Ela é doutora da Igreja e, ao lado de São Francisco de Assis, padroeira da Europa e, juntamente com São Bento, Cirilo e Metódio, Brígida da Suécia e Edith Stein, padroeira da Europa. Mesmo com todos estes títulos, não é das santas mais populares. Mas deveria ser, especialmente nestes tempos. Mas por quê, alguém já deve estar se perguntando.
Primeiro, porque foi uma figura fora do comum para seu tempo. E não pelo fato de ter vivido apenas 33 anos. No séc. XIV, na Europa, uma mulher que chegasse a essa idade era considerada velha! Se deixarmos de lado as edulcoradas narrativas de seus hagiógrafos sobre o seu desejo infantil de entregar-se total e plenamente apenas a Cristo e nos ativermos aos dados biográficos, encontraremos uma jovem mulher que se nega veementemente a aceitar um casamento imposto por seu pai. E o faz de uma forma inusitada para a época: ela se nega a comer até que seu pai desista de casá-la com o viúvo de sua irmã mais velha. Em outras palavras, ela evitou um casamento imposto utilizando como instrumento de protesto a greve de fome.
Para evitar definitivamente ter sua vida comandada por homens, conseguiu ser aceitar numa comunidade da Ordem Terceira Dominicana. Tais comunidades de “terceiras”, eram dos poucos espaços em que mulheres viúvas podiam ter uma vida autônoma sem serem subordinadas à família do falecido marido ou aos filhos. Mas Catarina não era viúva… Infringindo as regras, ela foi aceita. E aprendeu a ler e a escrever, o que era proibido para as mulheres de seu tempo. E foi além: não ficou reclusa no convento. Seguindo a tradição dominicana, saiu a pregar e a intervir, pessoal ou por cartas, nos grandes problemas de sua época: os conflitos entre as dezenas de repúblicas que disputavam o domínio da península – as duas mais importantes e em conflito mais exposto, Roma e Florença – e na grande crise que dividia a Europa: a mudança da sede da Igreja Católica de Roma para Avinhão, sob a tutela dos reis da França.
Não há consenso entre os historiadores sobre a real influência de Catarina para o fim do cisma que dividia a Igreja no Ocidente e no estabelecimento e reconhecimento de Urbano VI como único Patriarca do Ocidente com sede em Roma. Mas isso é de somenos importância. Afinal, a história não é feita por heróis ou heroínas como muitas vezes querem nos ensinar. O que muda a direção dos fatos é a ação de grupos organizados e Catarina de Sena fez parte daquele grupo de homens e mulheres que deram sua vida para restabelecer a unidade da Igreja.
Nestes tempos em que vemos tantos e tantas, em nome de uma suposta autêntica manutenção da tradição, levantar-se contra a autoridade do Papa Francisco, renegar ao Concílio Ecumênico e às Assembleias Sinodais, desprezar e renegar a autoridade das Conferências Episcopais e outras instâncias de Comunhão e Participação na Igreja, é bom lembrar o exemplo de Catarina de Sena e invocá-la em nossas orações para que ela nos inspire a continuar firmes no caminho da sinodalidade e de uma Igreja em saída. Ela não se conformou em ficar reclusa dentro das altas paredes muradas do convento. Saiu pelo mundo a anunciar e construir a Paz na qual tanto acreditava.
E, se isso não bastasse, ela é um exemplo das potencialidades femininas no seio da Igreja. Ela rompeu com os paradigmas sociais e eclesiais que relegavam a mulher à função de mãe. Utilizou a ferramenta cultural mais poderosa de sua época – a leitura e a escrita – para agir no espaço público da Igreja e da sociedade. Quando as mulheres – e os que nos sentimos solidários com elas – reivindicam participação plena no âmbito eclesial e político, precisamos lembrar e invocar Catarina de Sena que, em plena Idade Média, já apontava para toda a Igreja e para a sociedade este caminho possível para todos e todas.
Por isso, nada mais justo que, neste dia 29 de abril em que lembramos sua morte, peçamos que ela, desde a convivência divina, interceda por nós: Santa Catarina de Sena, rogai por nós!








