Arquivo da tag: Igreja

São Jorge: da “purificação” ao diálogo inter-religioso.

Escrevo esta pequena e despretensiosa reflexão ainda com os pensamentos no acontecido em Porto Alegre, na Igreja São Jorge no Bairro Partenon, no último 23 de abril, data em que se celebra, no catolicismo, a Festa de São Jorge e, nas religiões de matriz africana, dia dedicado a Ogum.

Pela primeira vez, na Igreja São Jorge de Porto Alegre, após a última Missa da tarde, com a presença de dois bispos auxiliares da Arquidiocese e do Pároco Padre Sérgio Belmonte, a comunidade de batuque, liderada por Pai Ricardo de Oxum, fez a lavagem da escadaria do santuário. O ato teve ampla repercussão na mídia local e nacional com diferentes e até extremadas reações nas redes sociais. No momento da lavagem, quatro jovens ligados a movimentos neoconservadores católicos, tentaram, em vão, impedir o ato.

A prática de lavagem das escadarias das Igrejas por parte de praticantes de religiões de matriz africana é realizado em muitos outros lugares do Brasil. Em Salvador, em um determinado período, a autoridade eclesiástica vigente tentou impedir tal prática. Mas, com a mudança de autoridade, o bom senso voltou e a prática foi retomada.

Mas por que isso é tão significativo? Em primeiro lugar, por ser uma reparação histórica. A prática sincrética em que se mesclam as identidades de santos católicos e orixás, não foi uma opção para os homens e mulheres que foram trazidos à força de África para aqui serem escravizados. Além de negados em sua humanidade, eles foram negados em suas identidades culturais e religiosas. Proibidos de cultuar suas divindades – concebidas de modo diferente do que nós ocidentais e cristãos imaginamos o divino – na forma como o faziam em seu espaço original, tiveram que adaptar para poder sobreviver. O sincretismo que aqui se forjou foi forçado. E os que os obrigamos a ocultar seus orixás nas figuras de santos, não temos o direito hoje de impedir que continuem com essa prática.

Hoje, quando a liberdade religiosa, mesmo se ainda não plena, é, pelo menos, uma garantia legal, cabe a eles e elas optarem pela forma de realizar seu culto, mesmo sendo num espaço que nós, católicos, consideramos como nosso. Afinal, muitas das nossas igrejas foram construídas com o trabalho, suor, sangue e, em muitos casos, o dinheiro de escravizados e seus descendentes. É só estudar um pouco de História para saber disso!

Em segundo lugar, e para olhar desde o ângulo católico, porque esse ato demonstra uma profunda mudança no modo como a Igreja Católica Romana encara a realidade religiosa brasileira. Se olharmos a grande maioria dos documentos eclesiais, mesmo os mais progressistas como os Documentos das Conferencias de Medellín, de Puebla, de Santo Domingo e de Aparecida, quase sempre quando se fala do catolicismo popular se chama para a necessidade de “purificação”. Todos sabemos que, quando nos documentos eclesiais se fala em “catolicismo popular”, entende-se principalmente as formas sincréticas de expressão da fé. Aqui no Brasil, do cristianismo com as tradições de origem Africana. Nos outros países da América Latina, com as tradições dos povos originários do continente.

Nesse contexto, o que seria a “purificação”? Em curtas palavras, significa eliminar tudo o que é africano e indígena para que o catolicismo se torne “puro”, ou seja, “romano”. É o pressuposto não dito! Como se o catolicismo romano também não fosse fruto de sincretismo entre o cristianismo judaico e a cultura e as religiões romanas. Um pouco de história nos ajuda a perceber que, muitos dos símbolos, ritos e usos da Igreja Católica Romana (e de outras Igrejas cristãs também), devem muito mais do que pensamos à cultura e às religiões mediterrâneas dos primeiros séculos da nossa era.

Por terceiro, último e mais importante, o ato na Igreja São Jorge foi apresentado e feito como um ato inter-religioso. Padre Sérgio me contou oralmente o longo processo que foi chegar até essa composição. Pena não poder aqui transcrever tudo. A quem interessar possa, sugiro conversar pessoalmente com ele. Vale a pena ouvir o roteiro seguido que produziu essa linda e grande novidade em nossa Porto Alegre que reúne, ao lado de Salvador, o maior número de centros de religião africana do Brasil. Foi um longo e penoso processo de diálogo. Mas não podia ser diferente! Depois de quinhentos anos de negação, não seria fácil para muitos da comunidade católica reconhecer a legitimidade das religiões afro e tratar o culto a Ogum como tão autêntico ao de São Jorge.

Para alguns poucos católicos, como os quatro que se ajoelharam nas escadarias para tentar impedir o ato, foi algo demasiado e inconcebível. Para outros, talvez tenha sido pouco. Mas foi grande! O mútuo reconhecimento que vai além da pretensão de “purificar” ou, passo já maior, mas não ainda completo, de reconhecer a legitimidade da prática sincrética e chega ao reconhecimento da autenticidade da fé do outro e da disposição e da prática do diálogo, isso é grandeza teológica e maturidade na fé.

Nada de novo para os católicos que leram e assimilaram o Vaticano II e seu apelo à liberdade religiosa e ao reconhecimento da autenticidade das diversas religiões. Mas um passo grande dentro da história religiosa de Porto Alegre. Esperamos que, em outros momentos e em outros espaços religiosos onde convivem católicos romanos e praticantes de religiões de matriz africana, em cada lugar com suas peculiaridades, continuemos nesse belo caminho.

Que São Jorge, Santo Antônio, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora Aparecida, Ogum, Bará, Iemanjá e Oxum nos acompanhem a cada um no seu caminho próprio de fé!

Santa Catarina de Siena, rogai por nós!

Ela é doutora da Igreja e, ao lado de São Francisco de Assis, padroeira da Europa e, juntamente com São Bento, Cirilo e Metódio, Brígida da Suécia e Edith Stein, padroeira da Europa. Mesmo com todos estes títulos, não é das santas mais populares. Mas deveria ser, especialmente nestes tempos. Mas por quê, alguém já deve estar se perguntando.

Primeiro, porque foi uma figura fora do comum para seu tempo. E não pelo fato de ter vivido apenas 33 anos. No séc. XIV, na Europa, uma mulher que chegasse a essa idade era considerada velha! Se deixarmos de lado as edulcoradas narrativas de seus hagiógrafos sobre o seu desejo infantil de entregar-se total e plenamente apenas a Cristo e nos ativermos aos dados biográficos, encontraremos uma jovem mulher que se nega veementemente a aceitar um casamento imposto por seu pai. E o faz de uma forma inusitada para a época: ela se nega a comer até que seu pai desista de casá-la com o viúvo de sua irmã mais velha. Em outras palavras, ela evitou um casamento imposto utilizando como instrumento de protesto a greve de fome.

Para evitar definitivamente ter sua vida comandada por homens, conseguiu ser aceitar numa comunidade da Ordem Terceira Dominicana. Tais comunidades de “terceiras”, eram dos poucos espaços em que mulheres viúvas podiam ter uma vida autônoma sem serem subordinadas à família do falecido marido ou aos filhos. Mas Catarina não era viúva… Infringindo as regras, ela foi aceita. E aprendeu a ler e a escrever, o que era proibido para as mulheres de seu tempo. E foi além: não ficou reclusa no convento. Seguindo a tradição dominicana, saiu a pregar e a intervir, pessoal ou por cartas, nos grandes problemas de sua época: os conflitos entre as dezenas de repúblicas que disputavam o domínio da península – as duas mais importantes e em conflito mais exposto, Roma e Florença – e na grande crise que dividia a Europa: a mudança da sede da Igreja Católica de Roma para Avinhão, sob a tutela dos reis da França.

Não há consenso entre os historiadores sobre a real influência de Catarina para o fim do cisma que dividia a Igreja no Ocidente e no estabelecimento e reconhecimento de Urbano VI como único Patriarca do Ocidente com sede em Roma. Mas isso é de somenos importância. Afinal, a história não é feita por heróis ou heroínas como muitas vezes querem nos ensinar. O que muda a direção dos fatos é a ação de grupos organizados e Catarina de Sena fez parte daquele grupo de homens e mulheres que deram sua vida para restabelecer a unidade da Igreja.

Nestes tempos em que vemos tantos e tantas, em nome de uma suposta autêntica manutenção da tradição, levantar-se contra a autoridade do Papa Francisco, renegar ao Concílio Ecumênico e às Assembleias Sinodais, desprezar e renegar a autoridade das Conferências Episcopais e outras instâncias de Comunhão e Participação na Igreja, é bom lembrar o exemplo de Catarina de Sena e invocá-la em nossas orações para que ela nos inspire a continuar firmes no caminho da sinodalidade e de uma Igreja em saída. Ela não se conformou em ficar reclusa dentro das altas paredes muradas do convento. Saiu pelo mundo a anunciar e construir a Paz na qual tanto acreditava.

E, se isso não bastasse, ela é um exemplo das potencialidades femininas no seio da Igreja. Ela rompeu com os paradigmas sociais e eclesiais que relegavam a mulher à função de mãe. Utilizou a ferramenta cultural mais poderosa de sua época – a leitura e a escrita – para agir no espaço público da Igreja e da sociedade. Quando as mulheres – e os que nos sentimos solidários com elas – reivindicam participação plena no âmbito eclesial e político, precisamos lembrar e invocar Catarina de Sena que, em plena Idade Média, já apontava para toda a Igreja e para a sociedade este caminho possível para todos e todas.

Por isso, nada mais justo que, neste dia 29 de abril em que lembramos sua morte, peçamos que ela, desde a convivência divina, interceda por nós: Santa Catarina de Sena, rogai por nós!

Comer ou não comer?

Essa não é a questão! Com certeza, não. Se comer ou não comer, isso não faz diferença para a salvação. Estou falando da Quaresma, este tempo em que os cristãos se dedicam à penitência, à oração ao jejum e à caridade.

Vamos falar aqui apenas do jejum. E aí tem uma frase fantástica que é atribuída ao Papa Francisco. Talvez não seja dele. Não tenho como provar nem sim e nem não. Talvez seja apenas mais um dos tanto apócrifos a ele atribuídos que circulam por aí. Mas, se não for, bem que poderia ser dele, sim, essa frase: Comam o que quiserem na Páscoa, o sacrifício não está no estômago, mas no coração. Eles abstêm-se de comer carne, mas não falam com os irmãos ou familiares, não vão visitar os pais ou pesa-lhes atendê-los, não partilham a comida com os necessitados, proíbem os filhos de verem o pai, proíbem os avós de verem os netos, criticam a vida dos outros, espancam a mulher etc.. Um bom churrasco ou um guisado de carne não vai fazer de você uma pessoa ruim, assim como um filé de peixe vai fazer de você santo. Melhor procurarmos ter um relacionamento mais profundo com Deus através de um tratamento melhor ao próximo. Sejamos menos soberbos e mais humildes de coração.

Uma fala antológica, uma fala soteriológica, uma fala teológica que se fundamenta num grande profeta do Primeiro Testamento que nos provoca em nossa fé neste tempo quaresmal. Falo de Isaías quando, ao falar do jejum, assim diz o profeta diante daqueles que o questionavam por não jejuar: É porque no dia do vosso jejum tratais de negócios e oprimis os vossos empregados. É porque, ao mesmo tempo que jejuais, fazeis litígios e brigas e agressões impiedosas. Não façais jejum com esse espírito, se quereis que vosso pedido seja ouvido no céu. Acaso é esse jejum que aprecio, o dia em que uma pessoa se mortifica? Trata-se talvez de curvar a cabeça como junco, e de deitar-se em saco e sobre cinza? Acaso chamas a isso jejum, dia grato ao Senhor? Acaso o jejum que prefiro não é outro: quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo tipo de sujeição? Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne. Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. (Is 58, 3b-8).

Parafraseando um profeta de nosso tempo, o saudoso e sempre lembrado Dom Hélder Câmara, eu apenas diria que, neste tempo de Quaresma, o dilema não é entre fazer jejum ou não fazer jejum ou abster-se de comer carne nas sextas-feiras. O problema são aqueles que não têm essa opção porque, durante o ano inteiro, não têm o que comer e sequer ousam sonhar com carne em seus pratos. Esses, sim, são o grande dilema para os cristãos nesse tempo de preparação para a experiência pascal de uma Vida Nova.

Grupo ‘sem religião’ cresce especialmente entre jovens e se torna desafio a igreja

REINALDO JOSÉ LOPES, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Quando desembarcar no Rio de Janeiro em julho deste ano para participar da Jornada Mundial da Juventude, principal evento internacional da Igreja Católica voltado para o público jovem, o papa Francisco talvez se sinta um tanto deslocado. E não apenas pela forte presença de evangélicos no Rio (uns 25% da população do Estado), mas também porque a periferia carioca é um dos lugares do país onde há mais gente que diz não ter religião.

As periferias de cidades como Recife, Salvador e São Paulo também abrigam um contingente de não religiosos superior à média nacional, de acordo com estudo da FGV (Fundação Getulio Vargas).

A orientação não religiosa está se tornando cada vez mais comum entre os jovens, o que leva especialistas a apontar o fato como um desafio tão ou mais importante que o avanço evangélico para o catolicismo.

“O movimento mais preocupante para a igreja não é o de quem muda de religião, mas o de quem simplesmente não se interessa por ela”, diz Dario Rivera, professor da Universidade Metodista de São Paulo que coordena o grupo de pesquisa Religião e Periferia na América Latina.

“O que nós estamos vendo é que, nos mesmos bairros de baixa renda onde há uma proliferação de igrejas pentecostais [evangélicas], uma quase colada na outra, há muita gente que diz não ter religião”, conta.

São lugares aparentemente improváveis, como bairros rurais de Juiz de Fora (MG), a favela do Areião, em São Bernardo do Campo, e os pontos mais pobres do bairro de Perus, na capital paulista.

Improváveis, isto é, quando se assume a equação entre baixa renda e alta religiosidade.

“A verdade é que essa é uma hipótese consensual que nunca foi testada”, declara Rivera. Para o pesquisador, essas comunidades de baixa renda têm uma relação muito pragmática com a religião, escolhendo a igreja que lhes oferece assistência ou, no caso das mulheres, o culto onde podem achar um marido “direito”, por exemplo. Resolvidos esses problemas, a frequência religiosa não é mais necessária.

“TOTALFLEX”

Desse ponto de vista, a flexibilidade das igrejas evangélicas acaba fazendo com que elas abocanhem mais ovelhas desgarradas do rebanho católico, diz André Ricardo de Souza, professor do Departamento de Sociologia da UFScar (Universidade Federal de São Carlos).

“Além do discurso mais objetivo, como o uso de slogans do tipo ‘aqui o milagre acontece’, essas igrejas estão abertas todos os dias da semana, praticamente o dia todo. Você entra e resolve seu problema, enquanto a igreja católica da paróquia passa a maior parte do tempo fechada”, afirma o pesquisador.

Segundo Rivera, os sem religião nas comunidades pobres também se explicam pela revolução nos costumes: grande liberdade sexual, uniões provisórias e outros elementos que não batem com a moralidade religiosa tradicional.

A situação do Brasil é única por combinar um grande avanço dos evangélicos com o dos sem religião. No caso dos evangélicos, o fenômeno também é importante no Chile e na Guatemala, mas em menor grau, diz Rivera. Já os não religiosos têm representação expressiva na Argentina (11%) e no Chile (8,3%).

A questão levantada por quase todo mundo, claro, é que diferença um papa latino-americano pode fazer nesse cenário. “É claro que um papa latino-americano tem um impacto. Não digo que reverta o aumento dos evangélicos, mas talvez faça o ritmo diminuir”, afirma Souza.

Rivera é mais pessimista. “Podem até acontecer mudanças na liturgia [nos rituais]. Mas o problema é que nada no perfil do papa Francisco indica que ele mudará a relação da igreja com a modernidade, e esse que é o grande problema.”

“Bento 16 apostou todas as fichas no continente errado”, diz historiador

Sucessão Papal Contradizendo projeções demográficas e da própria história recente da Igreja Católica, o papa Bento 16 priorizou a Europa no seu pontificado, afirma o padre e históriador José Oscar Beozzo.

Em entrevista à Folha por telefone, Beozzo diz que, apesar do apoio de Bento 16 ao arcebispo de Milão, Angelo Scola, muitas vezes os papas não fazem seu sucessor.

Padre da paróquia São Benedito, em Lins (SP), Beozzo é coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular e autor de livros e artigos sobre a história da igreja no Brasil e na América Latina.

Rogério Cassimiro/Folhapress
O padre e historiador José Oscar Beozzo
O padre e historiador José Oscar Beozzo

*

Folha – O que se pode dizer sobre o provável novo papa?

José Oscar Beozzo – Essa renúncia de Bento 16 mexeu profundamente com a igreja toda, com o inusitado do seu gesto. Ele fechou o arco de um movimento iniciado no Concílio Vaticano 2º (1962-65), que de maneira muito sábia fixou um limite de idade para bispos e párocos: 75 anos.

Bento 16, com a renúncia, apontou com toda clareza que a norma conciliar devia ser tomada em conta também pelo papa e abriu caminho para que seja levada em consideração por futuros papas.

Creio que os cardeais serão muito cautelosos no conclave. A tendência, após um pontificado muito longo, é escolher um cardeal de mais idade, para um pontificado breve. Quando ele é breve, surge a tendência inversa ou um meio-termo. Tenho a impressão de que o papa vai ser escolhido entre cardeais perto dos 70 anos de idade, mas não mais, por causa do breve pontificado de Bento 16.

O Brasil tem cinco cardeais no conclave, menos que os EUA (11), por exemplo. Por quê?

Acho que foi uma política de Bento 16. Primeiro, ele fez muitos cardeais na Europa e na Cúria ou nos países do norte. De fora da Europa, foram criados só três. Nenhum, porém, na América Latina ou na África, que juntos abrigam quase 60% dos católicos.

Houve críticas generalizadas. Nove meses depois, inopinadamente, ele criou seis cardeais: nas Filipinas, na Índia, na Nigéria, no Líbano, na Colômbia… foi uma espécie de remendo na escolha anterior, que incluiu um brasileiro, mas como cardeal de Cúria: dom João Braz de Aviz.

Três quartos dos fiéis da igreja estão fora da Europa. Não há muito cabimento em ter mais da metade dos cardeais eleitores lá, quando ela representa hoje só uns 23% dos católicos do mundo. Nesse sentido, há sobrerrepresentação europeia entre cardeais e “sub-sub-sub-representação” da América Latina.

Por que Bento 16 reforçou o eurocentrismo?

Ele viu como o grande desafio do seu pontificado recristianizar a Europa. Apostou todas as fichas no lugar errado, a meu ver. A população da Europa, envelhecida, decresce em vários países.

Quando se tem uma população envelhecida, não se sonha muito com o futuro. A igreja na Europa e a igreja na África vivem dois mundos totalmente diferentes. Uma está ancorada no passado, a outra projetada para o futuro.

Mais da metade dos cardeais com direito a voto foi escolhida por Bento 16. Esse colégio pode chegar à conclusão de que é preciso deseuropeizar?

Depende muito da conversa entre os cardeais nos próximos dias e do amplo debate, em escala mundial, que a renúncia desencadeou.

Cardeais asiáticos e da África vão apresentar a realidade daqueles continentes. É um momento rico nesse sentido, pois se sairá do discurso monocórdico ditado pelo centro da igreja. Quem vai dar as cartas não será só a Cúria.

Bento 16 preparou um sucessor, o arcebispo de Milão…

Bento 16 transferiu o cardeal Scola de Veneza –que é meio fim de carreira, como o posto de um marechal no Exército– para Milão. Para bom entendedor da política interna, é uma sinalização.

Havia mais de 400 bispos na Itália, entre os quais o papa podia escolher livremente um para Milão. Escolheu alguém que aparentemente não deveria ser removido, por estar num lugar prestigioso.

Outra possível sinalização foi a escolha de um dos cardeais eleitores, Gianfranco Ravasi, para pregar seu último retiro como papa.

Mas podemos também nos voltar para a história: Leão 13 falou aos cardeais sobre quem ele gostaria que fosse seu sucessor, mas o indicado não foi o escolhido. Depois, Pio 10º apostou no cardeal Gotti, mas ele também não foi eleito. O papa pode dar seu pitaco, mas não significa que os cardeais necessariamente seguirão sua sugestão.

Com a renúncia, Bento 16 está enfraquecido ou fortalecido para a escolha do sucessor?

Ele nomeou 67 cardeais, mais da metade dos votantes. Há poder maior? Por outro lado, com a renúncia, ele vai se recolher em copas. Não tem sentido ele ter renunciado e buscar influenciar diretamente o conclave. Com seu gesto, mostrou humildade e grandeza humana e espiritual.

Renúncia de Bento 16 ‘cria dilema de legitimidade’ para novo papa

Michael Walsh*, Especial para a BBC

Papa Bento 16 (Foto Reuters)Muita gente esperava que Bento 16 voltasse a ser cardeal após a renúncia

A renúncia de Bento 16 tem gerado questionamentos entre teólogos, sendo que alguns alegam que o agora “papa emérito” não deveria ou mesmo não poderia ter se desligado do pontificado.

De acordo com essa segunda tese, defendida pelo teólogo Enrico Maria Radaelli, quando os cardeais se reunirem para eleger um sucessor estarão, na realidade, elegendo um antipapa – ou um impostor.

Não é a primeira vez que esses questionamentos ocorrem.Bento 16 disse que renunciou porque sentiu que não poderia cumprir com os compromissos de seu cargo – e os mesmos motivos foram alegados em 1294 por Pietro da Morrone, o papa Celestino 5º, que renunciou apenas seis meses depois de assumir a liderança da Igreja Católica.

Morrone queria voltar a ser ermitão, mas Bonifácio 8º, seu sucessor, achou mais prudente prendê-lo em um castelo para o resto de sua vida, temendo que seus desafetos se reunissem em torno do ex-papa.

E não faltaram desafetos durante o pontificado de Bonifácio 8º. Um dos argumentos levantados por seus inimigos era que papas não poderiam renunciar – então Bonifácio 8º não poderia ser o legítimo herdeiro de São Pedro.

Cisma

Há figuras dentro e fora da Igreja que poderiam explorar tais teorias de ilegitimidade se o novo pontífice começar a tomar um caminho muito diferente de seu antecessor – por exemplo, no que diz respeito ao papel das mulheres na Igreja ou à promoção da tradicional liturgia em latim.

Um exemplo é o do grupo católico dissidente Sociedade de São Pio 10º.

O grupo esteve à beira de declarar que Bento 16 não era um legítimo sucessor de São Pedro porque ele aceitou os ensinamentos do Concílio Vaticano 2º, de 1960 – aos quais a Sociedade de São Pio 10º se opõe.

Bento 16 trabalhou duro tentando trazê-los de volta para a Igreja Católica – duro demais aos olhos de alguns -, mas não teve sucesso. E a Sociedade de São Pio 10º continua a ser uma Igreja separada, atraindo católicos descontentes. Mais uma divisão dentro do cristianismo.

Papa Bento 16 (Foto AP)Para historiador, decisão de transformar Bento 16 em ‘papa emérito’ causaria confusão

O colapso dessas negociações, ocorrido pouco tempo antes de Bento 16 anunciar sua renúncia, pode ter contribuído para o seu cansaço.

Uma lição (muito) curta de teologia católica é necessária neste ponto: os postos de padre e bispo são considerados sacramentais, como o batismo ou o casamento.

Um bispo e um padre podem renunciar a seu trabalho, mas, segundo a Igreja, continuam a ser bispos ou padres.

O papado, porém, não tem um status sacramental, mas é uma função.

Confusão

O papa é o bispo de Roma. Ele pode deixar essa função (todos os outros bispos devem apresentar sua renúncia aos 75 anos) e, portanto, pode deixar de ser papa.

Não há problema nisso.

Muita gente esperava que Bento 16 voltasse a ser o cardeal Joseph Ratzinger após a renúncia – o que aconteceu com dois papas rivais em 1415 (por um período, um cisma na Igreja Católica fez com que houvesse três papas).

Em vez dessa solução sensata, porém, foi anunciado que ele será “emérito pontífice”, devendo ser chamado de “sua santidade” e podendo se vestir de branco (ainda que tenha de deixar de usar o sapato vermelho dos papas).

A decisão cria incertezas, fazendo Bento 16 parecer quase um “papa alternativo”.

E a confusão fica ainda pior: Ratzinger vai manter seu secretário particular, o arcebispo Georg Gaenswein, que atualmente também é o “guardião” da casa do papa – embora seja provável que o novo pontífice escolha outra pessoa para a função.

Vaticano (Foto Reuters)Helicóptero do papa sobrevoa o Vaticano: incertezas

Além disso, o “papa emérito” vai continuar a viver no Vaticano e o novo papa pode achar a proximidade desconfortável, sentindo-se obrigado a consultá-lo especialmente sobre assuntos que foram importantes durante o seu papado, como a controversa reintrodução do latim na liturgia católica.

Reclusão

Bento 16 diz que passará a viver em reclusão. Ele sempre foi mais feliz com seus livros (e gatos) do que com pessoas, de modo que isso não deve ser um fardo muito pesado.

Ratzinger também pretende escrever. Como papa ele costumava insistir que seus textos teológicos eram uma produção de Joseph Ratzinger, não de Bento 16, embora seja impossível negar que seu posto à frente da Igreja Católica ajudou a impulsionar as vendas dessas obras.

Talvez não haja alternativa realista à permanência de Ratzinger no Vaticano.

Se ele voltasse para sua amada Regensburg, por exemplo, alguns poderiam tentar processá-lo por não dar tratamento adequado às denúncias de abuso de padres e bispos, enquanto outros poderiam transformar sua residência em um santuário, um ponto de encontro para dissidentes do novo pontífice.

Mas certamente há questões legítimas sobre seu título de “pontífice emérito”.

Além das mencionadas acima, tal opção também abre a possibilidade de que Ratzinger, sempre elogiado por sua humildade, seja acusado de deixar-se tomar pela vaidade.

* Michael Walsh é um historiador papal e autor de vários livros sobre o tema, entre eles o Dicionário dos Papas, publicado no Brasil pela Edições 70.

O Bispo e a Rainha

Por Thiago Foresti

Em tempos de renúncia e crise no Vaticano, um bispo de 85 anos de São Felix do Araguaia, região remota no interior de Mato Grosso, oferece um exemplo de força e coragem ao escancarar uma antiga mazela social dentro de seu estrato social mais obscuro: a política.

O bispo dom Pedro Casaldáliga, histórico combatente do trabalho escravo. Foto: Secretaria de Comunicação de Mato Grosso

O bispo dom Pedro Casaldáliga, histórico combatente do trabalho escravo. Foto: Secretaria de Comunicação de Mato Grosso

Dom Pedro Casaldáliga, nascido em Balsareny na Espanha e nomeado bispo prelado de São Felix do Araguaia em 1971 pelo papa João Paulo VI, tem uma biografia fortemente ligada à luta contra o trabalho escravo. Sua militância no tema é tão grande que a Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Mato Grosso (COETRAE-MT) resolveu homenageá-lo neste ano e colocou seu nome em um importante prêmio nacional de jornalismo.

A escolha não poderia ser mais acertada. Com o intuito de informar e combater essa prática tão recorrente e perversa nos rincões do Brasil, a Comissão provavelmente não sabia, mas estava armando a jogada para que o bispo colocasse em xeque a peça de maior valor relativo do tabuleiro rival: a rainha.

Acostumada a transitar livremente pelo tabuleiro, Janete Riva é mulher do presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, José Riva (PSD), que está no cargo há mais de 10 anos e parece gozar de uma prerrogativa vitalícia, concedida apenas a reis e papas. Como rainha, Janete foi presidente da Sala da Mulher da Assembleia e organizava festas e eventos de destaque em Cuiabá. O status de esposa do rei permitiu com que Janete transitasse tranquilamente entre vida pública e privada sem ser incomodada.

Como latifundiária da fazenda Paineiras, de sete mil hectares em Juara, foi posta duas vezes em xeque nos últimos anos. A primeira durante a operação Jurupari, da Polícia Federal, que constatou extração e transporte de madeira ilegal na fazenda em 2009. A segunda foi no ano passado, quando seu nome entrou para a lista-suja do trabalho escravo após ser flagrada, na mesma fazenda, com sete trabalhadores em situação análoga à escravidão. Mas as ações não ameaçaram o reinado de Janete, que continuou a se movimentar livremente pelo tabuleiro e neste ano foi nomeada secretária de Cultura do governo do estado.

Mas foi justamente essa última movimentação que abriu caminho para o bispo colocar a rainha mais uma vez em xeque. Em uma mensagem simples e direta, ele protocolou a seguinte nota oficial na Casa Civil de Mato Grosso: “Considerando que a fazenda de propriedade da secretária de cultura do estado de Mato Grosso, Janete Riva, consta da Lista Suja de Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho, eu peço que meu nome seja retirado do prêmio do concurso de jornalismo organizado pela COETRAE/MT”.

Dom Pedro Casaldáliga, entre o então presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes, e o deputado Mário Heringer, durante solenidade em sua homenagem no Congresso. (foto: J. Freitas/Agência Brasil)

Dom Pedro Casaldáliga, entre o então presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes, e o deputado Mário Heringer, durante solenidade em sua homenagem no Congresso. (foto: J. Freitas/Agência Brasil)

A atitude do bispo repercutiu nas mídias sociais e reverberou na sociedade civil mato-grossense, abrindo uma crise institucional. Aproveitando a oportunidade, o Fórum de Direitos Humano de Mato Grosso e mais 41 organizações protocolaram um pedido de exoneração imediata de Janete Riva da Secretaria de Cultura.

Se a intenção era combater o trabalho escravo através de sua exposição na mídia, a COETRAE não poderia ter feito uma escolha mais acertada. A “renúncia” do bispo foi um prato cheio para a imprensa local e mídias sociais e serviu para colocar o trabalho escravo novamente em pauta.

Mesmo que a movimentação do bispo não resulte no tão aguardado xeque-mate, ele fecha o cerco em torno de uma dinastia antiga e perene no estado de Mato Grosso. Quem é fã de xadrez sabe que nem sempre é fácil. É preciso uma grande confluência de peças se arquitetando conjuntamente combinada com bastante estratégia. Casaldáliga, no alto de seus 85 anos, mostrou ainda ter estratégia de sobra para jogar seu jogo favorito: o de combater o trabalho escravo.

Così cambieranno le norme sul Conclave

Così cambieranno le norme sul Conclave
Uscirà probabilmente domani, 23 febbraio, il testo della legge del papa (“Motu Proprio”) che modificherà in parte la legislazione del conclave, contenuta nella Costituzione apostolica “Universi Dominici Gregis”, promulgata da Giovanni Paolo II e poi già modificata dallo stesso Benedetto XVI (che ha riportato, per i primi trenta scrutini, la maggioranza qualificata dei due terzi per poter eleggere il pontefice). In realtà non si tratta di una modifica vera e propria della costituzione apostolica bensì di una “deroga” alla normativa vigente per il caso, “eccezionale” della rinuncia del pontefice. E’ stato un gruppo consistente di cardinali ed ecclesiastici della Curia ad aver chiesto di non procedere a una modifica permanente della norma, per evitare di “istituzionalizzare” la procedura delle “dimissioni” del papa.Al testo del “Motu Proprio” ha lavorato un gruppo di giuristi coordinato dall’uditore generale della Camera apostolica, monsignor Giuseppe Sciocca. Il cardinale Tarcisio Bertone è stato costantemente informato. I paragrafi dell’Universi Dominici Gregis che saranno “integrati” sono l’articolo 13, relativo ai primi atti che la Congregazione generale dei cardinali deve compiere dopo la morte del pontefice, inclusa la fissazione della data di inizio del Conclave. Gli articoli 17 e 31che regolano la custodia degli appartamenti pontifici e dei beni mobili del pontefice fino all’elezione del nuovo papa, l’articolo 19 relativo alle comunicazioni di rito in caso di sede vacante (autorità, corpo diplomatico), l’articolo 37 circa i termini temporali minimi e massimi entro i quali iniziare il conclave.

Altre disposizioni riguardano infine aspetti liturgici relativi alle cerimonie che accompagnano le “congregazioni generali” (cioè le consultazioni pre-conclave cui partecipano tutti i 209 porporati che compongono il collegio cardinalizio). Nella congregazione generale i cardinali fisseranno la data del conclave, anche sulla base degli arrivi e delle eventuali rinunce dei cardinali elettori (per il momento le rinunce previste sono due, dunque i cardinali elettori saranno 115 e il quorum per l’elezione si abbasserà a 77 voti).

La questione della data è cruciale perché condiziona addirittura l’identikit del nuovo papa: la Settimana santa della Pasqua inizia con la domenica delle Palme, il 24 marzo e per quella data tutti i porporati desiderano di aver eletto il pontefice per tornare nelle proprie diocesi. Più si ritarda l’inizio del conclave, più sarà facile ai candidati forti di affermarsi (il canadese Marc Ouellet,  l’italiano Angelo Scola, lo statunitense Timothy Dolan), perché dovranno essere eletti con la maggioranza qualificata. Più il conclave viene anticipato, più sarà facile per gli outsider di emergere (l’ungherese Peter Erdo o l’indiano Placidus T. Toppo per esempio) perché occorreranno almeno 8-9 giorni di conclave per arrivare a poter votare solo con la maggioranza assoluta. Più il conclave sarà anticipato, più i cardinali stranieri avranno poco tempo per conoscersi e i cardinali di curia e gli italiani saranno avvantaggiati. Ecco perché il braccio di ferro sulla data è così importante.

La data di inizio per le congregazioni generali sarà fissata dal Camerlengo, Tarcisio Bertone, e oscillerà tra il 2 e il 4 marzo al massimo. Mentre l’inizio del conclave oscillerà probabilmente tra il 10 e il 12 marzo.

Papa denuncia divisão no clero e ‘hipocrisia religiosa’ em última grande missa

DA EFE

Sucessão Papal O papa Bento 16, que renunciará ao pontificado no próximo dia 28, oficiou nesta quarta-feira sua última grande missa, na qual se mostrou visivelmente emocionado com o afeto dos fiéis e denunciou que a divisão no clero e a falta de unidade desfiguram o rosto da Igreja.

Em uma basílica de São Pedro do Vaticano lotada, o papa rezou a missa da Quarta-Feira de Cinzas, que abre a Quaresma, e destacou a importância do testemunho de fé e da vida cristã de cada um dos seguidores de Cristo para mostrar a verdadeira cara da igreja.

O pontífice acrescentou que, no entanto, muitas vezes esse rosto “aparece desfigurado”.

Alessandro Bianchi/Reuters
Bento 16 reza missa da Quarta-Feira de Cinzas, na basílica de São Pedro
Bento 16 reza missa da Quarta-Feira de Cinzas, na basílica de São Pedro

“Penso em particular nos atentados contra a unidade da igreja e nas divisões no corpo eclesiástico”, afirmou o papa, que acrescentou que é preciso viver a Quaresma de uma maneira intensa, superando “individualismos e rivalidades”.

Bento 16 também disse que Jesus denunciou a “hipocrisia religiosa, o comportamento de que buscam o aplauso e a aprovação do público”.

“O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou ao público, mas ao Senhor, de maneira singela, simples e generosa”, ressaltou o papa, que acrescentou que o testemunho do cristão será mais incisivo quanto menos busque a glória.

Em sua segunda aparição pública após o anúncio da renúncia –a primeira foi também hoje, na audiência pública das quartas-feiras–, Bento 16 falou sobre sua decisão e pediu orações pela Igreja.

“As circunstâncias sugeriram que nos reunamos em torno do túmulo de São Pedro para pedir pela Igreja neste particular momento, renovando nossa fé em Cristo. Para mim é a ocasião para agradecer a todos quando me disponho a concluir meu Ministério e para lhes pedir que me tenham em suas preces”, disse.

‘EM PLENA LIBERDADE’

Essas palavras foram a continuação das expressadas durante a audiência pública, nas quais assegurou que decidiu renunciar ao pontificado “em plena liberdade, para o bem da Igreja”, e após “ter orado muito” e examinado sua “consciência diante de Deus”.

O papa acrescentou nesse encontro público que é “ciente” da “importância” do fato, mas também de “não ser capaz de promover o Ministério de Pedro com a força física e o espírito que ele requer”.

O pontífice reconheceu que estes são dias “nada fáceis” para ele, mas que notou “quase fisicamente a força da prece do amor da Igreja”.

QUARESMA

Na homilia da missa da Basílica de São Pedro, Bento XVI disse também que a Quaresma é um tempo de conversão, e exortou os fiéis a “retornar a Deus”, afirmando que esse retorno se tornará realidade quando a graça do Senhor entrar nos homens e cortar seus corações.

O bispo de Roma reiterou as práticas tradicionais da esmola, o jejum e a prece neste tempo de Quaresma como caminhos para retornar a Cristo.

Após a homilia, o cardeal Angelo Comastri, arcipreste da basílica de São Pedro, impôs as cinzas ao papa.

Depois, Bento 16 as impôs a ele, ao secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone; ao cardeal decano, Angelo Sodano, e a vários frades.

Concluída a missa, Bertone expressou a Bento 16 a “tristeza” da igreja por sua renúncia ao pontificado, uma decisão, disse, que demonstra “sua pureza de coração, sua humildade, docilidade e coragem”.

“Não seríamos sinceros se não lhe disséssemos que hoje há um véu de tristeza em nossos corações”, disse Bertone, que ressaltou que este ato revela que “a pureza de mente, a fé forte e exigente, a força da humildade e docilidade, junto com uma grande coragem marcaram cada passagem de sua vida e de seu ministério”.

Após as palavras de Bertone, o papa, comovido, foi amplamente aplaudido por vários minutos.

Bento 16 se retirará no próximo domingo durante uma semana para exercícios espirituais, que terminarão no dia 23. Durante esse período, o papa não vai realizar atos públicos.

Bento XVI: Deus não é 'absurdo', mas uma realidade misteriosa

Bento XVI abordou os mistérios da fé durante audiência no grande salão Paulo VI do Vaticano. Foto: AP

Bento XVI abordou os mistérios da fé durante audiência no grande salão Paulo VI do Vaticano
Foto: AP

Deus “não é absurdo”, mas uma realidade misteriosa, às vezes, obscura por ser justamente deslumbrante, declarou nesta quarta-feira o papa Bento XVI durante uma audiência geral semanal no Vaticano, em um novo debate sobre a aliança entre a fé e a razão.

“Misterioso, Deus não é absurdo. Se diante do mistério a razão vê apenas escuridão, não é devido à ausência de luz, mas a seu excesso”, disse o Papa teólogo para sete mil fiéis reunidos no grande salão Paulo VI.

Bento XVI fez uma comparação com a luz do sol: “ela cega quando fixamos o olhar no sol, mas ninguém dirá que não é luminosa. A fé permite olhar o sol de Deus que se aproximou do homem para ser conhecida”, considerou.

“Ao mesmo tempo, por sua graça, Deus clareia a razão, ao abrir novos horizontes infinitos e incomensuráveis”, ressaltando que “a fé católica não se opõe a uma razão honesta” dos homens à procura da verdade, nem da busca científica.

Joseph Ratzinger se opõe regularmente a um positivismo científico que explica tudo pela ciência, recusando qualquer transcendência. Ele vê nisso um perigo à liberdade do homem. Na ciência, “devemos encorajar tudo o que é favorável à vida, como a luta contra a doença, ou a busca para revelar os segredos da Terra e do universo”, analisou.

Ao reiterar seus argumentos constantes contra uma fé mágica ou supersticiosa, Joseph Ratzinger, que concentrou sua obra de teólogo sobre a questão da razão e da fé, considerou que “a tradição católica sempre rejeitou o fideísmo, que é a vontade de acreditar contra a razão”.