Fratelli Tutti – Extra Misericordiam Nulla Salus

Fratelli Tutti se situa explicitamente na corrente do Ensino Social da Igreja. Ela se propõe a orientar o viver e o agir dos cristãos no mundo de hoje. E o faz a partir da fé, de uma leitura teológica da realidade e da ação necessária para transformá-la. Entre os muitos elementos teológicos presentes no texto, dois se destacam. Um de fundo e outro operacional. O primeiro responde à questão “por que ser irmãos e amigos”. A resposta é simples: porque somos filhos do mesmo Deus que é Pai de toda a humanidade. Desde a referência inicial a Francisco de Assis até a Oração Ecumênica final onde invoca “Deus nosso Trindade de Amor”, este motivo está explicitamente presente.

Mas o mais provocador e longamente tratado é o “como ser irmão e amigo”. É o teológico operacional da Encíclica e ocupa todo o segundo capítulo. Trata-se do Princípio Misericórdia. Esta é uma expressão elaborada pelo teólogo jesuíta Jon Sobrino, que é, inclusive, título de um livro seu. Para quem segue os passos, as falas e os textos do Papa, a argumentação não é desconhecida.

Em seu terceiro ano de pontificado, em 2015, como todos lembramos, o Papa Francisco proclamou um Ano Santo Extraordinário. Na Bula “O Rosto da Misericórdia”, o texto que faz a conexão com o Concílio Vaticano II é o do samaritano. João XXIII, ao convocar o Concílio, afirmou que a misericórdia é o modo como a Igreja deve situar-se no mundo moderno. Essa mesma parábola, tão rica em imagens e ensinamentos, é retomada como paradigma para a construção de uma nova humanidade e uma nova sociedade.

O marco da parábola é um diálogo entre Jesus e um perito em leis. Este pergunta a Jesus o que deve fazer para alcançar a salvação. A parábola com a qual Jesus responde todos a conhecemos… e por isso vamos diretamente ao fim quando Jesus, diante do desconcertado legista, cita uma frase do Livro dos Provérbios: “Fazer misericórdia e fazer justiça agrada mais a Deus do que oferecer muitos sacrifícios”. Todos lembramos que, na parábola, um sacerdote e um levita haviam passado pelo caído sem fazer nada porque tinham que ir ao Templo oferecer sacrifícios. Com uma simples narrativa, Jesus coloca em questão todo o sistema religioso da época, tanto os legalistas como os ritualistas. E, para espanto dos moralistas, um samaritano, estrangeiro, herege e impuro, é apresentado como modelo de salvação.

Para quem, como o Papa Francisco, se coloca na tradição de Francisco de Assis, a parábola é ainda mais instigante. Ela remete à conversão do jovem Bernardone. No seu Testamento, ao descrever a conversão provocada pelo encontro com os leprosos, São Francisco utiliza a expressão do Livro dos Provérbios e da parábola do samaritano misericordioso: “…como estava em pecados, parecia-me por demais amargo ver os leprosos. E o próprio Senhor me levou para o meio deles, e fiz misericórdia com eles”.

Fazer misericórdia! Este é o imperativo para a construção de uma nova humanidade e de uma nova sociedade. Não basta “ter” misericórdia. É preciso “fazer” misericórdia. Ter é para si. Fazer, é para o outro, para aquele que foi assaltado, espancado e abandonado na beira do caminho. Para Francisco de Assis, o apelo por misericórdia vem dos leprosos jogados para fora das cidades medievais. Vai ao encontro, desce do cavalo, beija, cuida, recoloca em humanidade. Jon Sobrino, nosso teólogo salvadorenho, no subtítulo de seu livro, chama os cristãos a “descer da cruz os povos crucificados”. Com efeito, a misericórdia não é uma atitude individual. Ela é comunitária, coletiva, política. É o princípio que rege a salvação de cada pessoa, sim, mas também da Igreja e toda a sociedade.

Fora da misericórdia, não há salvação. É o apelo da fé que precisa chegar à razão e ser transformado em ação.

Assista o vídeo desta reflexão e inscreva-se em nosso canal no YouTube:

Num mundo em conflito, Todos Irmãos!

Papa Francisco e o Grande Imã Ahmed At-Tayyeb,

De tanto surpreender-nos, o Papa Francisco já não surpreende ninguém! A  novidade que, desde o início de seu pontificado, emerge a cada pronunciamento e texto publicado, fez com que nos acostumássemos com o novo que se renova e nos surpreende a cada vez.

Não foi diferente com sua última encíclica, a Fratelli Tutti. Ele já vinha cozinhando o assunto há tempo. A primeira parte, a que trata das relações da humanidade com a Casa Comum, resultou na Encíclica Laudato Sì. Faltava a segunda parte sobre as relações entre os humanos, no nível internacional e dentro de cada nação. Agora aí está. É a segunda encíclica social de Francisco. Se a Laudato Sì inovou ao tratar pela primeira vez num documento papal da questão ecológica, a Fratelli Tutti retoma a intuição original do Ensino Social da Igreja ao abordar os dilemas econômicos e sociais que afligem a sociedade.

Pela forma e pelo conteúdo, ela é herdeira de um longo processo que começou em 1891, com a primeira encíclica social, a Rerum Novarum do Papa Leão XIII. No final do séc. XIX, a Europa vivia o caos do liberalismo econômico que havia criado riquezas como nunca antes na história da humanidade ao custo de milhões de homens, mulheres e crianças forçados a viver na mais absoluta miséria ou obrigados a migrar para outros continentes em busca de melhores condições de vida.

Em reação ao liberalismo, surgira o movimento operário e suas expressões políticas socialistas e comunistas que se elevavam no horizonte como um fantasma aterrador. O caos parecia estar à porta. E, de fato, estava. A voz firme e serena do Papa Leão XIII não foi ouvida e a Europa mergulhou na Primeira Guerra Mundial.

Os acordos de 1918 não significaram o fim dos problemas. Como não se foi à raiz econômica e social, os conflitos do capitalismo encontraram expressão nas ideologias totalitárias. Outra vez a voz da Igreja se se fez ouvir. Em 1931, o Papa Pio XI, na Encíclica Non Abbiamo Bisogno (Não Temos Necessidade) condenou veementemente o fascismo. Seis anos depois, em 1937, o mesmo Papa, na Encíclica Mit Brennender Sorge (Com Grande Preocupação), condenou o nazismo. No mesmo ano, a Encíclica Divini Redemptoris (O Divino Redentor), condenou o comunismo. O alerta não foi ouvido e o mundo mergulhou na Segunda Guerra Mundial com suas catastróficas consequências.

E, mais uma vez, como o problema de fundo não foi resolvido, o fim da guerra não significou a instauração da paz. O conflito continuou na Guerra Fria que dividiu a humanidade em duas partes em constante tensão. Em 1963, o Papa João XXIII, na Encíclica Pacem in Terris (Paz na Terra), lembrava ao mundo que a paz de todos os povos só seria alcançada na base da verdade, justiça, caridade e liberdade.

Caminho difícil que os poderosos renegaram. A Guerra Fria se transmutou em guerra econômica global e a humanidade, ao invés de caminhar para a integração e harmonia, é arrastada para a beligerância e caos de um neoliberalismo em que os seres humanos são, ao mesmo tempo e apenas, consumidores e mercadoria.

Na Fratelli Tutti, o Papa Francisco, retomando a intuição de Francisco de Assis, convida a redescobrir que cada ser humano, distante ou próximo, é nosso irmão e com ele somos convidados a conviver na fraternidade e na amizade. Teremos disponibilidade para ouvir a voz que clama no deserto dos poderes deste mundo? A esperança me diz que sim. o resalismo me faz temer…

A cada um de nós o desafio de dar resposta e trabalhar para que ela se torne real no nosso dia a dia e no mundo todo.

Assista o vídeo desta nossa reflexão e inscreva-se em nosso Canal no YouTube.

Aparecida!

Basta falar o nome e todos já conhecem a história do Santuário mais famoso do Brasil. O Santuário de Aparecida, na beira do Rio Paraíba, no interior de São Paulo. Foi lá que, no ano de 1717, três pescadores – Domingos, Filipe e João – ao buscar peixes para o almoço de uma comitiva que baixava de Minas para o litoral, antes que as redes se enchessem, encontraram, primeiro o corpo, depois, a cabeça de uma santa.

Juntadas as duas peças, era a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Mas ela tinha algo de especial. Era uma imagem ao mesmo tempo diferente e igual. Era igual porque nela se reconhecia claramente a Imaculada Conceição. Mas era diferente, porque seu rosto era semelhante ao dos pescadores que a encontraram nas águas do Paraíba. Tinha o rosto deles, de suas esposas, de suas filhas, de suas mães. Um rosto negro, a pele negra, as mãos negras. E os anjos que descansavam a seus pés também eram negros. Anjos negros, bem diferentes dos que, com suas peles alvas e rostos rosados, enfeitavam as igrejas dos brancos da cidade de Guaratinguetá e das barrocas igrejas das Minas Gerais de onde vinham os ilustres viajantes.

Quem fez aquela imagem? E por que a fez daquele jeito? Ninguém sabia. Até hoje ninguém sabe. Não há outras iguais em outros lugares. É única. Tão diferente das outras imagens da Conceição. E há tantas e tão variadas. Mas só a encontrada no Rio Paraíba é negra. Só ela tem o rosto, a pele, as mãos, os anjos reproduzindo a carne dos homens e das mulheres que, sob o jugo da escravidão, foram trazidos da África para padecer nas plantações de cana e nos engenhos de açúcar, nas lavouras de cacau e café, nas minas, campos e cidades.

Talvez seu escultor tenha sido um dos tantos milhões de africanos que, no escondido da noite, no fundo da senzala, longe dos olhos do seu senhor, tomou um pedaço de madeira e, com a força e a suavidade de quem chora a dor da escravidão e sonha com um futuro de liberdade, cinzelou pensando no rosto e no corpo de sua esposa, de sua mãe, de suas filhas, que na África ficaram.

Ou talvez seja obra de uma mulher negra que, privada de seus filhos e obrigada a cuidar de rebentos que não eram seus, colocou na imagem a força e o vigor da Mãe África, tão distante na geografia e tão presente no seu rosto, na sua pele, em suas mãos e nos seus pés.

São hipóteses. Apenas hipóteses. Não sabemos quem esculpiu aquela Imaculada Conceição. Assim como não sabemos como ela foi parar no fundo do Rio Paraíba. E por que lá foi jogada depois de ser quebrada em dois pedaços. Quem a quebrou? Quem no rio a jogou? Não sabemos. Ninguém nunca perguntou. Ninguém investigou. É possível que nunca saibamos. Só podemos imaginar…

Talvez tenha sido um daqueles senhores, incomodado com o escravizado que perdia seu tempo a esculpir uma imagem de uma santa. Ou talvez uma senhora perturbada porque a santa era negra, de pele negra, de mãos negras, acompanhada por anjos negros. Não sabemos. É apenas uma hipótese. Mas uma hipótese a se cogitar. Uma hipótese que nos leva a perguntar: porque a Mãe Negra Aparecida se deixou encontrar por Domingos, Filipe e João, nas turvas águas do Paraíba? Não sabemos. Mas podemos a ela perguntar. Ela está no Santuário. Ela está em todo lugar. Basta abrir o coração. Basta rezar.

Vestido para irmanar.

Existe roupa para tudo. Roupa para casar, para trabalhar, para jogar futebol, para dormir, para descansar… Sim! Ninguém descansa de terno e gravata ou de macacão. Para relaxar, bermuda, camiseta e chinelo é o ideal. Ou alguém já foi para a praia de roupa camuflada e bota de borracha? Só quem trabalha na limpeza da orla faz isso. Mas aí já não está descansando. Está trabalhando e com a roupa adequada para a tarefa que está desempenhando.

E para irmanar, para ser irmão, existe roupa adequada? Pergunta estranha. Mas ela tem sentido. Francisco de Assis, o irmão universal, nos mostra que sim. E num episódio muito conhecido de sua vida. A cena foi imortalizada no cinema pela obra “Irmão Sol, Irmã Lua”, de Franco Zefirelli. Francisco, diante do bispo de Assis, do pai e da mãe e de toda a cidade, despe-se das roupas e, completamente nu, proclama que, daquele dia em diante, não mais chamará de pai a Pedro Bernardone, mas seu único pai, será o Pai que está nos céus.

O detalhe, registrado pelos biógrafos do santo e que aparece no filme de Zefirelli, é que as roupas que Francisco despiu, eram coloridas. Tomás de Celano, o biógrafo oficial, é mais preciso no detalhe simbólico da cor. Segundo ele, no tempo em que morava e trabalhava com o pai, levando vida de burguês, Francisco usava roupas de cor escarlate.

Na sociedade medieval, a cor da roupa identificava o grupo social ao qual a pessoa pertencia. O vermelho ou escarlate, era a cor reservada à nobreza. Apenas os príncipes, entre eles os bispos, tinham condição e permissão para vestir-se com tal cor. Francisco era de família burguesa. E, para estes, a cor apropriada era o verde. Apenas na medida em que seu poder econômico e social avançava, aos burgueses era tolerado o uso das cores antes reservadas à nobreza. Esse era o caso de Francisco. Para os pobres, não havia coloração de roupa. As roupas que usavam tinham a cor da fibra natural, geralmente o terroso ou bege.

São Boaventura, na Legenda Maior, descreve Francisco abandonando as vestes finas e sendo revestido por um manto pobre que pertencia a um dos camponeses a serviço do bispo. Deixando o lugar de nobre, Francisco passa a viver como um camponês pobre. É a partir dessa nova posição social, mostrada simbolicamente pelas vestes que passa a usar, que Francisco encontra a possibilidade de tornar-se irmão de todos.

Para irmanar, para sentir-se e ser irmão de cada um e cada uma, é preciso colocar-se dentro do sapato do outro, dentro da roupa do outro, no lugar social e existencial em que ele habita. E perguntar-se: e se eu estivesse no seu lugar, como eu veria o mundo? E assim, com os novos olhos capazes de ver novas roupas e perceber outras cores, poderemos viver a fraternidade universal e rezar “Pai nosso que está nos céus”.

Pasolini e a Biblia

Enrique Irazoqui, o ator que viveu Cristo, e Pier Paolo Pasolini nos bastidores de O evangelho segundo Mateus | Imagem: reprodução http://cineugenio.blogspot.com

No dia 16 de setembro passado, na Itália, faleceu o ator Enrique Irazoqui. Sua morte pouco foi noticiada. Poucas pessoas sabem quem foi Enrique Irazoqui. Não é de estranhar. Ele atuou em poucos filmes. E o único que se tornou conhecido foi seu primeiro, no qual representou o principal personagem. E isso faz tempo. Muito tempo. Foi na década de 1960.

Enrique Irazoqui era estudante em Barcelona e, durante a ditadura de Franco, foi à Itália buscar apoio para o movimento estudantil espanhol. Em Roma, encontrou-se com o cineasta Pier Paolo Pasolini. Ateu, anticlerical, comunista e homossexual, Pasolini estava trabalhando num projeto controverso: produzir um filme sobre a vida de Jesus tendo como roteiro o Evangelho de Mateus.

Pelo seu perfil pessoal e pela sua proposta, ninguém se arriscava a financiar o projeto. Sem dinheiro, Pasolini buscava atores amadores que custassem pouco e dessem um tom realista à produção. O jovem Irazoqui lhe pareceu o ideal para representar a Jesus.

Diante da insistência de Pasolini, o estudante aceitou a proposta. Enfrentando muitas dificuldades e a oposição da Igreja, o projeto foi adiante. Na sua estreia no Festival de Veneza, em 1964, o filme recebeu o Prêmio Especial do Júri. Sucesso em todo o mundo, em 2004, L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, considerou a produção de Pasolini o melhor filme sobre Jesus Cristo de todos os tempos.

O que havia de diferente neste filme que o fez tão especial? Dentre as muitas qualidade da obra, uma foi fundamental. Ateu, anticlerical, comunista e homossexual, Pasolini leu o texto do Evangelho de Mateus e o transportou, literalmente, para a tela, despido de qualquer preconceito religioso. O Jesus de Pasolini interpretado por Enrique Irazoqui é tal e qual o apresentado pelo Evangelho de Mateus: um Jesus humano, simplesmente humano, profundamente humano, tão humano que criava o espaço pleno para que Deus nele se manifestasse totalmente.

Além de uma excepcional obra de arte, o Jesus de Pasolini interpretado por Irazoqui é uma magistral lição de como ler a Bíblia. Para entender os Evangelhos e todo o texto sagrado, o caminho adequado é deixar que o texto nos leia no seu realismo humano. E isso tem sua razão. A Bíblia é a Palavra de Deus dita nas mais diversas situações humanas. Situações de alegria, de esperança, de desespero, de dor, de desolação e desilusão. É nelas, no mais humano do humano, que a presença de Deus faz nascer a fé e, através da caridade, alimenta a esperança.

Como bem lembrou o Concílio Vaticano II e insistentemente reiterou o Papa Bento XVI na Exortação Apostólica Verbum Domini, a palavra de Deus por excelência não é o texto que lemos. A mais concreta e verdadeira palavra divina está na humanidade de Jesus que os textos escritos e transmitidos nos permitem reconhecer e constrói o caminho que nos conduz a Deus. Se não reconhecemos na humanidade de Jesus e na humanidade dos humanos a presença viva de Deus, a Bíblia não passa de um simples texto, letra morta, que em nada edifica. Assim como Pasolini o fez através do personagem de Enrique Irazoqui, para reconhecer o verdadeiro rosto de Jesus presente na Bíblia, é preciso muitas vezes despir-nos dos preconceitos religiosos e deixar que ela nos fale e nos leia em nossa própria humanidade. Então, sim, ela será palavra viva e vivificante para o mundo.

 

A economia da graça.

Graça é aquilo recebemos sem dar nada em troca. Em outras palavras, um presente. Ninguém paga por um presente. Se pagamos por ele, deixe de ser presente e passa a ser uma compra, negócio, troca, comércio. E aí perde a graça… Já pensou se, no dia do aniversário, tivéssemos que pagar pelos presentes que recebemos dos familiares e amigos? Ia ficar meio estranho. A festa viraria mercado.

Mais do que pensamos, em nossas relações cotidianas, a graça está presente. Já pensou o quanto recebemos das outras pessoas? Dos pais recebemos a vida e o cuidado na infância, adolescência e juventude. Nenhum pai, nenhuma mãe, cobra por criar os filhos. O carinho dos avós: não tem preço que pague! O afeto dos tios, primos, sobrinhos. A amizade dos vizinhos, colegas de trabalho, de esporte… Ninguém nos cobra nada. É de graça.

Da sociedade também recebemos muito. Herdamos a cultura, a ciência, a tecnologia, os bens civilizacionais que as gerações anteriores produziram e nos legaram e nós utilizamos sem ter que pagar por isso. Ainda bem que não precisamos pagar pelo uso do alfabeto que os fenícios fizeram dois milênios antes de Cristo!

Mas, a grande fonte de graça, sem dúvida, é Deus. Toda a criação, o Planeta Terra, a própria humanidade, cada um de nós em particular, somos frutos da graça de Deus. Ele nos criou sem exigir nada em troca. Em seu amor, apenas nos pede que, assim como tanto dele recebemos, sejamos generosos, pois tudo o que temos, não é mérito nosso, mas dom a ser repartido entre todos.

Jesus apresenta este princípio numa fala desconcertante. É a parábola do homem que contratou trabalhadores em diversos horários do dia e, no final, diferente do que esperavam, fez igual pagamento a todos, independente do tempo trabalhado por cada um. Quem iniciou às cinco da manhã recebeu a mesma remuneração dos que começaram ao meio dia ou às seis da tarde.

As pessoas que ouviam Jesus ficaram de boca aberta. Percebiam que ele tinha razão. Mas não podiam aceitar tal argumento. Ele corroia a lógica da meritocracia, ou seja, de que cada um deve ser recompensado pela capacidade e contribuição individual. Essa não é a economia de Jesus. A economia de Jesus é a da graça, ou seja, de que tudo provém de Deus e deve ser repartido entre todos conforme a sua necessidade. E quem necessita mais, deve estar em primeiro lugar nas preocupações de todos. E Jesus vai ainda mais longe ao afirmar que os últimos devem ser os primeiros e os primeiros, ficar por último.

Como aplicar esse princípio cristão numa sociedade complexa como a nossa? Mais simples do que se imagina! Já tem nome e experiências consolidadas. É a Renda Básica de Cidadania. Cada pessoa, independente da condição social, recebe os recursos necessários para suprir suas necessidades fundamentais e assim poder contribuir com toda a liberdade para com a sociedade. Muitos não acreditam nesta proposta. Não é de estranhar. Afinal, como o profeta diz, os pensamentos de Deus estão muito longe dos pensamentos humanos e os pensamentos dos homens, muitas vezes, longe dos pensamentos de Deus. Tão longe quanto a distância entre o céu e a terra!

Mas, para quem acredita na graça de Deus, não custa sonhar. Sonhar como Jesus sonhou: com uma sociedade em que cada um contribuía com as suas possibilidades e receba, de graça, conforme suas necessidades. Essa é a economia da graça, a economia de Deus.

Assista o vídeo e inscreva-se em nosso canal no YouTube:

 

O atalho dá trabalho

Quem de nós já não fez a experiência de, num dia em que tem pressa para chegar a um lugar, ao invés de tomar o caminho costumeiro, tentar um atalho para chegar mais rapidamente ao destino? E, quem também não fez a experiência de, ao tomar o atalho, ter que andar o dobro e gastar muito mais tempo do que se tivesse tido paciência para seguir na rota que, mesmo sendo longa, leva com certeza ao destino? É! A sabedoria popular tem razão: o atalho dá trabalho!

Mas, convenhamos: o atalho é uma tentação. E não só nas ruas e estradas. Em muitas situações da vida. Quem já não sonhou em ganhar na loteria? Ou encontrar um pote de ouro enterrado no pátio? Ou receber uma herança de um tio-avô do qual nunca tinha ouvido falar? Ou resolver a miséria do país com um plano econômico mirabolante?

Para muitos, as mazelas sociais e a disputa política só serão resolvidas por uma ditadura. O caminho da democracia é lento, exige empenho, dedicação, resiliência, informação. O atalho da ditadura é tentador. Parece resolver a curto prazo. Mas suas consequências, como todos sabemos, são duradouras e difíceis de superar.

No que se refere à religião, o atalho também é uma tentação.  Percorrer o caminho que leva a Deus é exigente. Configurar a vida pessoal, familiar, comunitária e social segundo o amor daquele que nos amou, exige abandonar o ódio, o rancor, a vingança, o egoísmo e voltar suas preocupações para a dor de quem caminha ao nosso lado. É difícil. É demorado. É suado.

E aí os atalhos aparecem tentadores. São muitos. Alguns antigos, outros renovados. No passado, tivemos o atalho das indulgências. Bastava pagar um tanto e o céu estava garantido. Mais recente, o atalho das promessas: se este ou aquele santo me der o que eu preciso, em troca, dou tanto ou faço tal coisa. E o atalho de levantar as mãos e aceitar Jesus sem o compromisso de mudar de vida. Mais moderno é o atalho do boleto. Prático, simples, tecnológico: basta imprimir o boleto no site desta ou daquela devoção, pagar no banco, e está tudo resolvido com Deus.

O Papa Francisco nos lembra: a verdadeira santidade nunca busca o atalho. Ela trilha o caminho do cotidiano. É a santidade do pai e da mãe que cria seus filhos em meio às dificuldades, dos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, dos doentes que enfrentam a dor com coragem e serenidade, dos idosos e idosas que, do alto da sabedoria acumulada, continuam a sorrir para a vida que se vai. A santidade, segundo o Papa Francisco, não está apenas sobre os altares. Ela é nossa vizinha. E por isso, talvez, tenhamos tanta dificuldade em enxergá-la.

As soluções estão ao nosso lado, na partilha e na cooperação econômica, no diálogo e na busca conjunta de soluções, na comunidade de fé que nos ajuda a sustentar os momentos difíceis. É preciso voltar a trilhar os caminhos ordinários. Buscar atalhos, só atrapalha, só dá trabalho.

A Maior Igreja do Mundo

YamoussoukroDifícil estabelecer qual a maior igreja do mundo. Depende do critério utilizado: área construída, capacidade para abrigar pessoas, extensão da nave, altura… Conforme a medida usada, teremos um resultado diferente. Nas várias listas possíveis, a Europa contribui com o maior número. Em seguida, vem a América. Mas há uma exceção, e ela é africana.

Trata-se da Igreja Nossa Senhora da Paz de Yamoussoukro, na Costa do Marfim. Sua construção começou em 1985 e foi inaugurada em 1990 pelo Papa João Paulo II. A decisão por edificar tal igreja em plena savana foi do ditador Félix Houphouët-Boigny. Ele governou o país por 33 anos. O custo da obra foi de 300 milhões de dólares. Tamanho investimento teve sérias consequências para o país. Após a morte do ditador, a crise econômica degradou em crise política até hoje não resolvida.

Na nave fechada, que imita a Basílica de São Pedro, cabem 18 mil pessoas. No pátio, 300.000 fieis podem assistir às missas. A capacidade total só foi utilizada duas vezes: na visita do Papa e no enterro do ditador. Os católicos são apenas 15% do total de 25 milhões de habitantes. A cidade de Yamoussoukro não passa dos 100 mil moradores. Hoje, nos domingos, o templo recebe, no máximo, 350 pessoas. O custo anual da manutenção do prédio é de 1,5 milhões de dólares.

A Igreja Nossa Senhora da Paz de Yamoussoukro é um exemplo típico da confusão entre templo e Igreja. Há pessoas que pensam que construindo um templo se está edificando a Igreja. Ledo engano. Como diz a boa teologia, o que menos importa numa comunidade cristã, é o lugar onde ela se reúne. Não é o tamanho ou a suntuosidade do prédio que diz da grandeza de uma Igreja. Aliás, a construção de prédios grandiosos, como mostra a história passada e fatos do presente, ao invés de ajudar a edificar a comunidade, muitas vezes é motivo para divisão, escândalo e destruição.

É preciso voltar à simplicidade da Igreja de Jesus. Ele se reunia com as pessoas nas sinagogas da Galileia, nas casas, nas praças, nas estradas, na beira do lago, no alto da montanha… De qualquer lugar, ele fazia um lugar de encontro com Deus. E isso por três razões. Primeira, porque, para Jesus, Deus mora na pessoa dos pobres e pequeninos. Em seus corpos machucados pelo esquecimento, desprezo e opressão, aí Ele está presente. Em segundo lugar, porque Ele se faz presente em todo e qualquer lugar onde dois ou mais se encontram em seu nome. E, finalmente, porque Deus não precisa de um templo. Ele mora no coração sincero de toda pessoa que busca a verdade. Ele pode ser encontrado no monte Garizim, no Templo de Jerusalém, em qualquer espaço religioso e também fora deles.

Menos prédios. Mais igrejas vivas. É o grande desafio para todos os que colocam sua fé no Deus de Jesus Cristo e não nas obras das próprias mãos. Aí sim, teremos a verdadeira maior Igreja do mundo que será a humanidade e toda a criação habitada por Deus.

Veja o vídeo e inscreva-se em nosso canal no YouTube

Quanto vale uma vida?

A pergunta parece, à primeira vista, não fazer sentido. Preço, tem as coisas. A vida humana é absoluta. É impossível estabelecer o preço de uma vida. Impossível, mas nem tanto…

Se olharmos para trás, para nossa história, há pouco mais de cem anos, vidas humanas eram cotadas no mercado como qualquer outra bem. Em 1846, um  homem escravizado comum valia, no mercado brasileiro, em média, 350 mil-réis. Era o equivalente a 30 sacas de café. Um escravizado capaz de um trabalho qualificado valia o dobro, ou seja, 60 sacas de café. Trinta anos depois, em 1875, as restrições ao tráfico de seres humanos impostas pela Inglaterra, fizeram com que o valor de um humano escravizado subisse 235%, alcançando a cotação, no mercado carioca, de 1 conto e 256 mil-réis para os machos e 1,106 contos de réis para as fêmeas. Na época, 1 quilograma de ouro era vendido por 1 conto de réis. Ou seja, uma vida humana valia um pouco mais que um quilo de ouro.

Tais constatações nos espantam e, para alguns, até podem causar horror. Mas são nosso passado e, por que não, também o nosso presente. Quanto vale uma vida? Concretamente, quanto vale a vida do trabalhar do hipermercado que, acometido por um mal súbito, caiu morto e seu corpo, tombado no chão, foi tapado por guarda-sóis para que o negócio não parasse? A vida daquele trabalhador não vale um dia de comércio fechado. Mais vale o faturamento diário que a vida toda daquele homem. Afinal, na fila, há milhares esperando para ocupar a vaga do tombado ao chão. Nem há necessidade de traficá-los da África. Eles já estão aqui.

Mas não nos espantemos! Como diz a propaganda, tudo tem seu preço e pode ser pago com cartão de crédito. Ou, para não ter problemas com a receita, em dinheiro vivo transportado em malas ou depositado parceladamente num caixa eletrônico de um shopping center. Hoje, como no séc. XIX, mesmo que seja cruel dizê-lo e admiti-lo, as vidas humanas têm preço. E, como no tempo da escravidão, há quem esteja disposto a pagar por elas. Outros sentem-se felizes e realizados em comercializá-las. E outros, estes a grande maioria, são obrigados a vendê-las num mercado em que este “produto” é subvalorizado.

É preciso resgatar o valor da vida humana. De cada vida e de todas as vidas. Não há nada que possa ser trocado por uma vida. Uma vida só pode ser entregue se for para resgatar outras vidas das modernas escravidões. É o que fez Jesus. E, no seu seguimento, bem perto de nós, Chico Mendes, Margarida Alves, Santo Dias da Silva, Pe. Ezequiel Ramin, Irmã Dorothy, Irmã Dulce, Dom Pedro Casaldáliga e tantos santos e mártires do povo brasileiro.

São vidas que não tiveram preço, mas tem o apreço e o carinho daqueles e daquelas pelas quais foram doadas. Por isso, são vidas eternas.

Inscreva-se em nosso canal no YouTube:

SOBRE IPÊS E MENINAS

Faz agosto em Porto Alegre. Apesar dos 24 graus, o inverno ainda não se foi. Ainda é cedo para se dizer primavera. Frio e calor se alternam num grenal de temperaturas que seguirá até setembro ou outubro. Ninguém sabe. Cada ano é diferente. Cada semana é uma semana. E cada dia é uma caixa de surpresas. Faz parte… Somos sobreviventes neste clima abrupto, intermitente, impaciente.

Impaciente como os cinco ipês rosas que habitam o pátio da casa onde moro. Basta um pouco de calor de agosto – às vezes até mesmo em julho – e logo saltam suas flores que contrastam com o verde das figueiras, mangueiras e jacas. Sim! Em Porto Alegre também há mangueiras e jacas. Um ou dois dias de sol bastam para que os ipês ocupem todo o espaço ao meio e acima das outras árvores. A cada dia, a cada hora, novos brotos, novas flores, um brilho cada vez maior a fascinar os olhos e a mente.

Mas como ainda é agosto, nem termina a floração e uma frente fria patagônica varre com seu gélido sopro os pampas, a serra, invade as ruas do Porto (nem sempre) Alegre, sobe a lomba do Santo Antônio e os ipês, num movimento instintivo de proteção, recolhem sua seiva, encolhem suas flores e pouco a pouco, uma atrás da outra, vão tombando ao chão formando um róseo tapete a enfeitar a grama, as ervas, a lama que se forma com a chuvisca intermitente que tudo volta a congelar. Ainda é inverno em Porto Alegre…

Entre uma pétala e outra que surdamente caem, fico a ouvir as muitas vozes que falam da menina capixaba de dez anos estuprada durante quatro anos por seu tio e que resultou grávida. Vozes que gritam para defendê-la. Vozes que rugem pra condená-la. Pobre menina pobre. Tão pobre, como diz o poeta, que até ficou negra como tantas negras de quatrocentos anos de escravidão obrigadas a carregar seus filhos presos aos grilhões da servidão em seus próprios ventres. Filhos que, quando nasciam, eram vendidos pelos próprios pais. Faz pouco isso acontecia. Há apenas 150 anos a Lei do Ventre Livre chegou. Mas muitos ventres continuam presos, escravizados à sanha de machos que se acham donos dos corpos das mulheres, antes mesmo que a natureza as faça entender que são mulheres.

Uma entre tantas meninas estupradas e obrigadas a gestar e parir um rebento fruto de um crime. Vinte e duas mil, dizem as estatísticas oficiais. Na realidade, muito mais numerosas, pois nem todas tem a dupla infelicidade de sofrerem o abuso e de serem expostas publicamente como objeto de disputa política em tempos de fascismo moralista que faz da repressão de gênero um instrumento de dominação política.

Onde estava a mãe dessa menina? Onde estava a avó desta menina? Perguntam inquisidores legais, morais e religiosos escondidos atrás de suas togas, túnicas e gravatas. Ninguém pergunta pelo estuprador. Nem pelo pai e nem pelo avô. O primeiro está foragido. O segundo, assim como o terceiro, não se indaga sua presença. Faz parte da “cultura” brasileira responsabilizar as mães e as avós sobre a educação dos filhos e filhas. Se aconteceu o que aconteceu, a culpa é da menina. A culpa é da mãe. A culpa é da vó. A culpa é das mulheres. Talvez alguém pergunte que tipo de roupa a menina estava usando quando foi estuprada pelo tio… Nunca se sabe o tamanho e o limite da hipocrisia. Talvez seja infinita. Ou incurável. Temo.

Volto aos ipês e suas roupas rosas. Logo serão relevados pelos ipês de roupas amarelas e, mais raros, os de roupas brancas e verdes. Estes últimos, raríssimos, discretos, belos, singelos. Derramadas pelo chão, as pétalas rosas olham para o alto e observam os galhos, outra vez desnudos, a preparar novos brotos para a segunda floração. Apesar do frio que enrijece a pele e fere o coração, as flores voltarão. Estamos no mês de agosto. Ainda é inverno. Intermitente inverno. Renitente inverno. Quase um inferno de um minuano macho que tudo quer penetrar.

Mas o ipê está a anunciar que logo a primavera virá. E as árvores todas – paineiras com suas sestrosas flores rosa, guapuruvus a colorir o céu de amarelo, jacarandás com seu provocante lilás – para sempre desabrocharão em todas as casas, em todos os pátios, em cada rua, esquina, praça, parque, num arco-íris de esperança e liberdade onde as meninas de seis a dez anos poderão brincar sem medo, de boneca, de carrinho, de escola, de bola… do que quiserem!