Cruzadas, novamente

Vladimir Safatle

As cenas dos ataques de salafistas às embaixadas norte-americanas levantam alguns pontos maiores sobre aquilo que poderíamos chamar de “a questão árabe”.

Manifestantes protestam com uma bandeira da Al-Qaeda em um protesto em Benghazi, na Líbia, em 14 de setembro. Foto: AFP

Primeiro, há de se dizer claramente que a atuação dos salafistas é medonha sob todos os aspectos. Depois da Primavera Árabe, esse grupo sunita começou paulatinamente a atuar em países como Tunísia, Egito e Líbia com vistas à afirmação de uma sociedade radicalmente moldada em uma leitura “rigorosista” de preceitos religiosos muçulmanos. Leitura que boa parte dos próprios muçulmanos vê como no limite do delirante. Por meio da invasão de universidades, queima de cinemas, bloqueio de exposições, eles elegeram a cultura o campo de batalha preferencial. Sociedades muçulmanas laicas como a tunisiana veem nos salafistas um risco de regressão social. Pois eles sabem como os salafistas se aproveitam de um sentimento profundo de exclusão e preconceito para transformar isso em raiva antiocidental.

Nesse sentido, é importante lembrar que a briga entre os salafistas e o Ocidente é, na verdade, um desdobramento de um conflito no interior da própria religião muçulmana e dos países árabes. Tal como os cristãos, os muçulmanos não têm unidade alguma. Tal como os cristãos, eles se dividem, muitas vezes de maneira antagônica, a respeito da interpretação dos preceitos de seu livro sagrado. Boa parte dos costumes que acreditamos serem obrigações muçulmanas, como o uso de burca e a extração do clitóris, não tem base alguma no Alcorão. Tudo isso tende a ser negligenciado quando vemos as cenas brutais das embaixadas em chamas.

Aqui, vale a pena uma reflexão tendo em vista a revisão de certas escolhas geopolíticas dos países ocidentais. Os salafistas atuam hoje dessa forma por se sentirem fortes diante de seu crescimento real em várias nações árabes. Tal crescimento, cujas causas devem ser estudadas com calma e que misturam problemas socioeconômicos e demandas de segurança, tem sido financiado, em larga medida, por países como a Arábia Saudita. Bastião de uma sociedade teocrática, sede de uma monarquia absoluta medieval que faz o Irã parecer uma democracia escandinava, a Arábia tem sido generosa na subvenção desses grupos que agora resolvem queimar embaixadas. Ou seja, a primeira coisa que os países ocidentais deviam fazer é rever suas relações preferenciais com os sauditas.

Por outro lado, há de se fazer uma reflexão a respeito do filme que serviu de estopim para tais ações. Permitir um filme dessa natureza, onde seu realizador afirma querer mostrar como o islamismo é um câncer, nada tem a ver com liberdade de expressão. Pois nunca a liberdade de expressão significou poder falar qualquer coisa de qualquer forma. Em toda situação democrática, há afirmações não permitidas. Por exemplo, se alguém fizer um filme a fim de mostrar que os gays são seres promíscuos responsáveis pelo mal moral do mundo, que os negros são seres inferiores ou que os judeus estão por trás da crise econômica, que controlam tudo e que inventaram o Holocausto, tal indivíduo será, com razão, enquadrado em crime penal previsto por lei e a exibição do seu filme será proibida. A razão é simples: não se trata de uma questão de opinião, mas de preconceito e simples violência social. Se há algo que a democracia reconhece é o fato de que nem toda enunciação é uma opinião. Há enunciações que, por causa de sua violência e preconceito, são crimes.

É claro que temos o direito de criticar dogmas religiosos. Não se segue daí, porém, que se possa fazer isso de qualquer forma. Posso criticar o dogma católico da transubstanciação, mas não significa que eu possa entrar na missa e cuspir na hóstia. Da mesma forma, posso criticar, em minha aula, o Estado brasileiro afirmando que sua bandeira é hoje um pano velho sem sentido. Mas não se segue daí que eu possa entrar em sala e atear fogo à bandeira. Saber encontrar a forma adequada de crítica é o mínimo que se pode esperar no século XXI.

Por fim, normalmente há aqueles que afirmam que, se assim fosse, teríamos de proibir Voltaire e seus textos anticlericais. Contra esses, gostaria de lembrar um ponto: Voltaire era corajoso o suficiente para criticar sua própria tradição religiosa. Algo muito diferente é fazer profissão de fé esclarecida, ridicularizando as crenças religiosas de outros povos. Aqueles que não têm coragem de criticar sua própria tradição melhor fariam se silenciassem sobre as tradições do outro.

Semana (des)farrapa

A semana (des)farrapa é sempre um momento para pensarmos sobre nossas origens, nosso passado e, o mais importante, o nosso futuro como povo e nação.

É um pensar que exige clareza de princípios e opções para não cair num ufanismo patriótico que ignora os fatos e seus significados, tanto os do passado como os do presente.

Para refletir sobre o tema, sugiro um artigo do professor Mário Maestri, um dos melhores conhecdores dahistória riograndense. Ele pode ser acessado no  link que segue: http://www.espacoacademico.com.br/021/21cmaestri.htm

As religiosas são as pessoas mais admiradas

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Pesquisa realizada pela CNN, Washington Post e revista Time. ()

É o que dizem as estatísticas mais recentes. Um estudo realizado sob a responsabilidade da CNN, Washington Post e revista Time, tornou visível que os líderes religiosos (neste caso, é preciso falar no feminino) mais valorizados pelos católicos dos Estados Unidos são as religiosas.

Muitos meios de comunicação ecoaram que, inclusive, as polêmicas em torno das religiosas estadunidenses, impulsionadas talvez por grupos ultraconservadores, não prejudicaram o carinho e o incondicional afeto do povo estadunidense com as “Irmãs”. O reconhecimento às religiosas, pelo papel que possuem na longa história da Igreja católica do país, é praticamente unânime.

Torna-se notável que o conjunto dos católicos estadunidenses aprova aos demais líderes religiosos (sacerdotes, bispos e o Papa) com uma boa nota.

Sobre isso, mais informações:

Washington, 18 set (SIR) – A maioria dos católicos dos Estados Unidos considera-se satisfeita com o trabalho dos bispos de seu país.

Segundo a AICA, esse é um dos dados que destaca uma pesquisa da “Catholics Share Bishops´ Concerns about Religious Liberty”, feita pela The Pew Forum on Religion & Public Life.

Trata-se de um dado relevante e esperançoso se for considerado que em junho de 2002, apenas 51% dos católicos americanos declarava-se satisfeito com os prelados estadunidenses. Em dez anos a aprovação subiu 19%. Hoje 70% dos católicos estão satisfeitos com seus pastores. Quando perguntado sobre o bispo de sua diocese particular, a aprovação chega a 74%. Em 2002 esse índice de aprovação não ultrapassava 65%.

A que se deve essa subida de aprovação? Segundo a “Catholics Share Bishops”, essa elevação no índice está diretamente relacionado com a postura assumida pelos bispos com relação às leis anti-vida e anti-família nos diferentes Estados e a nível federal.

Veja a intenção de voto em SP pelas principais religiões

O candidato a prefeito de São Paulo Celso Russomano perdeu 17 pontos percentuais entre os evangélicos não pentecostais, segundo a última pesquisa Datafolha. O candidato do PRB caiu de 42% na pesquisa anterior para 25% das intenções de voto.

Ao mesmo tempo, o candidato do PSDB, José Serra, registrou um crescimento de 10 pontos percentuais entre essa parcela do eleitorado, elevando seu porcentual a 24%. A margem de erro, no entanto, é alta: 11 pontos.’

A corrente não pentecostal dos evangélicos abrange as igrejas mais antigas, como a Metodista, a Presbiteriana e a Batista. Até o momento, nenhuma delas declarou a abertamente apoio a qualquer dos candidatos. No quadro geral, Russomano lidera as intenções de voto com 32%. O tucano José Serra e o petista Fernando Haddad têm 20% e 17%, respectivamente, e estão tecnicamente empatados em segundo lugar. Entre os segmentos religiosos, devido a amostragem reduzida, a margem de erro é superior ao da pesquisa geral – cujo máximo atinge 3 pontos percentuais . Baixe aqui o relatório completo da pesquisa Datafolha.

Fonte: Censo 2010, IBGE

Entre os evangélicos pentecostais, Russomano tem o apoio da Universal do Reino de Deus, uma das maiores igrejas do país. Ele também disputa com Serra o aval da Renascer, que tem 20 mil fiéis apenas em São Paulo, segundo o Censo 2010. A Igreja Mundial, do pastor Valdomiro Santiago, já declarou apoio a Serra.

Neste segmento, Russomano também oscilou para baixo, assim como Serra. Os demais candidatos permaneceram estáveis. A margem de erro da última pesquisa foi de 7 pontos percentuais. Veja o gráfico abaixo:

O Datafolha também mensurou as intenções de voto entre os eleitores católicos. Somente Chalita apresentou aumento na categoria, com dois pontos percentuais. Nesta última pesquisa, Serra e Haddad permaneceram estáveis e Russomano perdeu 2 pontos percent

Pesquisa feita no RS mostra relação entre medicina e espiritualidade

Roberta Salinet Da RBS TV

 

 

 

Uma pesquisa desenvolvida por dois médicos no Hospital São Francisco, do Complexo da Santa Casa de Porto Alegre, mostra a relação entre a medicina e a espiritualidade. No levantamento feito com 260 pacientes desde maio deste ano, a conclusão foi que a fé tem influência no tratamento de doenças. Os números da primeira fase do estudo serão apresentados no 67º Congresso Brasileiro de Cardiologia, que será realizado de 14 a 17 de setembro em Recife (PE).

 

“Nós temos a presença de Deus no nosso dia a dia. Eu tenho inúmeras histórias na minha vida de cirurgião cardíaco em que a gente sente a presença de Deus”, diz o cirurgião cardiovascular Fernando Lucchese, que é católico. Ele e o cardiologista Mauro Pontes, seu parceiro na pesquisa e espírita, fazem parte de uma parcela de pesquisadores que crê em Deus. “Milagre para nós é quase que um fato diário”, diz Pontes.

 

Na primeira etapa, o estudo conduzido pelos dois médicos procurou saber o que os doentes e médicos pensam sobre a espiritualidade e perceber como a religião ajuda a superar as doenças. Entre os 260 pacientes ouvidos, todos disseram que acreditam em Deus. Quando questionados sobre a crença na vida depois da morte, 71,1% dos participantes da pesquisa disseram acreditar. Quando se cruzam as perguntas sobre religião e saúde, fica evidente a importância da espiritualidade: mais de 84% acredita que ter fé faz bem à saúde e 88,2% usa a fé como conforto na doença.

 

“Eu sempre tive fé, desde o ambiente familiar me criei com fé. Respeito Deus, gosto de Deus, acredito em Deus, tenho fé em Deus”, diz Antônio Gilberto Lehnen, que passou por um transplante de coração há 10 anos. “Eu devo a minha saúde a duas situações. Uma é a competência médica, a ciência. De outro lado está a oração, muita oração”, conta ele, que é um dos pacientes de Lucchese.

 

 

Para surpresa dos pesquisadores, mais da metade dos pacientes gostaria que o médico falasse sobre espiritualidade. Mais de 70%, no entanto, diz que o médico nunca falou sobre o assunto. Outro dado chamou a atenção dos médicos: 16% dos pacientes acham que a doença é um castigo de Deus.

 

“Eles têm a crença de que o comportamento deles foi inadequado. Acham que tiveram culpa pelo desenvolvimento da doença e acham que Deus está punindo eles por causa desse comportamento”, explica Pontes. Esses pacientes, diz o cardiologista, têm um índice de mortalidade 50% maior, mas o motivo ainda não foi descoberto. “O mecanismo que associa essa crença com o aumento da mortalidade ainda está sendo esclarecido”, conclui.

 

Outro aspecto que está sendo estudado é a influência do comportamento e do estado de espírito dos pacientes na cura. “Estamos chegando progressivamente à bioquímica das doenças da alma. Por exemplo, um sujeito que é raivoso, explosivo, a gente não pode dizer que seja doente mental, ele tem uma doença da alma, a raiva”, diz Lucchese.

 

Por meio de exames de sangue, foi verificado que as pessoas raivosas têm maior nível de interleucina 6 no sangue. “Nós somos corpo, mente e espírito. Nestes indivíduos se detectou que no sangue eles há um produto em nível mais alto, que é chamado marcador de inflamação. É a interleucina 6, proteína C reativa ultrassensível, são marcadores que indicam no organismo alguma coisa que vá nos levar à doença”, explica o médico.

 

Por outro lado, há estudos demonstrando que em comunidades religiosas os integrantes têm índices mais baixos de interleucina 6 no sangue. “Nossa próxima fase na pesquisa será exatamente isso. Estudar a bioquímica nos procedimentos cardiovasculares”, conclui.

Não faça de seu voto uma arma…

Em menos de um mês o Brasil conhecerá os novos profeit@s de seus municípios. Em todas as cidades, desde as menores até a maior de todas, São Paulo, vive-se a emoção e a tensão pré-eleitoral. Propaganda nas ruas, nos jornais, revistas, televisão e rádio. É tanta propaganda que nem mais prestamos atenção nela.
Ontem, no entanto, estava voltando do serviço ouvindo rádio e, em meio à programação musical, uma propaganda do TSE chamando para o voto consciente com o slogan “Faça de seu voto sua arma”. Em seguidinha o programa de notícias da emissora e, entre as informações, a de que, só no início do feriadão, 30 pessoas haviam sido assassinadas no Rio Grande do Sul. Impossível não conectar as informações: voto=arma=30 assassinatos no feriadão…
Dei-me conta então da infeliz metáfora escolhida pelo TSE para a propaganda. Num país estremamente violento como o nosso onde a violência do quotidiano mata mais do muitas guerras, apelar para a imagem da arma como estímulo para o voto consciente, não é, com certeza, o melhor argumento…
A que entendimentos pode nos conduzir tal imagem¿ Alguém poderia pensar numa solução literal: “a melhor forma de acabar com os maus políticos, é matá-los…” Outros poderiam pensar: já que a disputa política não resolve, voltemos para a forma bruta de resolver as diferenças e, quem tiver mais força, que vença!
Numa sociedade civilizada, voto não é arma. Voto é exercício de cidadania. Votamos porque somos cidadãos e queremos resolver nossas diferenças de força civilizada.
Neste 07 de outubro, não faça de seu voto uma arma. Faça dele um exercício de cidadania.
Bom voto a todos…

CNBB lança campanha por um Estado a serviço de todos

As manifestações acontecem durante toda a semana da Pátria, até o dia 7 de setembro

O Brasil é a sexta maior economia do planeta e, ao mesmo tempo, lidera os índices de injustiça social – é o quarto país mais desigual da América Latina – e de corrupção – ocupa o 69º lugar de um ranking com 91 países. Por isso, durante a semana de comemoração da Independência do Brasil, ocorrerão por todo o País uma série de caminhadas e atos públicos em defesa de um Estado mais justo e a serviço da população.

As manifestações fazem parte do Grito dos Excluídos, um evento nacional organizado pela Confederência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em parceria com diversos movimentos sociais. Segundo o bispo da CNBB, dom Guilherme Werlang, o Estado tem se mostrado muito mais a serviço de interesses particulares do que a serviço da nação. “O grito é para que o Estado atenda aos direitos da população nos mais diversos aspectos”, afirma. “Se todos somos iguais perante a lei, o Estado deveria garantir isso”, completa dom Guilherme .

Dessa forma, sob o lema Um Estado a Serviço da Nação, que Garanta Direitos de Toda a População, a Pastoral Social da CNBB agiu como incentivadora e organizadora de diversas manifestações de movimentos sociais com as mais variadas demandas por todo o país.

As principais mobilizações do Grito dos Excluídos de 2012 alcançam desde a violência contra os jovens e a diferença racial até a corrupção e as implicações das obras preparativas para a Copa do Mundo.

“O principal objetivo do ‘Grito’ é ajudar as pessoas a perceberem que a realidade não é tão simples como os líderes políticos mostram e incitar o gérmen da democracia participativa”, explica Ari Alberti, coordenador do evento.

“É preciso que a população discuta durante essa semana para quem o Estado serve. Essa é a grande questão”, diz Iury Paulino, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) na Amazônia. “Durante o Grito dos Excluídos vamos discutir para quem a energia de Belo Monte servirá”, adianta. “Se servirá aos brasileiros ou ao capital estrangeiro e as mineradoras que atuam na Amazônia”, completa Paulino.

O Grito dos Excluídos de 2012 conta com atos e panfletagens em todos os estados brasileiros durante a semana da Pátria – que se encerra no dia 7 de setembro. “As pautas de reivindicação dependem de cada local, mas nossa intenção é criar um interesse e uma organização que discuta permantemente os problemas locais e os solucione de forma participativa e conjunta”, conclui o coordenador Alberti.

CANTOS DO SUL DA TERRA

Para quem está cansado da mesmice dos programas de “música gauchesca”, uma novidade que vale a pena conferir:CANTOS DO SUL DA TERRA. Um programa da Rádio Cultura da Fundação Cultural Piratini. Confira no link: http://www.tve.com.br/?model=conteudo&menu=176

Vale a pena!

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A expansão das fronteiras culturais e a valorização do cenário musical latino-americano. A música do Rio Grande do Sul, da Argentina, do Uruguai, são os destaques do Cantos do Sul da Terra da FM Cultura. Cantos do Sul da Terra apresenta melodias que caracterizam essa verdadeira aldeia, composta pelas diversidades da cultura indígena, negra, colona e imigrante, em suas expressões musicais, na literatura e na cultura popular. O programa vai ao ar de segunda à sexta, às 11h. Apresentação e produção de Demétrio Xavier.

 Reprises todos os dias, às 6h.

Igreja Católica 'parou há 200 anos', diz cardeal italiano

 

Cardeal Martini (Foto: AFP)A Igreja Católica está “200 anos atrás” dos tempos atuais, nas palavras do cardeal italiano Carlo Maria Martini, que morreu na sexta-feira aos 85 anos.
A opinião do religioso – que chegou a ser citado como cotado ao papado – foi dada durante a sua última entrevista, gravada em agosto e publicada pelo diário Corriere della Sera, de Milão.
“A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes e vazias e a burocracia eclesiástica está crescendo, os nossos ritos religiosos e vestimentas são pomposos”, afirmou o cardeal na entrevista, em que propôs uma mudança de direção radical.
Milhares de pessoas vêm prestando as suas últimas homenagens a Martini na catedral de Milão, onde ele foi arcebispo por mais de 20 anos, até se aposentar em 2002, já sofrendo do Mal de Parkinson.
Em sua última entrevista, o cardeal afirmou que muitos católicos perderam a confiança na Igreja Católica e defendeu, entre outras adaptações, uma postura mais generosa em relação aos divorciados.
Além disso, ele pediu que a mudança comece no topo com uma “transformação radical, começando pelo papa e seus arcebispos”.
Martini tinha voltado à Itália recentemente, depois de passar os últimos se aprofundando em estudos bíblicos em Jerusalém.
“Os escândalos sexuais envolvendo crianças nos obrigam a uma viagem de transformação”, disse Martini, referindo-se às várias acusações de pedofilia que surgiram contra líderes católicos nos últimos anos.
O popular cardeal jesuíta era considerado liberal em diversos aspectos e foi muito respeitado pelos papas João Paulo II e seu sucessor, Bento XVI.Analistas dizem que ele ficou conhecido como crítico corajoso durante a sua passagem pela maior diocese da Europa.Ele não se furtava a tocar em temas que muitos no Vaticano consideram tabu, entre eles, o uso de preservativos para combater a Aids na África e o papel das mulheres no clero.
Em 2008, ele chegou a criticar a proibição da Igreja à contracepção, afirmando que a postura possivelmente afastou muitos fieis. Dois anos antes, ele declarara publicamente acreditar que camisinhas são, em algumas situações, “o menor dos males”.No entanto, é muito incomum que um integrante do alto escalão do clero critique abertamente a forma com que a Igreja põe seus ensinamentos em prática.Analistas afirmam que o papa agora tem pela frente uma decisão difícil: comparecer ou não ao funeral de Martini na segunda-feira – o que, para muitos, seria uma poderosa afirmação da unidade da Igreja Católica.O atual pontífice é conhecido por não premiar líderes católicos que se atrevam a questionar a doutrina.A última entrevista do religioso foi dada no início de agosto a um jornalista e ao também jesuíta Georg Sporschill.O cardeal Martini foi um acadêmico e estudioso da bíblia respeitado, além de prolífico autor de livros populares sobre religião.

 

 

 

"Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro"

 

Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, Giorgio Agamben foi definido pelo Times e por Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista à Ragusa News.

 

 

O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itáli. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido,  ele, como hoje aparece  como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico,  mas talvez consista nisso, no fato de que  o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história  e o passado tem um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.

O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi.  Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar)  têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim,  da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.

Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.

A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua  (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo,  foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder.  Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política.  O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe frente  ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável? 

Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência.  As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos.  Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmaras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmaras não é mais um lugar público: é uma prisão.

A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: ”a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.

Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xequemate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercadorização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea,  as duas coisas coincidem.

Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made?  Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte.  Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança  aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.

Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercadorização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio,  infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com  não-obras e performances a museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

(A tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.)