção da imprensa, como também dos políticos, que têm ali acesso a um grupo bastante grande para se apresentar. Muitos deles vão movidos também pela fé. Gostaria que todos fossem assim.

O objetivo político incomoda?
Eu não pergunto a ninguém se foi lá por razão política ou religiosa. Cabe à pessoa.

É positiva essa aproximação dos políticos com as igrejas?
É um modo de eles se apresentarem e também de nós os conhecermos. Para votar, creio que uma das leis máximas é justamente conhecer e conhecer bem o candidato. É verdade que eles vão lá e as pessoas os veem naquele instante. Mas talvez essa primeira impressão já traga uma alegria de saber que conhece aquele candidato.

Não há risco de a igreja ser instrumentalizada?
Se eles [os políticos] instrumentalizam, o problema é deles. Nós fazemos com a consciência reta, desejando apresentá-los e levá-los a um encontro com o Senhor.

Na última semana, os materiais anti-homofobia que Haddad e Serra produziram viraram tema na campanha. Como vê isso?
Não vou entrar na questão do kit. A igreja sempre propugnou contra todo tipo de discriminação. Todos são chamados à salvação.

*Mas elaborar esse material pode ser considerado algo que desabone um candidato?
Creio que essa questão é muito delicada. Delicada demais para, numa pincelada, tratarmos sobre ela.*

Delicado para tratar em uma pincelada. E para tratar em ano eleitoral?
Muitas vezes os debates se tornam não muito elucidativos e, às vezes, distorcidos. Não colocaria essas questões num período eleitoral.

O pastor Silas Malafaia pediu voto para Serra dizendo que Haddad queria ensinar a homossexualidade. Ele está pregando o preconceito?
Eu não gostaria de julgar.

Mas o que acha de um líder religioso indicar candidato?
Ninguém deveria dizer quem é o candidato. É um abuso do contato e da credibilidade que os fiéis nos dão.

Então qual é o limite para a participação dos religiosos?
Eu diria que devemos apresentar, sim. Mas dar conhecimento não é indicar.

O sr. disse que é preciso conhecer bem os candidatos. Pode falar um pouco o que conhece de Haddad e Serra?
O Haddad me foi apresentado pela família Tatto [dez irmãos filiados ao PT-SP]. Eu já o vi em outra ocasião, mas não tenho contato. Vejo que é muito inteligente, tem capacidade intelectual e também flexibilidade quando discursa. O Serra eu conheço há tempos. Pediram-me para dar a unção dos enfermos a uma senhora. Na saída, vi um porta-retratos com foto dele e perguntei de onde o conheciam. Era a mãe dele. Difícil encontrar alguém que conheça mais a cidade do que ele.

O sr. foi a muitas inaugurações desta gestão. Se Haddad for eleito, continuará indo?
Eu não sou ligado a este ou aquele partido. Sabia que quando os cristãos eram martirizados, eles rezavam pelo imperador, que os estava levando à morte? É uma responsabilidade da autoridade estar sempre sintonizado com o Senhor.

No primeiro turno, dom Odilo Scherer pediu para que padres lessem nas missas texto contra a campanha de Celso Russomanno. Como viu isso?
Eu não tinha claro até aquele momento que o Russomanno estivesse ligado à Igreja Universal. Até hoje não tenho. Como o conhecia há muito tempo, o que eu via era ligação com a Igreja Católica.

O sr. declarou publicamente que ele era católico.
Você sempre deve fazer o que é melhor para a pessoa. Se nada me dizia que ele não era católico, como poderia não defendê-lo?

É inédito o engajamento eleitoral da igreja em São Paulo?
Essa pergunta é para ele [dom Odilo], não para mim. Cheguei aqui como bispo em 1989. Sempre houve uma manifestaçãozinha aqui e acolá, mas não um pronunciamento oficial. Isso jamais.

Qual é o limite desse engajamento religioso?
Você apresenta [candidatos], simplesmente. Mas a igreja deve iluminar a mente do eleitor para que ele possa considerar os candidatos não só no momento presente, mas também no passado. Senão, aparece alguém da Lua com um belo discurso, e as pessoas são levadas. O conhecimento que temos, por exemplo, do Serra. Ele é mais conhecido. É mais fácil termos julgamento.

Ele tem alta rejeição, em parte por ter saído da prefeitura.
Mas isso é tão secundário. Ele saiu por quê? Porque não queria servir o povo? Ou quis servir o povo ainda mais, como governador? Perdemos essa referência.

O sr. falou do Serra, poderia destacar méritos das gestões que viu desde 1989?
A Erundina teve muita preocupação social, pela realidade sofrida do povo. O Maluf é um homem de decisão. Quando tivemos problemas na região sul, agiu imediatamente. O Pitta bem menos…

E a Marta Suplicy?
Marta, Marta, Marta…. O que eu poderia falar da Marta? Aqui na região sul… Ela tinha uma preocupação pela saúde. Vemos postos de saúde que ela incentivou. Isso foi importante. A atuação do Kassab também tem sido marcante aqui na região.

A maioria da população reprova a gestão dele.
Eu fico sempre me perguntando: de onde que vem isso? Acho injusto. Acho não, creio. Vocês que estão na imprensa, o que me dizem? Não é um pouco pegar os aspectos que não são positivos e alardear, e isso faz com que a imagem da pessoa seja denegrida?

O senhor se refere ao Kassab?
Pode ser qualquer pessoa, até um santo. Pegue irmã Dulce. Pega um aspecto que não era muito positivo e começa a divulgar. Cria-se uma ideia contrária à pessoa.

O sr. recebe crítica por receber os políticos?
Às vezes recebo críticas: “Você recebeu Fulano, ele nem é católico e o senhor o deixou comungar”. Há uma lei na igreja que, se a pessoa se aproxima para a comunhão, você não pode negá-la.

Antes do primeiro turno, o candidato Gabriel Chalita veio a uma missa na qual estava o Serra. Ele reclamou que precisou “se convidar” para o evento. Na ocasião, o sr. não quis comentar.
Continuo sendo elegante com ele.

Ele se queixou com o senhor?
Continuo sendo elegante com ele. Estou começando a ser político! [risos]

Morte de mulheres cai 12% entre 2000 e 2010, diz Ministério da Saúde

 

Estudo divulgado nesta segunda-feira (22) pelo Ministério da Saúde aponta que a mortalidade feminina caiu 12% entre 2000 e 2010. Segundo o governo, a taxa de óbitos no período caiu de 4,24 para 3,72 para cada grupo de 100 mil mulheres.

 

Os dados fazem parte da publicação “Saúde Brasil”. Segundo a pasta, todas as regiões do país tiveram queda na quantidade de mortes de mulheres, causadas por doenças, violência doméstica, complicações durante a gestação, além de outros problemas.

 

A região Sul do país registrou queda de 14,6%, seguida do Sudeste, com 14,3%. O Centro-Oeste apresentou redução de 9,6%, enquanto as regiões Nordeste e Norte apresentaram diminuição de 9,1% e 6,8%, respectivamente.

 

O ministério divulgou ainda quais foram as principais causas de mortes de mulheres em 2010. Doenças do aparelho circulatório, como Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o infarto, foram as que mais mataram mulheres no ano (34,2%).

 

As neoplasias (câncer) vêm em seguida, responsáveis por 18,3% dos óbitos. Nesta categoria, o câncer de mama foi o que atingiu mais vítimas (2,8%), seguido do câncer de pulmão (1,8%) e o câncer do colo do útero (1,1%).

 

Regiões do país

Taxa de mortalidade para cada 100 mil mulheres (em 2010)
Norte 3,45
Nordeste 3,43
Sudeste 3,85
Sul 3,81
Centro-Oeste 3,87

 

Por idade
Em 2010, mulheres com idade a partir de 30 anos morreram principalmente por complicações decorrentes de doenças do aparelho circulatório e câncer. Já as mortes entre menores de dez anos ocorreram por afecções perinatais — problemas que acometem crianças na primeira semana de vida, ainda que a morte ocorra depois.

 

O levantamento aponta ainda que óbitos de mulheres com idade entre 10 e 29 anos foram causados por causas externas, definidas pelo ministério como acidentes e agressões (incluindo violência doméstica). Quanto à mortalidade materna, o estudo do governo federal aponta que em 2010 foram 68 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos.

 

Morte materna é aquela causada por complicações durante a gestação ou até 42 dias após o fim da gravidez, quando provocada por problemas de saúde como hipertensão, desprendimento prematuro da placenta ou doenças preexistentes, a exemplo das cardíacas, do câncer e do lúpus.

Ao longo de duas décadas, a mortalidade materna no Brasil caiu 51%. A pesquisa apontou que de 1990 a 2010, o número de mortes diminuiu de 141 para 68 para cada 100 mil nascidos vivos.

A segunda adolescência

Dia desses, passou no Telecine Cult um filme que fez a cabeça de 11 em cada dez adolescentes que assistiam à Sessão da Tarde no fim dos anos 80: Curtindo a Vida Adoidado.

Era o pop do pop. Um adolescente inquieto interpretado por Matthew Broderick finge estar doente para matar a aula e, junto com a namorada e um amigo, aproveitar um mundo proibido. O plano, observado tantos anos depois, não podia ser menos audacioso: uma vez livre dos adultos, o trio não fazia nada demais a não ser visitar museus, pontos turísticos, restaurantes e gastar horas na piscina falando sobre a vida. Ainda assim, era como experimentar a última fresta de luz de uma janela prestes a ser fechada, sem ter ideia para onde, como e com quem seguir dali para frente.

Para se proteger de um mundo de regras, os amigos decidem viver em comunidade no fim da vida

O modelo estava dado. De um lado, adultos criavam as regras e, de outro, os jovens as desafiavam. Era preciso dar um nó nos pais, professores e demais autoridades para se sentir minimamente vivo. O futuro era uma vida de obrigações e o presente, um instante não-renovável.

Mal sabia Ferris Bueller, o personagem de Broderick, que aquela adolescência era baba perto do que viria anos à frente. Porque, quando ganhasse o ingresso para a terceira idade, um novo espírito adolescente pediria passagem: de um lado, o mundo das regras, regulado pelos familiares economicamente ativos e, de outro, o espírito inquieto de quem não está disposto a vestir o uniforme socialmente reservado ao descanso, à docilidade, à vida privada de prazeres ou desafios.

No belo e tocante E Se Vivêssemos Todos Juntos?, filme de Stéphane Robelin em cartaz em São Paulo, essa inquietação parece clara na fala de Jeanne, personagem de Jane Fonda que a certa altura confessa: “A gente planeja tudo, mas nunca pensa no que fazer nos últimos anos de vida”.

Antônio Cecchim: A novidade introduzida por Dom Helder Câmara

Constatamos uma vez mais, que a Catequese Libertadora ainda não entrou no Brasil e talvez também não tenha entrado ainda em todo o continente latino-americano em cujo solo nasceu e para cujo solo se destina”, afirma Antonio Cechin, irmão marista e miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

 

Ouvimos falar o nome de Hélder Câmara pela primeira vez, quando tínhamos em torno de 20 anos de idade, depois acompanhamo-lo pelas notícias, principalmente pela imprensa católica. Naquele tempo, uns 60 anos atrás,ele era Padre Hélder, um sacerdote da arquidiocese do Rio de Janeiro que se dedicava a jovens operários da Juventude Operária Católica (JOC). Pouco tempo depois, ficou nomeado bispo auxiliar do cardeal Dom Jaime de Barros Câmara. Foi então escolhido para ser o coordenador geral de todos os ramos da Ação Católica do Brasil: homens, mulheres e jovens.

Tão logo fora nomeado bispo, Dom Hélder Câmara inaugurou na Igreja do Brasil um discurso inteiramente novo no início da década de 1950. Face à imensa maioria da população do país ser pobre e subdesenvolvida, começou a apelar para a opção pelos pobres como sendo a opção fundamental do Homem Jesus de Nazaré e nessa trilha dos pobres deveria se engajar a Igreja. “Deus tem um lado” dizia Dom Hélder, nos primeiros tempos de bispo. A Missão dos cristãos no Brasil é de “Libertar os oprimidos!”

Para coisas novas, palavras novas. Na falta de vocábulos novos para um discurso novo, repleto de ideias-forças novas, como sói acontecer com inventores de novas descobertas que até ontem eram inimagináveis. “Não se coloca remendo velho em pano novo” já dizia nosso Mestre”.  Na falta de uma Teologia da Libertação, ainda por inventar, Dom Hélder citava frases antigas de algum alfarrábio, que haviam passado desapercebidas ao tempo em que foram ditas, entremeando tudo com muito Evangelho, retratando sempre a vida e a obra de Jesus o Homem- Deus dos Pobres. Assim, um pensamento do filósofo e teólogo maior da Igreja de todos os tempos, santo Tomás de Aquino, autor da Suma Teológica, em plena idade média que pode ser traduzido mais ou menos assim:

Quando uma pessoa ou um grupo de pessoas se encontram em situação de carência extrema, sem possibilidade de satisfazer as necessidades básicas e fundamentais como alimentação, saúde, moradia, etc. então o mundo inteiro passa a ser comum. Aquele que não tem o que comer, para sobreviver, tem direito a ir a qualquer lugar: supermercado, geladeira dentro de residência, armazém, restaurante, pegar comida aonde estiver e comer, porque tem o supremo direito de continuar vivendo segundo a lei do Criador. Se não tiver aonde repousar e descansar tem o supremo direito de ocupar qualquer abrigo que existir em seu entorno: abrigo, casa de moradia, hotel, etc. etc.

Na verdade, foi Dom Hélder que nos iniciou, no Brasil, à opção pelos pobres. Com seus discursos tonitruantes, apesar de sua figura pequena e franzina, tirou muitas pessoas de pouca fé, do sono letárgico em que jaziam dentro de um cristianismo de pura rotina.

Logo que Dom Helder recebeu a incumbência do Papa João XXIII de criar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na função de secretário executivo da entidade que exercia, sugeriu aos bispos do país a troca da Ação Católica de linha italiana, criada pelo papa Pio XI, pela Ação Católica Especializada, de linha francesa. O que mais interessava a Dom Hélder nessa troca da Itália pela França era o método VER-JULGAR-AGIR que fora criado por Monsenhor Cardijn, sacerdote belga com seus jovens operários, no movimento que fundaram: a  chamada JOC ou Juventude Operária Católica. Esse método Ver, Julgar e Agir também foi adotado mais tarde, para o ato de fazer Teologia da Libertação.

O Papa Pio XI, fundador da ação católica , por isso mesmo de linha italiana, tinha tido um encontro pessoal com Monsenhor Cardijn da JOC. Terminada a reunião, em entrevista coletiva Pio XI disse aos jornalistas referindo-se ao Monsenhor:  “Pela primeira vez alguém me falou que temos de evangelizar as massas humanas.” A ação católica italiana visava mais o afervoramento na fé dos cristãos, focada numa prática religiosa mais intensa da vida sacramental, ao passo que a de linha francesa visava um Movimento Popular Católico para servir de fermento nas massas.

Na mesma arquidiocese de Recife, para a qual Dom Hélder foi removido, momentos antes de terminar o Concílio Vaticano II, outra grande figura surgiu com um método de educação original. Tinha como finalidade precípua, ensinar a ler e a escrever aos numerosíssimos analfabetos do Brasil. Paulo Freire nasceu com alma de educador. Tornou-se o maior pedagogo de todos os tempos na América Latina como criador do método psico-social, que também é conhecido como Pedagogia do Oprimido ou Educação como Prática da Liberdade.

Quem primeiro aproveitou desse excelente método libertador, foi a Igreja Católica na pessoa do mesmo Dom Hélder Câmara, que foi também o primeiro secretário executivo da entidade que ele próprio acabara de fundar, atendendo a um apelo pessoal que o Papa João XXIII lhe fizera: a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB).

Os militantes da Igreja, dos Movimentos da Ação Católica Especializada, de modo especial o mundo jovem da Igreja da JAC, JEC, JIC, JOC, JUC subiam os morros das periferias das cidades e ao mesmo tempo se enfiavam pelos grotões interioranos do Brasil onde houvesse Vilas ou povoados de gente pobre e analfabeta, em busca das Palavras Geradoras que serviriam de ponto de partida para reuniões com 20 a 30 pessoas analfabetas, homens e mulheres.

Em 20 dias de reuniões eram alfabetizados. A esses grupos  de alfabetizandos, Paulo Freire deu o nome de Círculos de Cultura. O nome já diz: não existe no mundo gente totalmente inculta. Toda e qualquer pessoa, pelo simples fato de ter experiência de vida, é naturalmente uma pessoa culta. Já é possuidora de uma cultura. Conhece e faz muitas coisas. Se sabe plantar um pé de mandioca, é um agricultor. O próprio vocábulo composto agri + cultor, traduzido etimológicamente significa ter cultura agrícola.

Lembro quando Paulo Freire, que de início havia se dedicado de corpo e alma à alfabetização dos pobres do Brasil, ao trocar idéias com Dom Hélder, ficou convencido a ampliar o aprendizado do alfabeto ao lado de um leque de conhecimentos básicos, referentes às necessidades fundamentais da vida, como alimentação sadia, higiene e saúde, direitos humanos etc. Para além das Palavras Geradoras, ponto de partida para a alfabetização, partiu-se para a pesquisa dos Temas Geradores que fossem apropriados também como ponto de partida dos diversos tipos de conhecimentos de um Bem Viver.

Os Centros de Cultura passaram a administrar uma Educação de Base. Pelo fato de serem  Centros de Educação organizados pela Igreja, se tornaram as primeiras Comunidades Eclesiais de Base, cuja finalidade é servirem de base para uma nova sociedade e base de uma nova Igreja. Pouco tempo antes dos militares darem o golpe ditatorial de 1964, a CNBB havia lançado, no Brasil, a primeira cartilha denominada Educação de Base.

À Caminhada desencadeada por Hélder Câmara e Paulo Freire foi se constituindo num autêntico Processo Histórico de Libertação e de Salvação. Libertação tanto das estruturas opressoras de nossos povos, quanto de Evangelização e Salvação de todos em Cristo.

Coube ao Brasil a criação e o lançamento para todo o continente e também para o mundo da Catequese Libertadora. O cuidado com o aprimoramento em passos sucessivos do Conteúdo desse modelo novo de Catequese, coube à figura ímpar do Bispo Pastor Dom Hélder em seu profetismo permanente, e o método dessa Catequese libertária foi obra e graça de Paulo Freire com sua Pedagogia do Oprimido ou Educação para a Prática da Liberdade.

Em nome de todo o Brasil e muito bem coadjuvados por todos os membros da Equipe Nacional de Catequese da CNBB, bem assessorados pelos bispos Dom José da Costa Campos, da cidade de Valença (Rio de Janeiro) titular da Pastoral de mesmo nome junto á CNBB, e de Dom Fragoso da cidade de Crateús (Ceará), num total de quase 10 pessoas, fomos como representação brasileira, lançar os resultados de nossos avanços em relação a uma autêntica Catequese Libertadora para nossa América, participar de uma assembleia internacional que reunia os grandes especialistas em Catequese do mundo inteiro, na denominada 5ª Semana Internacional de Catequese, na cidade de Medellin (Colômbia). Realizou-se esse  conclave de catequistas, um mês antes da grande Assembleia episcopal latino-americana, acontecida nessa mesma cidade colombiana e no mesmo prédio. no mesmo local.

Na 5ª Semana Internacional, perante os maiores especialistas em Catequese do mundo inteiro, a Catequese Libertadora pediu passagem. Coube a nós ler o texto fundamental, resultado de nossos avanços no Brasil.

Não foi fácil. Os debates foram acalorados diante da revolucionária novidade da Libertação que anunciava uma Nova Evangelização e totalmente diferente do que no mundo inteiro circulava sob o rótulo de Renovação Catequética. Para a conjuntura social, política e econômica da América Latina, uma Catequese verdadeiramente Nova tanto no conteúdo quanto na forma ou método, que considerávamos coerente com a situação de pobreza e miséria de nossa América.

Como catequistas do Brasil com missão cumprida perante os especialistas do mundo ali reunidos, com maioria de Catequistas europeus um tanto contrariados e insatisfeitos, por termos privilegiado a situação do nosso continente, retornamos ao Brasil que fervilhava por causa dos golpistas militares em caça às bruxas.

Não houve nem tempo de continuar no exercício de experiências-piloto com a Catequese Libertadora recém lançada e cujas linhas mestras foram adotadas pelos documentos oficiais da Igreja hierárquica depois reunida também em Medellin, no mesmo ano de 1968.

Algumas Fichas Catequéticas lançadas em Porto Alegre, ainda numa espécie de transição entre o modelo catequético europeu que herdáramos desde a colonização européia e o nosso atual de libertação para a América, foram caracterizadas pela ditadura de plantão no Brasil, como altamente subversivas e imediatamente recolhidas pelos esbirros militares em todas as escolas de catequistas em fase de experiência. Houve até prisão de catequista por causa da subversividade das tais Fichas, utilizadas como material de atividades dos Catequizandos.

Resultado: Agora, na Semana que passou, diante de um pequeno público de umas 10 pessoas, facilmente compreensível em seu pequeno número de participantes, tendo presente que o Congresso era de teologia e não de Catequese, constatamos uma vez mais, que a Catequese Libertadora ainda não entrou no Brasil e talvez também não tenha entrado ainda em todo o continente latino-americano em cujo solo nasceu e para cujo solo se destina. A Catequese como leitura dos Sinais dos Tempos ainda não é uma ridente realidade como já acontece com a Teologia de Libertação que acaba de dar a demonstração mais cabal neste Congresso Internacional que acaba de se realizar na cidade de São Leopoldo, na UNISINOS.

Já tivéramos um susto, alguns anos atrás, quando da realização do Encontro Nacional de Comunidades Eclesiais de Base do Brasil, na cidade de Ipatinga (Minas Gerais). Uma das oficinas do programa era sobre a situação da Catequese nas Comunidades Eclesiais de Base. Foi assessorada, a oficina, pela Equipe Nacional de Catequese da CNBB. Reuniu mais de 300 pessoas. Achamos completamente estranha a constatação de que a maioria das pessoas das CEBs do Brasil inteiro, anualmente tem uma dificuldade extrema em arranjar Catequista para suas Comunidades.

Afinal de contas, que dificuldade é essa em relação à Catequese Libertadora? Medo da ditadura já não mais pode ser a causa, porque temos no país uma democracia bem consolidada. O que poderia mesmo ser então?

De qualquer maneira, deixamos aqui consignado nosso testemunho global sobre a Catequese da Libertação como uma catequese por excelência dos Sinais dos Tempos. Como uma ferramenta apta a ler o Processo Histórico de Salvação de Deus, na transparência do Processo Histórico da Libertação total dos povos de nossa América, ambos tendo o Emanuel, (o Deus conosco) puxando a frente.

Resumindo: O processo histórico da CAMINHADA desencadeada pelos Profetas Dom Hélder Câmara e Paulo Freire, em seus passos sucessivos é a demonstração cabal do que significa, em sua globalidade de Processo a própria Catequese da Libertação em sua dupla dimensão: Divina e Humana.

Projeto de brasileira lança novo olhar sobre origem e destino de escravos

Ana Alakija | Crédito da foto: Live Smart Videos

Descendende de escravos, Ana Alakija quer ampliar conhecimento sobre a escravatura

Uma jornalista radicada nos Estados Unidos se dedica, há mais de uma década, à missão de registrar e divulgar a história de vítimas da escravidão e o destino de seus descentes.

O objetivo de Ana Alakija, que é descendente de um clã de um antigo reino iorubá, o segundo maior grupo étnico nigeriano, é destacar aspectos pouco explorados pela ensino oficial de história.

“Peço licença aos meus antepassados africanos para quebrar a tradição de passar nossa história oralmente e apresentar suas memórias de forma mais concreta”, disse à BBC Brasil.

Desde 1997, a jornalista vem reunindo informações e documentos coletados no Brasil e também na África – especificamente em Lagos, na Nigéria – para onde um grupo de africanos e descendentes voltou após a abolição da escravatura.

O esforço resultou na produção de um documentário, um livro e uma série de exposições com fotos, documentos e artesanatos que ilustram a trajetória do grupo interconectado pelo Atlântico.

Escravidão no Brasil

Estima-se que metade dos cerca de 13 milhões de africanos capturados para servirem de escravos nas Américas tenham sido enviados para o Brasil.

Ana se concentra na história que não é ensinada nas escolas, mostrando as conquistas e as contribuições intelectuais, comerciais e políticas dos africanos à sociedade, antes e depois da escravatura.

Um número expressivo de vítimas, por exemplo, fazia parte da elite política e religiosa iorubá, e esses indivíduos foram vendidos como escravos porque eram prisioneiros de guerra. Isso representa uma perspectiva histórica diferente da ideia de servidão passiva dos escravos que é geralmente contada nas salas de aula, segundo a pesquisadora.

Muitos dos escravos brasileiros alforriados reconquistaram o status social de seus antepassados, tornando-se médicos, advogados, comerciantes, políticos e donos de propriedades, tanto na África quanto no Brasil.

Estima-se que metade dos 13 milhões de africanos capturados na África vieram ao Brasil.

Um exemplo do fenômeno é o destino da própria família Alakija, que conectou os dois continentes mesmo após a abolição da escravatura, em 1888.

“Meus bisavós eram vizinhos na África, mas só se conheceram no Brasil. Meu bisavô reconquistou seu título de nobreza e dinheiro quando voltou à Nigéria, estabelecendo lá uma plantação de algodão com o que aprendeu no Brasil”, disse Ana.

O avô da jornalista, Maxwell Alakija, visitou o Brasil na infância e se apaixonou pelo país. No início do século 20, o filho do próspero fazendeiro decidiu estudar advocacia em Salvador, que já contava com uma renomada faculdade de direito. Na Bahia, ele fez carreira como advogado e teve três filhos. O pai de Ana e seu irmão se dedicaram à medicina, e o irmão deles optou pela engenharia civil.

O objetivo da historiadora é que a preservação e divulgação do papel dos negros na África e nas Américas contribuam com a continuidade dos vínculos originalmente estabelecidos entre esses continentes. “Esse diálogo pode ajudar a criar um entendimento mútuo para os relacionamentos entre brancos e negros nas sociedades modernas e multiculturais”, disse Ana.

O projeto da jornalista é intitulado Memorial Alakija e já está programado para ser promovido nos próximos meses em eventos no Brasil, Nigéria, Estados Unidos e alguns países europeus. “Quero ter um sentimento de missão cumprida”, afirma Ana.