Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

Avatar de Desconhecido

Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

A política de cotas ganhou mais uma

Na essência da política de cotas há um aspecto que exaspera seus adversários: um estudante que vai para o vestibular sem qualquer incentivo de ações afirmativas tira uma nota maior que o cotista e perde a vaga na universidade pública. Quem combate esse conceito em termos absolutos é contra a existência das cotas, cuja legalidade foi atestada pela unanimidade do Supremo Tribunal Federal e aprovada pelo Congresso Nacional (com um só discurso contra, no Senado). É direito de cada um ficar na sua posição, minoritária também nas pesquisas de opinião.

Uma coisa é defender as cotas quando a distância é pequena, bem outra seria admitir que um estudante que faz 700 pontos na prova deve perder a vaga para outro que conseguiu apenas 400. O que é diferença pequena? Sabe-se lá, mas 300 pontos seria um absurdo.

Os adversários das cotas previam o fim do mundo se elas entrassem em vigor. Os cotistas não acompanhariam os cursos, degradariam os currículos e fugiriam das universidades. Puro catastrofismo teórico. Passaram-se dez anos, e Ícaro Luís Vidal, o primeiro cotista negro da Faculdade de Medicina da Federal da Bahia, formou-se no ano passado e nada disso aconteceu. Havia ainda também as almas apocalípticas: as cotas estimulariam o ódio racial. Esse estava só na cabeça de alguns críticos, herdeiros de um pensamento que, no século 19, temia o caos social como consequência da Abolição.

Mesmo assim, restava a distância entre o beneficiado e o barrado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais divulgou uma pesquisa que foi buscar esses números no banco de dados do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Neste ano, as cotas beneficiaram 36 mil estudantes. Pode-se estimar que em 95% dos casos a distância entre a pior nota do cotista admitido e a maior nota do barrado está em torno de 100 pontos. Em 32 cursos de medicina (repetindo, medicina) a distância foi de 25,9 pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).

O Inep listou as vinte faculdades onde ocorreram as maiores distancias. Num caso extremo deu-se uma variação de 272 pontos e beneficiou uns poucos cotistas indígenas no curso de história da Federal do Maranhão. O segundo colocado foi o curso de engenharia elétrica da Federal do Paraná, com 181 pontos de diferença. A distância diminui, até que, no 20º caso, do curso de ciências agrícolas de Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Federal do Rio Grande do Sul, ela ficou em 128 pontos.

Pesquisas futuras explicarão como funcionava esse gargalo, pois se a distância girava em torno de 100 pontos, os candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o gol. É possível que a simples discussão das ações afirmativas tenha elevado a autoestima de jovens que não entravam no jogo porque achavam que universidade pública não era coisa para eles. Neste ano, 864.830 candidatos (44,35%) buscaram o amparo das cotas.

A política de cotas ocupou 12,5% das vagas. Num chute, pode-se supor que estejam em torno de mil os cotistas que conseguiram entrar para a universidade com mais de cem pontos abaixo do barrado, o que vem a ser um resultado surpreendente e razoável. O fim do mundo era coisa para inglês ver.

Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por “As Ilusões Armadas”. Escreve às quartas-feiras e domingos na versão impressa de “Poder”.

Ditadura violou direitos de 50 mil pessoas, diz Comissão da Verdade

Ilda Martins da Silva, viúva de Virgílio Gomes da Silva, participa de audiência da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo sobre o caso do operário militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) preso em 29 de setembro de 1969, em São Paulo, por agentes da Operação Bandeirantes (Oban) e que desapareceu dentro das dependências do DOI-Codi. Foto: Marcelo Camargo/ABr

Ilda Martins da Silva, viúva de Virgílio Gomes da Silva, participa de audiência da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo sobre o caso do operário militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) preso em 29 de setembro de 1969, em São Paulo, por agentes da Operação Bandeirantes (Oban) e que desapareceu dentro das dependências do DOI-Codi. Foto: Marcelo Camargo/ABr

Os levantamentos feitos pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) estimam que 50 mil pessoas foram, de alguma forma, afetadas e tiveram direitos violados pela repressão durante a ditadura militar. O número inclui presos, exilados, torturados, mas também familiares que perderam algum parente nas ações durante o período de 1964 a 1985, além de pessoas que sofreram algum tipo de perseguição.

A CNV reuniu na segunda-feira 25 representantes de comissões estaduais e de várias instituições para apresentar um balanço dos trabalhos feitos e assinar termos de cooperação com quatro organizações.

A CNV assinou termos de cooperação com a Associação Nacional de História (Anpuh), com o Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito (Conpedi), com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e com o Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro. “Estamos compartilhando nossa metodologia, nossa estratégia com uma ampla gama de comissões da verdade já criadas, algumas em criação e outros grupos que estão em processo de criação de suas comissões”, disse o coordenador da CNV, Paulo Sérgio Pinheiro.

Pinheiro disse que os convênios assinados firmam parcerias de colaboração e troca de informações. “São acordos de cooperação e basicamente põem à serviço dessas instituições nossas competências, como por exemplo, o acesso aos arquivos e eventuais convocações para depoimentos,” disse.

Recentemente, a Comissão Nacional da Verdade recebeu da Petrobras mais de 400 rolos de microfilmes, além de microfichas e documentos textuais. O material, de acordo com a CNV, ajudará a entender como o regime militar monitorava os trabalhadores da empresa.

O coordenador da CNV estima que até o momento a comissão examinou “por baixo” cerca de 30 milhões de páginas de documentos e que fez centenas de entrevistas. Pinheiro disse que, em função do volume de informações, a CNV deve continuar pesquisando até o final de 2013, quando a comissão deverá ter o esqueleto do relatório final em mãos. “O relatório tem que estar nas mãos da presidenta da República até dia 16 de maio. Em princípio, acordamos entre nós que até dezembro a grande minuta do relatório tem que estar pronta”, disse.

50 anos de Teologia da Libertação

Nesta próxima terça-feira, 26 de fevereiro, o Curso de Teologia estará realizando sua Aula Inaugual com o tema “50 anos de Teologia da Libertação – reflexões a partir do Congresso Continental de Teologia”.Juntamente com a Profa. Ana Formoso, estarei ajudando a dinamizar o encontro. Para guiar a reflexão, preparei algumas apresentações que compartilho com vocês.
Para acessá-las, basta clicar no ling  50 anos da Teologia da Libertação

Così cambieranno le norme sul Conclave

Così cambieranno le norme sul Conclave
Uscirà probabilmente domani, 23 febbraio, il testo della legge del papa (“Motu Proprio”) che modificherà in parte la legislazione del conclave, contenuta nella Costituzione apostolica “Universi Dominici Gregis”, promulgata da Giovanni Paolo II e poi già modificata dallo stesso Benedetto XVI (che ha riportato, per i primi trenta scrutini, la maggioranza qualificata dei due terzi per poter eleggere il pontefice). In realtà non si tratta di una modifica vera e propria della costituzione apostolica bensì di una “deroga” alla normativa vigente per il caso, “eccezionale” della rinuncia del pontefice. E’ stato un gruppo consistente di cardinali ed ecclesiastici della Curia ad aver chiesto di non procedere a una modifica permanente della norma, per evitare di “istituzionalizzare” la procedura delle “dimissioni” del papa.Al testo del “Motu Proprio” ha lavorato un gruppo di giuristi coordinato dall’uditore generale della Camera apostolica, monsignor Giuseppe Sciocca. Il cardinale Tarcisio Bertone è stato costantemente informato. I paragrafi dell’Universi Dominici Gregis che saranno “integrati” sono l’articolo 13, relativo ai primi atti che la Congregazione generale dei cardinali deve compiere dopo la morte del pontefice, inclusa la fissazione della data di inizio del Conclave. Gli articoli 17 e 31che regolano la custodia degli appartamenti pontifici e dei beni mobili del pontefice fino all’elezione del nuovo papa, l’articolo 19 relativo alle comunicazioni di rito in caso di sede vacante (autorità, corpo diplomatico), l’articolo 37 circa i termini temporali minimi e massimi entro i quali iniziare il conclave.

Altre disposizioni riguardano infine aspetti liturgici relativi alle cerimonie che accompagnano le “congregazioni generali” (cioè le consultazioni pre-conclave cui partecipano tutti i 209 porporati che compongono il collegio cardinalizio). Nella congregazione generale i cardinali fisseranno la data del conclave, anche sulla base degli arrivi e delle eventuali rinunce dei cardinali elettori (per il momento le rinunce previste sono due, dunque i cardinali elettori saranno 115 e il quorum per l’elezione si abbasserà a 77 voti).

La questione della data è cruciale perché condiziona addirittura l’identikit del nuovo papa: la Settimana santa della Pasqua inizia con la domenica delle Palme, il 24 marzo e per quella data tutti i porporati desiderano di aver eletto il pontefice per tornare nelle proprie diocesi. Più si ritarda l’inizio del conclave, più sarà facile ai candidati forti di affermarsi (il canadese Marc Ouellet,  l’italiano Angelo Scola, lo statunitense Timothy Dolan), perché dovranno essere eletti con la maggioranza qualificata. Più il conclave viene anticipato, più sarà facile per gli outsider di emergere (l’ungherese Peter Erdo o l’indiano Placidus T. Toppo per esempio) perché occorreranno almeno 8-9 giorni di conclave per arrivare a poter votare solo con la maggioranza assoluta. Più il conclave sarà anticipato, più i cardinali stranieri avranno poco tempo per conoscersi e i cardinali di curia e gli italiani saranno avvantaggiati. Ecco perché il braccio di ferro sulla data è così importante.

La data di inizio per le congregazioni generali sarà fissata dal Camerlengo, Tarcisio Bertone, e oscillerà tra il 2 e il 4 marzo al massimo. Mentre l’inizio del conclave oscillerà probabilmente tra il 10 e il 12 marzo.

Pressões para a escolha do Papa

O texto abaixo é extraído do Boletim diario do Vaticano. O tema e o teor, neste momento, são interessantes de serem observados.

Ciudad del Vaticano, 23 febrero 2013 (VIS).-Ofrecemos a continuación el comunicado emitido esta mañana por la Secretaría de Estado:

“La libertad del Colegio de Cardenales, que tiene la tarea, según establece el derecho, de elegir al Romano Pontífice, siempre ha sido fuertemente defendida por la Santa Sede, como garantía de una decisión que estuviera basada en evaluaciones motivadas únicamente por el bien de la Iglesia.

A través de los siglos, los Cardenales han debido hacer frente a múltiples formas de presión ejercidas sobre los electores individuales y sobre el mismo Colegio y cuyo fin era condicionar su decisiones, doblegándolas a lógicas de tipo político o mundano.

Si en el pasado eran las denominadas potencias, es decir, los Estados los que intentaban hacer valer sus condicionamientos en la elección del Papa, ahora se intenta poner en juego el peso de la opinión pública, a menudo sobre la base de evaluaciones que no reflejan el aspecto típicamente espiritual del momento que la Iglesia está experimentando.

Es deplorable que, a medida que se acerca el inicio del cónclave y los cardenales electores estarán obligados, en conciencia y ante Dios, a expresar con plena libertad su elección, se multiplique la difusión de noticias, a menudo no verificadas o no verificables, o incluso falsas, incluso con graves perjuicios para las personas y las instituciones.

Nunca como en estos momentos, los católicos se centran en lo esencial: rezan por el Papa Benedicto XVI, rezan para que el Espíritu Santo ilumine al Colegio de Cardenales, rezan por el futuro pontífice, confiados en que la suerte de la barca de Pedro está en las manos de Dios”.

UMA IGREJA CATÓLICA SEM PAPA É POSSÍVEL?

por Eduardo Hoornaert

O anúncio da renúncia de Bento XVI me surpreendeu, com aconteceu com muitas pessoas. Impressiona-me a simplicidade com que o papa expõe seus sentimentos e penso que, agindo desse modo, ele ajuda a desbloquear uma visão estática do papado e abre um espaço oportuno de discussões em torno do governo da igreja católica, e não só de seu gesto em particular. É isso que pretendo fazer neste texto. Minha pergunta é a seguinte: será que a igreja católica precisa mesmo de um papa? Vou por pontos.

1. O papado.

O papado não está ligado à origem do cristianismo. O termo ‘papa’, por exemplo, não aparece no novo testamento. Quanto aos versos do evangelho de Mateus (‘tu és Pedro e sobre essa pedra construirei minha igreja’: 16, 18), que costumam ser invocados para legitimar o papado, é bom que nos lembremos que a exegese atual é taxativa quando afirma que não se pode isolar um texto de seu conjunto literário e transformá-lo em oráculo. Ora, os versos de Mateus funcionam, pelo menos na instituição católica, como um oráculo. Mas quem lê os evangelhos em contexto compreende que é um absurdo pensar que Jesus tivesse planejado uma dinastia apostólica de caráter corporativo, baseada na sucessão de poderes. As palavras ‘tu és Pedro’ não têm nada a ver com a instituição do papado. Foi o bispo Eusébio de Cesareia, teórico da política universalista do imperador Constantino, que no século IV começou a redigir listas de sucessivos bispos para as principais cidades do império romano, em muitos casos sem verificar a veracidade dos nomes arrolados, para adaptar o sistema cristão ao modelo romano da sucessão dos poderes. Esse bispo-escritor é o criador da imagem de Pedro-papa. Mas a pesquisa histórica aponta outro horizonte e mostra que a palavra ‘papa’ (pope), que pertence ao grego popular do século III, é um termo derivado da palavra grega ‘pater’ (pai) e expressa o carinho que os cristãos tinham por determinados bispos ou sacerdotes. O termo penetrou no vocabulário cristão, tanto da igreja ortodoxa como da católica. No interior da Rússia, até hoje, o pastor da comunidade se chama ‘pope’. A história conta que o primeiro bispo a ser chamado ‘papa’ foi Cipriano, bispo de Cartago entre 248 e 258 e que o termo só apareceu tardiamente em Roma: o primeiro bispo daquela cidade a ser chamado papa (segundo a documentação disponível) foi João I, no século VI.

2. O episcopado.

Em contraste com o papado, a instituição episcopal deita raízes sólidas na origem do cristianismo, pois se refere a uma função já existente no sistema sinagogal judeu.  A palavra ‘bispo’ (que significa ‘supervisor’) se encontra diversas vezes nos textos do novo testamento (1Tm 3, 2; Tito 1, 7; 1Pd 2, 25 e At 20, 29), assim como o substantivo ‘episcopado’ (1Tm 3, 1). Nas sinagogas judaicas, o ‘episcopos’ era responsável pela boa ordem nas reuniões e as primeiras comunidades cristãs nada mais fizeram que adotar e adaptar o nome e a função.

3. A luta pelo poder.

A partir do século III se desencadeou, entre os bispos das quatro principais metrópoles do império romano (Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Roma), uma dura luta pelo poder. Essa luta era particularmente dramática na parte oriental do império, onde se falava a língua grega. Os bispos em litígio foram chamados ‘patriarcas’, um termo que acopla o ‘pater’ grego com o poder político (‘archè’, em grego, significa ‘poder’). O patriarca é ao mesmo tempo pai e líder político. Nos inícios, Roma não participava muito dessa disputa, por se situar longe dos grandes centros do poder da época e usar uma língua menos universal (só usada na administração e no exército), o latim. Por sua vez, Jerusalém, cidade ‘matriz’ do movimento cristão, ficou fora do páreo por ser uma cidade de pouca importância política.

Mas, mesmo assim, Roma se fazia valer na parte ocidental do império. O já citado bispo Cipriano, de Cartago, reagiu com energia diante das pretensões hegemônicas do bispo de Roma e insistiu: entre bispos tem de reinar uma ‘completa igualdade de funções e poder’. Mas o curso da história foi implacável. Os sucessivos patriarcas de Roma conseguiram ampliar sua autoridade e elevaram sempre mais o tom da voz, principalmente após a bem sucedida aliança com o emergente poder germânico no ocidente (Carlos Magno, 800). As relações com os patriarcas orientais (principalmente com o patriarca de Constantinopla) se tornaram sempre mais tensas até que se chegou à ruptura de 1052. Aí começou a história da igreja católica apostólica romana propriamente dita.

4. O papa fica do lado dos mais fortes.

Uma vez ‘dona do pedaço’, Roma foi elaborando de forma sempre mais sofisticada a ‘arte da corte’, aprendida em Constantinopla. Praticamente todos os governos da Europa ocidental aprendem a arte diplomática com Roma. Trata-se de uma arte nada edificante, que inclui hipocrisia, mentira, aparência, habilidade em lidar com o povo, impunidade, sigilo, linguagem codificada (inacessível aos de fora), palavras piedosas (e enganosas), crueldade encoberta de caridade, acumulação financeira (indulgências, ameaça do inferno, pastoral do medo etc.). A imponente ‘História criminal do cristianismo’, em 10 volumes, que o historiador K. Deschner acaba de concluir, descreve essa arte eminentemente papal em detalhes.

Foi principalmente por meio da arte diplomática que, ao longo da idade média, o papado teve sucessos fenomenais. Sem armas, Roma enfrentou os maiores poderes do ocidente e saiu vitoriosa (Canossa 1077). Um dos resultados foi, no dizer do historiador Toynbee, a ‘embriaguez da vitória’. O papa começou a perder contato com a realidade e passou a viver num universo irreal, repleto de palavras sobrenaturais (que ninguém entendia). Como bem observa Ivone Gebara, algumas delas ainda hoje estão em voga, como quando se diz que o Espírito Santo elegerá o próximo papa.

Com o advento da modernidade, o papado perdeu paulatinamente espaço público. No século XIX, principalmente durante o longo pontificado de Pio IX, ficou claro que a antiga estratégia de se opor aos ‘poderes deste mundo’ não funcionava mais. Não trazia mais vitórias, só registrava derrotas. Então, o papa Leão XIII resolveu mudar a estratégia e iniciou uma política de apoio aos mais fortes. Essa estratégia funcionou durante todo o século XX: Bento XV saiu da primeira guerra mundial ao lado dos vitoriosos; Pio XI apoiou Mussolini, Hitler e Franco, enquanto Pio XII praticou uma política do silêncio diante dos crimes contra a humanidade perpetrados durante a segunda guerra mundial, à custa de inumeráveis vidas humanas. Após uma breve interrupção com João XXIII, a política de apoio silencioso aos fortes (e de palavras genéricas de consolo aos perdedores) prossegue até os nossos dias.

5. Hoje, o papado é um problema.

Por tudo isso se pode dizer hoje que o papado não é uma solução, mas um problema. Não se diz o mesmo do episcopado, que registra, nos últimos tempos, páginas luminosas. Além dos bispos mártires (como Romero e Angelelli), tivemos, aqui na América Latina, uma geração de bispos excepcionais entre os anos 196 e os anos 1990. Além disso, o concílio Vaticano II avançou a ideia da colegialidade episcopal, no intuito de fortalecer o poder dos bispos e limitar o poder do papa. Mas tudo esbarrou num muro intransponível, feito de mistura entre preguiça mental (a lei do menor esforço), fascínio pelo poder (Walter Benjamin), disponibilidade do fraco diante do poderoso (Machiavelli) e arte cortesã (Norbert Elias). Mesmo assim, vale lembrar que o catolicismo é maior que o papa e que a importância dos valores veiculados pelo catolicismo é maior que o atual sistema de seu governo.

6. Pode a igreja católica subsistir sem papa?

Perguntar se a igreja católica pode subsistir sem papa é o mesmo que perguntar se a França pode subsistir sem rei, a Inglaterra sem rainha, a Rússia sem czar, o Irã sem aiatolá. A França não se acabou com a morte do rei Luis XIV e o Irá certamente não se acabará com o fim do reino dos aiatolás. Haverá certamente resiliências e saudosismos, tentativas de volta ao passado, mas as instituições não morrem com mudanças de governo. Em geral, o movimento da história em direção à maior democracia e participação popular e inegável. Cedo ou tarde, a igreja católica terá de enfrentar a questão da superação do papado por um sistema de governo central mais condizente com os tempos que vivemos.

Concluindo se pode dizer que a atual ânsia em fazer prognósticos acerca do futuro papa pode ter um efeito contraproducente. Pois não se trata do papa, mas do papado como tipo de governo. O comportamento da grande mídia, nestes dias, comprova o que escrevo aqui. Ela não focaliza o papado, mas o papa. Com isso reforça a síndrome papal. Para a TV, o papa é um grande negócio. O sucesso do enterro do papa João Paulo II, alguns anos atrás, mostrou aos planejadores da grande mídia as potencialidades financeiras de grandes eventos papais. É por isso que a grande mídia hoje é tão ‘catequética’, ela divulga os pontos básicos do catecismo papal: o papa é o sucessor de Pedro, o primeiro papa; a eleição de um papa, em última análise, é obra do Espirito Santo; não se pode perder a indulgência plenária concedida excepcionalmente por Deus por ocasião da primeira bênção do novo papa. É o que veremos nas próximas semanas. Talvez seja melhor não falar muito do papa nestes dias, mas trabalhar sobre temas que preparem a igreja do futuro.

Termino trazendo aqui dois exemplos recentes em torno dessa problemática. Poucas pessoas sabem que, nos idos de 1980, o cardeal Aloísio Lorscheider chegou a discutir com o papa João Paulo II acerca da descentralização do poder na igreja. Não existe registro escrito ou fotografado dessa discussão, mas parece que o papa se mostrou aberto às sugestões do cardeal brasileiro, conforme consta na encíclica ‘Ut unum sint’. Esse ponto foi comentado por José Comblin num de seus últimos trabalhos: ‘Problemas de governo da igreja’ (veja internet). Penso que o papa só não avançou porque não percebia, na igreja, uma real vontade política em avançar na direção da descentralização do governo. Nesse caso, ficou claro que o problema não é o papa, mas o papado.

Um exemplo bem diferente, mas que aponta na mesma direção, é dado por outro bispo brasileiro, Helder Câmara. Chegando a Roma para participar do concílio Vaticano II (ele não tinha viajado à Europa antes), o bispo brasileiro estranhou os comportamentos na corte romana ao ponto de ter alucinações, como conta em suas cartas circulares. Certa vez, por ocasião de uma sessão na basílica de São Pedro, ele teve a impressão de ver o imperador Constantino invadir a igreja montado num garboso cavalo em pleno galope. Outra vez, ele sonhou que o papa ficou louco, jogou sua tiara no Tibre e atou fogo no Vaticano. Ele dizia, em conversas informais: o papa faria bem em vender o Vaticano à Unesco e alugar um apartamento no centro de Roma. Pude verificar pessoalmente, em diversas ocasiões, como Dom Helder detestava o ‘sigilo papal’ (um dos instrumentos do poder de Roma). Ao mesmo tempo, o bispo brasileiro mantinha uma amizade sincera com o papa Paulo VI, o que mostra, mais uma vez, que o problema não é o papa, mas sim o papado enquanto instituição.

História da Igreja: o desafio do método e da periodização

Apesentamos abaixo dois textos de dois eminentes historiadores da Igreja, o argentino Enrique Dussel e o brasileiro José Oscar Beozzo, que discutem a questão do método e da periodização da História da Igreja na América Latina. A discussão é fundamental pois, como em toda ciência, o método é determinante para o resultado da pesquisa. Encontramos sempre o que procuramos e com as ferramentas que procuramos.

Texto de J. O. Beozzo: historiadaigrejametodobeozzo

Texto de E. Dussel: historiadaigrejametododussel

Sobre a periodização também podem ser encontrados interessantes textos na Revista Eclesiástica Brasileira (REB) de 1973 nos números 129 e 132.

Trindade: experiência desintegrada

Toda vivência religiosa se fundamenta numa experiência de Deus. Dependendo de como experimentamos Deus, diferente vai ser nossa religião. Para o cristianismo, Deus se apresenta como a Trindade de Deus-pai, Deus-filho e Deus-espírito. É uma compreensão de Deus que não se identifica nem com o monoteísmo estritia (um só e uno Deus) nem com o politeísmo (muitos deuses). Na Trindade, a unidade de Deus (um só Deus) convive com a pluralidade na única realidade divina dada pelo fato de Deus, em si mesmo e na sua presença junto a nós e no mundo, ser pluriforme.
Na história do cristianismo, nem sempre foi fácil elaborar um discurso teológico que desse conta dessa realidade complexa de Deus. Muito menos fácil foi viver de acordo a essa realiade. Uma compreensão equivocada da realidade divina pode levar a formas desintegradas de vivência cristã. É o que nos chama atenção o texto de Leonardo Boff que apresentamos no anexo que segue.

boffexperienciadesintegradadatrindade

Um discurso de despedida a ser lido com atenção

O texto abaixo está em espanhol e foi extraído do Boletim de Notícias (VISES) do Vaticano de 15 de fevereiro passado. É um pronunciamento de Bento XVI ao clero de Roma sobre o Concílio Vaticano II. Há afirmações teológicas interessantíssimas, sobretudo no campo da eclesiologia, e que nos ajudam a entender o contexto da renúncia.

BENEDICTO XVI: LA ALEGRÍA DEL CONCILIO

Ciudad del Vaticano, 15 febrero 2013 (VIS).-Ofrecemos a continuación amplios extractos de la charla que el Santo Padre dio ayer, en un clima cordial y amistoso, al clero de Roma en el Aula Pablo VI.

“Fuimos al Concilio no sólo con alegría, sino con entusiasmo. Había una expectativa increíble. Teníamos la esperanza de que todo se renovase, de que llegase un nuevo Pentecostés… de encontrar de nuevo la unión entre la Iglesia y las mejores fuerzas en el mundo, para abrir el futuro de la humanidad, para abrir el progreso real. Empezamos a conocernos unos a otros y esta fue ya una experiencia de la universalidad de la Iglesia y de su realidad concreta que no se limita a recibir los imperativos desde lo alto, sino que crece y avanza en conjunto, naturalmente bajo la dirección del Sucesor de Pedro. Las cuestiones planteadas a los padres conciliares eran “la reforma de la liturgia… la eclesiología… la Palabra de Dios, la Revelación y, por último, el ecumenismo”.

“En retrospectiva, creo que fue muy bueno comenzar por la liturgia, así se mostraba la primacía de Dios, la primacía de la adoración….El Concilio ha hablado de Dios y éste ha sido su primer acto: hablar de Dios y abrir a toda la gente, a todo el pueblo santo a la adoración de Dios, en la celebración común de la liturgia del Cuerpo y la Sangre de Cristo (…) Luego estaban los principios: la inteligibilidad, para no estar encerrados en un idioma que no se conoce y no se habla; y la participación activa. Por desgracia, estos principios a veces se malinterpretaron. La inteligibilidad no quiere decir trivialidad, ya que los grandes textos de la liturgia – aún cuando estén, gracias a Dios, en la lengua materna – no son fácilmente inteligibles; necesitan una formación permanente del cristiano para que crezca y entre más profundamente en el misterio, y así pueda entender”.

“Segundo tema: la Iglesia … Se quería decir y comprender que la Iglesia no es una organización, algo estructural, legal, institucional – que también es – sino que es un organismo, una realidad viva, que entra en mi alma, y que yo mismo, con mi propia alma de creyente , soy un elemento constructivo de la Iglesia como tal… La Iglesia no es una estructura; nosotros mismos, los cristianos, juntos, todos somos el Cuerpo vivo de la Iglesia. Y, por supuesto, esto es cierto en el sentido de que nosotros, el verdadero “nosotros” de los creyentes, junto con el “yo” de Cristo, es la Iglesia, cada uno de nosotros, no “un nosotros”, un grupo que se declara Iglesia”.

“La primera idea era completar la eclesiología en forma teológica, pero continuando de una manera estructural, es decir, al lado de la sucesión de Pedro, de su función única, definir mejor también la función de los obispos, del cuerpo episcopal. Y para hacer esto, se encontró la palabra “colegialidad”, muy discutida con debates intensos, yo diría, algo exagerados. Pero era la palabra… para expresar que los obispos, juntos, son la continuación de los Doce, del Cuerpo de los Apóstoles. Dijimos: sólo un obispo, el de Roma, es el sucesor de un determinado apóstol, Pedro ….Así, el Cuerpo de los Obispos, el Colegio, es la continuación del Cuerpo de los Doce, y con ello tiene su necesidad, su función, sus derechos y deberes”.

“Otra cuestión en ámbito eclesiológico fue definir el concepto de “pueblo de Dios” que “implica la continuidad de los Testamentos, la continuidad de la historia de Dios con el mundo, con los hombres, e implica también el ‘elemento cristológico’. Sólo a través de la cristología nos convertimos en Pueblo de Dios y así se unen los dos conceptos. Y el Concilio ha decidido crear una construcción trinitaria de la eclesiología: Pueblo de Dios Padre, Cuerpo de Cristo, Templo del Espíritu Santo… El nexo entre el Pueblo de Dios y el Cuerpo de Cristo, es efectivamente la comunión con Cristo en la unión eucarística. Así nos convertimos en Cuerpo de Cristo; es decir, la relación entre el Pueblo de Dios y el Cuerpo de Cristo crea una nueva realidad: la comunión”.

“En la cuestión sobre la Revelación el fulcro era la relación entre la Escritura y la Tradición … Lo importante ciertamente es que las Escrituras son la Palabra de Dios y la Iglesia está bajo las Escrituras, obedece a la Palabra de Dios, y no está por encima de la Escritura. Sin embargo, la Escritura es Escritura sólo porque hay una Iglesia viva, su sujeto vivo; sin el sujeto vivo de la Iglesia, la Escritura es sólo un libro abierto a diferentes interpretaciones y no da una claridad definitiva”. En este sentido “fue decisiva la intervención del Papa Pablo VI… que propuso la fórmula “nos omnis certitudo de veritatibus fidei potest sumi ex Sacra Scriptura”, es decir la certeza de la Iglesia sobre la fe no nace sólo de un libro aislado, sino que necesita del sujeto Iglesia iluminado, que aporta el Espíritu Santo. Solo así la Escritura habla y tiene toda su autoridad”

“Y, por último, el ecumenismo. No quisiera entrar ahora en estos problemas, pero era obvio que – sobre todo después de las “pasiones” de los cristianos en la época del nazismo- que los cristianos podían encontrar la unidad, o por lo menos buscarla; pero también estaba claro que sólo Dios puede dar la ‘unidad. Y todavía proseguimos este camino”.

“La segunda parte del Concilio fue mucho más amplia. Apareció, con gran urgencia, el tema: mundo de hoy, era moderna, e Iglesia, y con el los temas de la responsabilidad de la construcción de este mundo, de la sociedad, la responsabilidad por el futuro del planeta mundo y la esperanza escatológica; la responsabilidad ética del cristiano…y también la libertad religiosa, el progreso, y la relación con otras religiones. En ese momento, entraron en discusión realmente todas las partes del Concilio, no sólo los Estados Unidos a quienes importaba mucho la libertad religiosa… también entró con gran fuerza América Latina, sabiendo de la miseria del pueblo en un continente católico, y la responsabilidad de la fe por la situación de estos hombres. Y así, África, Asia, percibieron igualmente la necesidad de un diálogo interreligioso… El gran documento “Gaudium et Spes”, analizó muy bien el problema entre escatología cristiana y progreso mundano, incluyendo la responsabilidad de la sociedad del mañana y las responsabilidades del cristiano ante la eternidad, y así también renovó la ética cristiana desde los cimientos… El fundamento de un diálogo, en la diferencia, en la diversidad, en la fe en la unicidad de Cristo, que es uno, y no es posible para un creyente pensar que las religiones son variaciones sobre un mismo tema. No, hay una realidad del Dios vivo, que ha hablado, y es un Dios, un Dios encarnado, por lo tanto, una Palabra de Dios, que es realmente la Palabra de Dios. Pero también hay una experiencia religiosa, con una determinada luz humana sobre la creación y, por tanto es necesario y posible entrar en diálogo, y así abrirse a los demás y abrir todos a la paz de Dios, de todos sus hijos, y de toda su familia”

“Me gustaría añadir todavía un tercer punto…. el Concilio de los medios de comunicación. Era casi un Concilio de por sí, y el mundo vio el Concilio a través de ellos. El “Concilio de los periodistas”, no se llevó a cabo, por supuesto, dentro de la fe, sino dentro de las categorías de los medios, es decir fuera de la fe, con una hermenéutica diferente… Una hermenéutica política. Para los medios de comunicación, el Concilio era una lucha política, una lucha por el poder entre las diferentes corrientes de la Iglesia….. Había un problema triple: el poder del Papa trasladado al poder de los obispos y al poder de todos: la soberanía popular. Y lo mismo pasaba con la liturgia: no interesaba la liturgia como un acto de fe, sino como algo donde las cosas se hacen comprensibles, un tipo de actividad de la comunidad…. Esas traducciones, esa trivialización de la idea del Concilio fueron virulentas en la práxis de la aplicación de la reforma litúrgica; nacían de una visión del Concilio fuera de su propia clave, la de la fe”.

“Sabemos que este Concilio de los medios de comunicación era accesible a todos. Por lo tanto, fue el dominante, el más eficiente, y creó muchas calamidades, problemas y miserias… Y el verdadero Concilio encontró dificultad para concretarse y realizarse; el Concilio virtual era más fuerte que el Concilio real. Pero la fuerza del Concilio estaba presente y, poco a poco, se realiza cada vez más y se convierte en la verdadera fuerza, que es, después, la verdadera reforma, la renovación verdadera de la Iglesia. Me parece que después de cincuenta años, vemos cómo este Concilio virtual se rompe, se pierde y aparece el Concilio auténtico, con toda su fuerza espiritual”.