Quem poderá nos salvar?

pergunta é antiga. Estamos sempre voltando para ela. Afinal, como humanos, vivemos a limitação da fragilidade e da finitude. Sabemos que, sozinhos, não podemos alcançar tudo o que sonhamos.

Desde o nascimento até a morte, precisamos dos outros. De um pai e de uma mãe para sermos gerados e criados. Da família para proporcionar o entorno de proteção, cuidado e carinho.

Durante a vida, precisamos da sociedade para ter o espaço de sobrevivência, cultura e realização. No curto tempo de existência, aproveitamos daquilo que outras gerações construíram antes de nós. E usufruímos do que outras pessoas – vizinhas ou de recantos remotos do mundo – desenvolvem e partilham conosco.

Na velhice e na morte, também precisamos dos outros. Para cuidar-nos nas debilidades que surgem da idade e para acompanhar-nos na morte e depois dela, no caminho final do cemitério ou do crematório.

As religiões nascem da experiência radical de que o ser humano não se realiza por si mesmo. Elas afirmam que a salvação de cada pessoa e da humanidade vem de uma realidade que é maior que a humana e que é chamada “Deus”. Ele salva ou envia alguém para salvar as pessoas que a ele se devotam.

Toda religião responde à pergunta fundamental: quem poderá nos salvar? É a pergunta que Jesus faz aos discípulos: Quem dizem as pessoas ser o Filho do Homem? “Filho do Homem”, na tradição judaica apocalíptica, era a pessoa enviada por Deus que traria a salvação para a humanidade. Alguns diziam que o salvador era João Batista, outros Elias, Jeremias ou algum dos profetas.

Diante das respostas, Jesus faz o teste final e pergunta se os discípulos viam nele a salvação de Deus. Pedro responde afirmativamente. Mas responde com uma resposta que mostra quem é Pedro e não quem pode ser o Salvador. Pedro imagina um salvador forte e poderoso que esmaga os adversários. Ele projeta em Jesus seu desejo de vingança contra os opressores dos judeus e quer que Jesus os esmague com força e poder. Jesus diz que Pedro, pensando assim, se torna um tentador, um satanás. Atribui a Deus o jeito de agir do diabo e, no lugar da salvação, traz a perdição.

Pedro não era uma pessoa má. Mas tinha uma ideia equivocada da liderança e do modo de fazer as coisas. E ele projetava em Jesus seu modo vingativo de pensar. Não é uma atitude exclusiva de Pedro. Nós também podemos repeti-la ao buscar salvadores que não agem como Deus mas agem como o diabo, aquele que divide, cria confusão, mente e mata.

Neste tempo de incertezas, de medo, de insegurança, mais do que nunca, é preciso estar atento e discernir os verdadeiros sinais de salvação e não confundir o agir de Deus com o agir de satanás. Só assim poderemos seguir o verdadeiro salvador e ficar longe do falso e enganador.

Se queres subir, olhe para baixo!

A crise que estamos vivendo, não é uma crise normal. Mais do que outras que a nossa geração teve que enfrentar, a Covid19 coloca em cheque não apenas a saúde de cada pessoa e o sistema sanitário. Ela põe a economia em frangalhos, provoca crises políticas, tem causas e consequências ambientais, rompe a sociabilidade, fratura afetividades, questiona espiritualidades. É, no sentido mais próprio, uma crise cultural: ela questiona o sentido da existência pessoal e da civilização que, há séculos e a duras penas, estamos construindo.

Por ser radical, a crise provoca reações radicais. Há os que racionalizam, os que deixam emergir os instintos básicos de sobrevivência através da agressão ou da superproteção, os que se aproveitam da situação para lucrar bilhões, e os que, para não enfrentar a gravidade da situação, fingem ignorá-la ou buscam soluções mágicas em terapias sem nenhuma comprovação ou comprovadamente ineficazes. É há os que não aguentam tamanha pressão e, num ato de desesperada esperança, abdicam da própria existência.

Onde encontrar sentido para a vida e esperança para o futuro em meio ao esgarçamento civilizacional provocado pela Covid19?

Há os que se agarram à sua riqueza, ao poder, ao supremacismo social, ao racismo e a outras ideologias que lhes dão a pseudo segurança de que, por fazerem parte de uma elite, não serão atingidos pela crise.

Há os que apostam todos os seus recursos na ciência alimentando a esperança de que em breve teremos remédios, terapias e vacinas que nos livrarão do flagelo. Mas esse “até lá”, a própria ciência o diz, não é para amanhã. E muitos ainda serão os mortos e a destruição antes que tal solução chegue.

E há os que se apegam à religião como solução. Bênçãos, promessas de cura, milagres, orações que garantem saúde a salvação e muita exploração de incautos são uma epidemia tão avassaladora quanto à provocada pelo coronavírus. E da qual as religiões, todas elas, num futuro próximo, sofrerão as consequências.

Acreditar em algo é importante. A ciência é importante. A religião é importante. Neste tempo de crise sanitária, em que o Brasil padece a dor de mais de 100 mil mortos e mais de três milhões de infectados, é crucial lembrar que, para o cristão, não há salvação da alma sem salvação do corpo. Uma exige a outra. Só há ressurreição para aquele que experimentou a salvação na própria carne e na carne dos outros. O ressuscitado com as mãos, os pés e o lado marcado pelos cravos da paixão, é imagem eloquente de que a salvação passa pela encarnação.

Maria, que foi subida ao céu em corpo e alma, também o anunciou: o Deus verdadeiro olha para a humildade de sua serva para elevá-la à mais alta dignidade. Ele derruba do trono os poderosos e exalta os humildes. Sacia os famintos e despede os ricos sem nada. O caminho do céu passa pelo mais sofrido da humanidade. Não há outro caminho. Se queremos, a exemplo do Filho de Deus e de Maria, ir para o alto, precisamos olhar para baixo, para os que sofrem e, tomando-os pela mão, iniciar o caminho da redenção. Da salvação deles, e da nossa salvação.

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Para que não se repita!

hiroshima

Em sua obra Sobre a Oratória, escrita em 55 a.C., Marco Túlio Cícero registrou uma frase que, de século em século, chegou até hoje e nos faz pensar sobre a capacidade humana de apreender. Dizia ele: “a história é testemunha dos séculos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira do passado”. A forma breve da afirmação – a história é a mestra da vida – tornou-se popular e enfeita formaturas de Cursos de História e discursos de políticos candidatos a caudilho, ditador ou estadista.

Sem pôr em dúvida a grandeza de Cícero – quem sou eu! – faço-me uma singela pergunta: o sábio romano, ao fazer tal afirmação, fazia uma constatação ou proclamava um desejo?

Coloco esta indagação nestes dias em que comemoramos os 75 anos do lançamento, pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. No dia 6 de agosto de 1945, uma bomba de urânio foi jogada sobre Hiroshima. Três dias depois, outro avião despejou uma bomba de plutônio sobre Nagasaki. Milhares de pessoas morreram instantaneamente. Em menos de quatro meses, o número de mortos subiu a mais de 300 mil. Durante décadas, milhares de pessoas continuaram a morrer e a sofrer as consequências da radioatividade.

Até hoje, estrategistas militares, governantes, políticos e moralistas se perguntam: era necessário tal massacre para que a guerra terminasse? Para os defensores do holocausto de Hiroshima e Nagasaki, não haveria solução final para o conflito sem uma prova irrefutável da superioridade americana sobre o Império Japonês.

As palavras grifadas o foram de propósito: holocausto, solução final e superioridade. Elas remetem a um outro espaço em que se disputou a hegemonia econômica, política e cultural na “Segunda Guerra Mundial”. Como todos já perceberam, trata-se do conflito europeu em que o nazismo, através do holocausto de judeus, ciganos, comunistas, pacifistas, homossexuais e doentes, queria dar uma solução final para os problemas do mundo e impor a superioridade da raça ariana.

Voltando à frase de Cícero, nos perguntamos: aprendemos algo com esses dois episódios tão similares da história da humanidade?

É verdade que a bomba atômica nunca mais foi usada. Mas outras bombas, menos espetaculares mas tão ou mais eficazes, continuaram a matar milhões de pessoas por todo o mundo: Coreia, Vietnam, Argélia, Camboja, Indonésia, Colômbia, Guatemala, El Salvador, Chile, Ruanda, Congo, Afeganistão, Iraque, Tiananmen, Líbia, Iêmen… e tantos outros massacres esquecidos.

É preciso ler a frase de Cícero até o fim quando ele diz: “qual voz, se não a do orador, pode tornar a história imortal?” Para que a história não morra, é preciso contá-la. E contá-la sempre de novo. Só assim ele não será repetida. O painel de entrada do Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago do Chile nos interroga: “Que acontecerá se esquecermos?” Que jamais se esqueça, para que nunca mais aconteça.

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O paradoxo da abundância.

Comer é um ato biológico. Nosso corpo precisa ser provido dos nutrientes necessários para permanecer vivo. Se não comemos, morremos. Por isso a fome é algo tão terrível. Ela é a antessala da morte. A pessoa que está com fome, para comer, ou seja, para sobreviver, é capaz de qualquer coisa: trapacear, roubar e, no limite, até matar.

Mas, comer, é também um ato social. Amostra disto é afirmação de que, mais importante do que comemos, é com quem comemos. Como diz a Bíblia no Livro dos Provérbios, “é melhor comer um prato de hortaliças, onde há amor, do que ter um boi gordo acompanhado de ódio na refeição”. A forma como são produzidos, intercambiados e consumidos os alimentos revelam a verdadeira natureza de uma sociedade.

A comida, por ser indispensável para a sobrevivência e por ser símbolo de relações sociais, é um elemento presente em todas as religiões, inclusive no cristianismo. Nos Evangelhos, há mais comida e refeições do que milagres e exorcismos. Se tomamos, por exemplo, o Evangelho de João, a obra do Salvador começa com uma festa de casamento em Caná onde ele transforma a água em vinho e termina com um encontro do Ressuscitado com os discípulos à beira do lago onde Jesus partilha pão e peixe assado com seus amigos e amigas.

Partilha de comida e bebida que, durante o percurso da Galileia até Jerusalém, Jesus já havia feito em muitos lugares e com muitas pessoas. Na casa de pobres e de ricos, de santos e de pecadores, de homens e de mulheres, de judeus e de estrangeiros. Às vezes comendo e bebendo muito, a ponto de dizerem que era um comilão e um beberrão. Outras vezes, comendo as sobras ou o quase nada do que as pessoas tinham. E, em algumas situações, até roubando o trigo da beira da estrada para poder saciar a fome dos discípulos.

Mas acima de tudo e em todas as ocasiões, ensinando que a comida deve ser partilhada sem que ninguém fique de fora. Quando os discípulos, vendo a multidão com fome, pedem que o Mestre mande todos embora para que cada um se vire como pode, Jesus ensina que a partilha é o caminho para que todos fiquem saciados. E dos cinco pães e dois peixes nasce a consciência e a prática de que, para que todos comam, é preciso que os que tem muito partilhem com os que pouco ou nada têm.

No tempo de Jesus, assim como hoje, o problema não é a falta de comida. É a falta de partilha. No mundo, há comida de sobra. No caso do Brasil, somos o maior exportador mundial de alimentos. E, mesmo assim, há gente passando fome…

Como dizia o Papa João Paulo II na Inauguração da Primeira Conferência da ONU sobre alimentação no ano de 1992, vivemos o “paradoxo da abundância”: há alimento para todos, mas nem todos podem comer.

Precisamos de novo, aprender com Jesus: que a partilha do pão, do peixe, do vinho, da alegria e da mesa aberta para todos e todas, nos ajude a matar a fome de comida e o anseio por uma nova e justa sociedade.

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Nole mi tangere!

Dia 22 de julho a Igreja celebra Santa Maria Madalena. E o faz com uma festa. Dentro das categorias litúrgicas, é o modo mais elevado de lembrar um santo, no caso, uma santa. A elevação de categoria litúrgica de Maria Madalena aconteceu em 2016 por decisão do Papa Francisco. Até então, celebrava-se apenas a memória desta mulher.

A decisão não foi uma inovação. Na Idade Média, vários teólogos, incluído Santo Tomás de Aquino, a chamaram de “apóstola dos apóstolos”. Título mais do que merecido pois, segundo os Evangelhos, foi a encarregada por Jesus de anunciar a ressurreição aos outros discípulos.

Ela fazia parte do grupo dos seguidores e seguidoras do Mestre desde a Galileia. Juntamente com Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana e muitas outras, elas sustentavam o grupo com seus bens. Eram mulheres poderosas e independentes que, contrariando as tradições e leis, abandonaram tudo para seguir Jesus.

Maria Madalena é uma das personagens mais frequentes nos evangelhos. Quatorze vezes é citada nominalmente. Acompanhou Jesus até Jerusalém e, junto com a mãe de Jesus e as outras mulheres, foi das poucas que presenciaram a crucificação.

Além de discípula fiel e apóstola de primeira hora, a única informação que dela nos dão os evangelhos é que foi libertada de sete demônios. Em linguagem bíblica, era uma pessoa que sofria muito e, no encontro com Jesus, foi libertada. De que ela sofria? Os evangelhos nada dizem.

Por que então a tradição associou Maria Madalena a uma prostituta? É uma boa pergunta… A primeira vez que isso aconteceu foi num sermão de São Gregório Magno, pronunciado no ano de 591 d.C. No sermão, o Papa confunde a Madalena com a mulher adúltera e com a Maria que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas. Uma indevida ligação que que se perpetuou em sermões e obras de arte e chegou até o cinema contemporâneo.

E mais: por que durante séculos tal associação foi aceita acriticamente? Também é uma boa pergunta… Não sei se tenho uma boa resposta para as duas boas perguntas. Mas tenho, no mínimo, uma suspeita: a dificuldade, tanto na Igreja como na sociedade, em aceitar o protagonismo das. São Gregório Magno, em seu sermão, já deixou a dica. Maria, a Mãe de Jesus, era o modelo de mulher submissa. Madalena, a de mulher independente que se arrepende e passa a ser submissa.

São João Paulo II, na Encíclica sobre a Dignidade da Mulher, lembra que estamos em outros tempos e precisamos reconhecer a dignidade e protagonismo das mulheres na sociedade e na Igreja. Nessa mudança, é preciso ouvir das mulheres de hoje, aquilo que Jesus disse outrora a Maria de Magdala: “Noli me tangere! Não me detenhas!” Elas pedem passagem.

*Imagem: “Nole mi tangere!” de Fra Angelico (c. 1440).

A Lei do Retorno

Sou avesso a todo determinismo. Desde os simples até os científicos e religiosos. Não acho que “tal pai, tal filho” seja insuperável. A experiência nos diz que, felizmente, os filhos são, quase sempre, muito diferentes dos pais. E com isso fica eliminado o “a fruta não cai longe da árvore”. E o preconceito de que os povos originários de climas frios e temperados são trabalhadores e previdentes e que aqueles das regiões tropicais são malandros e indolentes. Assim o queria um certo vice-presidente de uma república onde mais da metade da população se autodeclara preta, parda ou amarela… Ele incluído!

Também não é comprovado que quem nasce na favela seja potencial bandido e quem cresceu no condomínio está fadado a ser “doutor”. A incipiente e ameaçada experiência das cotas, do PROUNI e do FIES mostra que todos e todas, independentemente da origem social, quando têm as necessárias condições, podem alcançar todos os lugares sociais. Mas, na nossa sociedade de poucas oportunidades, quando um se move, tira o lugar de outro. E isso incomoda…

Apesar de Freud, fica difícil comprovar que somos nada mais que os frutos dos traumas de nossa infância. Se assim fosse, faltariam psicólogos! E, contra Marx, que o desenvolvimento das forças produtivas leva necessariamente ao comunismo. E se a mão invisível do mercado trouxesse inexoravelmente a riqueza para todos, como dizia Adam Smith e hoje continuam a repetir os ajurujurás ministeriais de ocasião, a pobreza do Brasil e do mundo já teria encontrado solução. E, a cada crise, as grandes empresas não estariam correndo em busca de socorro das burras públicas.

E também é insustentável dizer que se os pais comem uvas verdes, os filhos nascem com os dentes enfraquecidos. Está na Bíblia. Mas a Bíblia é a verdade divina dita com palavras humanas. E o dizer humano nem sempre consegue transmitir o querer divino. Às vezes colocamos na boca de Deus nossos desejos e sentimentos.

Com efeito, o campo da religião é propício para os determinismos mais perigosos. Desde a lei da causa e do efeito até a doutrina da predestinação. Não sou especialista em budismo, hinduísmo e espiritismo, mas, no que se refere à fé cristã, a liberdade do ser humano é respeitada por Deus até as últimas consequências. E, mesmo que o ser humano se decida contra aquilo que Deus deseja – ele não determina! – para além e acima de todo pecado, está a graça divina que respeita o agir humano. Complexo, mas só assim Deus é Deus e o ser humano é humano. Fora disso, o divino se transforma em tirano e o humano em marionete. Aí já não há mais religião. Há fanatismo e escravidão.

Calvino e Jansênio me dão arrepios espirituais. Entre Lutero e Armínio, fico com os dois sem eliminar nenhum. Bem assim como o fez o Concílio de Trento.

Isso posto, devo confessar que, às vezes, dá um prazer enorme dizer: aqui se faz, aqui se paga! Mas, fiquem tranquilos: vou me confessar!

Imagem: “Marionete”, por Alex Silva by Flickr

Será que nem desenhando?

Uma das figuras mais usadas na literatura, principalmente na oriental, é a parábola. Ela é leve, deliciosa, facilmente memorizável e altamente instrutiva. A estrutura da parábola é simples. Uma alegoria que, inserida numa rápida narrativa com poucos personagens, apresenta um ensinamento útil.

A maioria de nós, ao ouvir falar em parábolas, logo as associamos a Jesus. Como outros pregadores, ele a utilizou com maestria. Tomava situações do quotidiano e, a partir delas, procurava transmitir seu ensinamento.

A utilização de tal método por parte de Jesus muitas vezes funcionou. Podemos percebê-lo pelas reações dos ouvintes. Alguns vibravam com o que Jesus dizia. Outros entendiam tão bem que partiam para cima de Jesus para prendê-lo e matá-lo. É o caso, por exemplo, dos fariseus e sacerdotes que entendem muito bem o que Jesus quer dizer com a parábola dos vinhateiros assassinos.

Mas a parábola, ainda segundo Jesus, pode ter uma outra finalidade. Ela pode ser usada para confundir os ouvintes e fazer com que eles não entendam o que está acontecendo. É estranho, mas é isso mesmo. Tal intencionalidade está presente numa das narrativas mais conhecidas de Jesus, a dita Parábola do Semeador. Todos já a conhecem. Mas nem todo mundo presta atenção naquele trecho entre a parábola propriamente dita e a explicação dada por Jesus.

Ao findar a parábola, os discípulos perguntam: “Por que falas ao povo em parábolas?” Jesus responde citando o profeta Isaías: “Eles olharão e olharão, mas não conseguirão ver; eles escutarão e ouvirão, mas não conseguirão entender. Isto acontecerá para que eles não venham a arrepender-se e a ser perdoados de seus pecados.”

A constatação de Jesus é desoladora. Para ele e para os discípulos. E para o seu projeto de levar a cura a todas as pessoas. Como diz Jesus, há pessoas que “nem desenhando” entendem aquilo que pareceria óbvio. Assim como Jesus, às vezes nos perguntamos: se é tão óbvio o que se diz, por que tem gente que não entende de jeito nenhum?

Não sãos os ouvidos o problema. Nem os olhos. O problema está no coração que não permite entender o que os olhos veem e os ouvidos ouvem. Há cegos da vista. Há surdos dos ouvidos. E há cegos e surdos do coração. Para estes, a parábola, por mais clara que seja, é confusão, é ocultamento, é perdição.

Felizmente, como diz o próprio Jesus, há também os corações que acolhem com alegria a semente e produzem trinta, sessenta e cem por um! Esses são a real parábola do futuro que esperamos para toda a humanidade.

e.

Não basta ser doutor…

Ter um doutorado é importante. Tão importante que até quem não tem faz questão de dizer que tem. E alguns, infelizmente, até mentem e inventam falsos diplomas para dizer que são doutores.

Deixando de lado estes casos bizarros, no mundo real e normal, o doutorado é importante por ser o ponto culminante do processo de educação. Ser doutor é demonstrar a capacidade de produzir conhecimento em benefício da sociedade. E, hoje, mais do que nunca, está provado que as nações só passam da pobreza ao bem estar através da produção de conhecimento. A China, o país que mais progrediu economicamente nas últimas décadas e lidera a economia mundial, ultrapassou os Estados Unidos e a União Europeia em número de doutores formados e pesquisadores em atividade.

Basear a atividade econômica na exportação de matérias primas, manufaturados e produtos agrícolas é aceitar um posto subalterno na economia mundial. Nenhum país saiu da situação de pobreza sem um maciço investimento em educação. Processo que abarca desde a pré-escola até o ensino superior. Alfabetizar com qualidade é importante. É a base. Mas não basta. É preciso mais.

A miséria da educação no Brasil tem uma razão muito simples: falta de investimento público. Dentre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), somos o que menos investe, per capita, no sistema educativo. Três dados mostram as consequências desta opção: o número de alunos em tempo integral nas escolas públicas baixou de 18 para 10% entre 2014 e 2018; o salário das professoras do Ensino Básico brasileiro está entre os mais baixos do mundo (em média, 10% do que ganha um professor europeu!); o ingresso no Ensino Superior continua estagnado em 18% dos jovens entre 18 e 24 anos, e só se mantém neste nível graças ao ensino à distância, de duvidosa qualidade.

Por que tanta desatenção com a educação? A resposta é simples: falta de sabedoria. No Brasil, acesso à educação é visto como luxo para poucos. É uma reserva para as elites que se auto reproduzem em seus guetos sociais e educacionais. Nos poucos momentos em que se ensaiou uma ruptura deste ciclo através de programas de inclusão educacional como o PROUNI, o FIES e o sistema de cotas, a reação da minoria privilegiado foi violenta e levou à ruptura e destruição dos processos educacionais em andamento e do próprio sistema democrático. Uma triste opção da qual toda a nação pagará as consequências no longo prazo.

Conhecimento é importante. Mas ele só é possível quando nos rendemos à sabedoria de Jesus. Em sua oração, ele louva o Pai que revela o seu saber aos pobres e pequeninos e o ocultou aos ricos e poderosos. Esta é a sabedoria de Jesus. Se não nos rendermos a ela, nunca haverá conhecimento, nunca haverá educação e nunca, como nação, sairemos da situação de pobreza econômica e miséria moral da qual a ostentação de títulos nunca alcançados é apenas uma deprimente manifestação.

Viva São Pedro, Santo Antônio e São João!

Junho é o mês das festas dos santos do povo. Começa com Santo Antônio, passa por São João e termina com São Pedro.

Santo Antônio é o casamenteiro. Arruma namorada para o pior dos encalhados. Para outros, é o “pão dos pobres”, aquele que convida a partilhar o pouco que temos com os que menos ainda têm. João Batista é o profeta. Ele anuncia uma sociedade de justiça onde os poderosos terão que prestar contas de suas prepotências. Ele prepara o caminho e batiza o Messias que veio realizar a justiça para os pobres.

São Pedro, o último a ser celebrado, é o braço direito de Jesus aqui na terra. No céu, ele tem as chaves da porta e controla quem entra e quem fica de fora. É o líder, o chefe. E talvez por isso sua figura não seja tão popular como a dos outros dois. Aliás, até nos evangelhos sua fama é duvidosa. Jesus o chama de Satanás quando o discípulo quer que ele seja um chefe poderoso que vai esmagar os opressores judeus e romanos. O Mestre o repreende por ter tomado a espada e cortado a orelha de um escravo do Sumo Sacerdote e o adverte de que todos os que lançam mão da espada pela espada morrerão! Na hora do lava-pés, Pedro se recusa a entrar na fila e deixar-se lavar. No dia da prisão, nega três vezes conhecer o nazareno. Depois da ressurreição, Jesus lhe pergunta se é capaz de dar a vida por ele. Pedro titubeia e Jesus tem que repetir a pergunta três vezes.

Perguntamo-nos então: quando foi que Pedro mudou a ponto de se tornar a liderança da comunidade? Segundo o livro dos Atos dos Apóstolos, foi a experiência da prisão que levou Pedro à mudança. Ele sempre pensou a liderança como um exercício do poder. Olhava para cima e pensava em como chegar ao alto. Ao passar pela cadeia, experimentou que o verdadeiro poder só se alcança quando se desce até os últimos da sociedade. Foi convencido a deixar de sonhar com o principado e passar a pensar nos humilhados. Foi isso que aconteceu com Jesus. Pedro, ao passar pela cadeia, assumiu essa forma de liderança.

É uma experiência que se repetiu com Francisco de Assis, Mahatma Ghandi, Martim Luther King, Nelson Mandela, Dom Hélder Câmara, Tereza de Calcutá, Irmã Dulce e outros tantos e tantas que fizeram suas as dores, sofrimentos e prisões dos leprosos, dos párias, dos segregados, discriminados e empobrecidos da sociedade.

O Papa Francisco, atual sucessor de Pedro no serviço à Igreja, lembra que a verdadeira liderança precisa se despir não apenas das roupas de príncipe, mas da “psicologia de príncipe”. Uma conversão difícil que implica em mudar de lugar social e eclesial: sair dos palácios e misturar-se ao povo nas festas da esperança da volta da fogueira que aquece a convivência dos pequenos e humilhados. Mas uma conversão possível e necessária para uma nova humanidade que possa viver a alegria da festa da vida.

A Angústia e o Medo

Acabo de ler “A História do Medo no Ocidente”. Fazia tempo que estava na minha lista de espera. Agora, em tempo de pandemia, tirei-o do descanso da estante e me dei ao agradável trabalho de percorrer suas mais de 500 páginas.

Um grande livro do excepcional historiador Jean Delumeau. De forma concisa e profunda ele analisa os medos que percorreram a Europa do séc. XIV ao séc. XVII. Época do Renascimento da cultura clássica e aprofundamento dos medos da Idade Média. Medo da fome, da peste, da noite, do mar, da guerra, do fim do mundo, dos hereges, do diabo, dos judeus, dos turcos, das mulheres, das feiticeiras.

Medos que são organizados pelo autor em dois grandes blocos: o medo das classes populares e os medos das classes dirigentes. Os pobres têm medo daquilo que lhes ameaça a subsistência e a sobrevivência. As classes dirigentes, nobres e clero, têm medo dos pobres que, acossados pela necessidade, podem provocar o caos no qual os ricos serão submergidos com suas riquezas.

De onde nascem estes medos? Ao longo do texto e com sólida argumentação, o autor demonstra que estes medos só foram possíveis porque a sociedade europeia vivia um tempo de angústia. Com efeito, angústia e medo são coisas diferentes. Em termos sociais, a angústia nasce da situação de instabilidade que leva à incerteza do amanhã. As profundas transformações culturais, econômicas, políticas, sociais e religiosas porque passava o continente fazia com que ninguém tivesse segurança quanto ao futuro – imediato e mediato – que lhe caberia viver.

A angústia, enquanto fenômeno social, é indefinida e abrangente. Abarca o todo da vida e é de difícil solução pois não depende da vontade do indivíduo ou de um grupo. Para os que dominam a sociedade e a cultura, a melhor forma de superá-la é através do medo. Este direciona a angústia para um inimigo específico e apresenta-o como culpado de todos os males. Eliminando o fator de medo, a sociedade crê eliminar a angústia que a invade e assim garantir outra vez a estabilidade.

O grupo social apontado como aquele que deve ser temido e combatido, torna-se “bode expiatório” sobre o qual é jogada a angústia da sociedade. Sua morte é vista como um sacrifício necessário para a sobrevivência de todos. Aquele que o elimina, é um herói a ser exaltado. Tal lógica explica os massacres dos camponeses, dos judeus, dos muçulmanos, dos ciganos, dos hereges, das feiticeiras…

E, digo eu, talvez extrapolando Dellumeau, explica os medos que hoje são criados para desviar a atenção da angústia de nossa desigual sociedade. Sem curar a causa, não adiante tratar o sintoma. Medo é sintoma, muitas vezes falsificador da verdadeira causa da doença de nossa sociedade.